segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Tolerância Zero!

Tolerância Zero!

Tenho resistido a iniciativas de abordagem profissional sobre assuntos ligados aos períodos de festa, mormente da quadra natalícia e do fim do ano.
Não escrevo sobre se os preços dos produtos se agravaram ou não. Posso fazer uma confidência: desde 1993 que não faço isso, porque nessa altura alguém me convenceu que se tratava de uma forma teatral de estar na profissão que escolhi.
Para ser directo: foi o saudoso Alberto Viegas, o autor do ” O que nos dizem certos animais”, o filósofo das terras macuanas de Carau, em Cuamba, em Niassa e Nampula, muito particularmente de Lunga, no litoral da última província.
Na altura, a cidade de Nampula tinha a triste fama de ser a mais cara do país e por encomenda da minha chefia de redacçao, em Maputo, eu devia escrever sobre os preços na quadra festiva. Ele perguntou-me que sentido tinha isso, escrever que os preços eram altos numa cidade onde sempre o foram. Penitenciei-me, dizendo claramente que tinha sido mandado escrever pela chefia.
Em 1997 fui viver em Pemba, na altura em que coincidentemente, a capital de Cabo Delgado tinha recebido de Nampula o estatuto da cidade mais cara de Moçambique, o que se prolongou e piorou quando a linguagem dos hidrocarbonetos passou a ser familiar. Na altura em que os bolsos da maioria dos pembenses não suportavam os preços de peixe tirado a seus pés e era preferível ir à estação dos “chapas” receber o proveniente de Nampula, que por sua vez se localiza a cerca de 200 quilómetros do mar. Paradoxo, não é?
A subida do preço dos produtos alimentares em períodos festivos passou a não constar da minha agenda e a chefia, em Maputo, só se apercebia mais tarde que entre os textos enviados no fim do ano, por mim feitos, não constava esse tema. Evitava teatralizar, segundo me tinha convencido o velho escritor, Alberto Viegas.
A outra forma de estar na profissão que não passa de teatro, ainda que recorrente, diz respeito à predisposição de reproduzir o que dizem as autoridades de diversos sectores em períodos afins. Que pontualmente declaram que a tolerância será zero.
É assim que diz a Policia em relação a acidentes rodoviários e a criminalidade em geral, quando entramos na última quadra de cada fim e princípio do ano; é assim que diz o comércio quando quer fazer entender que o controle aos desonestos será rigoroso visando não permitir que se ataque impiedosamente os bolsos do cidadão.
Toda a comunicação social vai gritando nas vésperas e durante as festas (e por favores mais alguns dias depois) que a tolerância é zero conforme dizem os titulares dos sectores que pretendem mostrar serviço por tal ocasião. A preguiça profissional, infelizmente, não dá tempo à maioria dos escribas a perceberem como são os preços ao longo do ano.
A preguiça que às vezes também se apossa de nós aos fins do ano, não nos ajuda a ter força de questionar em que escala é medida a tolerância nos outros meses, se bem que a afirmação é quase declarativa de que não tem sido Zero. Porquê?
Quer dizer, durante o ano são aceites os acidentes, a subida de preços nos diferentes mercados, a viciação de balanças, desde que não se faça na quadra festiva, pois aqui, a tolerância é zero.
É assim que a única padaria de Inharrime pode vender o pão do tamanho que só há três dias não deve. Então, também parece teatral, que a tolerância seja 10, 8, 7, 5, 3, 2, 1, ao longo do ano, e só seja zero na quadra festiva.
Pedro Nacuo

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