domingo, 9 de julho de 2017

O Que Administração Reagan pensava da Renamo e da UNITA (Elementos de Autocrítica)


Por Capitão Manuel Bernardo Gondola
Já são 37 anos após a entrevista de Chester Crocker a BBC, na altura Subsecretário do Departamento de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos na vigência da Administração Reagan de 1981-1989. Na ocasião Chester Croker referiu-se à RENAMO como uma criação de forças estrangeira e a UNITA, claramente como um Movimento Nacionalista.
Com Chester Crocker, ficamos na antecâmara da Administração Reagan¹ sobre os vários assuntos da política internacional americana em relação a África Austral e todas as consequências que a sua teoria política acarretava.
Você vê, hoje a conjuntura é diferente, contudo, convido-o a rever a entrevista em reposição:
Pergunta. Senhor Chester Crocker em relação a Moçambique que soluções contemplam? Um acordo político entre a RENAMO e o Governo de Samora Machel ou esmagamento final dos rebeldes?
Chester Crocker. Há muitos anos que há problemas por todo o território de Moçambique.
Como sabe. E remontando inclusive aos tempos colónias. Houve muitas áreas desse país que não eram governadas ou ingovernáveis; digamos. Parte daquilo a que assistimos é actividade rebelde organizada e mero banditismo e comportamento fora-da-lei nas zonas rurais. Gostaríamos que pudesse haver uma reconciliação. É evidente que cabe ao Governo de Moçambique definir a sua estratégia a esse respeito.

Quanto à possibilidade de negações no actual ambiente não estou muito certo. Mas; apoiaríamos qualquer esforço aceitável por outros de tentar acelerar o processo de obtenção de paz através do diálogo. Mas; cabe a Moçambique decidir.
Pergunta. A mesma solução que para Angola.
Chester Crocker. O Governo de Moçambique fez um grande esforço nesse sentido ao decidir negociar com a África do Sul o Acordo de N’komati. Estamos todos a par das imperfeições do modo como esse Acordo foi posto em prática. Gostaríamos de ver ambas as partes cumpri-lo. Pode ser um passo importante rumo à paz. Mas cabe ao Governo de Moçambique decidir que outras medidas poderia e poderá tomar nos campos militares, político, e etc. para tentar levar a paz às zonas rurais do país.
Pergunta. A Administração Reagan ajudará Samora Machel² nisso?
Chester Crocker. Estaremos, é claro, em permanente contacto e diálogo político com o Governo de Moçambique quanto a todos os pontos de agenda. Estamos a ajudar o Governo de Moçambique no campo económico e continuaremos a fazê-lo.
Não nos pediram para influir na política interna de Moçambique. Que fique bem claro! Não nos pediram tal!
Pergunta. Se bem entendi, senhor Crocker, faz uma distinção entre as situações em Angola e em Moçambique. Quais são as razões para essa diferença de apreciações? Considera a UNITA um Movimento Nacionalista mais autentico do que a RENAMO em Moçambique?
Chester Crocker. A resistência em Moçambique tem um passado de empenhamento histórico, que faz parte da sua herança. Há nela elementos emanados de Movimentos Nacionalistas e que representam elementos indígenas, elementos africanos, digamos, mas há também um passado de envolvimento com o Governo de Portugal, com Governo de Ian Smith, com o Governo da África do Sul, com interesses ex-coloniais ou neo-coloniais estrangeiros, que anseiam por uma política de vingança e por inverter a vitória Nacionalista de 1975. Há uma combinação muito estranha e complexa de

