sábado, 10 de dezembro de 2016

Mas quem é o homem que não quis gerir as (delicadas) relações externas dos EUA?


“Rudy” Giuliani. O homem que não quis ser secretário de Estado de Trump

09 Dezembro 2016
Trump e Giuliani são íntimos. Há muito que o são. Ambos de Nova Iorque, ambos figuras proeminentes desta. Mas quem é o homem que não quis gerir as (delicadas) relações externas dos EUA?
Nunca se dirá dele que é ou foi consensual. Amado e odiado nos Estados Unidos. Respeitado por todos (ou quase todos) em Nova Iorque. Polémico. Sempre polémico. Assim é Rudolph Giuliani, o favorito de Donald Trump para ocupar o importante cargo — por se ocupar da política externa — de Secretário de Estado, mas que esta sexta-feira rejeitou o cargo. Segundo a CNN, foi o próprio presidente eleito a anunciar que o ex-mayor nova-iorquino não quer ser o seu braço direito na equipa que toma posse a 20 de janeiro.
Mas de Giuliani há mais para contar do que só isso, do que somente o cargo que não quis ocupar na Casa Branca: ele é o homem que durante anos a fio “caçou” (com um q.b. de vaidade e até de excesso) criminosos nas ruas e nos gabinetes – os dos crimes de sangue e os dos de “colarinho branco”.
A vida de Rudy Giuliani foi feita de “desvios” até chegar a mayor de Nova Iorque. Até ser apelidado de “America’s Mayor”. Ainda adolescente, quase foi padre. Mas o amor às mulheres (foi o próprio quem o confessou, sem peias) desviou-o da primeira vocação que teve e todos lhe reconheceram: o sacerdócio. Fez-se advogado. E depois procurador. Um procurador temido. Chegado à política, e depois de ser eleito e reeleito mayor, quis chegar mais além: à Casa Branca. Aí, para ocupar a cadeira da presidência dos Estados Unidos. Era um dos favoritos nas primárias do Partido Republicano às quais se apresentou, em 2008. Era-o, mas só no começo. Mitt Romney foi o escolhido para concorrer contra Obama – e “desvia-lo-ia” (a Giuliani) ao sprint.
Giuliani gosta da fineza opera, de Puccini e de Verdi. Mas também da rudeza da luta — foi cedo que do pai recebeu as primeiras luvas de boxe. Nado e criado em Brooklyn, sempre foi mais de se voltar aos livros do que ao crime e à máfia. A mesma máfia que foi “ofício” dos Giuliani (pelo lado da mãe) e lhe colocaria o pai na prisão durante a infância do filho “Rudy”.
Mas o homem que não quer ser Secretário de Estado de Trump (abrindo a porta a Romney, o preferido dos republicanos) sempre foi de lutas. Numas knockeou, como na redução do crime e do déficit em Nova Iorque enquanto lá foi mayor; noutras foi o knockeado, como quando de uma assentada (e no mesmo ano: 2001) as torres do World Trade Center caíram e lhe foi diagnosticado cancro na próstata.
Rudolph Giuliani não quis assumir um cargo de diplomacia onde teria de substituir essas luxas de boxeur pelas de pelica. Porque há muito que resolver — palavra do próprio Giuliani antes de se retirar da corrida–, da China à Rússia, do Irão “nuclear” ao Estado Islâmico. Sobretudo o Estado Islâmico.
Uma coisa é certa: Giuliani não é (na teoria) como Trump. Apoiou-o, sim. Foi um dos ilustres republicanos que o fez. Que sempre o fez. Mas os dois discordam em assuntos que são incómodos aos republicanos em geral: as armas de fogo, o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Onde um é a favor, o outro é contra. Onde um é (profundamente) conservador, o outro é (moderadamente) liberal. Aliás, recuando na história, nem sempre Giuliani foi um republicano como hoje é. Era pró-Kennedy. Mas depois surgiu Ronald Reagan em cena e Rudy Giuliani “saltou” para o outro lado — e ascendeu na política com Reagan na Casa Branca.
Lá chegaremos. Primeiro, a infância na cidade que é dos dois, Trump e Giuliani: Nova Iorque.

