sexta-feira, 19 de maio de 2017

Definitavamente, 2016 é um ano que não quer acabar.

Temer renuncia a oferecer uma saída menos dolorosa para a crise

Ricardo Noblat
Foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nos anos 80 do século passado quando era senador e José Sarney presidente da República, que um dia afirmou debochado:
- A crise viajou.
Sarney era a crise. E havia viajado para o exterior deixando um país politicamente convulsionado e uma inflação mensal gigantesca que só fazia crescer. No fim do seu governo, chegaria a mais de 80% por mês.
Fernando Henrique sugeriu, ontem, que o presidente Michel Temer renunciasse, sem ousar dizer que a crise é ele. Mas se tivesse dito acertaria outra vez.
Temer herdou do PT, mais precisamente de Dilma, a crise que empurrou o Brasil para a maior recessão econômica de sua história desde os últimos anos 30. Quando ela dava sinais de recuperação, ele passou a ser a crise.
A teimosia em permanecer no cargo só dá razão ao ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger que decretou: “O poder é o afrodisíaco mais forte”. E também ao cientista Albert Einstein que observou cáustico:
- O esforço para unir a sabedoria e o poder raramente dá certo e somente por tempo muito curto.
Por experiente, com uma trajetória política de mais de 40 anos, imaginou-se que Temer acumulara sabedoria. Qual o quê... Acumulou em alto grau apego pelo poder. Sempre esteve perto dele. Alcançou-o finalmente.
Ao resistir a deixá-lo contra todas as evidências de que isso seria o melhor para o país, repete apenas o exemplo de políticos de sua estirpe, cegos e ao mesmo tempo deslumbrados pelas miçangas do poder.
Foi assim com Fernando Collor. A poucos meses de ser deposto, ele ouviu o conselho de mais de um amigo para que renunciasse. Collor convocou o povo para sair às ruas em sua defesa. Ele saiu para acusá-lo.
Collor denunciou seu impeachment como um golpe. Dilma faria o mesmo tantos anos depois – e também cairia. Na tentativa de ser original, Temer se diz vítima de “uma conspiração” e de “uma cilada”.
Não há conspiração alguma. Temer caiu de fato numa cilada executada por um empresário e amigo dele há mais de 20 anos que, clandestinamente gravou a conversa que o condenou.
Mais pelo que ouviu conivente e cúmplice do que mesmo pelo que disse, Temer forneceu todas as razões para alimentar o sentimento da maioria dos brasileiros desejosos de vê-lo pelas costas.
Pesquisa nacional online aplicada, ontem, junto a 2.800 pessoas acima dos 16 anos pelo Instituto Paraná conferiu que quase 87% delas querem a saída de Temer.
Sem apoio das ruas, que já não tinha, do mercado financeiro que passou a amargar volumoso prejuízo, e vendo se esfarelar sua base de sustentação no Congresso, como Temer pretende se aferrar à cadeira presidencial?
Talvez aposte na solidariedade de deputados e senadores atingidos como ele pela Lava Jato. Deve saber, porém, que eles não são confiáveis e que cobrarão muito caro por isso.
De resto, ninguém consegue governar se perde autoridade política. Foi o que aconteceu com Dilma e, agora, também com Temer, o primeiro presidente no exercício do cargo a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal.
Definitavamente, 2016 é um ano que não quer acabar.
Michel Temer, presidente da República (Foto: Dida Sampaio / Estadão)Michel Temer, presidente da República (Foto: Dida Sampaio / Estadão)
 

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