segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Turquia bane Natal em escola alemã e irrita Berlim

ALEMANHA


Colégio em Istambul financiado por dinheiro público alemão é proibido de realizar atividades natalinas com alunos. Governo Merkel chama decisão de lamentável, e políticos falam em ataque à liberdade religiosa.
Lisesi Schule Istanbul Türkei (picture-alliance/dpa/L.Say)
A centenária escola em Istambul: "não se poderá mais lecionar ou cantar sobre os costumes de Natal"
Causou irritação no governo em Berlim a decisão das autoridades turcas, tornada pública neste domingo (18/12), de proibir celebrações de Natal numa tradicional escola alemã em Istambul. O caso, afirma a imprensa alemã, tem potencial para azedar ainda mais as relações bilaterais.
A "Istanbul Lisesi", escola pública de ensino médio, existe há mais de um século. Nela, lecionam 35 professores alemães, pagos, segundo a revista Der Spiegel, com dinheiro do contribuinte alemão. O colégio é considerado um dos melhores do país, e recebe milhões de euros por ano da Alemanha.
"Nós não entendemos a surpreendente decisão da diretoria da Istanbul Lisesi", afirmou neste domingo o Ministério das Relações Exteriores alemão. "É lamentável que a boa tradição pré-Natal de troca intercultural em uma escola de longa tradição turco-alemã tenha sido abandonada neste ano."
O deputado Franz Josef Jung, encarregado para assuntos de religião da União Democrata Cristã (CDU) no Parlamento alemão, descreveu a decisão como "totalmente inaceitável". Ele cobrou uma reação das autoridades alemãs.
"Se a República Federal Alemanha financia os professores nessa escola, ela também tem o direito de determinar o conteúdo das aulas", afirmou o correligionário da chanceler federal Angela Merkel. "O governo alemão precisa insistir nisso em Ancara."
"Destruindo pontes com a Europa"
Andreas Scheuer, secretário-geral da União Social Cristã (CSU), partido bávaro membro da coalizão de governo, tratou o caso como um atentado à liberdade religiosa. "É mais uma prova de que a Turquia de Erdogan quer destruir todas as pontes para a Europa", disse à imprensa alemã.
Embora reconhecida por Berlim como uma escola alemã, a Istanbul Lisesi é tradicionalmente frequentada apenas por alunos turcos. Ela é gratuita e aberta também a estudantes de famílias pobres. O critério de seleção dos alunos é desempenho escolar.
Ao fim do curso, os alunos têm a oportunidade de fazer o vestibular alemão e estudar na Alemanha. Metade dos professores vem da Alemanha, e a maioria das matérias é ensinada em língua alemã.
O diretor da escola foi apontado no ano passado diretamente pelo Ministério da Educação da Turquia. Por isso, o caso está sendo tratado na Alemanha como uma ordem direta das autoridades turcas.
"De acordo com uma decisão da diretoria da escola, não se poderá mais lecionar, informar ou cantar sobre os costumes de Natal e a festa cristã durante as aulas", diz um e-mail enviado na terça-feira pela chefia do departamento alemão da escola ao corpo docente.
Oposição cobra governo
Porta-voz do Partido Verde no Parlamento para assuntos de Educação, Özcan Mutlu, afirmou estar "simplesmente chocado" com o caso. "Tem que haver consequências", disse o deputado alemão, que nasceu na Turquia. Segundo ele, se as autoridades turcas não voltarem atrás, o financiamento alemão à escola deveria ser revisto.
O deputada do Partido A Esquerda Sevim Dagdelen, que tem ascendência truca, argumentou em tom ainda mais alto: para ela, o governo alemão não pode financiar uma escola se "na ditadura islâmica" de Erdogan "até a menção ao Natal é proibida".
A Turquia de Erdogan é um aliado crucial para o governo lidar com a crise migratória na Europa, já que aceitou receber de volta imigrantes que partem de seu território rumo à Grécia. O acordo fez a quantidade de refugiados em território europeu despencar em 2016 frente ao ano anterior.
Desde a tentativa frustrada de golpe contra Erdogan, em 15 de julho, as relações entre Alemanha e Turquia vêm se deteriorando. Em diversas ocasiões, Berlim manifestou preocupação com a repressão pós-golpe, que resultou na prisão de cerca de 37 mil pessoas e na demissão ou suspensão de mais de 100 mil funcionários do governo.
RPR/dpa/ots

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