A infância no subúrbio (com o crime a bater à porta)

28 de maio de 1944. Rudolph William Louis Giuliani nascia em Brooklyn, Nova Iorque. O pai, Harold Giuliani, e a mãe, Helen D’Avanzo, nasceram nos Estados Unidos também. Ambos os avós, tanto os paternos como os maternos, são italianos. A educação de “Rudy” — um diminutivo que nele perdura desde a infância — foi profundamente católica.
Os tios vestiam quase todos uniforme. Ora dos bombeiros, ora da polícia. “Cresci rodeado de fardas e das histórias de heroísmo deles”, recordou Giuliani na autobiografia Leadership. Sim, quase todos os tios assim se vestiam. Mas não todos. O irmão da mãe, Leo D’Avanzo, era da máfia. Quando Rudy era recém-nascido, o pai — então desempregado e a precisar de sustentar a família — foi arrastado pelo cunhado para o “negócio” das apostas ilegais e da agiotagem, acabando condenado à prisão durante ano e meio. O crime de que acusaram Harold em tribunal, curiosamente, até foi “menor” do que os que praticava com Leo: assaltou um vendedor de leite à mão armada e roubou-lhe pouco mais de cem dólares. A história da condenação de Harold foi um segredo guardado a sete chaves durante anos. Até que, na viragem do século, o jornalista Wayne Barrett — ele que também muito escreveu sobre Trump — a denunciou no livro Rudy! An Investigative Biography Of Rudolph Giuliani. O então mayor de Nova Iorque não tardou a abordar o assunto, desvalorizando-o. “Sim, eu soube que ele se meteu em problemas. Mas foi um excelente pai”, explicaria.
Harold Giuliani não queria que o filho Rudy lhe seguisse os passos. Não os maus. E assim que foi libertado, tinha o filho somente dois anos, logo lhe ofereceu umas luvas de boxe, para que se defendesse nas ruas de Brooklyn. Mas fez mais por ele: pouco depois, vestiu-o com o uniforme dos Yankees e levou-o com ele vestido à rua. Isto em Brooklyn, onde todos eram fãs do basebol dos Dodgers e não do dos Yankees. Rudolph explicaria na autobiografia (a autorizada, claro) como tudo isso, das luvas ao uniforme, foi importante na construção da sua personalidade: “A minha personalidade, no fundo, sempre foi assim: nunca tive problemas em discordar dos outros. Sempre adorei ter pessoas com quem discordar.”
A família Giuliani haveria de deixar Brooklyn e a os dias da máfia para trás. Mas nunca deixou verdadeiramente Nova Iorque; mudaram-se, isso sim, para Long Island, a leste (verdadeiramente “a leste”) de tudo. “O meu pai queria ter a certeza que eu não repetiria os erros deles. E agradeço-lhe por isso, pois resultou”, explicou em Leadership.
Foi lá, em Long Island, que Rudy estudou na Bishop Loughlin Memorial High School. Era mediano como estudante. Mas foi também lá, na católica Bishop Loughlin Memorial, que se voltou à religião. Mais ainda do que em casa. “Durante o tempo em que lá estudei, discutia religião com um dos meus professores, o padre Kevin, e com o meu amigo Alan. Quando de lá saí [para estudar no Manhattan College, no Bronx], cheguei a inscrever-me na ordem religiosa dos Montfort Fathers”, contou Giuliani em Leadership. Mas rapidamente o sacerdócio caiu por terra. E explica: “Ser padre é uma vocação. E talvez eu não a tivesse. Percebi que tinha um problema: o meu interesse pelo sexo oposto era algo que não conseguiria suprimir.” Rudolph Giuliani casou-se três vezes.
Não esteve no Vietname como muitos da sua geração. À época, começou a estudar na New York University Law School. Queria ser advogado. E foi-o. Com mérito e excelência. Pela primeira vez.
Foi na faculdade que conheceu Lloyd MacMahon, Juiz Federal do Distrito Sul de Nova Iorque. E logo começou a trabalhar com ele: primeiro como escriturário. Estávamos em 1970. A ascensão foi rápida. Pouco depois, aos 29 anos, seria nomeado Procurador. E tinha a seu cargo a Unidade de Narcóticos. Mas não continuou muito mais tempo em Nova Iorque. O poder estava em Washington e foi para lá que se mudou, em 1975. Era chefe de gabinete do Procurador Geral. Cargo que deixaria em 1997 para exercer advocacia na Patterson, Belknap, Webb & Tyler, em Nova Iorque. Fê-lo até 1981.
Até que Washington o voltou a chamar.

