quinta-feira, 15 de junho de 2017

O espinhoso caminho para a paz!


Quando se fala da paz em Moçambique foca-se mais na Igreja e nas duas delegações que negociaram o acrodo. Mas o processo foi complexo e envolveu outros grupos de pressão que, à medida dos interesses em jogo, vão sendo esquecidos. Em 1990, um grupo de moçambicanos de várias áreas subscreveu uma carta, dirigida ao presidente sul-africano. Conheça os nomes de quem deu a cara pela causa da paz.
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Jornal Domingo, Maputo, 14 de Janeiro de 1990
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Carta Aberta ao Presidente Frederick de Klerk
Senhor Presidente,
Somos intelectuais moçambicanos, escritores, cientistas, artistas, jornalistas, de diferentes correntes de pensamentos irmanados pela preocupação profunda para com o futuro da nossa Pátria e da região.
Nesta última década, a República Popular de Moçambique tem sido palco de um dos mais terríveis genocídios na história de África. A agressão que o nosso país tem vindo a sofrer não pode de maneira nenhuma ser denominada guerra. Uma guerra é dirigida contra as forças militares de um Estado. Mesmo implicando actos destrutivos, uma guerra prepara as condições para o grupo insurgente assumir a governação do território em que age. Não é isto que se passa em Moçambique. A agressão é fundamentalmente contra civis, ceifando vidas humanas e destruindo infra-estruturas do nosso património económico. Esta agressão não visa substituir um governo por outro mas apenas encontrar os mecanismos da sua própria auto-reprodução, inviabilizando Moçambique como nação e ameaçando estender o caos a toda a região.
Mais de um milhão de compatriotas nossos ou foram assassinados pela RENAMO ou morreram vítimas de outros focos de violência e da fome que a agressão generalizou. A sobrevivência de milhões de outros depende basicamente da ajuda alimentar externa. Centenas de homens e mulheres foram mutilados sem qualquer piedade. Crianças recém-nascidas são assassinados e mulheres grávidas desventradas. Ao destruir-se maciçamente escolas, centros de saúde, lojas e outras infra-estruturas, destroem-se pontos de referência nacionais vitais para um povo constituído por muitas etnias, raças e credos religiosos. Nenhuma ética, nenhum objectivo político podem justificar mais apoios a este processo de matança.
Senhor Presidente,
Temos seguido com atenção as suas declaradas intenção em contribuir para a edificação de uma nova África do Sul. Registamos como positivas as mudanças que vêm sendo operadas no seu país, acreditando que elas são o início de um processo de irreversível democratização da África do Sul.
São, indiscutivelmente, sul-africanos todos os que nasceram na África do Sul e a amam como sua Pátria. Pela sensatez, pelo convívio quotidiano, pela coragem moral, todas as comunidades sul-africanas saberão superar preconceitos e medos num contexto de rica diversidade cultural africana que orgulhará e engrandecerá todo o continente. Porém, que futuro de harmonia poderá haver se o terrorismo generalizado lançado contra Moçambique continuar a cumprir a sua dinâmica de auto-reprodução e expansão geográfica?
Quando o Senhor Presidente esteve em Maputo, em Julho do ano passado, sugeriu querer contribuir para a paz em Moçambique. Mas o que está em causa é o facto de a RENAMO continuar a receber apoios de território sul-africano.
Para haver paz no nosso país é primeira condição que sejam abolidos todos os mecanismos concebidos à luz da «estratégia total» para desestabilizar militarmente a região. É forçoso que, para anular essa ingrata herança, sejam neutralizadas todas as forças que, na África do Sul, ainda usam violência das armas para conseguirem mudanças políticas em Moçambique.
A sobrevivência desses mecanismos, não só mantém viva a ameaça sobre a África Austral, como constituiu um trágico legado de desestabilização da própria África do Sul. Ao eliminar essas forças organizadoras do caos.
Senhor Presidente, não estará a levar a cabo um acto de generosidade, mas sim, de indiscutível defesa da paz futura, condição necessária para o desenvolvimento integral de todos os países da região, incluindo o seu.
