terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os gostos das ciências sociais


Uma característica particular das ciências sociais é de colocar a abordagem qualitativa e a quantitativa ao mesmo nível. Formas mais radicais de conceber as ciências sociais até vão ao ponto de considerar que a abordagem qualitativa é a que mais as define pelo facto de o fenómeno social ser essencialmente histórico e, por isso, se furtar muitas vezes a análises deterministas. Há muito que se diga a favor do qualitativo desde o momento que quem o pratica seja metódico e sistemático na sua aplicação. Infelizmente, este não tem sido sempre o caso com a agravante de que muitos de nós que privilegiamos o qualitativo nem temos consciência de alguns dos seus problemas.
Uma grande dificuldade torna-se aparente quando tentamos “explicar” alguma coisa. Muitas vezes, estas explicações são apenas a manifestação do que nós próprios consideramos plausível ou algo que faríamos se nos encontrássemos nas circunstâncias das pessoas cuja acção estamos a tentar explicar. Só para pegar num exemplo trivial: explicamos o crime com recurso à ideia de que é a pobreza que leva as pessoas a fazerem isso. Há, naturalmente, mérito neste tipo de explicação, mas é também verdade que a sua plausibilidade depende muito não só da maneira como achamos que o mundo funciona (e faz sentido) como também, em certa medida, do que nós faríamos se fóssemos pobres e não tivéssimos outras maneiras de garantir o sustento próprio. Dito doutro modo, algumas das nossas explicações são a projecção de nós mesmos nos outros, não necessariamente do que motiva os outros a agirem como agem.
Houve, ontem, dois momentos que me levaram a reflectir ainda mais sobre este problema. O primeiro, que vou apenas abordar superficialmente, foi a leitura dum texto da filósofa americana, Nancy Fraser, em que tentava explicar a vitória de Trump com recurso à ideia de que ela representaria o fim de algo ao qual ela deu o nome de “neo-liberalismo progressista”, isto é uma aliança entre as forças mundiais de financeirização da economia e o discurso emancipatório das classes médias facilmente co-optado pelo capital. Esta é uma versão erudita da trivialidade que tem sido a ideia de que Trump foi colocado no poder pela revolta dos brancos pobres, etc., etc. É o que acontece quando os intelectuais estão perplexos, mas acham que devem “explicar” alguma coisa. A filósofa colocou-se no lugar dos que votaram por Trump e, uma vez lá, passou a acreditar que o que sente é o que as pessoas sentem. É claro que não é.
O outro momento, sobre o qual gostaria de reflectir mais longamente, foi por mim próprio provocado com o post em que reclamava o interesse desmesurado por Trump a desfavor duma reflexão mais introspectiva. Manifestei, ao estilo próprio dum cientista social, o meu desapontamento (que não é novo) em relação à forma nojenta como em Moz nos interessamos pelo futebol português. Usei linguagem marxista para “explicar” esse fascínio acusando os que revelam esse fraco pelo futebol português de “alienados culturais”. Aqui também estamos perante uma dessas abordagens das ciências sociais que confundem o ponto de vista do pesquisador com o ponto de vista dos pesquisados. Quando eu digo que alguém está culturalmente alienado por não só gostar do futebol português, mas também por o colocar acima do futebol nacional e continental o que estou realmente a dizer é que EU não faria isso.
Não faria isso porque a minha consciência histórica – que passa pela memória de humilhação, negação da minha identidade e insulto à minha cultura – não me permite fazer “tábula rasa” do “tempo que passou”, só para recordar uma canção “revolucionária”. Quando vejo uma cidade inteira paralisada porque moçambicanos – isto é, pessoas que ganharam a sua nacionalidade por via duma luta contra um regime que lhes negava a humanidade – estão a festejar a vitória dum clube de futebol do país que impôs esse regime, vejo, num primeiro (e segundo, terceiro, quarto...) momento um insulto a todos aqueles que foram sacrificados no altar da arrogância colonial (o meu bisavô, conta a lenda familiar, pai da minha avó paterna Muzondassi, foi morto à pancada em Xinavane acusado por uma portuguesa de a ter olhado de forma indecente...). Mas o que eu não faria ainda não constitui critério de validação da explicação que dou a um fenómeno. É apenas uma palmadinha chauvinista nas minhas próprias costas.
Há duas saídas para este problema. Uma é quantitativa e consiste em recolher o maior número possível de casos, submetê-lo a um tratamento estatístico relevante e só a partir dele tirar ilações. Não é que essa saída seja isenta de dificuldades epistemológicas, mas pode ser melhor do que colocar uma especulação plausível no lugar duma explicação assente em factos. A outra saída, mais morrosa, mais difícil e muito para o gosto do qualitativo consiste em dar privilégio analítico à lógica situacional e ao processo que ela produz. Não é complicado.
Por vezes nós os cientistas sociais esquecemos um pormenor fundamental, a saber que nós estudamos situações sociais, não apenas acções. Uma pessoa não torce apenas pelo Sporting. Ela faz isso dentro dum contexto social (família, amigos, serviço), de forma reconhecível (isto é, aprende a exteriorizar o que sente pelo Sporting e a manifestar o seu amor por esse clube), desenvolvendo expectativas em relação à forma como será vista (ser do Sporting é diferente de ser do Benfica, interessar-se pelo futebol português é diferente de se não interessar, ter fortes sentimentos em relação a um clube português é diferente de se ser indiferente, etc.), manifestando a sua pertença a determinado extracto social (para ver futebol português é preciso ter, talvez, televisão a cabo, para se informar é preciso ter acesso à net, falar com conhecimento de causa sobre transferências de jogadores é mostrar sofisticação cultural, etc.). Esta é a lógica situacional do acto de torcer.
Ela chama a nossa atenção para o processo. Ninguém fica adepto do Sporting dum dia para o outro, tipo amor à primeira vista (muito menos agora com Jesus à frente). A decisão pelo Sporting é o resultado da forma como os elementos constitutivos da lógica situacional se combinam (de várias maneiras) para conduzir um indivíduo a não só vibrar com as (raras) vitórias do Sporting, mas também a cada vez mais exteriorizar esse sentimento até, quiçá, chegar aos níveis de paroxismo dum Rildo Rafael, por exemplo, em relação ao Benfica. Nesse processo, a pessoa vai quebrando barreiras morais (e ganhando outras), por exemplo, considerar mais importante exteriorizar os seus sentimentos (é bom para o coração) do que andar preso à História (mesmo ao ponto de ficar cínico em relação a essa história – qual libertadores da pátria qual quê! – mas não necessariamente, claro).
A gente pode ainda dizer que é alienação cultural, mas é evidente que pela via da lógica situacional e do processo os elementos ao meu dispôr para “explicar” o fenómeno são mais ricos, mais objectivos e menos arbitrários do que aquilo que me parece plausível à primeira vista.
Os gostos das ciências sociais são assim mesmo. Pode ser verdade mesmo que gostos não se discutam. Nas ciências sociais, contudo, o que interessa em relação a eles é que eles sempre representam alguma coisa, mas não necessariamente aquilo que nós (isto é, os pesquisadores) pensamos ser a ordem social das coisas.
Mesmo depois deste exercício introspectivo, continuo a pensar que um moçambicano adepto ferrenho – a ênfase está no “ferrenho” – dum clube português é um caso de estudo. Diz alguma coisa, lá vamos nós de novo, sobre o que está mal com a nossa nacionalidade e sentido histórico. E, claro, reservo-me o direito moral de mudar de opinião assim que o Sporting voltar às vitórias...
Mussá Roots Faz-me lembrar aquele texto de "Mia couto" com o título "O futebol e o pássaro xixidodo"
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Elisio Macamo
Elisio Macamo infelizmente não conheço o texto.
Mussá Roots
Mussá Roots Ele (Mia couto) fala da preucupação de alguns cronistas pelo facto de camadas populares do nosso país,aderirem com tanto empenho a clubes estrangeiros e selecções nacionais de outros países...

