domingo, 14 de maio de 2017

O Salvador e a Senhora do Marquês

FESTIVAL EUROVISÃO DA CANÇÃO

Crónica. 

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13 de Maio de 2017: um dia na vida de um país que, há séculos, consegue a proeza de sobreviver aos seus habitantes. Se isto não é um milagre, ninguém sabe o que é.
Muito se escreveu nos últimos dias sobre a hipótese de estar ainda viva, afinal, a velhíssima trilogia dos três “efes”: fado, futebol e Fátima – ou, numa variação mais certeira e humorada: futebol, Fátima e festival. Quiseram Deus, os astros, os homens, o simples acaso (escolham a vossa crença), que, num só dia, se celebrassem os 100 anos das aparições de Fátima e a canonização de mais dois santos portugueses; que o Papa estivesse em Portugal, o clube de futebol mais representativo do país festejasse, pela primeira vez na História, o tetracampeonato e que, também pela primeira vez, a canção portuguesa vencesse o Eurofestival. A coincidência de tanto acontecimento extraordinário, senão inédito, não chegou para abalar a convicção dos cínicos: o país, segundo eles, estava na mesma. Mas, então, porque é que só eles, os cínicos, cheiram a bolor nesta conversa?
O “fado, futebol e Fátima” nunca foi o programa do salazarismo; foi o diagnóstico que o brilhante Salazar (a inteligência, sabe-se lá porquê, parece sempre medrar nos terrenos da maldade) fez das paixões do povo que queria domesticar. Na verdade, o Presidente do Conselho não suportava nenhum dos “efes” – não gostava de fado, tentou sempre impedir a profissionalização do futebol e foi uma única vez a Fátima, à força, um ano antes de morrer –; limitava-se a tolerá-los. Sabia bem que, se os tentasse calar, podia lançar a semente de um desagrado que ninguém conseguiria prever até onde podia chegar. Porque, na essência, nem a vida vadia do fado, nem a euforia anárquica do futebol, nem o misticismo transnacional de Fátima tinham o que quer que fosse a ver com o salazarismo; eram a sua negação.
Tudo isto se tornou evidente na ressaca do 25 de Abril: a democracia, envergonhada dos fantasmas do passado, tentou afastar Amália, Fátima e até as direcções dos clubes grandes. Deu no que deu. Em menos de nada, estavam todos de volta e mais prósperos do que nunca. Seria isso grave? Sinal de um país provinciano, bacoco, irrevogavelmente atrasado? Estranho seria. Em que nação será a religião assunto de pouco importância? Que países conhecem que não louvem os seus heróis do desporto? Que bizarra sociedade não cultivará as suas expressões artísticas?
O fado, o futebol e Fátima, lamentamos informar, tornaram-se maiores do que o país que se envergonhava deles. Pulverizaram fronteiras e tornaram-se património colectivo. Se, tantos anos depois, alguém ainda não o percebeu, é melhor que abra os olhos.
O que aconteceu a 13 de Maio de 2017 não foi a prova de um país que está na mesma; foi a prova de um país que evoluiu muito mais do que os seus críticos mereceriam. Ponha-se o coração ao largo e olhe-se aos factos: Fátima, uma pequena localidade portuguesa, tornou-se uma das capitais obrigatórias da religião com mais fiéis do mundo. O Benfica, hoje por hoje um dos clubes mais populares do planeta, juntou centenas de milhar de pessoas nas ruas para celebrar um universo, o futebol, onde, apesar da má fama, ainda se defendem os valores do mérito, do trabalho, da solidariedade e do espírito de equipa. Onde crianças e jovens pobres de todo o mundo encontram a única oportunidade de ascensão social das suas vidas. Onde estranhos se abraçam na plateia independentemente de raça, religião ou classe social. Onde, enfim, se celebram valores de uma sociedade que, fora dali, é quase sempre débil, decadente e injusta.
E, finalmente, a vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão que só por desonestidade ou ignorância alguns querem confundir com o fado. Não é pelo Festival da Eurovisão que, em si mesmo, pouco importa. Não é sequer pela canção, cujos méritos técnicos não nos cabe avaliar. É pela segurança da postura, pela integridade artística e cultural, pelo orgulho de cantar na língua materna contra o provincianismo dos estrangeirismos. É por não ser um coitadinho, nem um ressentido, por não falar pelos outros, por pensar pela própria cabeça, pelo descomplexo, pela naturalidade, por ser um vencedor. Por ser, enfim, o absoluto oposto do que o país comprazia em encontrar razões para se vitimizar.
Na noite de 13 para 14 de Maio, a canção de Salvador, escrita e composta pela irmã Luísa, soou e foi cantada a plenos pulmões no Marquês de Pombal pela multidão, instantes antes da chegada dos novos tetracampeões nacionais do desporto-rei em Portugal. E não faltava por aquela praça quem tivesse chegado, pouco antes, de ter ido ver e ouvir o Papa, cento e pouco quilómetros acima. Ali, o povo outrora triste e domesticado, celebrou a vitória, a realização, e com que naturalidade, em tantas frentes.
O que sobra do salazarismo não é nenhum “efe”; é apenas um “erre” de ressentimento. São os cínicos, os deprimidos, os velhos do Restelo inaptos para a felicidade.
Nossa Senhora do Marquês lhes perdoe.
Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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