quinta-feira, 20 de julho de 2017

De volta os sabichões

De volta os sabichões
Acabo de ler um comunicado de imprensa emitido pela missão do Fundo Monetário Internacional que visitou o nosso país recentemente. Sei que as atenções masoquistas dos pérola indianos estão viradas para o que essa visita representa em relação ao Relatório Kroll. Como eu pertenço à malta que se está a marimbar para as “dívidas ocultas” a minha atenção foi para outras coisas nesse comunicado. Foi, na verdade, para duas coisas. Uma é a certeza com que os funcionários dessa instituição falam. Outra é a questão da responsabilidade que a nossa relação com essa instituição levanta.
Deixem-me transcrever uma longa passagem desse comunicado emitido por Michel Lazare, o chefe dessa missão:
“O desempenho de alguns sectores da economia melhorou a partir de finais de 2016. O aperto decisivo da política monetária em Outubro de 2016 ajudou a reequilibrar o mercado cambial e resultou numa apreciação do Metical em cerca de 30 por cento em relação ao Dólar Norte-Americano desde o final de Setembro de 2016. Esta orientação monetária contribui também para um declínio da inflação homóloga, de um pico de 26 por cento, em Novembro de 2016, para cerca de 18 por cento, em Junho, apesar do grande aumento dos preços dos combustíveis em Março. Além disso, o preço internacional mais elevado e o aumento acentuado dos volumes de exportação do carvão contribuíram para estreitar os défices comercial e da conta corrente da balança de pagamentos, promovendo uma grande acumulação de reservas internacionais que, no fim de Junho, cobriam cerca de 6 meses de importações, excluindo os megaprojectos. Na frente fiscal, o Governo deu passos importantes com a eliminação dos subsídios do trigo e dos combustíveis e retomando, em Março, o mecanismo automático existente de definição dos preços dos combustíveis”.
Você lê isto e fica com aquela impressão de estar a lidar com uma ciência exacta. Há um ar intolerável de objectividade na descrição que até permite contrabandear um juízo de valor do tipo: “Na frente fiscal, o Governo deu passos importantes com a eliminação dos subsídios do trigo e dos combustíveis e retomando, em Março, o mecanismo automático existente de definição dos preços dos combustíveis”. Isto é, o comunicado dá a impressão de que a eliminação de subsídios – portanto, uma decisão política – seria a coisa mais natural do mundo que nem merece nenhuma discussão. Ou por outra, aborda-se questões relacionadas à gestão dum país como se de questões técnicas se tratasse quando se sabe que não são, mas sim questões sujeitas ao debate político e a considerações políticas. Manter ou retirar subsídios não é uma decisão exigida pela ciência económica. É uma decisão que reflecte o tipo de inclinação ideológica que o economista (ou o político) tem.
Volto a citar outra passagem:
“As discussões de política macroeconómica centraram-se na necessidade urgente de consolidação adicional das finanças públicas. A missão sublinhou que o empenho forte no ajustamento fiscal constitui um elemento crucial para garantir a sustentabilidade, promover o declínio da inflação e das taxas de juro, limitar aumentos adicionais da dívida pública e, ao mesmo tempo, facilitar a reestruturação da dívida. A missão enfatizou que o orçamento de 2018 deve, decisivamente, reduzir o défice fiscal. Deve centrar-se na eliminação das isenções fiscais (incluindo de IVA), na contenção da expansão da massa salarial, e na priorização da implementação de investimentos públicos essenciais apenas, evitando uma maior acumulação de atrasados. A protecção de programas sociais críticos e o reforço das redes sociais de segurança devem amortecer o impacto destas medidas sobre os segmentos mais vulneráveis da população. É também necessária acção urgente para reforçar a posição financeira das empresas que operam em perda e limitar o risco fiscal que estas representam”.
Você lê isto e fica com a impressão de que se o nosso país seguisse à risca tudo o que os funcionários do FMI nos dizem estaria tudo às mil maravilhas. Essa impressão é alimentada pela certeza com que a missão diz o que precisa de ser feito. É como se todo o país em apuros fosse vítima da incapacidade dos seus dirigentes de seguirem senão os conselhos do FMI pelo menos aquilo que a racionalidade económica diz. Não cabe neste quadro a possibilidade de o que o FMI acha ser necessário fazer constituir uma entre várias perspectivas que se pode ter sobre como fazer a gestão económica dum país. É como se houvesse apenas uma maneira de fazer bem as coisas.
