terça-feira, 13 de junho de 2017

A primeira piloto africana de um Boeing 777-300 é angolana


Luanda - Até 2014, a Comandante Alexandra Lima era a única mulher africana habilitada a pilotar o Boeing 777-300, a última geração de aviões da construtora aeronáutica americana, e a notícia rapidamente se propagou, particularmente por iniciativa da empresa onde trabalha há mais de 30 anos, a TAAG, que partilhou a boa nova na sua página oficial do Facebook.
Fonte: Acelaraangola.ongoma.news
Alexandra Lima, que enveredou à aviação civil para fugir ao curso de pedagogia que frequentava, em Luanda, no início da década de 80, acabou por se apaixonar pela nova profissão. “Eu estava no Instituto Normal de Educação, mas aquilo não tinha nada a ver comigo. Quando me mudei para a aviação, no princípio não sabia bem se era isso que queria, mas acabou por ser uma grande paixão”, recorda e revela que tomou essa decisão ainda aos dezassete anos, sendo que foi necessária uma prévia autorização para que fizesse o curso de assistente de bordo.
Destemida, a proactividade e a vontade de aprender levaram-na a participar de um concurso interno da TAAG para formação de pilotos. Alexandra Lima foi um dos apurados e rumou à Jugoslávia, donde ficou dois anos de onde veio com habilitações de “piloto privado e comercial”.
Já em Luanda, em 1985, comercialmente, a Comandante teve sob sua direcção, pela primeira vez, um Fokker, o modelo de avião disponível na TAAG para os voos domésticos de pequeno curso. “Era o avião com que os pilotos começavam a carreira, sendo que nessa altura eu voava como co-piloto. A empresa era pequena, não crescia muito e tínhamos poucos aviões e poucas rotas, e então fui durante muito tempo co-piloto”, explicou.

Alexandra Lima senda num Fokker, dos primeiros aviões que pilotou

Os longos anos de carreira baralham um pouco Alexandra Lima quando questionada sobre datas, mas a piloto guarda consigo memórias de momentos áureos e de conquistas profissionais, como é o caso da sua promoção a comandante, que terá ocorrido em 2010, segundo tentou lembrar-se. “Desde 2009 ou 2010 que sou comandante. Mais ou menos por esta altura. É que já faz tanto tempo e tantas memórias que às vezes fico baralhada”, respondeu, sorridente.

Mas a conquista dos céus internacionais também já antiga. Alexandra Lima recorda em rotas internacionais, voou como co-piloto no Boeing 747 para França e Portugal, Brasil e África do Sul. No entanto, explica, depois rumou aos Estados Unidos da América para fazer o curso das novas aquisições da TAAG e há dois é Comandante do Boeing 777-300, onde foi durante algum tempo co-piloto.
Combatendo preconceitos
Entretanto, Alexandra Lima sempre soube que tinha que lutar pelo seu futuro e realização, combatendo, se necessário, quaisquer tipo de preconceitos ligados ao género. Órfão de pai desde muito cedo, revela, a comandante é filha de uma mãe que sofre de aerofobia, pelo que o primeiro desafio que teve que enfrentar foi aceitação da mãe, que ocorreu depois de três anos na TAAG, quando Alexandra Lima ganhou a bolsa para ir fazer o curso de piloto. “Eu faço parte do terceiro grupo de pilotos angolanos formados na Jugoslávia. Inscrevi sem muita certeza que passaria, e um pouco na brincadeira, mas trinta anos depois estou aqui como comandante do maior avião comercial da Boeing”.

Segundo lembra, no início, sofreu algum preconceito pela profissão de assistente de bordo, que considera ser de extrema importância e responsabilidade. “Não foi fácil. Estava a deixar uma formação a meio, para ir ser assistente de bordo, profissão sobre a qual ainda existem muitos preconceitos. Mas, pelo contrário, trata-se de uma profissão de bastante responsabilidade e que nos limita a vida enquanto jovens, porque tem-se uma série de restrições para garantir que estamos em condições de proteger vidas humanas”, defendeu.

Curiosamente, enquanto piloto, Alexandra afirma que sempre se sentiu aceite e acarinhada. “Sempre fui muito bem tratada pela sociedade. Aliás, há pouco tempo apercebi-me de que alguém partilhou no Facebook fotografias minhas da altura do meu primeiro voo comercial. A sensação que me dá é de respeito e orgulho. Eu só posso agradecer a este país por isso”.

