quinta-feira, 8 de junho de 2017

A PORTA DO PARAÍSO

A PORTA DO PARAÍSO

As Mamãs Júlia e Maria tinham a sua teoria: o manjangate era obra de mwâlelo, uma espécie de feitiço enviado por machambeiros preguiçosos e que, na possessão da magia, faziam grandes colheitas em suas machambas, que, não obstante desprovidas de cultu­ras, era donde transferiam aquele arroz sem cápsula, em demérito da­queles que tanto se tinham esmera­do.
Eu as via a explicarem à minha mãe aquela ideia besta, sem a conseguirem convencer. As Mamãs Jú­lia e Maria conheciam a arte desses obscurantistas, que passavam o tem­po da sacha, em suas casas; pouco ou nada faziam, quando se tinha de transplantar o arroz, dos cantei­ros, para os plantarem na machamba. Pouco se davam ao trabalho de preparar a terra e se imergirem nas águas, quando o arroz já tives­se rebentado, para extraírem a erva daninha.
Para a desgraça da minha mãe, lembro-me delas a instruírem, no sentido de pagar a um nhamussoro, a fim de que este lhe prepa­rasse o mulimelo, um talismã, para se proteger daqueles camponeses oportunistas, cuja sorte, em cada sa­fra, era coisa de nos deixar boquia­bertos, pois, onde não plantavam nada, levavam dois a quatro meses a colher. As vezes, com uma parce­la de trinta hectares, podiam encher um armazém, com a capacidade de trinta toneladas. Lembro-me delas a dizerem ainda que o sucesso destes era tao grande, que os sujeitava a passarem a noite a colher o arroz, tal como se estivessem de castigo. O pior, segundo elas, sabia-se que, naqueles vãos exercícios, eram elas próprias as vítimas; ao que, ainda as­sim, se fechavam em copas, porque, apesar da certeza e de seus olhares de censura, não tinham como pro­var.
Era espantoso ouvi-las a falarem da seca, que havia, e ainda assim a chuva a cair, sorrateira e ténue, nos campos daqueles mágicos campo­neses, de forma que elas eram sur­preendidas, com os terrenos deles imersos, a padecerem de cheias, enquanto os outros sofriam da mais abissal seca. Coisa que parecia um exagero, também elas diziam que aqueles operavam o milagre de colher, no mato mais denso, e de en­viar pombos bravos às machambas alheias, para que lá fossem fazer a safra agrícola.
E tinham a capacida­de de criar ilusão nas pessoas, de tal forma que estas vissem a paisagem natural perfeitamente cultivada e a abarrotar de culturas diversas. Cla­ro que tanto a minha mãe como nós os demais, em casa, ficávamos impressionados, com essas estórias, e eu não me via senão a alugar os binóculos ao Mandongane para ir vê-los. Enquanto isto, a minha mãe investia em incenso, as três rodea­vam a machamba a queimá-lo. Pior ainda, as duas Mamãs me mostra­vam machambas com bananeiras sem frutos, e diziam que não me admirasse, se o dono lá chegasse e tivesse apenas um cacho como fruto da colheita,
Coisas de mau gosto, o que não se podia contrariar, e que, ainda assim, se tornava aprazível de ouvir. Eu não cria que o cacho pudesse ser literalmente colhido, de uma planta de bananeira sem fruto, mas se a convicção delas era que se podia repescá-lo, de uma macham­ba algures, não tinha como, senão calar-me e desfrutar.
E não só, elas deixavam-me agoniado, quando, fazendo fé dos prodígios sobrenatu­rais daqueles místicos camponeses capazes de porem as suas macham­bas inundadas, estava nos meus olhos que, nos campos ao lado, e no vasto pântano, a perder-se de vista, o mundo padecia de uma de­vastadora seca. (Adelino Timóteo)
CANALMOZ – 08.06.2017

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