Senhor Presidente,
Não lhe teríamos dirigido esta carta aberta se não tivéssemos a convicção de que pode utilizar os poderes que lhe confere a chefia do Estado sul-africano para enfrentar sem mais delongas as forças que na África do Sul estão envolvidas na destruição do nosso futuro comum. 
Subscritores:
1. Abílio Mondlane (Jornalista)
2. Albino Magaia (escritor)
3. Alfredo Muecha (Jornalista)
4. Alfredo Tembe (Jornalista)
5. Alexandre Langa (Músico)
6. Alexandre Luís (Jornalista)
7. Antipas Mate (Professor universitário)
8. António Muchave (Jornalista)
9. Armando Artur (escritor)
10. Arnaldo Henrique (Jornalista)
11. Bartolomeu Tomé (Jornalista)
12. Calane da Silva (escritor)
13. Camilo de Sousa (Cineasta)
14. Carlos Cardoso (Jornalista)
15. Clara ...... (actriz)
16. Daniel Macaringue (Poeta)
17. Eduardo Maciel (cantor)
18. Eduardo White (escritor)
19. Eugênio Aldasis? (Maquetista)
20. Fernando Lima (Jornalista)
21. Fernando Gonçalves (Jornalista)
22. Fernando Manuel (Jornalista)
23. Fernando Rosa (Pintor)
24. Filimone Meigos (escritor)
25. Firmino Mucavele (Professor Universitário)
26. Gil Launciano (Jornalista)
27. Gilberto Mendes (actor)
28. Gustavo Mavie (Jornalista)
29. Heliodoro Baptista (Poeta)
30. Isabel Noronha (Cineasta)
31. Jaime Macamo (Jornalista)
32. João Costa (Cineasta)
33. João Manje (actor)
34. João de Sousa (Jornalista)
35. Jorge Barros (agrónomo)
36. Jorge Matine (Jornalista)
37. José Cabral (Jornalista)
38. José Cardoso (cineasta)
39. José Craveirinha (Poeta)
40. José Mucavele (músico)
41. José Rodrigues Ferreira (Director de Faculdade de Agronomia-UEM)
42. José Júlio Tomás (Músico)
43. Júlio Bicá (Poeta)
44. Júlio Macaringue (Jornalista)
45. Kok Nam (Jornalista)
46. Luís Lemos (Jornalista)
47. Machado da Graça (Jornalista)
48. Malangatana Ngwenya (pintor)
49. Manuela Soares (Jornalista)
50. Marcelino Alves (Jornalista)
51. Margarida Manje (actriz)
52. Mário Souto (professor)
53. Mia Couto (escritor)
54. Moisés Mabunda (Jornalista)
55. Naita Ussene (Jornalista)
56. Noémia de Sousa (poetisa)
57. Orlando Mendes (Jornalista)
58. Orlando Mendes (escritor)
59. Paulo Sérgio (Jornalista)
60. Pedro Chissano (escritor)
61. Pedro Mucavele (Jornalista)
62. Ricardo Rangel (Jornalista)
63. Ricardo Santos (Jornalista)
64. Roberto Daene? (Jornalista)
65. Romualdo (músico)
66. Salomão Moyana (Jornalista)
67. Sérgio Tique (artista)
68. Shikani (artista plástico)
69. Suleiman Cassamo (escritor)
70. Telma Faria (professora universitária)
71. Teresa Sá Nogueira (Jornalista)
72. Tomás Vieira Mário (Jornalista)
73. Ungulani Ba Ka Khosa (escritor)
Nota: Alguns nomes podem ter sido mal escritos. tal, deveu-se a má qualidade de conservação do documento de que me servi.
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11 comentários
Comentários
Rafael
Rafael Os heróis de hoje...
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 · 7 de Março de 2016 às 9:43
Eusébio A. P. Gwembe
Eusébio A. P. Gwembe São heróis esquecidos!
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 9:46
Rafael
Rafael Como tantos outros. Escrevamos os nomes deles...
