quinta-feira, 6 de abril de 2017

Não estamos fritos


Há um instinto natural entre nós, mesmo entre aqueles que têm sérias dúvidas sobre a utilidade da sociologia, de esperar que sociólogos se pronunciem sobre fenómenos em relação aos quais todos nós achamos ter já uma resposta. É uma espécie de auto-engano. Estão aí algumas mulheres a “fritar” os seus companheiros e uma das primeiras reacções das pessoas é esperar que sociólogos (e psicólogos, já agora) expliquem o que está a acontecer com o nosso sistema de valores. Isto é, define-se logo à partida que o problema é de valores e até já se imagina que a solução tenha que passar por uma revitalização ou reforço dos nossos valores. O pobre sociólogo tem que vir confirmar isso.
Pois bem, o assunto é muito mais simples. Do ponto de vista do tipo de sociologia que eu pratico, não há nada de extraordinário no que está a acontecer. É normalíssimo. Mediatizou-se um caso que, na sequência, deu ideias a mais pessoas que ainda não tinham pensado nessa forma de exprimir a sua insatisfação com uma determinada relação. Se não quisesse banalizar demais o assunto diria que estamos simplesmente perante o efeito da imitação. O comportamento humano é muito complicado e isso é que torna as ciências sociais difíceis. É como a água dum rio com caudal forte. Se há algum obstáculo a água não coça a cabeça, encolhe os ombros e regressa à fonte. Ela procura outras saídas e, no processo, vai abrindo possibilidades que antes não tinham sido contempladas.
Há uma lógica por detrás disso que furta o comportamento à análise e até ao controlo social. Dois exemplos apenas. O combate ao terrorismo é trabalho de Marracuene, ou em linguagem mais europeia, obra de Sísifos. Você pode proibir líquidos, objectos cortantes e não sei que mais a bordo. Ao fazer isso você está a reagir ao passado, não ao presente, pois terrorista que se preza e tem auto-estima vai inventar outras formas de rebentar o avião. Já agora, mesmo despenhamentos de aviões: Você pode fabricar melhores aparelhos para evitar os acidentes do passado, mas ao fazer isso você aumenta os níveis de confiança, logo, a propensão para maiores riscos e produz, com isso, os acidentes do futuro.
Não quero com isto dizer que a moral não seja relevante. É, só que não sabemos como exactamente e, se não estiver enganado, nem nunca saberemos assim tão bem. Se pudéssemos saber, não haveria crime ou qualquer tipo de comportamento que seja que violasse seja o que fosse que descrevéssemos como moral. Muitas vezes nós os sociólogos enganamo-nos com explicações 4X4 do tipo “as pessoas roubam porque estão com fome”. O problema aí é duplo. Primeiro, há quem está com fome e não rouba. Logo, ter fome pode ser uma condição necessária, mas não suficiente para o acto. Segundo, o que é negativo no “roubo” não é necessariamente um atributo natural do próprio acto, mas sim manifestação do que nós decidimos considerar mau. Algumas reacções às agressões femininas dos últimos tempos mostram isto muito bem. Há quem diga, por exemplo, que essa violência se explica pelo facto de as mulheres estarem fartas da violência masculina. Faz sentido. Mas lá está, algumas das pessoas que usam essa explicação não iriam, nas mesmas circunstâncias, fazer isso. Logo, o patriarcado pode ser uma condição necessária, mas não suficiente para a actual violência feminina, se é que é mesmo “feminina”.
É nesse ponto onde algumas pessoas começam a falar de moral como provável solução. Já que muitas mulheres em circunstâncias idênticas não fritam os seus companheiros, as que os fritam só podem ter um déficit moral qualquer. O que dizem os sociólogos? Bom, este sociólogo diz que se calhar o problema moral está do lado das que não fritam os seus maridos. Porque se deixam maltratar e não pagam pela mesma moeda? Que tipo de pessoa é essa que aceita como normal ser maltratada e humilhada quando há óleo de cozinha e carril de amendoim de sobra? E aí vem mais uma ideia: se calhar, as que não fritam os companheiros têm um sentido económico apurado; não querem gastar algo tão precioso num canalha que não merece; se calhar acham que é dar importância demais ao fulano; se calhar não gostam do cheiro que isso depois dá... Espero que estejam a entender. Num país fortemente alicerçado na ideia de que a violência é um meio legítimo para lidar com problemas de convivência (política e social) você precisa de sociólogo para explicar porque não há mais gente a recorrer à violência, não o contrário. E a minha hipótese de trabalho é: não há mais por causa da crise. O óleo pode estar muito caro...
Onde o sociólogo pode ajudar ainda mais – e uma vez levantei essa questão – é na clarificação do conceito de “violência doméstica”. Estamos perante esse fenómeno ou não? Acho que não, mas como a esfera pública parece ter optado por definir violência doméstica como todo o acto de violência que ocorre no contexto doméstico – algo que inutiliza o conceito analiticamente – temos agora um problema. Dentre esses poucos casos de “fritura” há-de haver, de certeza, alguns que possam ser descritos dessa maneira (activa e reactiva), mas haverá também alguns que serão apenas pura manifestação da condição humana. Um conceito só é útil quando nos ajuda a fazer distinções. Quando gera confusão é ele próprio o problema.
Feliz Dia da Mulher Moçambicana com um abraço do meu primo, Célio Ndhimandhi!
Martim Miguel Lamentável esta postura, ainda mais quando vem de alguém que fez juras de amor...
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Mussa Abdula
Mussa Abdula Todo mundo fica frustrado, mas a ponto de aquecer óleo e fritar um ser humano, já passa dos limites. E me parece que a sociedade feminina gosta do rumo dos acontecimentos. Ainda hoje ouví uma anciã dos seus 60 anos a dizer que na sua juventude mulheres passavam mal pelos maridos, agora devem pagar a conta às suas netas. Mas será que a prestação de contas seria por esta via?
Benedito Mamidji
Benedito Mamidji A solução - se é que é possível - pode vir do do sector económico. Não se diz por aí que as crises são oportunidades de negócio? Alguém devia inventar um aparelho ou dispositivo que detecta óleo quente para os homens, algo que se possa instalar no celular e bipa assim que alguém se aproxima com uma penela de óleo. Seria a invenção do ano! Desculpem me o meu comentário silly 😜 para um assunto sério. É que não sei o que pensar disto
Ergimino Mucale
Ergimino Mucale Reconheço a minha incapacidade de encontrar alguma bondade e utilidade neste texto. Nisso estou frito.
Libério Matchavhani Nhantumbo
Libério Matchavhani Nhantumbo prefiro acreditar que está onda de frituras seja resultado da imitação, os médias na tentativa de informar, geram outros efeitos não esperados.

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