sexta-feira, 19 de maio de 2017

MAIS UM OLHAR ÀS “DÍVIDAS OCULTAS”


O alarido em torno das cognominadas dívidas ocultas na Pérola do Índico tem tudo para se tornar num perfeito guião de uma grande produção de Hollywood. Sem muito se perceber, alguém decidiu convencer-se que houve um roubo monumental nesta pátria de heróis, sem nunca provar de que forma tal roube se efectivou. Enfim, usou-se a máxima “que o acusado prove ser inocente.” Este filme já teve vários títulos, mudando consoante a vontade dos criadores em mostrar que houve crime e da avidez em ver pessoas detidas, apenas para satisfazer egos e apetites políticos. Começou por se chamar de “dívidas ocultas”, tendo evoluído para “dívidas ilegais”, ganhando o estatuto de “dívidas inconstitucionais” e hoje, “dívidas nulas.” Em suma, tudo vale para sufragar a tese de alguma casta pensante deste burgo.
Ainda nesta senda se reclama protagonismo de vários sectores da sociedade moçambicana e de certas chancelarias, dando a entender que devia haver um plebiscito para autorizar ou não o Governo a equipar-se para fazer face aos desafios impostos nos tempos hodiernos, onde a pirataria marítima, o tráfico de pessoas, o avolumar do trânsito no Oceano Indico, se configuram como exemplos paradigmáticos. Por outras palavras, ousa-se pensar que matérias de segurança e inteligência devam ser tratadas como se de uma sentada familiar se tratasse ou de uma sessão de consumo de maruvo ou ginguba.
Afora o que se diz acima, não é de se olvidar que temos um "primeiro vizinho no Oceano Índico", hoje liderado por Emmanuel Macron, que considera Moçambique um parceiro fundamental, rico em recursos energéticos.
O Canal de Moçambique posiciona-se como via estratégica e se se finge não se assumir como tal, a componente marinha é uma prioridade. França ocupa uma posição única nesta região estratégica, que vê passar anualmente 30% do tráfego mundial de petróleo. Com ilhas dispersas, as ilhotas desabitadas e, ocasionalmente, ocupados por missões científicas que são administrativamente da França, numa zona económica exclusiva (ZEE) de 636 000 km2, mais do que metade do canal. Com o crescimento do trafego de navios por esta região, a apetência por ajudar Moçambique cresce exponencialmente. É conhecido o interesse deste país europeu na protecção da nossa zona económica exclusiva, para conter a pesca ilegal, poluição marinha, a pirataria, entre outros. E vale recordar que a frota de barcos da EMATUM foi montada pela CMN, com base em Cherbourg, empresa participada pelos serviços secretos franceses.
Portanto, entre escolher que um estranho a nossa soberania se imiscuísse na protecção costeira e criar condições para que as Forças de Defesa e Segurança o fizessem, parece que Moçambique optou pela segunda hipótese, o que certamente enfurece quem tem interesses no negócio, mas sobretudo, quem acha que devia ser ele a tomar essas decisões estratégicas. Não deixa de ser estranho que a maior parte das vozes barulhentas esteja no país. Ou seja, a nós outros, provoca nojo saber que há moçambicanos que se rebelam porque o Estado se equipou para proteger a sua própria soberania.
Mas a nossa obsessão pela putativa transparência levou a que a nossa auto-estima fosse beliscada por uma Kroll que nada mais andou e nada por aqui a fazer senão uma espionagem económica, ainda por cima paga pela Suécia. A mim repugna que um país esteja refém de jogadas de bastidores entre a Suécia, o FMI e a Kroll, colocando a nossa Procuradoria-Geral da República como a moça de recados e expediente, como se não devesse ser ela a liderar o processo. De repente o FMI diz o que deve acontecer com a inditosa auditoria e a Suécia diga outras tantas coisas que lhe apeteçam, sendo que quem não tem direito a dizer o que quer que seja, sejam os donos do país.
Enfim, é o que temos.

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