segunda-feira, 15 de maio de 2017

O que nos une?

Há cerca de 10 anos fui convidado por uma associação de estudantes e docentes de Português (alemães, brasileiros e portugueses) para falar sobre a importância do ensino de Português. Isso aconteceu na universidade alemã de Jena. Lembrei-me dessa palestra, que também apresentei em Vitória, na Universidade Federal de Espírito Santo, por causa do assunto que levantei em torno da vitória portuguesa no festival Eurovisão. Reproduzo partes dessa paleastra como forma de explicar as minhas reticências em relação à maneira como o termo “lusofonia” nos dá por adquiridos. O texto é longo e a ideia é ser controverso e polémico.
O que nos une?
Há muito tempo que venho reflectindo sobre este problema. Porque existe uma Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa? Porquê? Há várias respostas possíveis. Todas elas apontam para o que nos une (...). Nesta comunicação quero entrar em desacordo com as respostas que têm sido dadas. E não só. Quero também colocar interrogações à volta da ideia de que eu, na minha qualidade de moçambicano, tenho algum interesse na defesa da Língua Portuguesa (...). Tenho? Porque me deve interessar a sorte da Língua Portuguesa neste canto do mundo ou – porque não – em todo o mundo? Porque sou lusófono? E o que significa exactamente ser lusófono? É ser falante de Português? Sou lusófono?
Nos meus primeiros 6 anos de vida não falei Português. As pessoas com quem convivi nesse período de tempo não falaram comigo Português. Falaram Xangan (...). Os meus vizinhos falavam várias outras línguas: Copi, Xitsuá, Gitonga. A Língua Portuguesa era falada na cidade onde nasci e cresci, mas não era a língua de referência para nenhum de nós. Nunca falei Português com a minha mãe, meus avôs e uma série de outros parentes que tenho. Mesmo agora quando vou a Moçambique fazer pesquisas de campo pelos programas de investigação da Universidade alemã que me dá o meu pão de cada dia, não é Português que falo com os meus informantes. Falo Xangan.
Então, mais uma vez, que interesse tenho eu na manutenção desta língua, na sua disseminação e preservação?
Entre 2001 e 2004 trabalhei como professor visitante na Universidade Eduardo Mondlane de Moçambique. Um exercício que sempre gostei de fazer foi de convidar os estudantes a traduzirem conceitos básicos de sociologia para as suas línguas maternas. Invariavelmente, metade da turma sempre me dizia que a sua língua materna era o Português. A outra metade confessava-me que não dominava muito bem a sua língua materna africana pelo que não podia traduzir os conceitos.