Sei que para muitas pessoas estes meus reparos são apenas mesquinhos, tanto mais que os masoquistas indignados estão mais interessados no desfecho do Relatório Kroll. Que venham os ladrões! Eu insisto nisto porque o comunicado levanta duas questões que me parecem estar no centro de toda a problemática. São elas o papel da política na gestão económica e a questão da responsabilidade. As duas questões constituem uma agressão à democracia.
A ideia de que só há uma maneira correcta de gerir a economia parte do pressuposto segundo o qual o nosso país, na verdade, poderia prescindir de toda a charada que eleições e parlamentos são. Só precisa dum corpo técnico que toma (as) decisões correctas. De cada vez que vejo este tipo de comunicados fico arrepiado e pergunto-me se estes burocratas internacionais têm noção do que estão a fazer aos nossos países. Sei que eles têm o hábito de dizer, quando puxados contra a parede, que são apenas um banco. Mas mesmo banqueiros sabem que decisões económicas são tomadas em contexto político. Não existe racionalidade económica que se não sujeite a isso. E isso não é só em Moçambique. É também nos país que mais financiam essas instituições.
O pior, contudo, tem a ver com a questão da responsabilidade. Infelizmente, não existe um tribunal internacional onde os países em desenvolvimento possam processar quem os obriga a seguir maus conselhos. É fácil para um técnico andar aí a dizer o que tem de ser feito para que as coisas saiam bem. É fácil porque quando as coisas correrem mal quem tem de assumir a responsabilidade são os políticos. Enquanto não for possível processar este pessoal por maus conselhos – ou por conselhos que não deram em nada – teremos de continuar a engolir a sua arrogância.
Já disse isto várias vezes, por isso mais uma vez não faz diferença. Devíamos aproveitar esta crise para desenhar os caminhos da nossa emancipação destes sabichões. Não há, infelizmente, nenhum sinal de que estejamos a fazer isso. Antes pelo contrário. Parece que estamos a fazer tudo para continuarmos a merecer o cativeiro. Uma grande pena.
Comentários
Magacebe Majacunene
Magacebe Majacunene DEVIAMOS APROVEITAR ESTA CRISE PARA DESENHAR OS CAMINHOS DA NOSSA EMANCIPACAO DESTES SABICHOES. De acordo!
Soshangane Wa Ka Machele
Soshangane Wa Ka Machele uma grande pena, mesmo! lembro-me, quando eclodiu esta crise, de ter repetido o chaväo dos CRISISTAS ECONOMICOS de que "a crise gera oportunidades". Nao tanto no diapasao do prof. Roberto Jülio Tibana(na) e do meu idolatrado prof. Severino Ngoenha que pregam o evangelho de uma Assembleia Constituinte, tipo grau zero da democracia reconstrutiva (existe isso!? nao sei, acabo de inventar!). Meu ponto é que em 2015 deviamos ter feito, como nacao, a Convocacao dos Estados Gerais, repatriar voluntariamente todos os quadros nacionais construtivistas e nao diabolistas/apocalipticos na diäspora e cä na pérola, pedir propostas de reforma do pais...depois, qual consultoria patriotica mahala entregarem ao Governo do Dia propostas e perspectivas de desenvolvimento indigena/endögeno...tendo em apreco o mundo em redor, o zeitgeist e o establishment internacional...mas sempre com vista pra uma linha do horizonte de um futuro que näo temos certeza qual serä mas ao qual levamos nosdos principios e valores como bussola e farol pra nunca nos perdermos. entretanto, arquitectos da nossa improsperidade, por interesses de grupo aqui e ali, e claros mainatos do capital ocidental e oriental, andam a divisar pontos de fuga. näo admira que tenhamos um Chefe Grande atarantado
Elisio Macamo
Elisio Macamo sempre a gritar... desta vez com razão. também defendo algo como uma assembleia constituinte e tenho dito isso com certa regularidade. o que me incomoda nas "tréguas" é justamente isso. a paz em moçambique não depende de acomodar a renamo. depende de se repensar toda a ideia de moçambique. para que isso aconteça é preciso que todos estejam à mesa, incluindo os combatentes contra a corrupção (para que haja per diem para todos)... também defendi, na altura, que era chegado o momento de pensarmos na nossa emancipação. estou apenas a reiterar um apelo feito há dois anos...
