sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quem é Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico na Síria?


A Rússia diz ter abatido o líder do Estado Islâmico na Síria, Abu Bakr al-Baghdadi, um dos mais esquivos e brutais líderes jihadistas de sempre. Quem é Baghdadi e como chegou onde chegou?
Já foi capturado em 2004, tendo sido libertado em 2009 - um ano depois já era líder de um grupo afiliado da al Qaeda no Iraque
ISLAMIC STATE VIDEO / HANDOUT/EPA
Abu Bakr al-Baghdadi é o lider do auto-proclamado Estado Islâmico (EI) na Síria. Há muito que é descrito pelas autoridades como o “inimigo n.º 1” na luta contra o EI, e informações sobre o seu paradeiro são muito valiosas. A Rússia está agora a investigar a possibilidade de o ter abatido num ataque aéreo conduzido no mês passado. Mas quem é este doutorado, “que evitava a violência” e que, em poucos anos, ascendeu ao topo do movimento jihadista no Médio Oriente?

Um rapaz “pacífico”

Crê-se que Abu Bakr al-Baghdadi terá nascido em Samarra, a norte de Bagdade, em 1971. Um rapaz “envergonhado”, um religioso devoto e um “homem que evitava a violência”, é assim que o descrevem os que com ele cresceram, numa entrevista dada ao Daily Telegraph. Relatórios das autoridades norte-americanas, datados do início do milénio, indicam que era um eclesiástico nessa cidade. Foi num pequeno quarto, adjacente a uma mesquita local, que morou durante mais de uma década, até à altura em que os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, e o capturaram em Faluja, em 2004.
Ahmedal-Dabash, o líder do Exército Islâmico do Iraque, deu uma descrição de Baghdadi que vai ao encontro daquelas feitas pelos seus conterrâneos:
Eu estive com al-Baghdadi na Universidade Islâmica. Tirámos o mesmo curso, mas ele não era um amigo. Ele era calado e isolava-se. Passava muito tempo sozinho… Eu costumava conhecer todos os líderes (da insurgência) pessoalmente (…) Mas não conheci al-Baghdadi. Ele era insignificante. Ele costumava liderar as orações numa mesquita perto da minha zona. Ninguém reparava nele.”
Baghdadi tem um alegado nível de conhecimento académico em Estudos Islâmicos, da Universidade Saddam, em Bagdade. De acordo com a biografia que circulou pelos fóruns extremistas em 2013, é detentor de uma licenciatura, mestrado e doutoramento em Estudos Islâmicos pela Universidade Islâmica de Bagdade.

“O xeque invisível”

Contam-se com os dedos de uma mão as vezes em que al-Baghdadi deu a cara ou a voz de forma pública. Depois de, em março, ter sido noticiada, mais uma vez, a sua alegada morte (mais tarde desconfirmada pelo Pentágono), o líder jihadista quebrou um silêncio imposto durante meses. Numa mensagem áudio divulgada em maio, Baghdadi insta os muçulmanos de todo o mundo a emigrarem para o “Califado” proclamado pelo grupo na Síria e no Iraque.
A sua única vez à frente de uma câmara foi quando o Estado Islâmico tomou posse da cidade de Mossul, no norte do Iraque. Nas imagens, declamava um sermão no interior de uma mesquita. Até então, só existiam duas fotos autenticadas de al-Baghdadi. Sabe-se que fala muitas vezes de máscara, até aos seus próprios comandantes, o que lhe garantiu a alcunha de “o xeque invisível”.

Mas al-Baghdadi tem bons motivos para se reservar desta maneira. Um dos seus antecessores, Abu Musab al-Zarqawi, que liderou um dos mais violentos grupos jihadistas no Iraque, foi um líder dado ao exibicionismo e à presença, tendo acabado morto num bombardeamento americano em 2006.
Pode parecer uma figura evasiva, mas o grupo que al-Baghdadi lidera consegue angariar milhares de novos militantes todos os anos, e tornou-se uma das milícias mais coesas e organizadas do Médio Oriente.

“Uma ameaça menor”

Alguns acreditam que já era um militante jihadista durante o regime de Saddam Hussein, outros sugerem que se radicalizou ao longo dos quatro anos que passou detido num campo norte-americano no sul do Iraque, onde muitos aliados e simpatizantes da al Qaeda eram mantidos.
A fotografia de al-Baghdadi quando foi capturado, em Faluja (2004)
Foi libertado entre 2008 e 2009, tendo sido classificado como uma “ameaça menor”. Bastou-lhe um ano para chegar ao topo dos comandos da al Qaeda no Iraque, num dos grupos que se viria a tornar o Estado Islâmico que hoje tão bem conhecemos.
Al-Baghdadi e os seus seguidores desafiam abertamente o líder da al Qaeda, Zawahiri, levando muitos a acreditar que já detém mais prestígio do que este dentro dos grupos radicais islâmicos.

