terça-feira, 20 de junho de 2017

Sete perguntas que vamos repetir

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DAVID DINIS
EDITORIAL
Sete perguntas que vamos repetir


Não é por memória às vítimas que o jornalismo deve fazer silêncio - é por honrar a sua memória que não se pode calar.
20 de Junho de 2017, 5:30

O incêndio ainda não acabou, há muitas famílias a apoiar. “First things first”, dizem o Presidente e o Governo. Para nós, jornalistas, não pode haver uma trégua nos porquês. E porque não depois? — perguntará o leitor. Porque a natureza da política é a de fugir às perguntas mais difíceis depois de as feridas sararem. E porque nos cabe garantir que uma tragédia como a de Pedrógão é o “basta” para uma discussão que já vai longa. Também nós temos culpas: por norma, largamos o debate ao segundo dia. Não podemos mais.
O que se segue aqui são as primeiras dúvidas para esse longo debate, que não podemos largar.
Na sexta-feira, a Protecção Civil lançou um alerta público para as “condições atmosféricas” que viriam no fim-de-semana, deixando claro que o risco de incêndios aumentou muito. Os meios foram reforçados? Onde?
Quando há alertas destes, quando sabemos que temos picos de calor em épocas destas, ainda faz sentido esperar pelo dia 1 de Julho para activar a dita Fase Charlie e ter todos os meios no terreno?
Falando de Pedrógão: o que é que aconteceu realmente no terreno? A coordenação existiu? Quem deu a ordem para fechar estradas? Quando foi accionado o plano de emergência?
E no plano do combate: porque é que os Grupos de Análise e Uso do Fogo foram desactivados, quando davam provas de ajudar o combate dos bombeiros no terreno? Não chegou a altura de construir uma estrutura de coordenação de prevenção, planeamento e combate, como foi proposto há dez anos? Ou porque é que não se profissionaliza os bombeiros, encarregando-os de fazer prevenção no Inverno e combate no Verão, em terrenos que, desta forma, reconhecem?
Porque é que o dinheiro do Fundo Florestal Permanente, que deveria ser canalizado para a gestão florestal, é também distribuído pelas autarquias (que já cobram uma taxa de protecção civil) e pela GNR?
Quanto ao planeamento, alguma vez se equacionou recompensar quem não opta por espécies de crescimento rápido pelos serviços ambientais que presta à sociedade (água, ar e solo)?
Já agora, face ao que aconteceu, o Governo reforçará os meios de prevenção e combate no Verão que se segue? Este Governo aguenta uma repetição deste inferno?

Haverá, caro leitor, muitos mais porquês a que teremos de tentar responder nos próximos tempos, porventura mais certeiros e apropriados. O que nos propomos, aqui no PÚBLICO, é a procurar esses também. Não é por memória às vítimas que o jornalismo deve fazer silêncio — é por honrar a sua memória que não se pode calar.

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