domingo, 4 de outubro de 2020

ESTAMOS ENTRE A GUERRA E PAZ OU ENTRE MAIS PAZ E GUERRA?

 

ESTAMOS ENTRE A GUERRA E PAZ OU ENTRE MAIS PAZ E GUERRA?

Por Gustavo Mavie

Enquanto celebramos hoje o nosso dia da paz, a maior e mais ouvida rádio do Mundo - a BBC World News Service - está a transmitir uma longa crónica intitulada Bloodshed in Mozambique, ou ‘’Derramamento de Sangue em Moçambique’´ em português, em que se faz uma descrição aterradora sobre a guerra e o horror que há três anos afectam a nossa província de Cabo Delgado, e o drama que é causado contra a sua população pelos terroristas que lá semeiam a morte e destruição.

Quem entende inglês e que queira ouvir essa crónica, basta ir à Google e inscrever as palavras ‘’Bloodshed in Mozambique’’ ou alternadamente, ‘’From Our Own Correspondents’’, que estará logo disponível no ecrã do seu celular smartphone, do seu computador ou noutro dispositivo que tenha Internet, como os tablets.

É devido a este estado de guerra e terror em que partes do nosso País estão, que me levou a não saber se devia intitular este meu artigo por Estamos entre a Guerra e Paz ou entre Mais Paz e Guerra. Na verdade, inspirei-me no título do romance A Guerra e Paz do escritor russo Leon Tolstói. Tolstói desenvolve no livro uma teoria fatalista da História, onde o livre-arbítrio não teria mais que uma importância menor e onde todos os acontecimentos só obedeceriam a um determinismo histórico irrevogável. Estou ficando com o receio de que incorremos no risco de termos guerras irrevogáveis. É que já estamos em guerra há 53 anos, se contar com a que travamos pela nossa independência, a que se ligou logo a do Ian Smith ainda na nossa lua-de-mel pela liberdade, anexada à do M.N.R., e depois rebaptizado por RENAMO, antes de se tornar agora numa Junta Militar da RENAMO, e agora somos confrontados com a dos Jihadistas em Cabo Delegado.

Para mim, esta dos Jihadistas se anuncia que será bem pior do que é agora, se a não a pormos fim lá em Cabo Delegado antes de se atear a outras províncias. É para mim a mais perigosa e que ameaça a nossa própria independência e soberania que todas as que já tivemos, porque é movida por forças fanáticas e diabólicas que amam a sua própria morte, e que não têm o mínimo de piedade pela vida dos outros, daí que degolam as suas vítimas como se cortassem cabeças de bichos perigosos, como se descreve nesta crónica da BBC sobre Cabo Delegado.

Avaliando a nossa presente situação, com base nas várias definições do que é a PAZ, então a minha conclusão é que nós estamos mais em Guerra que em Paz, porque PAZ se define como sendo ‘’um estado de equilíbrio e entendimento em si mesmo e entre outros, onde o respeito é adquirido pela aceitação das diferenças, tolerância, optando por resolver todos os conflitos através do diálogo, e onde os direitos das pessoas são respeitados e suas vozes são ouvidas, e em que todos estão em seu ponto mais alto de serenidade sem tensão social’’.

Esta definição cola com o que o Presidente Nyusi tem feito no quadro dos seus esforços de busca da paz. Condiz também com o preconizado por Su Tzu no seu livro A Arte da Guerra, pois ele também diz que ‘’a guerra deve ser evitada ao máximo possível, porque ela é muito onerosa e arruina as sociedades’’. Tzu vai mais longe, dizendo que mesmo quem sai vencedor numa guerra, tem sempre um sabor amargo da vitoria’’. Vinca que a melhor guerra é aquela que se ganha sem que se tenha disparado um único tiro, o que é o mesmo que dizer que deve se dar primazia ao diálogo na resolução dos diferendos. Ouça lá Mariano Nhongo e seus companheiros leiam este meu artigo e deponham as armas e se juntem a Nyusi, como deveriam depor os que matam civis inocentes em Cabo Delegado.

Outros politólogos definem a ‘’Paz como um estado de calma ou tranquilidade, uma ausência de perturbações e agitação. O termo Paz derivada do latim Pacem = Absentia Belli, que é a ausência de violência ou guerra.

