domingo, 18 de dezembro de 2016

O que é a coerência, o que é a indiferença?


Alvaro Simao Cossa adicionou 2 fotos novas.

O que é a coerência, o que é a indiferença? Só a natureza sabe responder estas perguntas porque as observa sem cor de bandeira, sem lavagem cerebral e sem emoção, isso é para nós que estudamos em Cuba, na URSS ou na Correia do norte, para aqueles que estudaram em Malawi, na inglaterra e na Suíça nem tão pouco lhes diz respeito. Mas para os analfabetos que sabem que só a natureza que é sempre sincera e nunca mente, que contempla a morte com ar indiferente, que não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo, entregando a vida do animal e também a do homem a todos os acasos e não fazendo o mínimo esforço para salvá-los, pode ser coerente e indiferente. Os analfabetos sabem que só a natureza, mãe soberana e universal de todo o criado, sabe que quando seus filhos sucumbem, voltam ao seu seio, onde os conserva ocultos, expondo-os a mil perigos sem temor algum; a sua morte é para ela um divertimento, um simples jogo. A natureza é indiferente no que se relaciona ao homem ou ao animal; não se deixa impressionar connosco, durante a vida ou na morte. Com a morte de Fidel Castro e com o assassinato de Valentina Guebuza pude ver que alguns daqueles que querem ensinar-nos a moral não tem direito nenhum de faze-lo, porque são a imoralidade em pessoa. A morte destas duas pessoas foi um teste muito grande para mim, estas duas mortes provaram a imoralidade daqueles que gostam de interferir-se na nossa moralidade, ainda tenho muito para dizer, mas por agora digo ao Lyndo A. Mondlane, Licas Lajum, João Langa Muianga e ao Gabriel Muthisse que sois a minha admiração por terem provado que a morte de qualquer pessoa nos deve unir. Aqueles ideólogos que celebraram a morte de Fidel e enlutam-se com a morte de Valentina Guebuza e vice versa, são cínicos, impudentes. Alguns dirão-me que foram indiferentes com a morte de Fidel ou com a morte da Valentina, mas a indiferença como sentimento neutro diz-nos que alguém não sente, nem sofre, portanto, este sentimento mantém à margem a pessoa que se comporta assim. Pelo que eu saiba, a indiferença é um golpe que suas garras produzem feridas muito dolorosas em outras pessoas, portanto a indiferença vé-se como ofença á moral, perante a morte.

Ficar indiferente perante a morte de seu semelhante é atribuir-se uma série de adjetivos que não têm quase nada a ver com o ideal de uma pessoa virtuosa. É associar-se à insensibilidade, ao desapego e à frieza, características que não combinam muito com a condição social de uma pessoa bem educada, porque como seres humanos vivemos e relacionamo-nos mutuamente, e a morte é uma dor que visita todas as familias, ela socializa-nos e une-nos.
Os Hunos (grandes guerreiros do século IV) se inclinavam em frente dos inimigos que matavam, como sinal de respeito a vida humana. Ser indiferente quer dizer que nada te interessa, mesmo que estejas seguros de que isto é assim, é preciso perguntar, se também, é possível conseguires isolar tuas emoções, desta forma, perante uma morte de teu semelhante?

Veronica Macamo Dlhovo Castigo Langa Lica Barai Francey Zeúte
Amosse Macamo Egidio Vaz Dino Foi Edgar Barroso Chil Emerson David Daúde Guebuza Júlio Mutisse Egidio Vaz Julião João Cumbane Homer Wolf


Comentários


Lyndo A. Mondlane Aquí a celebracao da morte de outrem, é constituitivo de delito...
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Francey Zeúte Obrigado pela partilha meu velhote. Já muito se escreveu sobre as duas mortes, do Fidel e agora da Valentina e, há aqui um denominador comum. Estas duas mortes dividem emoções. Uns sentidos e solidários e outros nem por isso. Mas, para mim, a questão central é : O ódio ventilado aqui pelas redes sociais e não só em razão do assassinato bárbaro da Valentina vai reparar a indignação que estás pessoas têm para com o pai da vítima? Não me atenho na justiça ou injustiça desse ódio por AEG, mas na morte em si.