interesses e relações, que nos levam a ter umas interrogações fundamentais quanto ao significado real da resistência.
O caso da UNITA é muito diferente. Sabe-se que é claramente um Movimento Nacionalista. Não foi criado pela África do Sul nem por terceiros, é chefiado por um homem que deixa impressionados todos quantos o conhecem e apoiam. E são muitos.
Dito isso, não desejamos ver uma vitória militar unilateral de qualquer deles³, achamos que deve haver uma reconciliação política numa altura e num modo aceitáveis para todo o povo de Angola.
n/b:
¹ O presidente Ronaldo Reagan, foi sempre um anti-comunista, logo, foi eleito como tal.
²A 4 de Março de 1981, seis cidadãos dos EUA eram expulsos da República Popular de Moçambique, acusados de pertencer a uma rede de espionagem da CIA. Chester Crocker veio a correr a Maputo no mês seguinte exigindo um pedido desculpas. Não conseguiu. Samora mandou-o passear. Mas claro que houve retaliação. Planos para ajuda alimentar a Moçambique foram todos congelados quando a rede de espionagem da CIA foi exposta a descomunal humilhação pelo SNASP. Além disso, o posto de embaixador americano, que já estava vago na altura das expulsões, dos agentes levou mais quatro anos para ser preenchido.
³ Em Angola aconteceu o que Chester Crocker, não desejava. Savimbi, «ostracizado» e abandonado sem apoio dos americanos foi abatido em combate em Moxico e o seu cadáver exibido. Por último, a UNITA foi seriamente esmagada militarmente pelo MPLA.
Manuel Bernardo Gondola
Canal de Opinião: por Noé Nhantumbo POBRES E AO MESMO TEMPO RICOS Um dilema moçambicano...? Beira (Canal de Moçambique) - Qualquer observador que se disponha a analisar a situação moçambicana, a pobreza em que vive a maioria da sua população só pode ficar perplexo. Como compreender e aceitar que um país com um manancial de riquezas tenha um nível de vida tão baixo é de facto difícil de entender. Uma visão e estratégias políticas envolventes e abrangentes nunca foram tão necessários para se enfrentar com êxito os desafios actuais. A mediocridade e toda uma gama de resultados negativos que se observam no país todo vão de consonância com as práticas insuficientes e de pouco alcance que estão sendo executadas. Na posse de inúmeros recursos alguns dos quais estratégicos, a incapacidade de usá-los de maneira aberta tendo como agenda central reduzir e eliminar a pobreza crónica dos cidadãos revela-se o verdadeiro cancro nacional. Quando a maioria dos benefícios que a indústria extractiva traz é para as corporações envolvidas nas operações e obviamente alguma da elite político-financeira local fica claro que há algum erro de concepção de politica económica, está presente e governando os assuntos. Não é a questão de que todos não podem ser ricos ao mesmo tempo que está aqui em causa. Também não está em causa a capacidade que uns tem de aproveitar momentos oportunos para investirem ou usarem de suas possibilidades para se desenvolverem. Também ninguém está contra que se enriqueça neste país. O problema deve ser colocado em termos do que impede que haja mais justiça no acesso à riqueza nacional? O que impede que mais moçambicanos se beneficiem daquilo que é afinal de todos? Toda a corrida desenfreada que se verifica para a implementação de projectos energéticos na actualidade é sintomática dos apetites que elite demonstra e não tem nada a ver com objectivos planificados de desenvolvimento nacional. Não somos pobres por preguiça, ignorância ou destino. Somos pobres porque existe uma aplicação de politicas que negam aos moçambicanos a possibilidade de se afirmarem na esfera económica. Numa situação de vazio no que respeita a políticas de fomento, dificilmente será possível aumentar o número de moçambicanos que se dedicam a agricultura. Num momento tão propício para a prática de uma agricultura comercial de alto rendimento, que aproveitaria dos actuais aumentos preços de mercadorias agrícolas, não se vê nenhuma decisão no sentido de favorecer a emergência de moçambicanos fazendo aquilo que aliviaria os cofres públicos no que se refere a importação de alimentos. Quase todos os países do mundo falam de abolição do proteccionismo mas na prática isso continua a ser feito. Só nós é que nos abstemos de fazer aquilo que é pratica comum. Proteccionismo e fomento são duas faces da mesma moeda que tem servido para melhorar a capacidade com que as indústrias específicas dos países sobrevivem no ambiente de concorrência internacional violenta que vigora. Uma questão de interesse nacional permanece no segredo dos deuses. Estamos falando das contrapartidas financeiras que as autorizações de prospecção de exploração de recursos naturais moçambicanos trazem para o país. Esses fundos poderiam muito bem ser usados para alavanca de actividades geradoras de emprego e bases de fundos de fomento reais e não meras declarações de intenções. Grande parte da terra arável do país pode muito bem, ser usada pelos moçambicanos com sucesso. Em vez da formação de agrónomos distantes da agricultura e pouco dominando as técnica contemporâneas o pais beneficiaria com investimentos direccionados a modernização do ensino técnico superior nessa e noutras áreas. Há necessidade de moçambicanos com capacidade de avaliar as nossas potencialidades e sobretudo conhecimento adequado para intervir com sucesso no aproveitamento das mesmas. Ser pobre não é o destino a que estamos condenados desde a nascença. Cabe a quem governa a sensatez de começar a entender essa função como um privilégio concedido para servir os cidadãos e nesse sentido, fazer tudo o que é necessário para que o bem-estar dos governados esteja garantido. Aceitar desculpas e justificações sobre incumprimento de planos, adiar a realização dos mesmos sob a alegação de escassez de recursos e outras artimanhas tem de começar a ser punido com destituições do cargo. Custa muito dinheiro ao erário público manter funcionários públicos que não conseguem satisfazer nem cumprir com as suas tarefas. A pobreza de que todos os dias se fala é um mal que pode e deve ser combatido com acções reais e concretas. Não se compreende que se destrua a capacidade nacional de fazer certas coisas e em substituição se promova a importação dos bens antes produzidos localmente. Isso leva muitos ao desemprego e a pobreza que se diz querer combater. Urge entender a todos os níveis de que a normalização da vida nacional, a viabilização de Moçambique como pais requer que se respeitem as leis e que se combata com vigor e firmeza os atropelos as mesmas. As pessoas têm de se sentir seguras e confiantes de que investir neste país é seguro e proveitoso. Mas também não se pode permitir que a concorrência desleal com a mão-de-obra local seja apadrinhada por uma emigração sem critérios de gente oriunda dos diversos cantos do mundo. Se aos moçambicanos são colocadas limitações no estrangeiro, o mesmo deve acontecer com os outros que chegam ao país e montam tabacaria e quiosques e recebem o nome de investidores. A contratação de mão-de-obra para os grandes projectos, a estrutura salarial praticada nos mesmos não deve lesar os moçambicanos que fazem trabalho igual e recebem remuneração de nível diferente. Governar no caso de Moçambique tem de significar ser capaz de produzir soluções para que as potencialidades existentes sirvam efectivamente os moçambicanos sem exclusões de alguma natureza. Essa de que vamos combater a pobreza absoluta tem de virar a prática real e não uma mensagem para adormecer os cidadãos enquanto os seus proclamadores enriquecem através de esquemas e mecanismos montados para impedir o acesso dos outros a actividades económicas rentáveis. Sentido de Estado e clarividência governativa devem ser evidenciados nesta frente e abandonar-se a prática de discursos ocos, repetidos e ultrapassados. Alguma pobreza seria combatida simplesmente com um pouco mais de austeridade pelos governantes. Os moçambicanos não são pobres. Forma empobrecidos por práticas de governação lesivas. (Noé Nhantumbo)
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