Ora, com base nestas definições, chego à conclusão de que nós moçambicanos ainda não estão em Paz, porque não só temos zonas que estão em guerra, como tenho notado que no plano individual, muitos de nós não estamos ainda imbuídos de paz que se reflicta por um estado de espírito isento de ira, de desconfiança e de um modo geral, de todos os sentimentos negativos. A Paz é também um estado de espírito onde o ser humano se encontra em si próprio num sentimento equilibrado e sereno, desfrutando da sua total paz interior.

ALGUNS TIPOS DE PAZ

A paz que hoje celebramos, evoca o Acordo de Roma assinado entre o Governo moçambicano então liderado por Joaquim Chissano com a RENAMO, na altura sob o comando de Afonso Dhlakama, e que visava pôr fim á guerra que este movia há 16 anos que matou mais de um milhão de pessoas e deixou mais de quatro milhões deslocados ou refugiados nos países vizinhos.

Há também o que se designa por Paz pela Força. É a que se mantém pela força, que é quando um indivíduo, instituição ou Estado é fortalecido de tal forma que toda a tentativa de subversão do status quo é desestimulante ou desbaratado. Em inglês original diz-se se peace through strength ou paz através da força. A paz pela força é a paz que é obtida quando se fortalece uma instituição, um Estado ou um indivíduo, de uma forma que não se possa mais subvertê-los.

Outra Paz se assenta em leis e tem como fundamentos os ideais do filósofo Emanuel Kant, sendo obtida através de uma legislação, em que todas as relações são regulamentadas entre as partes que se comprometem a respeitar o estatuído. Este tipo de paz se traduz na manutenção de relações mútuas de boa convivência numa situação em que não se está num clima de guerra.

Trata-se, neste caso, do que se define como uma paz social, onde são mantidas boas relações entre comunidades e dos próprios indivíduos.

O termo paz também pode ser usado para designar um estado de tranquilidade de um indivíduo. Nesse caso podemos encontrar frases do tipo: “espero que depois disso consigas dormir em paz esta noite”. Nesse caso, a paz é ainda vista como a ausência de perturbações.

Quando a paz diz respeito ao plano individual, em geral, faz referência a um estado interior despojado de sentimentos negativos como o ódio ou a fúria. Por sujeito em paz entende-se qualquer pessoa que esteja tranquila (ou de bem) consigo mesma e, por conseguinte, com os outros. gustavomavie@gmail.com

Yorumlar
  • Júlio Zeferino Fomos vendidos em 1992
  • Guilherme Manuel Chauque Mais uma aula de escrita e patriotismo bem dada. Os preguiçosos e anti-moçambicanos, morrerão logo no primeiro parágrafo.
  • Rafael Sitoe Boa reflexão.
    Mas qual é alternativa da Paz e Guerra? Eu quero saber. Para que saiamos duma vez para sempre desse impasse.
  • Brucelim Lapissone Parabéns mestre pela explanação.
  • André Rafael Pequenino Escolhe e escreve, a cerca disso
  • Ahmejed Komar Khan Habitue escrever pouco dizendo tudo. Leitores se cansam se cansam dos seus textos longos. Vai me desculpar, havia me esquecido que o senhor é um jornalista.
  • Jeremy Timbe A guerra para os Africanos deve ser entendida como a ausência/desconecção da Espiritualidade no Povo. E se por conseguinte, tal entendimento não estiver claro no Povo e na sua liderança, a guerra pode ser mantida indefinitivamente.

    Ainda para nós Afri
    canos, existem sistemas sociais próprios que devem ser colocados em marcha a nível da estrutura familiar, comunitària e nação para desapaixonar o povo pela guerra, mas estes sistemas só São possíveis de colocà los em marcha, apoiados na base de fê/crença Africanos; entendam: OS Africanos precisam de fazer uma purificação espiritual pelo peso da escravatura e colonizacao dos últimos 1,5 milénios. Sem se fazer isso, a Paz não pode existir; hà alinhamentos de base que devem ser feitos para que a Paz se assente neles; por exemplo, abaixo,

    ALGUNS PRINCÍPIOS AFRIKANOS E SEUS SIGNIFICADOS.