A morte visita todas as famílias.
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João Langa Muianga Aprendi ainda pequeno a respeitar a morte, não me era permitido ir ao cemitério até certa idade, recordo-me quando morresse alguém numa família evacuavam-se as crianças para uma outra casa e etc. Hoje em dia alguém é acidentada na estrada, crianças estão lá a assistir e com seus smartphones fazem poses diante do morto, acontece nos cemitérios, crianças vivem lado a lado com a morte.
Na cidade de Maputo pessoas vivem ou tem suas casas dentro dos cemitério, pai e mãe acordam e sentam-se nas campas para fazer banho do sol!
Como estas pessoas vão respeitar o morto e suas famílias?
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João Langa Muianga As pessoas devem saber que basta haver vida que haverá infalivelmente a morte, uns cedo outros tarde. A vida é irmão gémeo da morte.
Ninguém vai escapar dessa!
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Guida Guambe Guambe Nascemos e encontamos a morte,devemos respeitar a dor da família que recebe a visita da morte,a morte visita todas as familias.
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Manjate Custodio Dizia um pensador" o Homem é ser a morte". Crise da moral abala as sociedades actuais. Me parece que a existência duma igreja e escolas em cada esquina acelera o declínio da moral. Muitos batem palmas por uma morte, meu Deus que sociedade estamos a construir.
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Alvaro Simao Cossa Pour vous, mon compagnon de l'université Amadou Isaac Diallo, je vous remercie que vous lisez mes pensées, il doit être difficile de tout comprendre en français, mais l'essence est clair, un câlinVer Tradução
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Licas Lajum C'est bien il y a des francophones ici
Je suis ravis de reencontrerVer Tradução
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Amadou Isaac Diallo Merci. Bon dimanche à tous



Licas Lajum O mundo está de pernas para o ar e a gente nem se deu conta ...
eu só consegui me aperceber disso quando vi não apenas crianças mas senhoras que são mães que um dia podem perder
Seus filhos brutalmente a comemorarem
A mandar piadas num momento de infortúnio e dor como está
A dor devia nos humanizar mas ao invés disso nos torna frios e insensíveis
Enfim o inferno já chegou
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Dino Foi O mundo já não é um sítio bonito para se viverChengui Jaime

O ENTERRO

Esse enterro não tem nada a ver com a morte de nenhuma empresária e nem com a filha de um ex-presidente. Apesar do título sugestivo, não aconteceu nenhuma fatalidade. O enterro revela-se quando é possível, o que nem sempre acontece.

Num golpe fortuito, andando por aqui e por ali, vendendo isto e aquilo na rua, batendo esta e aquela porta, consegui uma avença que mudou radicalmente a minha vida. Consegui um emprego numa das instituições mais pujantes do país, uma ONG (Organização Não Governamental) filiada às Nações Unidas, vocacionada em assistir as comunidades rurais em Moçambique, nas mais diversas áreas. Como é óbvio, o seu escritório-sede localiza-se em Maputo. Nesta altura de conflito político-militar é muito perigoso viajar para alguns distritos das províncias do centro e norte do país, apesar de existir escoltas militares nas zonas de incidência dos confrontos armados entre as forças beligerantes.

Trabalho no economato da empresa e entre esta e outras tarefas zelo especialmente pela assistência administrativa. Foi assim que comecei a ter acesso a informação que para muitos era Classificada. E foi assim que tomei conhecimento deste enterro.

A empresa tem um invejável naipe de profissionais. Entre eles contava-se um jovem iluminado encarregue de todos os contenciosos da empresa. Não me lembro de um único caso em que não tenha sido ganho. Obviamente que para conseguir tamanho sucesso era forçado a viajar com muita frequência pelo país inteiro de modo a inteirar-se "in loco" dos problemas. De avião, claro. É óbvio também que a empresa pagava-lhe subsídios chorrudos por essas deslocações e pelos riscos associados. No regresso de cada missão tinha que prestar contas e apresentar os respectivos justificativos. Com as despesas de alojamento corria tudo bem, nessa altura de crise económico-financeira, os hotéis andam exageradamente baratos. O turismo entrou em letargia e são poucos os clientes que procuram serviços de hotelaria. Já com os recibos de alimentação o mesmo não se pode dizer. As contas de bebidas eram uma verdadeira tormenta. Assustadoras. Acabei sabendo que apesar da sua extraordinária inteligência e perspicácia, o meu colega era alcoólatra, o que mesmo assim não constituía empecilho algum ao cumprimento das suas obrigações. Nunca nos deixou mal. Assim que o problema foi descoberto a empresa acarinhou-o e deu-lhe o necessário aconselhamento para que passasse a dissimular as despesas inaceitáveis nas contas de comida. Antes disso chegava a apresentar recibos de um jantar onde apareciam discriminadas numerosas caixas de cerveja. Sim, caixas... Uma vez aconselhado a situação melhorou.