Entretanto, quando está em terra, a Comandante focada dá lugar a uma mulher descontraída. Alexandra Lima considera-se mesmo uma “pessoa aérea e imparável”, sempre à procura de motivo de lazer e diversão, sendo que gosta de música ao vivo, e recorda-se, com satisfação, de recentemente ter assistido, na companhia de uma amiga, a um concerto de Roberto Carlos.

“A profissão de piloto é de muita responsabilidade. Exige uma concentração total, sendo que para nós o serviço não começa dentro avião. O piloto prepara o seu voo antes de sair de casa. Ou seja, além de ter de descansar o suficiente física e psicologicamente, devo consultar toda a informação meteorológica, traçar a rota e definir rotas alternativas no caso de haver algum impedimento ou contratempo. Mas, quando estou em time out, como dizemos, realmente passo-me”, admitiu, sempre sorridente e satisfação em partilhar a experiência de vida e profissional.

“O nosso momento é enquanto somos jovens”
Para Alexandra Lima, os jovens não podem perder de vista que o seu momento é o presente, sendo que hoje depende o que será amanhã.

“O momento é agora. Para tudo. Costumo a dizer aos meus filhos que não são obrigados a ser doutores, mas devem fazer na vida aquilo que de gostam e que o façam bem. O nosso momento é enquanto somos jovens. Se ele passa, a gente nunca mais consegue realizar-se ao nível profissional, e quando isso acontece dificilmente nos sentimos pessoas realizadas. A juventude não deve deixar de batalhar por um lugar ao sol, porque o país só se desenvolve com recursos humanos capacitados”, defendeu.

Frequentemente abordada por jovens nas redes sociais sobre a sua profissão e a realização financeira, Alexandra Lima revela que responde sempre que ser piloto é bonito, mas não tem nada a ver com a ganhar muito dinheiro. “Repito que é uma profissão de extrema responsabilidade. Ou se gosta realmente, ou não aguentamos. Ou a gente faz aquilo que gosta, ou torna-se escravo daquilo que faz”, alertou, porém admitiu que gratificante conhecer o mundo enquanto se trabalha.

Alexandra Lima afirma que se sente feliz ao ver muitos profissionais a seguir um percurso idêntico ao seu, nomeadamente começando como Comissários ou Assistentes de Bordo e depois evoluírem para piloto, mas lamenta que o curso de

pilotagem seja caro e impossível de ser suportado pelo “pacato cidadão”. “Tive a bênção de o meu curso ter sido pago pela República de Angola, ainda na altura do partido único”, lembrou.

Segundo informou a Comandante, actualmente a profissão de piloto está em escassez. “O avião hoje tornou-se no meio de transporte mais usado nas deslocações internacionais, principalmente, o que provocou um aumento não só das rotas, mas também da própria concorrência entre as companhias, mas o número de pilotos não acompanhou esta alteração do mercado. Há empresas lá fora que oferecem salários chorudos aos pilotos. Talvez seja apenas uma fase”, afirmou a profissional de 53 anos, 35 deles dedicados à aviação.

“Na altura em que começámos a trabalhar, não tínhamos os salários que existem hoje. Sinto-me realizada enquanto profissional, mas financeiramente não, porque trabalhei durante muito tempo a quase custo zero porque o salário era tão baixo. A nova geração nunca iria aceitar os salários que nós recebíamos”, desafiou.

Hoje, Alexandra Lima já perdeu a conta das horas de voos que já fez, mas informa que nem por isso conhece o mundo, daí que ao nível pessoal, não deixa de viajar para descobrir novos destinos.

“Felizmente gosto de viajar, tanto ao nível profissional como pessoal. Conheço o país todo. No período de guerra, tive oportunidades de fazer vários voos desafiantes. Já aterrei no Cuito Cuanavale e na Matala, levei o Movimento Nacional Espontâneo à Alemanha e tive oportunidade de sobrevoar os Alpes. Foi uma experiência única. Ir a China e sobrevoar os Himalaias é espectacular. Esta é a vantagem da minha profissão. estar todos os dias num local diferente. Isso faz-me sentir realizada. Mas também já passei por grandes e maus momentos. Era uma situação de medo voar o país durante o tempo de guerra”, recorda a piloto que, quando os seus dois filhos eram mais novos, muitas vezes viajou com eles para evitar o longo período de ausência de casa, o que permitia que eles descobrissem o mundo e partilhassem mais momentos a mãe.

Questionada sobre o espera fazer nos próximos dez anos, respondeu, peremptoriamente: “Ainda me vejo a voar. Dão-me a possibilidade de aposentar-me apenas aos 65, mas quando essa altura chegar não ficarei parada. Vou pôr mochila às costas ir descobrir a parte do mundo que ainda conheço mal, que é a região asiática. Tenho muita vontade conhecer”.


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