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1
 · 7 de Março de 2016 às 9:49
Francisco Wache Wache
Francisco Wache Wache Alguns destes ainda vivem. Outros mudaram de cor, nem parece que outrora foram os que gravaram: "A amnistia é o prazo do governo, entrega_te e será perdoado". Deviam continuar a lutar pela paz
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 · 7 de Março de 2016 às 9:52 · Editado
Eusébio A. P. Gwembe
Eusébio A. P. Gwembe Estás a falar do Moya, Wache? kakakaka
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 9:54
Francisco Wache Wache
Francisco Wache Wache Kikikikiki, esse mesmo. A FRELIMO nao lhe pagou bem. Fez muito trabalho o homem. Deve estar muito frustrado com a gloriosa. os outros continuam a comer do lado de ca
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 9:56
Eusébio A. P. Gwembe
Eusébio A. P. Gwembe Francisco Wache Wache não foi esquecido. Se fosse o caso não teria sido aceite lá onde está nos 200 paus. Kakakaka. A Frelimo é como pai, conforme disse-nos aquele entrevistado de Angoche.
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 9:58
Eduardo Domingos
Eduardo Domingos Kkkkkkkkk muito bom Francisco Wache Wache escreva toda estrofe ainda podemos usa la.
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 · 7 de Março de 2016 às 10:20
Antonio A. S. Kawaria
Antonio A. S. Kawaria Eu duvido dessa heroicidade e naquele tempo. Isto tem o seu equivalente hoje que é aquela marcha que é organizada pela Frelimo. Esse Moyana, Machado, Lima entre outros são os que evoluiram.
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1
 · 7 de Março de 2016 às 20:52
Francisco Wache Wache
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 20:53
Edmundo Galiza Matos
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 · 7 de Março de 2016 às 21:37
Antonio A. S. Kawaria
Antonio A. S. Kawaria Sim têm pensamento próprio e não pensamento frelimizado. O bom desta lista é que podemos rever as coisas e fazermos analogia com o que acontece agora.
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 23:47
Edmundo Galiza Matos
Edmundo Galiza Matos És capaz de ter razão. Ontem pensavam assim, não é?: "Mais de um milhão de compatriotas nossos ou foram assassinados pela RENAMO ou morreram vítimas de outros focos de violência e da fome que a agressão generalizou. A sobrevivência de milhões de outros depende basicamente da ajuda alimentar externa. Centenas de homens e mulheres foram mutilados sem qualquer piedade. Crianças recém-nascidas são assassinados e mulheres grávidas desventradas. Ao destruir-se maciçamente escolas, centros de saúde, lojas e outras infra-estruturas, destroem-se pontos de referência nacionais vitais para um povo constituído por muitas etnias, raças e credos religiosos. Nenhuma ética, nenhum objectivo político podem justificar mais apoios a este processo de matança." Hoje, já não pensam assim, já não tem o que tu chamas "pensamento frelimizado". Por outras palavras: viraram as casacas. GOOD.
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 0:05 · Editado
Antonio A. S. Kawaria
Antonio A. S. Kawaria Veja também, mais novo Francisco Wache Wache que fizeste uma excelente observacão. Eram militantes ou membros da Frelimo e alguns deles já não são. Repito, nos dias nacionais naquela altura leiam-se mensagens desse tipo de militantes e organizacões de massa da Frelimo. Eu não julgo que isto tenha contribuido para o diálogo. É possível pensar que De Clerk era chave em 1990 na guerra em Mocambique? Então, isso logo contraria o que a Igreja Católica disse em 1982 apelando, diálógo, paz e reconciliacão.
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 0:06
Antonio A. S. Kawaria
Antonio A. S. Kawaria Edmundo Galiza Matos, esses falaram também dos eram mortos pela Frelimo? Ou o senhor quer dizer que a Frelimo não matava civis? Na minha escola foram mortos civis em público. E mais histórias eu conheci. Naquela guerra tanto a Renamo como a Frelimo matava civis. Vá a Muecate, Liupo e pergunte quem matava. Os que hoje marcham falam dos que são mortos pelos esquadrões de morte ao servico da Frelimo?
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 0:12
Eduardo Domingos
Eduardo Domingos Cantatas de Edmundo Galiza Matos comovem aquem hoje? Ontem voces eram propandistas do sistema e hoje continuam sem remorsos do mal que fizeram ao desinformar o povo. Hoje continuam a encobrir os crimes que o sistema defendeis inflige aos cidadaos da segunda e terceira categoria. Sera que os que ves na imagem sao os unicos que a frelimo assassinou?