Primeiro ele, o Mia, reconhece que a preucupação é legítim
a, porque há que torcer ,primeiro pelos nossos valores desportivos...

Depois,explica que não se trata de falta de patriotísmo, e parece explicar que não haja muíto por onde haver "fervor" cá, ou pelo menos, na mesma medida, e dá o exemplo da "lurdes Mutola" e que enquanto ela corría todos fervíamos por ela, ou as meninas do Basket ball...

Ele diz que o estranho,grave,por exemplo, sería se entre portugal e Moçambique(uma partida) as pessoas tivessem dúvidas em quem apoiar...

Ele parece quere dizer que "carecemos de símbolos positivos e os símbolos mexem com o coração."

Ele depois explica o que a lenda Nigeriana do passarinho xixidodo.

Elisio Macamo
Elisio Macamo interessante, obrigado. no fundo ele está a dizer que não é problema desde o momento que na hora da verdade alinhem com moçambique. tenho dificuldades com isso.
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Mussá Roots
Mussá Roots É,, ele escreve mais ou menos ao estilo do professor...por exemplo, no mesmo texto ele diz:

"A par da legítima preucupação dos nossos cronistas,ocorrem, por vezes, proclamações de falsos profetas do orgulho nacional. Desses que gritam aos quatro vento
s que se deve valorizar tudo quanto seja nacional,mas fazem-no do modo que soa a falso. Desses que proclamam que devemos beber as nossas coisas de raiz,mas que na calada da noite se esquecem do alarde e preferem um bom #wisky escocêz. Não fazem mal em beber aquilo que afinal gostam mais, fazem mal em mentir. Fazerem-se passar por aquilo que afinal não são. Nem têm que ser..."

Com esta passagem, ele está explicando a lenda, do passarinho xixidodo...
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Elisio Macamo
Elisio Macamo sim, a falsidade é um problema. mas não retira mérito à crítica. há também os que proclamam a valorização do nacional e fazem isso na prática. não somos todos hipócritas!
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Mussá Roots
Mussá Roots "Numa sociedade em que nos arriscamos a ter Anibalzinhos e seus mandantes como referência"

Eu entendo, que esteja a explicar que o "Moçambicano" acaba se interessando mais pelo estrangeiro, sobretudo português, por não ter referências cá, "futebolisti
camente" falando, e parece-me razoável...o que o professor acha?

Está claro que o Moçambola, com todos seus problemas, e de qualidade também, não pode ser apetecível como a liga "zon sagres"...

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