Alcino Wikelin Ferrao
Alcino Wikelin Ferrao Reví nas frases do Machele as politicas implementadas por Pinochet (mesmo sendo ditador) perante a crise, solicitou todos os quadros na diasfora com mair destaque para economistas Chicago University (foram conhecidos como os Chicago Boys) e alguns quadros nacionais o que permitiu resultados relevantes. E resa a Historia que este foi o boom para o crescimento Economico do Chile.
Andre Mahanzule
Andre Mahanzule Momento de crise, momento de oportunidade, nem mais.
Firmino Macuacua
Firmino Macuacua Professor, para aproveitaos a crise e desenhar os caminhos para a nossa emancipação desses sabichões, como bem preconiza, teríamos que ter politicos que pensassem para além dos seus umbigos... Essa é que é, para mim, muita pena.
Elisio Macamo
Elisio Macamo concordo em parte. há também muitos de nós que temos medo da emancipação e fazemos tudo para que os políticos não queiram "lumukar" (desmamar). outros vivem de espalhar o medo duma existência sem esses sabichões. va hi nyenyentsa só...
Celia Meneses
Celia Meneses Infelizmente sem o Fmi não temos dinheiro que chegue para caminhar! Os impostos não chegam e força só zinhos tb não temos,para reestruturar a dívida ... mas tb me irrita, sim!
Elisio Macamo
Elisio Macamo não vem a propósito e, se calhar, são outras dimensões, mas depois de ver como as igrejas pentecostais cresceram em moçambique (e noutros países africanos) usando dinheiro local dei em mim a pensar se é mesmo correcto que só dependemos deste pessoal. se calhar falta-nos criatividade.
Celia Meneses
Celia Meneses São basicamente uma outra dimensão e teríamos que aceitar passar a comportarmo nos como pobres e agirmos dessa forma
Elisio Macamo
Elisio Macamo concordo. mas também é importante aprendermos a reconhecer que somos pobres. isso não entra nalgumas cabeças, por mais estranho que pareça.
Lyndo A. Mondlane
Lyndo A. Mondlane Como te entendo prof.. os delirios de grandeza, me refiro tambem a isto..
Calbe Jaime
Calbe Jaime Professor ainda bem que sabemos a solução para dizer basta a isso, parte final do seu post. Por isso, nós somos os principais culpados
Bukamiana Ndomanuele
Bukamiana Ndomanuele Invejo-te pela đisponibilidade de tempo em escrutinar as falacias e não saberes destes outros.
Elisio Macamo
Elisio Macamo irritam.
Lenine Daniel
Lenine Daniel Penso que a oportunidade de mudança está criada e mais um vez sinto que como sociedade dependemos muito do poder político e dos partidos políticos. Eu pessoalmente não tenho muita expectativa que os políticos ousem pensar num Moçambique independente do FMI e organizações congéneres. Me parece que "assumimos" como país que não há vida sem o FMI, que o nosso orçamento tem que ser impreterivelmente financiando por parceiros de financiamento internacionais e isso cria muita preguiça nos que têm como função indicar os caminhos para o futuro do país.
Espero sinceramente que o actual momento sócio - econômico sirva para concluirmos que os caminhos que trilhamos como País deixam-nos numa situação de mão estendida e não garantem a sustentabilidade do projecto de país que pretendemos construir.
Não sei o que podemos e devemos fazer como cidadãos para além de trabalhar, produzir, pagar impostos e melhorar a gestão dos pacos recursos que temos como famílias.
Elisio Macamo
Elisio Macamo não há muito, infelizmente. mas uma coisa que podia ajudar era deixar de ficar angustiado sempre que esses fulanos ameaçam suspender o auxílio. a verdade é que nem é do seu interesse fazer isso. com os recursos que o país tem, eles nunca fariam isso. mas a gente não vê nada disso porque a gente anda angustiada.

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