terça-feira, 9 de maio de 2017

Não é verdade que existam excedentes na produção de milho em Moçambique

Não é verdade que existam excedentes na produção de milho em Moçambique
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Escrito por Adérito Caldeira  em 09 Maio 2017
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@VerdadeDurante o lançamento da campanha Agrária 2016/2017 o Presidente Filipe Nyusi determinou que “as culturas de milho, hortícolas, ovos e aves, são compatíveis com generalidades de solos” e por isso a sua produção deve ser massificada em todas as províncias para garantir a segurança alimentar em Moçambique. O Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar(MASA) prevê para esta campanha um excedente de 2,1 milhões de toneladas do cereal, fundamental na nossa alimentação mas também utilizado na produção de rações para animais. Porém Máriam Abbas, investigadora assistente no Observatório do Meio Rural(OMR), afirma que “não é correcto afirmar-se que existe uma sobre produção de milho em Moçambique”.
Foto do MASAEm jeito de resposta ao desafio deixado pelo Chefe de Estado, que definiu que “na produção do milho, o desafio da presente campanha é de duplicar a taxa de crescimento actual de 17% para 34%” o MASA estima que a produção global do milho em Moçambique, atinja 4.832.669 toneladas, das quais apenas 2.683.861 toneladas serão consumidas internamente e por isso haverá um excedente de 2.148.808 toneladas do grão.
“Estas afirmações podem ser baseadas no facto de os níveis de importação de milho serem relativamente baixos. Assume-se, desta forma, que as necessidades de consumo são completamente satisfeitas. O que eventualmente se pode afirmar, correctamente, é que a procura de milho é satisfeita quase totalmente pela oferta nacional, sem significar que as necessidades alimentares estejam satisfeitas”, começa por constatar Máriam Abbas, que é Mestre em Economia e docente da Universidade Politécnica, num estudo publicado recentemente pelo OMR.
Baseada em estatísticas do MASA, do Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e do Ministério da Saúde(MISAU), de 2007 a 2014, a investigadora analisou as necessidades de consumo dos moçambicanos e comparou-a com a oferta nacional,verificando “que a produção de milho está aquém das necessidades alimentares”.
“Em média, a oferta nacional cobre, aproximadamente, 40% dessas necessidades”, apurou a economista que para o cálculo das necessidades alimentares, recorreu aos dados da cesta básica que segundo o MISAU cada moçambicano deve consumir por mês, entre outros alimentos, 9,1 quilogramas de farinha de milho.
Não existe produção nacional suficiente para a satisfação das necessidades alimentares
Ministério da Agricultura e Segurança AlimentarE por isso, segundo Máriam Abbas, “Não são verdadeiras as afirmações que induzem à conclusão de que o país tem uma sobre produção de milho. O que se pode afirmar é que, a produção nacional acrescida à importação de milho (em pequenas quantidades, sobretudo como matéria-prima para moageiras e fábricas de rações), são suficientes para a procura do mercado. Esta procura está condicionada principalmente pelo rendimento da maioria da população”.
“Sendo assim pode-se deduzir que as necessidades de milho são substituídas por outros bens sucedâneos, como por exemplo, batata-doce, mandioca, verduras e outros alimentos. Esta substituição de bens considerados na literatura económica como “bens superiores” (neste caso o milho) por “bens inferiores” pode ainda ter reflexos sobre a segurança alimentar e os níveis de subnutrição da população. De notar que é nas zonas de maior produção agrícola onde a subnutrição é mais acentuada”, nota a investigadora do OMR.
“Em conclusão, não é correcto afirmar-se que existe uma sobre produção de milho em Moçambique. De facto, não existe produção nacional suficiente para a satisfação das necessidades alimentares, calculadas segundo a cesta alimentar dieteticamente equilibrada, segundo o Ministério da Saúde”, acrescenta ainda o estudo da académica moçambicana.
Director nacional de Agricultura desvaloriza estudo do Observatório do Meio Rural
O @Verdade confrontou o Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar com esta análise, Mohamed Valá, director nacional de Agricultura, reconheceu que “pode ter alguma verdade mas também pode ter alguma dose de surrealismo, muita não verdade”.
Foto de Adérito CaldeiraEm entrevista exclusiva Valá desvalorizou o estudo por ter sido realizado por uma jovem investigadora, disse que nas campanhas 2015/2016 houve uma baixa de produção, por causa do efeito do El Nino sobre o nosso país, e todo o sul do continente, mas aconselhou a investigadora do OMR que “voltasse a fazer o estudo agora, e eu posso indicar locais onde visitar, porque ela não termina o estudo”.
“Por causa da turbulência dos dois últimos anos não posso dar fé nas minhas palavras, de que tínhamos superavit na produção de milho, mas nas campanhas 2010/2011 e 2011/ 2012 e nesta vamos superar aquilo que são as produções e o mercado vai sentir”, acrescentou o director nacional de Agricultura argumentando que um sinal do “boom de produção” actual é que “no ano passado o grão(de milho) esteve até 18 meticais o quilograma hoje estão a comprar a 4 meticais”.
Mohamed Valá desvalorizou ainda o estudo por alegada pouco abrangência, a investigadora “não andou pela longitude do país”, declarou e desafiou Máriam Abbas a analisar mais, “não pode analisar o milho sine qua non, tem que analisar a cadeia toda de valor”.
“Moçambique entre os países da SADC é aquele que tem custos de operação extremamente altos, 40%. Portanto se tiras o milho a 8 ou 10 meticais em Lichinga ele chega a Maputo a 15 ou 16 meticais, então aí sai mais barato importar” declarou o director nacional de Agricultura, aludindo a preferência dos grandes produtores de rações localizados no Sul pela importação da vizinha África do Sul.

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