segunda-feira, 5 de junho de 2017

SERIA UM “ERRO ESTRATÉGICO” ACEITAR A RETIRADA DAS FORÇAS DE DEFESA E SEGURANÇA DA SERRA DA GORONGOSA


Listen to this post. Powered by iSpeech.org Centelha por Viriato Caetano Dias (viriatocaetanodias@gmail.com)
Todos os tempos são bons para a procura da verdade. Pe. Manuel Maria Madureira da Silva, in Questões Fraturantes, 2016, p. 8.
Seria um “erro estratégico” aceitar a retirada das forças de defesa e segurança da Serra de Gorongosa, porque sem dúvida incubaria novos conflitos. Não gosto deste cotejo, mas sou forçado a fazê-lo. Seria o mesmo que os malfeitores da Mafalala, para garantir sossego aos seus habitantes, pedissem a retirada da esquadra da polícia ali instalada. Para que houvesse diálogo, entre eles e a polícia, a condição seria tornar Mafalala um bairro sem lei.
É exactamente isso que a Renamo pretende fazer. Adormecer a Constituição da República para depois reagrupar-se e voltar a fazer estragos de proporções gigantescas.
Eu era pequeno quando ouvi a minha querida mãe (de pouca graduação académica, mas honrada e bússola moral de muitas mulheres e homens desta Pátria Amada) dizer-me o seguinte verbo “O homem é o factor determinante de uma guerra, mas quem tiver a Serra de Gorongosa em sua posse tem condições necessárias para tornar o conflito interminável.” De facto, a Serra da Gorongosa proporciona a Dhlakama espaço de manobras para tornar o conflito um carrossel. Defendi na minha tese de mestrado que uma espiral de conflito não acaba nem com a guerra convencional nem tratados. A natureza geopolítica tende a ser interminável, porquanto trata-se de conflitos internacionalizados. Alguém alimenta Dhlakama e a fonte dessa alimentação deve ser cortada ou negociada.
  Voltando ao tema em epígrafe, permita, caro leitor, uma outra reflexão. A “parte incerta” não é uma região autónoma ou independente de Moçambique. A “parte incerta” é o esconderijo do líder da Renamo. A questão de fundo é: deve o presidente da República aceitar os condicionalismos do líder da Renamo? Voltando à história dos malfeitores da Mafalala, deve a polícia aceitar tal acordo? 
Se se retira as forças de defesa e segurança da Serra da Gorongosa, contra todos os avanços alcançados, o que virá depois? A paz não pode ser alcançada a qualquer preço. Mais vale levar uma eternidade a encontrar uma solução definitiva, que soluções paliativas.
Uma terceira reflexão permite-me chegar a seguinte conclusão: penso que a Renamo é mais forte politicamente armada, do que politicamente desarmada. Ela precisa de armas para fazer política. Sem armas, a Renamo não “existe” politicamente! Será igual a um pássaro sem bico. A volatilidade da mente de Dhlakama não me dá garantias de que “desta vez é de vez”. É um tipo de líder profundamente narcisista, tirar-lhe os holofotes (perder a atenção) é algo que ele não tolera.
Na ocasião da publicação da obra A guerra civil em Angola 1975-2002, da autoria do investigador Justin Pearce, questionei ao General Geraldo Abreu Ukwachitembo (“Kamorteiro”) que fórmula aplicara o Governo de José Eduardo dos Santos para conseguir domesticar a UNITA, a não voltar à guerra. Kamorteiro que falava na condição de doutorando, respondeu-me nos seguintes termos: Penso que o problema está na montante (negociações de Roma), porque não conseguiram desarmar a Renamo e essa continua com as armas que as serviu e serve de garantias para fazer cobranças aos Governos da Frelimo. Isto é absolutamente condenável. Em Angola é diferente, nós, enquanto militantes da UNITA, entregamos as armas e inserimo-nos no processo democrático. A nossa insatisfação não deve ser no ecoar das armas, mas manifestada nos órgãos democráticos.
Concordei, mas antes debitei o seguinte raciocínio, cito de memória: “Penso que não há uma boa ou má negociação de paz, o fator determinante é a forma como a jusante utiliza os resultados dessa (mesma) negociação. A paz angolana é estudada nas escolas primárias e reflectida nas universidades, enquanto o nosso 4 de Outubro é dia de repouso.” Há um desligamento total da gesta, isso mutila-nos. O país está a perder a essência da sua História. A importância da paz só será compreendida e respeitada se for questionada, interpretada, enfim, estudada por todos os moçambicanos.
Mas nada está perdido. Acredito nas capacidades intelectuais do presidente Nyusi (penso que é uma pessoa bastante ponderada e sabe ouvir). E quem sabe ouvir sabe para que porto quer ir. Saber ouvir é conseguir realizar a síntese das melhores ideias para a reconstrução deste país. Mas sem cedências a chantagens.
Zicomo e um abraço nhúngue a Dra. Isaura da UÉ e aos crismados de São Sebastião da Giesteira, em Évora.   
WAMPHULA FAX – 05.06.2017

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