segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Cidade de peregrinos!

Cidade de peregrinos!

A capital de Niassa, Lichinga, é de uma pacatez exacerbada e de fartura nos mercados. Tudo o que vai para a panela é baratucho, excepto produtos manufacturados que são todos importados. Porém, quando o assunto é sair dum bairro para outro, os pés exercem por completo a sua função.
 É caminhar como um peregrino à cata de perdão e bênçãos divinas! Não há “chapas”, nem mesmo de caixa aberta. Um e outro se empoleira numa bicicleta, quem tem uma emergência vai de táxi-mota e os mais abastados recorrem aos táxis comuns.  
Visitar Lichinga é um exercício reservado a poucos. Não basta querer, até mesmo para quem reside nas províncias vizinhas de Cabo Delgado, Nampula e Zambézia. As estradas, de terra batida, são o principal problema, sobretudo na época chuvosa, onde a perícia esgota e resta uma realidade nua e crua de derrapagens em lodo de proporções industriais, daquelas que poderiam animar um Rally Paris-Dakar.
Um exemplo simples é o da via que liga Cuamba, a segunda maior cidade de Niassa, à capital provincial. Há dias, a nossa equipa de Reportagem foi forçada a cancelar a ida ao distrito de Ngaúma, que fica a meio desta via porque choveu a cântaros e a transitabilidade ficou comprometida em vários pontos. Entre Mandimba e Cuamba nem se fala. Nem o mais aventureiro local mete o seu carro naquele troço.
Nem as viaturas com tracção às quatro rodas que nos foram disponibilizadas seriam capazes de fazer aquele percurso e voltarem sem “lesões”. No lugar de Ngaúma, fomos espreitar as entranhas do distrito de Metangula, abençoado pelo magnífico Lago Niassa e por uma das poucas vias asfaltadas da província.
A linha férrea Nampula-Cuamba-Lichinga é outra dor de cabeça. Está em “coma ferroviária” resultante da degradação do trilho que, na maior parte do troço, tem capim e arbustos que servem de prova de inexistência de sinais vitais há algumas luas. Aliás, o que encarece os produtos manufacturados é exactamente o sumiço dos comboios que fazem meia volta em Cuamba, que dista a cerca de 300 quilómetros (km) de Lichinga.
Na fase mais doentia daquela linha, o maquinista ia na cabina com “empreiteiros” de picaretas, pás e enxadas em punho para “desentupir” a via manifestamente prenhe de obstáculos vegetais. Aqueles cerca de 300 km eram percorridos em puro regime de aventura e a uma velocidade de marcha nupcial.
Relatos colhidos em Lichinga indicam que há cerca de três anos que o comboio deixou de circular. Para fazer aquela distância, a composição ferroviária levava cerca de quatro dias mas, há quem continua a considerar que, mesmo assim, era vantajoso para a comunidade local pois, o preço de bens básicos, e até mesmo dos materiais de construção se mantinha controlado.
Naquela altura, o comboio “gatinhava” mas, o saco de cimento custava até 300 meticais regateáveis. Sem aquele meio de transporte, e dependendo da época, o preço do cimento pode ultrapassar confortavelmente os 500 meticais sem espaço para negociações.
Lá pelos ares as coisas também não são pacíficas. As Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) realizam seis voos semanais (todos os dias da semana excepto quarta-feira) mas, por vezes, a aterragem fica dependente da disposição das nuvens que podem impedir a visibilidade da pista ao ponto da tripulação resignar e regressar para a cidade de Nampula para aguardar por melhor estado do tempo.
Outro fenómeno que torna Lichinga uma cidade única é o tipo de areia que faz o solo dos bairros. Nos meses secos e de algum vento, um manto de poeira vermelha cobre pessoas, viaturas, edifícios, vegetação e fauna doméstica. Para quem segue viagem em bicicleta, motorizada ou na carroçaria de uma camioneta, está condenado a chegar ao destino a fazer lembrar o actor Terence Hill, no filme “Trinitá, o cowboy insolente”.
No reverso da situação, a época chuvosa, as vias que ligam os bairros se transformam em pistas de lodaçal, onde um caminhante incauto corre ao risco de protagonizar uma escorregadela digna de uma pista de patinagem artística. Enfim.
Cidade a crescer  
Há cerca de dez anos, a cidade de Lichinga tinha limites geográficos enxutos, em apenas uma manhã era possível percorrer todas as vias e bairros. Hoje, esta urbe conta com vários pontos de recreação que fazem lembrar cidades como Maputo, Beira e Nampula.
A título de exemplo, o bar Vardial, nas imediações dos Correios de Moçambique e do Pavilhão Aeroclube, é um autêntico ponto de concentração de jovens e adultos em momentos de lazer. Para os fanáticos de grelhados, surgiu um lugar chamado Mavie, que é uma mescla de bar, restaurante e discoteca, diga-se de passagem bastante concorrida, sobretudo por forasteiros.
Para os apreciadores da noite e suas fantasias, Lichinga oferece uma discoteca denominada Rodízio. O nome até gera alguma saliva na boca, por induzir à ideia de que se degustam picanhas, mama de vaca, feijão preto, ananás assada, entre outros. Na verdade, aquele Rodízio de Lichinga é pura pista de dança. Sem mesa e cadeiras.