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 7:52 · Editado
Francisco Wache Wache
Francisco Wache Wache Coloca aqui imagnes, Eduardo Domingos de Nagi e de muxungues
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 7:45
Eduardo Domingos
Eduardo Domingos Esta aqui nagi baleado por transportar bandidos que provocam exodo das populacoes para malaui
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 · Responder · 8 de Março de 2016 às 7:50
Talique Amuda Ossol
Talique Amuda Ossol uma contribuição excelente do historiador para paz efectiva em Moçambique!
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 10:06
Isalcio Mahanjane
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 10:49
Eusébio A. P. Gwembe
Eusébio A. P. Gwembe A vontade, Isalcio Mahanjane! Tudo o que posto é público. Abraços
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 · 7 de Março de 2016 às 10:50
Isalcio Mahanjane
Isalcio Mahanjane Obrigado.
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 · Responder · 7 de Março de 2016 às 10:54
Jessemusse Cacinda
Jessemusse Cacinda Parabens Eusébio A. P. Gwembe pelo rigor. Abracos e boa segunda-feira
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 · 7 de Março de 2016 às 11:45
Muxuputo Magabo
Muxuputo Magabo Obrigado por rever um documento que ouvi falar, mas nunca havia lido. Continua o assunto a ter validade, porém há que encontrar meio termo para realidade actual. Alinhamento do assunto mudou, mas as mortes pelas armas continuam.O que se precisa na actualidade é encontrar uma paz duradoira e efectiva, no espirito de um só povo e uma só nação. Todos nos devemos ser portavozes da paz. Nas nossas escritas, nossos discursos, entrevistas e tudo mais devemos ter cuidado de não provocar a ira (atiçar fogo) de quem quer seja. De tudo escrito, falado, etc., etc. "O MAIS IMPORTANTE É A PAZ" PAZ! PAZ! PAZ! 
Moçambique dos moçambicanos merece paz para um desenvolmento são e uma convivência salutar! Aproveitei o espaço para desabafo! Enfim, Sr Presidente da Renamo AMMD, acerte a vida dos moçambicanos com Sr Presidente da República de Moçambique. EU QUERO ANDAR EM PAZ NAS RUAS DO MEU PAÍS, QUEIRO IR AO CAMPO PRODUZIR MILHO E MATAR A FOME.
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 · 7 de Março de 2016 às 13:17
Simoun du Fleuve
Simoun du Fleuve Aqui reside a nossa História. Obrigado, Gwembe!
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 · 7 de Março de 2016 às 13:43
Celso Mapsanganhe
Celso Mapsanganhe O Senhor Eusébio é um arquivo histórico em pessoa, por excelência. Parabéns por nos trazer contributos pertinentes e oportunos, para o momento que vivemos.
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 · 7 de Março de 2016 às 18:24
Antonio A. S. Kawaria
Antonio A. S. Kawaria Este tipo de carta não constituiu nenhuma coragem. É o que se fazia em todo o país. Ter coragem para mim seria e foi contactar com a Frelimo e Renamo para diálogo e paz.
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 · 7 de Março de 2016 às 20:58
Eusébio A. P. Gwembe
Eusébio A. P. Gwembe Com ajuda de Miguel OM De Brito, por intermédio do Isalcio Mahanjane registe-se: O nr. 3 é Mueche, o nr. 15 é Soeiro, o nr. 19 é Aldasse, o nr. 26 é Lauriciano, o nr. 33 é Manja, o nr. 51 é Manja, o nr. 57 é Orlanda e o nr. 64 é Uaene
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 · 7 de Março de 2016 às 22:36
José de Matos
José de Matos A luta pela Paz nao pode ser limitada a uma carta, que nem sequer foi dirigida a uma das partes do conflito, tem de ser acompanhada de acçoes concretas! foi uma iniciativa louvavel, mas nada mais do que isso, os verdadeiros arquitectos da Paz foram aqueles que em circunstancias muito dificeis tornaram possivel o dialogo entre os dois beligerantes!
Quanto ao mudar de opiniao, eu nao tenho medo dos que mudam de opiniao, tenho suim medo, muito medo, daqueles que nunca mudam de opiniao!
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 · 8 de Março de 2016 às 8:09

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