    01.Ubuntu- "eu sou porque somos" ou "humanidade para com os outros", ou em Xhosa, "umntu ngumntu ngabantu",
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    02.Umoja (Unidade): Buscar e manter a unidade na família, comunidade, nação e raça.
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    03.Kujichagulia (Autodeterminação): Definir e nomear a nós mesmos, bem como criar e falar por nós mesmos.
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    04.Ujima (Trabalho Coletivo e Responsabilidade): Construir e manter nossa comunidade juntos e tornar os problemas de nossos irmãos e irmãs nossos problemas e resolvê-los juntos.
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    05.Ujamaa ( economia cooperativa ): Construir e manter nossas próprias lojas, lojas e outros negócios e lucrar com eles juntos.
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    06.Nia (Propósito): Tornar nossa vocação coletiva a construção e o desenvolvimento de nossa comunidade, a fim de restaurar nosso povo à sua grandeza tradicional.
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    07.Kuumba (Criatividade): Fazer sempre o máximo que pudermos, da maneira que pudermos, para deixar nossa comunidade mais bonita e benéfica do que a herdamos.
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    08.Imani (Fé): Crer de todo o coração em nosso povo, nossos pais, nossos professores, nossos líderes e a justiça e vitória de nossa luta.
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    09.Sawabona "eu te respeito, eu te valorizo, és importante para mim".
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    10.Shikoba "Eu sou bom e existo para você".

Cabo Delgado: “Parece que estamos a rever a luta de libertação ao contrário”

 


Moçambique: Governo não gostou de notícia e processou jornalistas por divulgar segredo de Estado

O Ministério da Defesa recebe dinheiro de empresas petrolíferas para garantir com soldados a segurança de projectos de gás natural em Cabo Delgado. Os jornalistas que denunciaram o caso no Canal de Moçambique foram acusados pelo executivo de divulgar informação confidencial.

Construção de instalações de um dos projectos de exploração de gás na Bacia do Rovuma
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Construção de instalações de um dos projectos de exploração de gás na Bacia do Rovuma ANTÓNIO SILVA/LUSA

Dois jornalistas moçambicanos foram constituídos arguidos por violação do segredo de Estado, pela publicação de uma notícia sobre um acordo entre os ministérios da Defesa e do Interior e duas empresas petrolíferas que garante a segurança dos projectos de exploração de gás natural em Cabo Delgado com soldados e polícias cedidos pelo Governo moçambicano.

O director do jornal Canal de Moçambique, Fernando Veloso, e o editor Matias Guente, sentam-se no banco dos réus porque o Governo moçambicano não gostou da notícia publicada a 11 de Março, baseada num acordo confidencial, assinado a 28 de Fevereiro de 2019, entre a Anadarko (que entretanto foi substituída pela Total) e a Eni (que criou a Mozambique Rovuma Venture) e o Ministério da Defesa, que decidiu avançar com a queixa-crime na Justiça.

O acordo prevê que agentes da Unidade de Intervenção Rápida da polícia e militares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique sejam destacados para a protecção permanente do pessoal e das instalações dos projectos de exploração de gás natural na bacia do Rovuma, no Norte do país.

Em troca, dizia a notícia, as empresas pagam mensalmente ao Ministério da Defesa uma verba, que se encarrega de pagar o adicional ao salário para os efectivos que prestam o serviço. O Canal de Moçambique afirmava na notícia que não só o acordo não tinha sido visado pelo Tribunal Administrativo, como o Ministério da Defesa, que abriu uma conta para receber o dinheiro, não estava a fazer os pagamentos devidos aos polícias e militares.

O Ministério da Defesa não desmentiu a notícia, antes pelo contrário, diz o Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD), a 17 de Maio, assumiu numa carta enviada ao jornal que o documento em que a mesma está baseada é verdadeiro e estaria classificado como confidencial e, com base nisso, acusou os jornalistas de pôr em causa a segurança do país.

Por isso, alertou os jornalistas que iria accionar os mecanismos legais para os responsabilizar por esse crime, tal como veio a fazer, estando o processo actualmente a correr na 7ª Secção da Procuradoria da Cidade de Maputo.

“No lugar de investigar a legalidade do acordo assinado entre os Ministérios da Defesa Nacional e do Interior e as empresas petrolíferas, bem como as questões levantadas na reportagem do Canal de Moçambique, a Procuradoria da Cidade de Maputo decidiu abrir um processo-crime contra jornalistas que divulgaram uma informação de interesse público”, escreve o CDD.

De acordo com o código penal moçambicano, no seu artigo 374.º, a violação do segredo de Estado, no caso de informação considerada confidencial, tem uma moldura penal que vai de três meses a dois anos de prisão.

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