Tem ainda um lugar chamado Ponto de Encontro que atrai gente de todas as origens à semelhança de Translândia, localizado no troço que leva às instalações da Universidade Pedagógica. Como é de imaginar, mais para o interior dos bairros há unidades mais pequenas que concorrem entre si.
No que se refere à construção de residências e empreendimentos públicos, comerciais e industriais, Lichinga bate o seu próprio recorde, tendo em conta as dificuldades que todos enfrentam para adquirir materiais de construção, particularmente o cimento, chapas de zinco, barrote de madeira, material eléctrico, varões, entre outros.
É que, todos estes materiais são produzidos em outros pontos do país e “exportados” para Lichinga através de camiões que enfrentam estradas de bradar aos céus. Como é sabido, o governo está a aplicar vários milhões de dólares na construção de uma estrada asfaltada que deve ligar Nampula-Cuamba-Lichinga mas, enquanto a obra avança ao seu ritmo, a espera pelo fim das obras enerva.
Tudo a pé!
Estamos a crescer mesmo assim”, cantou Dog Murras, um músico angolano que fez furor em meados da década de 90. De facto, apesar de todas as dificuldades, a cidade de Lichinga só tem registado avanços. E que avanços! O mercado central local é a prova insofismável.
Naquele recinto comercial, há muito que os vendedores extrapolaram os limites das suas bancas. Há gente a vender de tudo um pouco dentro e fora do mercado mas, o que mais chama a atenção de quem vai de outros pontos do país é a venda de variantes de feijão manteiga, desde o branco, castanho, vermelho ao preto, vendem ervilha, amendoim, alho, cebola roxa e batata reno. Impossível resistir a tamanha fartura.
Outro detalhe que se observa facilmente nesta urbe é a inexistência de transporte público ou semi-colectivo para a ligação entre os 11 bairros e seus cerca de 200 mil habitantes. Grande parte dos citadinos fazem autênticas peregrinações de casa para o centro da cidade e vice-versa, num exercício que já caiu na rotina geral e que incomoda a poucos.
O conselho municipal local dispõe de dois autocarros mas, um deles está alugado a uma empresa de exploração florestal, para a recolha de trabalhadores durante a semana e, para a população sobra apenas um autocarro que liga alguns bairros à sede do distrito de Chimbonila, que dista uns 25 quilómetros.
Consta que terá havido uma iniciativa de um cidadão conhecido por Wemba para a introdução de transporte semi-colectivo. Conforme nos foi revelado, a ideia não pegou porque a população local continuou a seguir o seu rumo a pé, deixando os mini-bus à sua sorte. Os cobradores ainda se esforçaram por algum tempo para anunciar carreiras para bairros como Chiuaula, 23 de Setembro, entre outros, mas o povo ficou pé na sua caminhada.
Com a cidade a crescer a olhos vistos, alguns residentes apostam na transformação de viaturas particulares em táxis, o que só ajuda aos que tem as algibeiras rechonchudas pois, cobram cerca de 250 meticais por sete quilómetros, que é a distância que separa o centro da cidade do aeroporto.
Para quem tem pressa e não tem dinheiro para despender com táxis, há motorizadas que cobra 50 meticais no mínimo, valor que não está ao alcance de todos para voltas diárias e inadiáveis como o vaivém casa-escola, casa-mercado, casa-igreja ou casa-local de trabalho.
Ao contrário da província da Zambézia, e outros destinos onde abundam bicicletas-táxi, na cidade de Lichinga esta moda ainda não pegou. Funciona assim-assim. Por aqui, a bicicleta serve de meio de transporte de sacos de carvão e de outro tipo de mercadorias.
Sem alternativas em termos de meios de transporte, o que sobra para a maioria é caminhar da infância à idade adulta, oferecendo ao organismo um pouco mais de saúde através do exercício físico. Não deve ser por acaso que deste território não se reportam muitos casos de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e outras doenças associadas ao comodismo que caracteriza a vida de lugares como a cidade de Maputo.
Issufo Jasten vive no bairro Mitava, também conhecido por bairro 10, que dista cerca de cinco quilómetros do centro de Lichinga e diz que, por falta de transporte, faz aquela distância a pé e nem sequer segue a estrada. “Faço corta-mato e levo cerca de uma hora para ir e outra hora para voltar”.
António Adelino, também residente do Mitava ou bairro 10 confirma que por ali só se anda a pé. “Alguns conseguem ter uma boleia de bicicleta ou motorizada mas, a grande maioria faz vaivéns a pé porque não há transporte público ou semi-colectivo por aqui”.
Os mais felizes das cercanias de Lichinga são os residentes dos bairros que são atravessados por estradas nacionais. Por exemplo, os residentes de Ntoto, na parte Sul desta cidade, beneficiam da passagem de carrinhas e mini-bus que vem de distritos como Chimbonila, Majune e Marrupa.
Augusto Jasse é um desses felizardos. “Aproveitamos as camionetas que atravessam o nosso bairro e também podemos pedir boleia no autocarro que traz trabalhadores para as instalações da empresa florestal estabelecida aqui perto. De outro modo, andamos a pé ou usamos bicicletas e motorizadas. Táxi? Nem pensar. Não temos dinheiro para isso. Sai muito caro”, disse.

Jorge Rungo

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