segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Intelectuais de Cabinda "estão-se a render" ao MPLA?

Um “erro crasso” e “rendição”. É assim que o jornalista angolano, Orlando Castro, classifica em entrevista à DW África, a integração do Padre Casimiro Congo no novo Governo provincial de Cabinda.


Orlando Castro, jornalista e analista luso-angolano


Na quinta-feira (08.02), o governador de Cabinda Eugénio César Laborinho, anunciou que o Padre e ativista Casimiro Congo vai ser o novo secretário provincial de Educação, Ciência e Tecnologia de Cabinda. Também, surpreendeu as pessoas ao indicar para assumir a pasta da Saúde, Maria Carlota Ngombe Victor Tati, esposa do deputado independente pela UNITA, Raúl Tati. Na sequência do anúncio, surgiram várias reações de diversos setores da sociedade a criticar, em particular, o Padre Congo por ter aceitado o cargo e deixar de lado a sua luta pela independência de Cabinda.

Para o jornalista e analista angolano, Orlando Castro, estas nomeações "é uma jogada do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), versão João Lourenço”. Ele considera que para aqueles que sempre defenderam a "autonomia" e a "independência" de Cabinda foi "um erro crasso esta rendição ao MPLA”. Por outro lado, defende que "do ponto de vista de Angola, das virtudes e da generosidade que o João Lourenço está a fazer em relação a Cabinda, entendendo Cabinda como uma província de Angola, até pode ser bom”.

DW : As recentes nomeações para o Governo provincial de Cabinda estão a dar que falar. Como é que interpreta as escolhas do Governo?

Orlando Castro (OC) : Interpreto como uma jogada de mestre do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), versão João Lourenço. É uma forma de a massa cinzenta intelectual de Cabinda ter atirado a toalha ao chão, rendendo-se ao poder do MPLA ou ao poder de Angola.

DW : Estas nomeações podem indicar uma nova abordagem de João Lourenço em Cabinda, mas de uma forma negativa?


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Intelectuais de Cabinda estão a render ao MPLA?

OC : Numa forma negativa na perspetiva dos cabindas que sempre defenderam o caminho da independência, como foi o caso do Padre Casimiro Congo. E portanto, neste sentido, dos que defendem a autonomia até a independência de Cabinda, acho que foi um erro crasso esta rendição ao MPLA. Do ponto de vista de Angola , das virtudes e da generosidade que o João Lourenço está a fazer em relação a Cabinda, entendendo Cabinda como uma província de Angola, até pode ser bom. Acredito que venha a ser bom. Há, de facto, uma colisão entre estas duas teses. A tese dos que defendiam a independência, como foi o caso do Padre Congo, não se coaduna com esta aceitação de um cargo de um Governo que ele chamava de colonial. O Padre Casimiro Congo dizia que o MPLA, Angola no caso, era potência ocupante de Cabinda. E portanto, para esta gente que defendia isto, aceitar estes cargos é uma rendição.

DW : Nas redes sociais, as nomeações já estão a gerar alguma contestação. Entende portanto que os cabindas, principalmente os mais críticos, têm razão para estarem apreensivos?

OC: Têm nesta perspetiva, digamos política, em relação àquele território. E estão sempre em confronto estas duas teses. Do ponto de vista da população, que aceita, se é que aceita, pacificamente, ser uma província de Angola, isto até poderá ser bom, porque o MPLA está com uma nova filosofia em relação ao território e pode melhorar as condições de vida do povo de Cabinda, o crescimento económico pode ser mais sustentável e pode haver uma grande evolução em Cabinda, isso é um aspeto. Do aspeto histórico, que por acaso é o que eu perfilho, que Cabinda não faz parte de Angola, aí perdem toda a razão. Alias, já houve casos antecedentes: Bento Bembe também tinha estas ideias e depois foi "comprado" pelo MPLA e passou a integrar o Governo. O que nós estamos a assistir, é que as pessoas com mais capacidade intelectual e política de Cabinda a renderem-se às mordomias que o regime do MPLA lhes vai dando.




Artivismo: a arte política de André de Castro
"Liberdade Já" em serigrafia

A arte pode ter uma missão política - é o que prova esta exposição de André de Castro, a primeira mostra a solo do artista visual brasileiro na Europa. Este primeiro painel à entrada da exposição, em Lisboa, é um tributo aos presos políticos angolanos. O autor deu-lhe o título de "Liberdade Já", slogan que alimentou o movimento de solidariedade internacional pela libertação dos ativistas.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Debate sobre política internacional

Tanto este projeto "Liberdade Já" (2015) como "Movimentos" (2013-2014) tiveram repercussão mundial. O artista brasileiro destaca, através das suas obras, os jovens presos políticos de Angola, libertados em 2016. As suas imagens acabam por incentivar o debate sobre acontecimentos políticos internacionais.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Os "revús" compõem o painel…

O artista compõe o painel com "monoprints" em serigrafias repetidas. Aqui podem ver-se alguns dos jovens angolanos presos em Luanda, em 2015, por discutirem um livro sobre métodos pacíficos de protesto. Luaty Beirão, Domingos da Cruz, Nuno Álvaro Dala, Nito Alves, Benedito Jeremias e Nelson Dibango, entre outros, foram julgados pelo crime de atos preparatórios para a prática de rebelião.