“Terrorista”

Al-Baghdadi tem reputação de ser um combatente altamente organizado e implacável, o que atrai indubitavelmente militantes mais novos, confiantes na sua firma e rigorosa liderança alicerçada nos valores fundamentalistas. Um claro contraste com o programa de Zawahiri, que se tem afastado da violência e, até mesmo, condenando-a.
Imagem divulgada pelas autoridades iraquianas para a captura de al-Baghdadi
Os Estados Unidos nomearam al-Baghdadi como “terrorista” pela primeira vez em 2011 e ofereceram uma recompensa de 10 milhões de dólares (cerca de 7,3 milhões de euros) em troca de informações que levem à sua captura ou morte. Esse valor entretanto já subiu para 25 milhões de dólares (22 milhões de euros).
Para além da incerteza relativamente à sua verdadeira identidade, o seu paradeiro também é incerto, com apenas alguns relatórios a colocarem-no ocasionalmente em Raqqa, na Síria – a proclamada capital e principal base do EI. Sobram mais questões do que respostas sobre o líder de um dos mais perigosos grupos jihadistas de sempre.

Fica tudo em família

Decifrar a árvore geneológica de al-Baghdadi revela-se um desafio quando temos em conta de que não há registos oficiais de casamento, ou certidões de nascimento. Abu Bakr casou, pelo menos, cinco vezes.
Dos cinco casamentos, não é certo quais continuam válidos – ou quais das mulheres continuam vivas. Duas dessas mulheres serão iraquianas, uma terceira é de nacionalidade síria, de acordo com informação avançada pela Reuters.
Em 2015, al-Baghdadi casou com Diane Kruger, uma adolescente alemã que acabou por escapar do seio do grupo extremista. Durou três meses.
Já o ministro do interior iraquiano diz até hoje que Baghdadi só teve (ou tem) duas mulheres: Asma Fawzi Mohammed al-Dulaimi e Israa A-Qaisi, uma informação que contrasta com a versão da Fox News que, em 2016, avançou o nome de Saja al-Dulaima como a mulher mais poderosa da família al-Baghdadi.
É Saja (nomeada Sujidah em muitas fontes) que intriga as autoridades. Foi a única mulher de al-Baghdadi que já casou, várias vezes, e a única que viajava sozinha. Foi detida por dezenas de vezes, juntamente com os filhos, com objetivo de ser interrogada ou utilizada como manobra de troca.
Saja tem uma rede familiar que se estende do Iraque à Síria: irmãos que combateram nas fileiras da al Qaeda e uma família que jurou lealdade ao EI. Sabe-se que casou com outro homem de nacionalidade palestiniana e que quer morar na Europa.
Foi capturada em 2014 pelas autoridades libanesas. Um ano depois foram libertados em troca de soldados que estavam capturados pela Frente al-Nusra na Síria – outro grupo extremista com ligações ao seio familiar al-Dulaima.
Se o histórico matrimonial já é complexo, quando falamos em filhos a história ganha outros contornos. Nunca saberemos ao certo quantos filhos tem Baghdadi, com diferentes relatórios a dar conta de números diferentes.
De acordo com um repórter do The Telegraph, al-Baghdadi tem um filho de 14 ou 15 anos. Também a BBC dá conta de uma rapariga entre os 4 e 6 anos, detida com al-Dulaima em 2014, com o ADN de al-Baghdadi.

Quantas vezes consegue uma pessoa fugir à morte?

A resposta para queijinho é: seis.
Abu Bakr al-Baghdadi já foi dado como abatido, pelo menos, seis vezes. Em março de 2015, ficou de tal forma ferido no seguimento de um bombardeamento aéreo que os principais líderes do EI reuniram para debater que o substituiria nos comandos do Califado – em resposta, os militantes prometeram vingar os ferimentos de al-Baghdadi.
Sobreviveu e em outubro do mesmo ano, a força aérea iraquiana declarou a sua morte. Veio-se a saber, mais tarde, que al-Baghdadi nem sequer estava perto do local do bombardeamento. A 9 de junho de 2016, foi novamente ferido num ataque aéreo norte-americano. Dias depois, órgãos de comunicação por todo o Médio Oriente noticiaram a sua morte num outro ataque, este a 12 de junho. Os Estados Unidos nunca confirmaram estas informações.
Em outubro de 2016, al-Baghdadi e três líderes de topo foram envenenados e acabaram por resistir. Agora, vêm a televisão estatal síria e as autoridades russas confirmar a possível morte de al-Baghdadi, a 28 de maio, num ataque apoiado pelos EUA.
Mais uma vez, os EUA não confirmam nada. O ataque aéreo de 28 de maio teve como alvo os arredores da “capital” do EI, Raqqa, num posto de comando onde se reuniam os líderes do grupo extremista, confirmam os media russos.

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