E eu ficava triste.
Triste por constatar que os estudantes estavam em vias de desperdiçar um importante recurso pedagógico, isto é a língua, e a possibilidade de apreender a diversidade do mundo e da realidade social através da polissemia dos seus conceitos. Eu partia do princípio de que para poder traduzir o conceito de “facto social” de Emile Durkheim, por exemplo, não bastava encontrar os equivalentes semânticos de “facto” e “social”. Eu achava que era preciso perceber o que Durkheim queria dizer com esse conceito. Achava, portanto, que era preciso perceber Durkheim, o contexto histórico e social em que ele sugeriu esse conceito e ver se tudo isso fazia sentido para o contexto histórico e social específico de Moçambique em 2002/3/4.
(...) Como traduzir isto para Xangan, E-Makhua, Xi-Ronga ou outra língua “bantu” qualquer? “Facto social” em Xangan é ainda “facto social” no sentido durkheimiano? Em certa medida, o cuidado epistemológico e metodológico exige que a tradução respeite a dimensão intencional e extensional do conceito que pretendemos traduzir. Mesmo assim, o que sobra é ainda o mesmo?
O que nos desune
No meu próprio exercício de reflexão sobre essa tradução cheguei à conclusão de que a ideia de “facto social” é impossível no nosso contexto. O meu “nosso” não é o “nosso” lusófono. O meu “nosso” é o nosso da experiência ambivalente da modernidade em África dentro da qual o “lusófono” surge como ruído, gralha, impecilho, enfim, problema. É o ruído que levou os do movimento da “negritude” a desejarem o regresso às raízes mesmo se, como disse Amílcar Cabral, este grande pensador da Guiné Bissau e Cabo Verde, esse regresso não fosse necessário ao povo, mas sim para aqueles que foram alienados pelo acidente histórico que o “lusófono” foi.
Dizia eu, portanto, que “facto social” no nosso contexto é intraduzível. E isto não é por insuficiência léxica ou semântica da minha língua materna. É, aliás é sobre isto que quero falar hoje, intraduzível por causa da opacidade da experiência histórica. O “facto social” não existe como o imaginou Durkheim. O “facto social” existe entre nós como a “veracidade do entendimento”, isto é como a condição de possibilidade da convivência (...) o “facto social” em Xangan remete-nos para o que é necessário fazer para termos a certeza de que podemos e estamos a comunicar. E comunicação é convivência.
(...) fiquei triste ao constatar que os meus estudantes estavam com problemas em se identificar com a sua própria língua materna. Fiquei triste ao constatar que os meus estudantes pareciam ter perdido um dos elementos mais importantes da sua própria identidade. Fiquei horrorizado com a ideia de que pessoas com a mesma vivência que a minha estavam em vias de recuperar a sua identidade como pessoas através de uma outra língua que não a sua língua materna.
Agora pergunto-vos: percebem porque a preservação da Língua Portuguesa não pode ser meu problema? Percebem porque me estou nas tintas para o destino da Língua Portuguesa?
(...) Disse-vos mais acima que havia respostas à pergunta de saber o que nos une. Deixem-me, então, passar algumas dessas respostas em revista aqui. São três que me ocorrem: a língua; a história; e os interesses estratégicos (...).
Uma resposta remete-nos para a Língua Portuguesa. Até essa é que é a designação oficial. Somos uma comunidade porque falamos a mesma língua. Será mesmo verdade? Em Cabo Verde e Guiné Bissau a língua mais falada é o Crioulo. Mesmo no seio das comunidades imigrantes o meio de comunicação é o Crioulo. Lembro-me de viajar de avião entre Sal e Cidade da Praia em Cabo Verde e estar sentado ao lado de uma beldade cabo verdiana de visita à Terra e residente em Boston e só poder comunicar com ela em Inglês porque ela não falava Português. Em Moçambique, só cerca de 2% dos moçambicanos é que tem a Língua Portuguesa como língua materna. Só cerca de 30% é que fala Português e 98 por cento dessas pessoas falam-na como segunda língua.
A opção pela Língua Portuguesa em Moçambique não foi cultural. Foi política. Era a única língua que nos livrava da dificuldade de escolher uma língua autóctone como língua oficial. Aproveito dizer-vos que esta decisão é ainda hoje problemática, pois introduz o domínio da Língua Portuguesa como elemento de distinção que determina as oportunidades de mobilidade social. As escolas primárias têm altos índices de reprovação porque as crianças pura e simplesmente não falam Português. Ou melhor, em casa falam outras línguas. Já houve recenseamentos populacionais em que pessoas foram classificadas de analfabetas embora escrevessem e lessem em árabe, inglês e nas línguas locais. Portanto, a sugestão de que a Língua Portuguesa nos une é problemática. Une possivelmente os portugueses e os brasileiros. Em nós – e a nós – cria apenas problemas.
A outra resposta que se dá à pergunta de saber o que nos une é de dizer que a História nos une. A História! Por vezes penso não estar a ouvir bem. A História? A mesma História que levou milhões de africanos contra a sua vontade para as Américas? A mesma História que os obrigou a construir o Brasil sem, contudo, beneficiarem dos frutos dessa construção senão como decoração da ideia de que existe algo chamado lusotropicalismo e de que o Brasil é um País multi-racial? A mesma História que forçou o Cristianismo sobre os africanos, classificou os africanos de assimilados e indígenas naquilo que Eduardo Mondlane, o pai da nação moçambicana, reclamou como sendo a rejeição do africano como pessoa senão na condição de ele renunciar à sua própria identidade?
A História nos une? Estou a ouvir bem? A História que nos transformou em animais na nossa própria terra, que infantilizou o meu pai perante os portugueses, que só à custa de uma guerra sangrenta nos permitiu sermos livres e independentes? Deixem-me utilizar linguagem ultrapassada e politicamente incorrecta para dizer as coisas de forma mais directa: o opressor e o oprimido podem ser sujeitos da mesma História? Os portugueses e os brasileiros brancos podem se imaginar como membros de uma comunidade bantófona? Podem?
Finalmente, há a resposta dos interesses estratégicos. Os portugueses dizem que nós os pequenos temos que unir esforços e os brasileiros dizem nós os da periferia temos que cerrar fileiras. Os pequenos? Angola e Moçambique? E quando é que pequeno se torna estrategicamente relevante? Para Portugal o pequeno torna-se relevante como moeda de troca de influências na União Europeia. Portugal precisa de ser porta-voz de alguém para ser alguém na União Europeia. Lembro-me de se discutir em tempos uma cidadania lusófona que se aplicava apenas aos portugueses e brasileiros em África, mas não se aplicava aos africanos em Portugal. Era por causa de Shengen, diziam os portugueses. É assim que de “outros” passamos para “CPLP” em Portugal. Subentenda-se que os portugueses não são “CPLP”. Portugueses são portugueses. Moçambicanos, angolanos, são tomenses, guineenses, cabo verdianos e alguns brasileiros são “CPLP”. (...) Agora, o Brasil e a história da periferia é outro assunto. As concessões que vão sendo feitas pela Organização Mundial do Comércio aos países da periferia não beneficiam aos países da periferia. Beneficiam alguns países da periferia, dentre os quais ao Brasil, mas não incluem Moçambique, nem Cabo Verde porque estes pertencem à periferia da periferia.
Tradicionalmente já marginalizados pela História os nossos países estão a transformar-se em consumidores da vontade de poder brasileira (...) que se manifesta neste consumo nojento de telenovelas que procuram apagar a memória da História (...). Esta vontade de poder manifesta-se também na expansão desenfreada de um pentecostalismo selvagem sob a forma da IURD que despolitiza as pessoas e condena-as à irracionalidade da vontade de Deus.
Portanto, caros colegas, não vejo de que maneira a língua, a História ou mesmo os interesses comuns podem constituir razões para o sentido de unidade que queremos forjar. O que nos une não pode ser a Língua Portuguesa; não podem ser os interesses comuns; também não pode ser a História.
Quando muito, e se estou correcto na minha leitura, uma leitura que confesso ser parcial, irada e pouco constructiva, estas coisas desunem-nos. Estas coisas são razões para não procurarmos a companhia um do outro. Estas coisas são a razão porque não devia existir uma Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa. Estas coisas são a vergonha do nosso passado.

