terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Ano do Desassossego


02.01.2017 • 00h00 • atualizado às 09h10
Finalmente chegou ao fim. Assim terá pensado a maioria dos angolanos na passagem do ano. O suspiro de alívio foi generalizado. As vitórias individuais e colectivas somadas por muitos de nós não alteram o balanço. No cômputo geral, 2016 foi um ano memorável pela negativa. As dificuldades perseguiram-nos. A crise económico-financeira atingiu níveis inimagináveis, ainda que os números e discursos oficiais reflictam mal a realidade. Impossível visualizar a extensão do buraco em que caíram as esperanças renovadas na anterior transição de ano. Contrariamente ao que recomenda o bom senso, 2016 não vai ser esquecido com a viragem do calendário. Fica de referência para, daqui a um ano, avaliarmos o ponto de situação.
Deixemos a futurologia de parte. Que se renovem os votos e a determinação de fazermos melhor. Bem-vindos os desafios da reinvenção. As salvas pela tão almejada chegada do novo ano trazem pertinentes notas de rodapé. A cada um de nós se exige fazer a sua parte com vista a concretização dos desejos vaticinados na hora do kandandu. As mudanças não acontecem por acaso. Resultam geralmente de processos mais ou menos sofridos. Aqui a componente mental ganha particular relevância. É difícil mudar seja o que for numa estrutura resistente a qualquer iniciativa que remeta a um espaço diferente da habitual zona de conforto.
Reconhecer a necessidade de mudança como componente do processo de sobrevivência e consequente adaptação a novos formatos de vida representa um começa auspicioso. No quesito mudanças 2016 deixou valorosas lições de vida. A maioria de nós aprendeu a fazer contas desafiadoras. Aprendemos a somar, multiplicar, dividir e sobretudo diminuir. Cortamos gastos, pesquisamos preços melhores. Operámos pequenos milagres com orçamentos reduzidos. E continuamos a ser generosos. Enfrentámos o fim do ano sem salário de Dezembro. Os que ainda não receberam o décimo terceiro consolam-se com a possibilidade de ver a cor do dinheiro num qualquer dia de penúria.
No ano passado fizemos mais do que lamentar. Fomos resilientes. Convivemos com desgraças aguçadas por persistentes problemas estruturais expostos através de monumentais lixeiras, esgotos a céu aberto e deficiente saneamento básico. Os ratos perderam o medo das ruas. Saíram dos esgotos para se multiplicarem tranquilamente nas esquinas das nossas casas. Seres humanos disputaram espaços públicos com detritos que se agigantaram num dia a seguir ao outro. A factura veio implacável. O surto de febre amarela acompanhado de malária complicada atraiu os holofotes do mundo para Angola.
Aos défices negativos que contribuíram para acentuar a frágil condição de vida de grande parte da população juntou-se a fragilização das liberdades. Tivemos menos cidadania. Houve restrições severas ao direito de, nos termos da Constituição da República, o angolano exercer livremente os seus direitos. Determinadas leituras consideraram manifestações somente os actos realizados com o objectivo de exaltar o Executivo. Os termos nepotismo, ética na política e conflitos de interesse apareceram abundantemente nas manchetes devido a nomeação da primogénita do Chefe de Estado para a presidência do Conselho de Administração da maior empresa pública do país.
O ano em que militares mataram o Rufino, de 14 anos, deu a ver o crescimento de ondas de solidariedade. Figuras que até então se tinham abstraído de comentar acontecimentos conotados com os poderes públicos assumiram a indignação pela morte a tiro do adolescente desarmado. Em Dezembro a morte por atropelamento da jovem zungueira cujo nome não se divulgou, voltou a mobilizar a atenção da sociedade em torno da violência policial contra as vendedoras de rua. O episódio pode ganhar outros desenvolvimentos depois do grito de protesto proveniente de inúmeros sectores.
A soma de tragédias e situações consideradas injustas provocou algumas reacções de impacto. Um grupo de advogados recorreu ao Tribunal Supremo com vista a reverter a nomeação da engenheira Isabel dos Santos para a maior empresa angolana. Enquanto isso destacados membros da sociedade civil marcaram uma manifestação para o dia 26 de Novembro tendo como mote o caso nomeação. O Governo Provincial de Luanda proibiu o acto, alegadamente porque o espaço teria sido solicitado pelo CICA para um culto ecuménico que se realizou diante de forte aparato policial. Os organizadores da marcha de protesto não se resignaram. O ex-primeiro ministro Marcolino Moco, o professor universitário Fernando Macedo, o activista Luaty Beirão, a gestora Suzaltina Cutaia e o jornalista William Tonet respeitaram a decisão. Mas não se resignaram.
Ao lutarem pela materialização do direito à manifestação contribuem para reforçar a luta com vista a que os direitos fundamentais transcendam o plano figurativo. Os factos de 2016 mostram bem quão verdadeiro é o princípio segundo o qual todos os momentos têm um propósito. Os bons, os maus e os atípicos transformam realidades e as pessoas nelas inseridas. Nesse ponto convergente o ano do desassossego deixou lições indeléveis. E a exaltação da angolanidade proporcionada pela pujante selecção nacional feminina de andebol. Por ela e com elas fomos apenas nós. Angolanos, a puxar por Angola.

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