terça-feira, 9 de maio de 2017

“Estamos a morrer!” O dia em que a Itália deixou 60 crianças afogarem-se


Gravações telefónicas revelam como as autoridades italianas negaram auxílio a mais de 400 sírios à deriva no Mediterrâneo durante cinco horas. Acabariam por morrer 268 pessoas, incluindo 60 crianças.
Sobreviventes do naufrágio chegam ao porto de La Valetta, um dia após o incidente.
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Sobreviventes do naufrágio chegam ao porto de La Valetta, um dia após o incidente. REUTERS/DARRIN ZAMMIT LUPI
Onze de Outubro de 2013 foi uma das datas mais negras da crise migratória desencadeada pela Guerra da Síria. Nesse dia, 268 pessoas, entre as quais 60 crianças, morriam nas águas do Mediterrâneo, perto da ilha italiana de Lampedusa, depois de um barco pesqueiro sobrelotado proveniente da Líbia se ter virado e afundado. Quase quatro anos depois, a revista italiana L’Espresso divulga agora um conjunto de cinco gravações telefónicas que revelam como as autoridades italianas ignoraram durante cinco horas os pedidos desesperados de auxílio de um médico sírio a bordo.
Segundo a revista italiana, que reproduz as gravações áudio no seu site, o primeiro alerta foi dado às 12h39. A essa hora, o centro de operações da guarda costeira italiana, em Roma, recebe uma chamada de Mohanad Jammo, um médico sírio que dá conta dos problemas a bordo, indicando a presença de “cerca de cem crianças, cem mulheres e talvez cem homens”. Na verdade, soube-se mais tarde, estavam pelo menos 480 pessoas no pesqueiro líbio.
“Por favor despachem-se. Está a entrar água. Por favor despachem-se, por favor despachem-se. Por favor. (…) o barco está a afundar-se. Juro, há cerca de meio metro de água no barco”, ouve-se na gravação.
Do outro lado, uma funcionária da guarda costeira pede as coordenadas da embarcação, prontamente indicadas por Jammo. No entanto, não é tomada nenhuma acção na sequência deste contacto.

'Ligue a Malta, ligue a Malta'

Às 13h17, o médico sírio volta a pedir ajuda. “Enviaram alguém? Somos sírios, somos cerca de 300”, diz. Uma voz masculina responde em tom impaciente: “Eu dou-lhe o número de Malta, porque está perto de Malta – perto de Malta, compreende?” Era o início de uma nova fase do incidente, em que Roma e La Valletta empurram entre si a responsabilidade pelo auxílio aos refugiados sírios.
Ao contrário do que a voz masculina alegava, sabe-se agora que o navio estava a 61 milhas náuticas da ilha italiana de Lampedusa e a 118 milhas náuticas da costa maltesa. Naquele momento, a embarcação encontrava-se em águas internacionais, numa área em que Malta era de facto responsável por missões de busca e salvamento. No entanto, havia um navio militar italiano a apenas 20 milhas náuticas do pesqueiro líbio.
A lei marítima internacional, sublinha o jornalista Fabrizio Gatti ao Washington Post, determina que a Itália tinha por isso o dever de socorrer os refugiados sírios.
É isto que Jammo diz num terceiro telefonema, às 13h48. “Eu liguei a Malta. Eles disseram-nos que estamos mais próximos de Lampedusa do que de Malta. Eu dei a nossa posição, vocês estão nas proximidades. Estamos a morrer, por favor!”, ouve-se na gravação que Gatti obteve através de uma fonte anónima maltesa.
“Estamos a morrer! Trezentas pessoas! Estamos a morrer!”, exclama o médico sírio. “Ligue a Malta, ligue a Malta”, respondem as autoridades italianas.

Troca de faxes entre Roma e La Valetta

Durante a tarde, num quarto telefonema divulgado pela revista transalpina, as forças armadas maltesas e a guarda costeira italiana continuam a debater quem deve sair em auxílio dos sírios. Refere-se até uma troca de faxes, apesar da urgência da situação. Malta está disposta a participar no resgate, mas Itália tem de agir primeiro. E eis que Roma justifica a sua recusa: o navio que está a pouco mais de uma hora do pesqueiro líbio é um activo estratégico na vigilância daquelas águas, e o resgate dos sírios implicaria posteriormente uma viagem até Lampedusa, deixando a área desguarnecida.
Às 17h07, novo telefonema de Malta para Itália. Agora, o tom é grave. Um avião maltês sobrevoou a área e confirmou que o pesqueiro líbio acabou por adornar. Há centenas de pessoas na água e La Valetta exige a Roma a mobilização dos seus meios. É só então que os italianos iniciam a operação de salvamento.
Jammo, o médico que dera um primeiro alerta cinco horas antes, ainda está vivo. A mulher e uma filha de cinco anos também. Mas para dois outros filhos, de seis anos e de nove meses, italianos e malteses chegam demasiado tarde. Há agora 268 mortos, incluindo 60 crianças.
Até hoje, a justiça italiana continua a investigar este naufrágio, um dos mais graves entre muitos outros ocorridos nos últimos anos entre a Líbia, Malta e Itália. A divulgação das gravações telefónicas vem agora confirmar as suspeitas levantadas em 2014 pela Amnistia Internacional, que questionava a prontidão da resposta italiana.

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