terça-feira, 6 de junho de 2017

7 coisas que talvez não saiba sobre o Emir do Qatar

Tamim bin Hamad Al Thani.

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Casou três vezes. Perdeu o seu falcão preferido, "Ali", numa caçada no Cazaquistão. Conseguira levar a organização do Mundial 2022 para o Qatar. É agora acusado de apoiar o terrorismo.
YASSER AL-ZAYYAT/AFP/Getty Images
Esta segunda-feira, a Arábia Saudita e outros três países (Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein) anunciaram a decisão de cortar as relações diplomáticas com o Qatar. As razões apontadas para esta tomada de posição são o alegado financiamento do Qatar a grupos terroristas como o Estado Islâmico — algo que o Governo de Doha nega, embora seja público, por exemplo, o seu apoio ao Hamas ou à Irmandade Muçulmana.
O homem no “olho do furacão” é Tamim bin Hamad Al Thani, Emir e líder do Qatar, um país cada vez mais isolado no Golfo Pérsico e entre países árabes. Quem é o Emir Tamim? Pouco se sabe. É reservado. Sabe-se, porém, que é religioso — tão ou mais do que o pai Hamad, que para ele abdicaria do poder –, apaixonado por desporto, por mulheres — casou três vezes e tem nove filhos –, um Emir que tinha tudo para não o ser mas que foi preparado desde criança para assumir os destinos do país com a maior riqueza per capita do mundo.

Emir porque o irmão abdicou

e a escola britânica de Tamim

Tamim tinha tudo para não ser o oitavo Emir do Qatar. E tudo para ser. Tamim bin Hamad Al Thani nasceu a 3 de junho de 1980 em Doha. Era o segundo filho da segunda mulher de Hamad bin Khalifa Al Thani. O primeiro na linha de sucessão ao pai era o irmão mais velho, Jassim. Mas em agosto de 2003, Jassim abdicaria.
Tamim havia sido “preparado” desde criança para assumir os destinos do Qatar. Cedo foi estudar para o Reino Unido. E estudaria em algumas das melhores escolas britânicas: a Sherborne School primeiro; a Harrow School em seguida. Foi sempre um aluno de mérito. Concluídos os estudos em 1997, permaneceria mais um ano no Reino Unido para se formar na Royal Military Academy, em Sandhurst. Regressou depois a Doha, onde assumiu o posto de Segundo Tenente nas Forças Armadas qataris. Mais tarde, em 2009, ascendeu a Comandante Supremo das Forças Armadas.

O Emir mais novo do Qatar

que chegou democraticamente ao poder

23 de junho de 2013. Para surpresa de muitos, o Emir do Qatar, Hamad bin Khalifa Al Thani abdicava do poder. E nomearia o filho Tamim para o lugar. Aos 33 anos, Tamim bin Hamad Al Thani era o mais novo Emir da história do país, mas igualmente o líder mais jovem do Golfo Pérsico.
Curiosamente, desde 24 de outubro de 1960 que um Emir do Qatar não tomava o poder “democraticamente”. Os anteriores Emir haviam sido depostos. O próprio avô de Tamim, Khalifa bin Hamad Al Thani, foi deposto a 27 de junho 1995 por Hamad bin Khalifa Al Thani, seu filho – e à época ministro da Defesa qatari –, enquanto se encontrava numa visita de Estado no estrangeiro.
O anúncio da sucessão foi feito aos qataris através da televisão estatal Al Jazeera. Hamad bin Khalifa Al Thani diria: “Deus Todo-Poderoso sabe que nunca desejei o poder. Nunca governei por motivos pessoais. Sempre o fiz pelo interesse do Qatar. Estou plenamente certo de que ele [Tamim] é responsável, merecedor de confiança, capaz de assumir a responsabilidade e cumprir a sua missão”.

A limpeza no governo do pai

e a nomeação de um ministro não-real e de uma mulher

Quando ascendeu ao poder, Tamim fez uma “limpeza” governativa no Qatar. Pela primeira vez na história um ministro (Khalid al-Attiya, que assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros) não tinha ligações à família real. O novo Emir queria que o Qatar caminhasse no sentido da “meritocracia”.
Histórica foi igualmente a nomeação de Hessa Al Jaber, a primeira mulher a assumir o ministério da Informação, Comunicação e Tecnologia.

O pouco que se sabe da sua vida pessoal

Tamim é muito alto, reservado e casou três vezes

É altíssimo. Poucas são as fotografias em que surge ladeado por líderes internacionais e estes não têm que o olhar de baixo. Elogiam-lhe a personalidade “forte”, a confiança, mas é também igualmente descrito como “calculista” – o que pode ser tido, sendo Tamim um homem de negócios, como uma crítica ou um elogio.
A verdade é que pouco se sabe quanto à vida pessoal do Emir do Qatar. É reservado. Público é que casou até hoje três vezes, a primeira das quais com Jawahir bint Hamad bin Suhaim Al Thani, sua prima em segundo grau. Com Jawahir teve quatro filhos: Al Mayassa, Hamad, Aisha e Jassim. Em 2009 casaria com Anoud bint Mana Al Hajri – filha do embaixador qatari na Jordânia. Teve outros quatro filhos: Naylah, Abdullah, Rodha e Al-Qaqa. Por fim, em março de 2014, Tamim casou-se com Noora bint Hathal Al Dosari, mãe do seu nono e mais novo filho: Joaan.

