quarta-feira, 10 de maio de 2017

Trump tira director do FBI da frente mas pode chocar com o seu Watergate


O Presidente dos Estados Unidos despediu o director do FBI, James Comey, que liderava uma investigação a supostas ligações entre o Governo russo e pessoas próximas de Donald Trump. A justificação é outra, mas não convenceu muita gente.
Donald Trump aperta a mão a James Comey, agora ex-director do FBI
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Donald Trump aperta a mão a James Comey, agora ex-director do FBI JOSHUA ROBERTS/REUTERS
Desde o dia da tomada de posse de Donald Trump que meia América e meio mundo estão à espera do momento em que o Presidente norte-americano tropeça de tal maneira que, em vez de se estatelar no chão, aterra com estrondo num processo de impeachment. Para os críticos, esse momento ficou mais perto na terça-feira, quando Trump despediu o director do FBI, e logo na pior altura para quem devia resistir a levantar mais suspeitas – apesar de James Comey ter levado pancada tanto do Partido Republicano como do Partido Democrata no último ano, a verdade é que era ele o responsável pela investigação mais imparcial sobre um possível conluio entre agentes do Governo russo e elementos da equipa de Donald Trump durante a campanha eleitoral contra Hillary Clinton.
Como em todas as outras histórias de que apenas se conhecem os resultados finais, também esta tem várias versões. Comecemos pela oficial, assinada pela Casa Branca: o procurador-geral adjunto norte-americano, Rod Rosenstein, chegou ao cargo há 15 dias e decidiu investigar a forma como o director do FBI geriu a investigação aos e-mails de Hillary Clinton, no ano passado. No final, concluiu que James Comey cometeu vários erros e abusou das suas competências, em decisões que tanto prejudicaram a campanha de Donald Trump como a própria Hillary Clinton.
Esteve mal no dia 5 Julho de 2016, quando anunciou – antes de uma autorização expressa da então procuradora-geral, Loretta Lynch – que Clinton foi "extremamente descuidada no tratamento de informação muito sensível e confidencial", mas não recomendou que ela fosse formalmente acusada; esteve mal no mesmo dia, ao fazer "declarações depreciativas" sobre a pessoa que tinha sido investigada, ou seja, Hillary Clinton; esteve mal no dia 28 de Outubro de 2016, dias antes das eleições presidenciais, quando anunciou que, afinal, havia mais uma carrada de e-mails relacionados com a investigação a Hillary Clinton que deviam ser analisados; e esteve mal na semana passada, quando foi ao Congresso dizer que teria feito tudo igual se pudesse voltar atrás.
O caso a favor do despedimento de James Comey é sólido – ao decidir agir como agiu no ano passado, o director do FBI ultrapassou uma linha vermelha que nenhum outro quis ultrapassar nas últimas décadas, e interferiu de facto na política do país, logo no auge das eleições presidenciais. As decisões que foi tomando valeram-lhe críticas de todos os lados: no Verão do ano passado foi alvo da ira de Trump e do Partido Republicano, por não ter recomendado uma acusação contra Clinton; e a poucos dias das eleições largou a bomba dos novos e-mails e foi acusado por Clinton e pelo Partido Democrata de ter contribuído de forma decisiva para a vitória de Trump.
Mas também é verdade que Donald Trump teve inúmeras oportunidades para despedir o director do FBI desde o dia em que tomou posse, a 20 de Janeiro, e teve todo o tempo do mundo para lhe puxar as orelhas desde a vitória de 8 de Novembro, precisamente para preparar essa demissão quando chegasse à Casa Branca. Não o fez, e agora vê-se naturalmente acusado pelo Partido Democrata de ter arranjado a desculpa dos e-mails de Hillary Clinton para se ver livre de James Comey, um homem que se tornou num enorme empecilho no caminho do Presidente – ainda mais quando é o próprio Trump a levantar o assunto na carta de demissão, ao referir que James Comey lhe disse em três ocasiões que ele não estava a ser investigado. E, para aumentar ainda mais o ruído, o despedimento aconteceu horas antes da visita a Washington do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, para um encontro com o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson.