Conclusão
Qual é, então, a moral da História? (...) Não há nada mesmo que nos una? Porque é que, então, estamos tão empenhados nisto? Porque existe a CPLP? Porque há estes encontros todos dos Ministros da Cultura e de não sei mais o quê? Porquê tanta maçada? Porque persistimos?
Bom, contrariamente a tudo quanto eu disse até aqui há, de facto, algo que nos une. Não é a História, isso já disse e porquê. Nem tão pouco a língua ou os interesses comuns. Também disse porquê. O que nos une é a forte convicção de que algo nos une. Só isso. Como sociólogo que sou posso vos garantir que quando as pessoas acreditam que uma coisa é real, ela é real nos seus efeitos. O único que nos une é a ideia fortemente enraizada em muitos de nós de que algo nos une. É idiota, mas a vida é assim.
Agora, tendo em conta tudo quanto eu disse há bocado sobre o que nos desune, o que significa esta constatação? Que nos devíamos desfazer dessa ilusão e dedicarmos a nossa atenção às coisas realmente importantes da vida? Será? Acho que não, enfaticamente. A crença é um bom ponto de partida para começarmos a interpelar o nosso percurso comum. A convicção de que algo nos une proporciona-nos a oportunidade de reflectirmos sobre as condições de possibilidade dessa unidade.
Chamo a vossa atenção para a noção de veracidade do entendimento de que falava no início na minha tentativa de traduzir o “facto social” de Durkheim. Essa noção interpela a possibilidade do diálogo, procura saber como ele é possível e o que cada um de nós pode fazer para que ele seja possível. Penso que é isso que devemos fazer. Só um diálogo sem pré-condições – por exemplo, sob a forma de língua comum, história comum, interesses comuns – é que pode permitir pensar uma comunidade feita no entendimento.
Só quando alguém me convencer da possibilidade da veracidade desse entendimento é que estarei disposto a ver a preservação da Língua Portuguesa como um problema meu (...).
Muito obrigado!

1 comentário:

César Faduco disse...

Saudações ao ilustre Professor Elísio Macamo!
Quero agradecer a sua explanação pois achei-a interessante e eloquente.
Concordando consigo sobre a lusofonía, de facto seria o suficiente alguém ser lusófono apenas por falar Português? Acho que não. Senão vejamos: Em Moçambique somos cerca de 25milhões de almas vivas num país que se diz lusófono onde mais de metade não fala, não lê, não escreve e nem entende o português.Então, sendo assim, significa que teriamos moçambicanos lusófonos e outros moçambicanos não lusófonos e todos a viverem num país lusófono chamado Moçambique.
Há de facto uma grande necessidade de debate sobre a lusofonía porque algumas estados ou estatutos, somos impostos pela política sem no entanto consultar a cultura das comunidades às quais os políticos pretendem impor suas teorias. Como se explicaria que em Moçambique onde cerca de 35% de moçambicanos é que conseguem se comunicar em língua portuguesa e por veses à rasca, se corre para impor-nos uma união baseada na língua? Pois como eu entendo, a comunidade ou comunidades lusófonas o são por comungarem a mesma língua que neste caso é o português, a "Communwelth", por falarem o Inglês e por aí em diante com a "francofonía". Eu penço que se o nosso governo quisesse uma boa coisa, seria reforçar as comunidades que temos aqui em Moçambique e diceminar políticas conducentes a uma unidade nacional com diversidade cultural, lingúistica e até económica num país unico, uno i indivisível. Isto é possível acontecer basta essa vontade.
Como dizia o Professor que ficou horrorizado com colegas e estudantes seus que estavam em vias de aculturação ou perda de identidade cultural porque não tinham o domínio de suas línguas maternas, logo não tinham o dmínio de suas culturas. É triste e deve ser revertido.
Nós somos moçambicanos e devemos ter a nossa identidade própria e nossa autoestima.Nem que para isso tenhamos que nos reinventar.
Muito obrigado!

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