Artivismo: a arte política de André de Castro
… e multiplicam-se pelo mundo digital

O luso-angolano Luaty Beirão foi escolhido como símbolo do ativismo político, dando força à exposição, com a curadoria da Muxima. Os retratos multiplicaram-se no mundo digital, foram reproduzidos em t-shirts e posters. A venda das serigrafias expostas em mostras coletivas em Lisboa e Nova Iorque, em 2016, reverteu integralmente a favor das famílias dos presos políticos angolanos.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Além de Angola...

Em dezembro, André de Castro comemorou com as irmãs a abertura da exposição em Lisboa, que também apresenta rostos de ativistas como José Marcos Mavungo, advogado e ativista de Cabinda. Além de Angola, o artista desafia os visitantes a revisitar o movimento da Primavera Árabe. Dá a conhecer as pessoas e as suas lutas, propondo um ângulo mais pessoal e humano na narração do momento histórico.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Arte como ator social

No interesse do público e das comunidades, o artista brasileiro assume ser um promotor social. "Ao expor 'Movimentos' e 'Liberdade Já' juntos, a mostra permite um recorte da arte como ator social, questionando intenção, receção, apropriação e estética nas ruas e na internet", afirma André de Castro. É o que mostra a coleção "Movimentos", colocada na outra parede da sala.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Coragem para mudar o mundo

Nesta segunda parede, André de Castro imortaliza várias causas em diversas partes do mundo. São mulheres e homens que recusam aceitar a forma como são tratados pelos respetivos Estados. Acreditam, tal como o autor da exposição, que o mundo pode ser muito melhor. Por isso, com coragem, decidiram sair à rua.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Identidade política dos manifestantes…

Este primeiro projeto de André de Castro, em 2013, foi selecionado para a 11ª Bienal Brasileira de Design Gráfico e visto por mais de 40 mil visitantes, passando por Miami (2013), Nova Iorque (2014) e Brasília (2015). As serigrafias, que resultam de entrevistas realizadas através das redes sociais, retratam as identidades políticas dos manifestantes de diferentes países.


Artivismo: a arte política de André de Castro
… e cultura das manifestações

Através das serigrafias, o artista procurou valorizar a força da ação individual dos manifestantes. Cada participante enviou uma foto de rosto, usando as redes sociais, e respondeu a uma série de perguntas sobre a sua identidade política. Assim, foram criados retratos políticos individuais que, em conjunto, formam uma mini etnografia da cultura material e imaterial das manifestações.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Do outro lado do mundo

Em Nova Iorque, no Zuccotti Park, a sugestão original foi ocupar Wall Street, símbolo dos capitais financeiros internacionais. Porque, afinal, foi a especulação de capitais que deu origem à crise que atormentou o mundo há anos. Questiona Daniel Aarão Reis, ao apresentar a exposição: "Como aceitar que os responsáveis não ficassem com o fardo principal das medidas de superação desta mesma crise?"


Artivismo: a arte política de André de Castro
Novos dispositivos de mobilização

A arte política de André de Castro, que também evoca figuras como Ghandi e Martin Luther King, faz lembrar a tradição dos grandes movimentos dos anos 1960, que dispensava partidos e sindicatos. Ao invés disso, surgiram novos dispositivos de mobilização e de ação.


Artivismo: a arte política de André de Castro
Espelho D’ Água valoriza as serigrafias

A exposição, que também será posteriormente exibida no Porto (a norte de Portugal), encontra-se no Espaço Espelho D’Água, em Lisboa. A calçada deste espaço, tipicamente portuguesa, foi construída com base numa obra do autodidata artista plástico angolano, Yonamine, que tem vivido em diversos países de África, Europa e América do Sul.

Autoria: João Carlos (Lisboa)

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Artivismo: a arte política de André de Castro

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Áudios e vídeos relacionados


Intelectuais de Cabinda estão a render ao MPLA?


Data 09.02.2018
Autoria Raquel Loureiro
Assuntos relacionados União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Petróleo, Eleições em Angola, Eleições de 2017 em Angola, José Marcos Mavungo, Raúl Danda, Raul Tati, João Lourenço, Abel Chivukuvuku, Isaías Samakuva
Palavras-chave MPLA, nomeação, Orlando Castro, Cabinda, intelectuais, Eugénio César Laborinho, Casimiro Congo, UNITA
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