Mais fundos para investigar

Em Julho do ano passado, quando a WikiLeaks despejou na Internet uma montanha de e-mails trocados no órgão máximo do Partido Democrata – a apenas três dias do início da convenção que iria escolher entre Hillary Clinton e Bernie Sanders –, muitos olhos viraram-se para a Rússia. Desde então, a comunidade de serviços secretos dos Estados Unidos convenceu-se de que os e-mails foram roubados por hackers russos ao serviço de Moscovo, e descobriu indícios de que essa intromissão na campanha eleitoral norte-americana teve o apoio de alguns elementos que faziam parte da campanha de Donald Trump.
Foram lançadas investigações na Câmara dos Representantes e no Senado, mas o público americano sempre olhou de lado para essas comissões, porque o resultado é, quase sempre, marcado pelas divisões partidárias. Aos olhos da opinião pública, só a investigação do FBI merecia alguma credibilidade e um mínimo de independência, porque ao longo dos últimos meses o director James Comey tem batido o pé a Donald Trump – primeiro foi ao Congresso, no âmbito de uma dessas comissões partidárias, revelar que o seu FBI estava mesmo a investigar possíveis ligações entre os russos e pessoas próximas de Donald Trump, fazendo questão de dizer que o FBI não se guia por notícias nos jornais mas sim por indícios sólidos; e, mais recentemente, foi rápido a desmentir o Presidente – e sem ninguém lhe ter pedido nada – quando Donald Trump disse que Barack Obama tinha mandado colocar microfones na Trump Tower, em Manhattan.
Chegados aqui, é difícil perceber o que se segue – a única coisa certa é que Donald Trump não vai conseguir calar quem o acusa de querer pôr fim à investigação do FBI através da nomeação de um novo director que vai aceitar o cargo com a lição estudada: quem se mete com o Presidente, leva. O Wall Street Journal avança esta quarta-feira que James Comey pediu mais fundos na semana passada para a investigação sobre a Rússia – o pedido terá sido feito ao procurador-geral adjunto, o homem que recomendou a sua demissão esta semana.
Ninguém sabe o que vai acontecer à investigação do FBI, apesar de os adjuntos de James Comey terem afirmado que vai continuar sem alterações – até porque Comey era adorado pela maioria dos seus agentes mas raramente estava no terreno a procurar pistas que liguem a Rússia ao círculo próximo de Trump. A questão é que ninguém sabe quem será o sucessor de Comey, nem se estará disposto a bater o pé aos seus chefes, como aconteceu com a antiga procuradora-geral Janet Reno, que fez a vida negra ao então Presidente Bill Clinton ao apoiar incondicionalmente a investigação do procurador especial Kenneth Star, primeiro aos negócios pouco claros da família Clinton e, no seguimento disso, à relação do Presidente com a estagiária Monica Lewinsky.
Nessa época – e até há bem pouco tempo –, os Presidentes norte-americanos tinham muito cuidado a lidar com o director do FBI e com o seu chefe directo, o procurador-geral. Desde que assumiu funções, há menos de quatro meses, Donald Trump já despediu um de cada: primeiro a procuradora-geral interina, Sally Yates, por ter dado indicações ao Departamento de Justiça para que não defendesse o primeiro decreto presidencial sobre a proibição de entrada no país de cidadãos de sete países de maioria muçulmana; e agora James Comey.
Em 1993, Bill Clinton despediu o então director do FBI, William Sessions (sem relação de parentesco com o actual procurador-geral, Jeff Sessions), depois de o responsável se ter recusado a apresentar a demissão. Mas o processo foi muito menos obscuro do que o desta semana – William Sessions tinha aproveitado umas boleias de avião pagas pelo Estado para visitar a filha e tinha mandado fazer uma vedação em sua casa com dinheiro dos contribuintes. Mas a decisão acabou por sair cara a Bill Clinton. O sucessor de William Sessions, Louis Freeh, formou um trio com a procuradora-geral Janet Reno e com o procurador especial Kenneth Starr para atazanar a vida a Bill Clinton durante anos.

Watergate ou Trump a ser Trump?

O despedimento de James Comey por Donald Trump ao fim de apenas três anos no cargo (de um mandato de dez) pôs também muita gente a falar do escândalo Watergate, no início da década de 1970, que acabou com a resignação do Presidente Nixon – uma decisão que tomou para evitar a sua destituição pelo Congresso. Como meia América e meio mundo estão à espera do momento em que o Presidente norte-americano se embrulhe de tal forma que abra o caminho para a sua destituição, a comparação é inevitável.
Donald Trump não despediu James Comey num sábado, nem sequer numa noite, mas em 1973 Richard Nixon espantou o país num sábado à noite com a decisão de despedir o homem que tinha sido nomeado para investigar o caso Watergate (um assalto à sede do Partido Democrata em Washington D.C. que Nixon desvalorizava como um assalto de terceira categoria, tal como Trump desvaloriza hoje as suspeitas de ligações à Rússia como um desperdício de dinheiro dos contribuintes). No final da história quem perdeu foi Nixon – jornalistas, políticos de ambos os lados da barricada e o público em geral ficaram então com a certeza de que o seu Presidente estava a tentar esconder algo de grave. Falta saber o que o futuro vai dizer sobre o despedimento de James Comey – se tudo vai ser esquecido, como num reality show em que os acontecimentos desaparecem tão depressa como aparecem, ou se ainda se vai olhar para trás e ler esta notícia como o início do Watergate de Donald Trump.

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