quarta-feira, 28 de junho de 2017

In dependência


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XIPIKIRI
 
Samora regressou de Nachingweya como quem regressa, ao fim do dia, de uma intensa jornada de trabalho. Aliviou-se da espingarda que lhe pesava o ombro, pousou-a sobre um móvel, como quem pousa uma sacola com o expediente do dia. Deu um beijinho à sua esposa, cumprimentando-a, como se tivesse saído de casa naquela manhã. Nos braços, embrulhada em panos com o sangue e as poeiras da guerrilha, uma criança chorava docilmente.
– Trago-te uma filha da guerra – entregou-lhe a criança com o cuidado de quem oferece um presente frágil e muito valioso.
– O teu filho é meu filho – respondeu a esposa, encostando o nado ao peito.
– Chama-se Independência! – disse Samora. Ela arrastou os olhos de cima do bebé, levantou a cabeça devagarinho e olhou para ele. Trocaram brilhos nos olhares. Ele abraçou-a e ficaram os dois a olhar para a bebé que acendia no colo, como se ela carregasse um xiphefo entre os braços.
Desapertou os botões dos trajes militares desbotados pelos anos de uso, como se desapertasse a forca executiva de uma gravata. Tinha um ar cansado, mas realizado. Regressava de um expediente de dez anos com o mesmo ímpeto que se regressa de dez gloriosas horas de trabalho diário. Adormecida a criança, a esposa descalçou-lhe as botas e acariciou-lhe os calos. Aparou-lhe a barba, o cabelo e outras pelugens. Manicurou-lhe as unhas sujas da guerrilha. Samora lavou os dentes, corpo e a alma sujos de sangue.
– Agora quero ver os meus filhos – disse em tom de marechal da família.
– Estão no quintal.
Abriu a porta e viu os seus filhos, espalhados do Rovuma ao Maputo do seu quintal:
– Meus filhos! – chamou-os para um comício familiar.
– Papá! – responderam, correndo para os seus braços.
– Trouxe-vos uma irmã – disse olhando para a mãe sorridente, com a criança nos braços. Acercaram a mãe, com pirilampos acesos nos olhos. Samora abraçou-os.
– Chama-se Independência!
(...)
Está crescida, a Independência, e fez anos. Havia uma vela de aniversário hasteada no meio de um pão de lenha. A chama desfraldava-se como uma bandeira irrequieta. Mas alguém recusava-se a cantar “parabéns:
– Não podes fazer anos, Independência. Tu não existes.
Em resposta, o rosto dela imitou a chama e acendeu um sorriso. Devagarinho, desenhou, com a mão, um círculo sobre o ventre. Ouviu-se “oooh” entre cochichos.
– Independência, estás grávida?
De olhos fechados gingou a cabeça, para cima e para baixo.
– Existo, tanto é que estou grávida.
– Não, tu não existes, Independência. Nós nunca fomos independentes.
– É uma menina e vai se chamar Democracia.
– E quem é o pai? – cochicharam.
– Parece que o pai é Sofrimento.
– Não. Dizem que Independência foi esturpada pela Guerra e agora está grávida.
– Yuh!, afinal não é Corrupção, o amante da Independência?
Ela fingiu não ouvir os sussurros. Virou-se, assoprou a vela. A chama recusou-se, mas cedeu. As pessoas começaram a cantar “parabéns” com palmas tímidas. No meio do pão, o pavio da vela a fumegar, lembrava uma haste sem bandeira e um país chamuscado. Sorriu. Acariciou o ventre. Repartiram o pão e começou a festa da Independência, enquanto esperavam pelas bebidas que os doadores prometeram.

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