Problemas mais graves surgiram no entanto quando o nosso génio foi contemplado com uma viatura todo-o-terreno, de uso pessoal. No princípio tudo corria-lhe de feição. Estimava o carro como se de um filho se tratasse. Só que como o álcool e o volante não combinam, cedo recomeçaram os problemas. Hoje uma árvore derrubada nesta esquina, amanhã um poste de sinalização naquela esquina. No fim da primeira dúzia de acidentes, com elevados custos para a empresa, o doctor recebeu um ultimato: "mais um acidente e perdes o emprego".

Passado algum tempo aconteceu um insólito nas trevas que só o destino conseguiu trazer à luz. Numa bela manhã o doctor fez-se ao serviço à pé e comunicou que o carro tinha sido roubado na véspera. Não importa agora a história que ele contou, o certo é que todos acreditámos. Passou então a ir ao serviço à pé ou na boleia dum vizinho amigo. Decorreram meses sem que acontecessem novos episódios ao seu estilo.

Até que num belo dia bateu-me à porta um velho franzino mas de compleição muito forte. Trajava de forma andrajosa, o que levou-me a presumir erradamente que fosse alguém à procura de emprego no lugar errado. Surpreendentemente tratou-me pelo nome. Estendi-lhe a mão num gesto de cortesia. Afinal apesar de vestir-se de forma miserável era muito mais velho do que eu e merecia todo o meu respeito. Até podia tratar-se dum familiar desconhecido. Perguntou-me se conhecia um doctor fulano, nosso colega, que até há alguns dias andava dum Ford Ranger Wildtrack branco. Acenei afirmativamente. Perguntou-me se a empresa conhecia as razões do desaparecimento misterioso da viatura, ao que mais uma vez respondi afirmativamente: "Claro que sabemos. Ele comunicou o roubo logo no dia seguinte e o caso já está nas mãos da polícia". Olhou-me com sisudez misturada com um sorriso irónico azedado pelas imensas rugas que cobriam-lhe o rosto. Contou-me a verdade. Uma história simplesmente sórdida. Fiquei passado...

Poucos dias depois de receber o ultimato da empresa, o doctor voltou a ter um acidente atípico. Provavelmente vinha de algum bar da baixa da cidade, seguindo para a nascente pela Avenida 25 de Setembro. Uma vez na rotunda, ao acelerar, na tentativa de subir velozmente a rampa da Ponta Vermelha, junto à Escola Náutica, terá galgado o passeio e embatido na pequena muralha de betão que segura as terras da encosta. Atento à gravidade peculiar do acidente, o 13°, desgrudou o carro da parede e conduziu cautelosamente até chegar à zona alta da Polana. Pelo caminho caíram alguns pedaços que se haviam soltado com o embate, incluindo um farolim. Não parecia muito preocupado.

Uma vez em casa manobrou a viatura até às traseiras do prédio. Com a ajuda do guarda e sem qualquer alarido, muniram-se de picaretas, pás e baldes e abriram um enorme buraco no quintal. No silêncio cúmplice da noite os dois, com uma força descomunal arrastaram o carro à cova. Exausto, instruiu o guarda para que tapasse o buraco e fizesse desaparecer quaisquer indícios do que acabava de acontecer. Selado o acordo, foi dormir sossegado. Só não plantaram flores.

Teria ocorrido tudo bem nessa artimanha se não tivesse, o nosso doctor, pensado que o guarda por ser pobre era burro e que não merecia a menor consideração. Passaram dias. Sempre que o patrão chegasse à casa cambaleante, o guarda, como quem está a brincar, mas com o maior respeito e descrição, perguntava-lhe quando é que haveria de pagar-lhe pelo enterro. O doctor persistia em ignorá-lo, uma vez, duas vezes, todas as vezes. Até que o guarda decidiu procurar-me, não sei quem falou-lhe de mim, e a verdade veio ao de cima.

Mobilizamos uma equipa e fomos ao quintal do nosso colega. Não foi preciso desenterrar completamente o carro. Os primeiros golpes de picareta expuseram o tejadilho ainda com a cor viva incólume. Tiramos fotos e filmamos, incrédulos. Não sabíamos que os carros, uma vez mortos, também são dignos duma sepultura. Enquanto prosseguia o resgate, a vizinhança mal podia acreditar no que os olhos viam: o ressuscitar duma viatura em pleno quintal.

A artimanha do nosso jovem doctor valeu-lhe a expulsão da empresa e um cadastro profissional manchado para sempre. Oxalá esteja arrependido. Hoje, na nova empresa onde trabalha, recebeu uma "four by four" de alienação. Tem muita sorte esse "gajo"! Não vá o diabo voltar a tecê-las...

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