A paixão pelo desporto (do badminton, ao PSG e ao Mundial)

e a fúria de ver morrer o seu falcão “Ali”

O desporto é uma das paixões de Tamim bin Hamad Al Thani. Dois desportos em particular o são: o badminton (numa visita de Estado foi visto a jogar com Mohammed Hussein Tantawi, Comandante Supremo das Forças Armadas egípcias) e a falcoaria. Mas a falcoaria (tradicional no Golfo Pérsico, chegando cada ave de que Tamim é proprietário a custar mais de 1 milhão de dólares) causar-lhe-ia um desgosto em meados de 2016 — como o Washington Post contaria então. Durante uma caçada no Cazaquistão, o falcão predileto do Emir, “Ali”, morreu. Pior: uma segunda ave (eram 12 os falcões de Tamin na caçada em Almaty) morreria também, deixando o Emir “furioso”.
Mas nem só de badminton e falcoaria se fez o percurso de Tamim bin Hamad Al Thani no desporto. Antes mesmo de ser Emir, ocupou diversos cargos de relevo no desporto qatari. Desde logo, a liderança da Qatar Sport Investments, fundo que adquiriu o Paris Saint-Germain – e no clube francês investiu milhões e milhões de dólares a perder de conta, tornando-o numa potência europeia do futebol.
Seria um dos responsáveis, em 2006, pela organização dos Asian Games, em Doha. Foi a primeira vez, à 15ª edição, que todos os países asiáticos participaram no evento. O jornal egípcio Al Ahram consideraria Tamim “a mais importante personalidade do desporto árabe” nesse mesmo ano.
O Qatar candidatou-se à organização dos Jogos Olímpicos de 2020. Perderia para Tóquio. Pouco depois, e tendo Tamim à frente da candidatura qatari com o pai (e ainda Emir) Hamad bin Khalifa Al Thani, o país ganharia o direito de organizar o Mundial de Futebol de 2022. Investiram-se até hoje mais de 100 mil milhões de dólares em infraestruturas – o que inclui estádios, mas igualmente uma rede de metro, um aeroporto novo e melhoramentos nas estradas de acesso à capital Doha. Contudo, a organização não está livre de polémica, recaindo sobre ela suspeitas de corrupção envolvendo a FIFA. Pela primeira vez, o Mundial realizar-se-á no Inverno – contornando assim a história e as condições climatéricas do Qatar no Verão.

As notícias falsas que quis combater

e que estão na origem da atual crise diplomática

Em 2014, o Emir aprovou uma nova legislação sobre o cibercrime. A lei da cibercriminalidade proíbe a divulgação de “notícias falsas”, bem como material digital que viole os “valores sociais” do país ou a “ordem geral”. A Amnistia Internacional descreveria a lei como “um grande revés para a liberdade de expressão no Qatar”. Contudo, e apesar da legislação, Tamim bin Hamad Al Thani terá sido vítimas das “notícias falsas”. No dia 23 de maio, Tamim esteve presente numa cerimónia de graduação militar em Doha. Mais tarde, no mesmo dia, os media do Qatar deram conta de citações do Emir onde este dizia que “não é sábio agir com hostilidade perante o Irão” e que aquele país é “um grande poder para a estabilização da região”. Além disso, referia que o Hamas é o “representante oficial do povo palestiniano”. As citações apareceram na conta de Twitter da QNA, a agência noticiosa estatal do Qatar, e no rodapé da Al-Jazeera. Pouco depois de as afirmações de apoio ao Irão serem tornadas públicas, a Arábia Saudita, o Egito, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos suspenderam as emissões dos media qataris para os seus países.
O Governo do Qatar fez saber depois que os seus media tinham sido alvo de um ataque informático e que aquelas afirmações atribuídas ao Emir eram falsas. “Há leis internacionais em vigor contra crimes deste género, em particular os ciberataques. [Os hackers] vão ser processados de acordo com a lei”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros do Catar, Mohammed bin Addulrahman. Entretanto, a Al Jazeera (com sede no país) noticiou que o FBI está a auxiliar o Governo do Qatar a investigar a proveniência do alegado ataque informático contra a QNA. A tensão no Golfo Pérsico começava a fazer-se sentir.

Um homem mais religioso do que o pai

agora acusado de apoiar o terrorismo

Tamim é tido como “mais religioso” do que o pai, e anterior Emir, Hamad bin Khalifa Al Thani. Esta segunda-feira, a Arábia Saudita e outros países do Golfo cortaram relações diplomáticas com o Qatar, acusando o país de ingerência e de apoio ao terrorismo. Num comunicado divulgado na televisão pública da Árabia Saudita, a SPA, o regime de Riade acusa o Qatar de “acolher vários grupos terroristas e sectários que têm o objetivo de desestabilizar a região”. Entre estes grupos, a Arábia Saudita especifica três em particular: a Irmandade Muçulmana, o Estado Islâmico e a al-Qaeda. Além disso, a Árabia Saudita acusou o Qatar de “promover a mensagem e os esquemas destes grupos” através “dos seus media” — uma referência à cadeia noticiosa Al-Jazeera. O Qatar reagiu na manhã de segunda-feira, dizendo que as medidas anunciadas “não têm justificação e são baseadas em alegações que não têm nenhum fundamento factual”. “O objetivo é claro, que é impor uma tutela ao Estado [do Qatar]. Isto é, em si, uma violação da sua soberania como Estado”, lê-se no comunicado qatari. Esta tomada de posição terá consequências na guerra no Iémen, onde a Arábia Saudita lidera uma coligação militar.
Até à data, o Qatar fazia parte da coligação, mas segundo a Reuters será expulso. No comunicado emitido na televisão pública saudita, o regime de Riade chega a acusar o Qatar de colaborar com o inimigo. “As autoridades de Doha têm apoiado as milícias Huti”, lê-se no comunicado, onde são referidas as forças militares que são apoiadas pelo Irão e que são o alvo da coligação liderada pelos sauditas. A 22 de maio, o Tamim bin Hamad al Thani enviou uma mensagem de parabéns a Hassan Rouhani pela sua reeleição como Presidente do Irão.

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