O “caça-criminosos” que se fez republicano com Reagan

Ronald Reagen chegaria à Casa Branca em 1981. O republicano Reagan. Mas Giuliani era democrata à época, certo? Certo. E nas eleições de 1972 até votou McGovern (que era assumidamente, e tal como Giuliani, contra a Guerra do Vietname) em vez de Nixon. Mas fez-se republicano (em 1975 dizia-se “independente”, mas continuava afiliado ao partido) assim que foi convidado a ocupar o lugar de Procurador Geral Adjunto. Era o terceiro cargo mais importante no Departamento de Justiça.
Em 1988, o jornalista Wayne Barrett perguntou à mãe de Giuliani, Helen, o porquê de o filho ter escolhido mudar de partido. A resposta surge em Rudy! An Investigative Biography Of Rudolph Giuliani: “Ele só se tornou republicano depois de estes [Partido Republicano] lhe começaram a dar todos aqueles cargos importantes. Ele não é, definitivamente, um conservador. Até pode pensar que é, mas não é.”
Com a ascensão a Procurador Geral Adjunto, caiu-lhe em mãos o caso de Bertram L. Podell, um democrata, membro da Câmara dos Representantes, acusado de corrupção. Rudolph Giuliani conseguiu que Podell acabasse condenado. Mais: ao consegui-lo, criou sobre si uma aura de “caça-criminosos”. E foi por isso, também por isso, que em 1981 retornaria a Nova Iorque, sendo nomeado Procurador Federal do Distrito Sul. A cidade onde nascera havia sido tomada pelo crime. A média confirmava-o: um em cada sete nova-iorquinos violava a lei. Era necessário pulso firme para devolver a segurança às ruas. E Giuliani tinha-o.
Durante seis anos, apenas seis, conseguiu um total de 4.152 condenações. Nunca um Procurador Geral Adjunto havia conseguido tais resultados. O crime organizado deixara as ruas de Nova Iorque.
Muitos viam-no como um herói. Outros como um populista. Giuliani desenvolvera um certo culto da personalidade. E várias foi acusado de contactar a TV’s, para que captassem em direto o instante em que este algemava, sorridente, um suspeito. Muitos desses suspeitos acabariam por sair em liberdade horas depois, sem acusação formada. Mas o aparato mediático fizera entretanto de Giuliani um rosto familiar aos nova-iorquinos.
Rudy queria mais do que isso, do que ser um Procurador Geral Adjunto “familiar”. Queria ser mayor da cidade. E tentou.

O político com obra feita e uma Nova Iorque desfeita

Em 1989, Rudy Giuliani concorreu ao lugar de mayor em Nova Iorque. Como republicado, pois claro. E enfrentaria o democrata David Dinkins. Dinkins venceu a eleição. A margem foi curta, mas derrotou mesmo Giuliani no final. E tornar-se-ia no primeiro mayor afro-americano da cidade.
Quatro anos depois, voltariam a encontrar-se, Dinkins e Giuliani, naquela que foi apelidada pelo The New York Times como a eleição “Race Race”. Porquê? Por causa da polémica em torno desta, mais voltada que foi às acusações raciais do que à política. David Dinkins acusava Rudy Giuliani de, enquanto Procurador Geral Adjunto, ter “perseguido” os afro-americanos de Nova Iorque, sobretudo os mais pobres. Rudy não o deixaria sem resposta, acusando-o de fazer uma “vitimização negra”.
Não, não foi a primeira vez que Giuliani se viu acusado de racismo. Ainda recentemente, em agosto, e aquando da atuação da cantora Beyoncé nos VMA’s da MTV — durante a atuação escutou-se o som de tiros, numa referência clara à violência policial contra afro-americanos no país –, Giuliani estava em direto na Fox News (onde mais?) e não tardou a comentar o que vira. E atirou: “Estive durante anos à frente do maior e mais eficiente departamento de polícia do mundo, o de Nova Iorque. E salvei mais vidas negras do que qualquer das pessoas que vocês viram em palco. Comigo, os homicídios caíram setenta-e-cinco por cento. Muitos dos afro-americanos de Nova Iorque que hoje estão vivos, estão-no por causa de mim.”
Giuliani não mentira. Foi polémico, sim. Mas não mentira. Enquanto mayor de Nova Iorque, o crime que com Dinkins (e sem Giuliani na Procuradoria Geral depois da derrota eleitoral de 1989) aumentara, com ele decresceu mesmo. Quando chegou ao cargo, Giuliani chegou até a comparar-se a Churchill e Nova Iorque à Londres de 1940; este via a cidade como uma “Blitz criminal”. No final do primeiro mandato de Giulini, o FBI considerou Nova Iorque a cidade mais segura dos Estados Unidos.
Mas como é que este conseguira tal sucesso? Essencialmente, com um programa e uma teoria. Primeiro, o programa. Chamou-lhe “CompStart”. E ganharia mesmo com ele o prémio Inovações no Governo, em 1996, um prémio atribuído pela Universidade de Harvard. Monitorizava ruas especiíficas de Nova Iorque, rua a rua, premindo à polícia saber, estatisticamente, onde o crime se encontrava mais enraizado. E atuar, claro: ativamente e com detenções, ou apenas preventivamente, com policiamento de proximidade.
Mas a este programa está associada uma teoria, mais profunda e até polémica: “Broken Windows”. Para a implementar sobre Nova Iorque, Giuliani socorreu-se de um “chicote”, o Comissário Bill Bratton. A teoria das “Janelas Partidas” surge de um livro (Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities) publicado em 1996 por George L. Kelling e Catherine Coles. “Considere um edifício com algumas janelas partidas. Se não se repararem as janelas, a tendência é que vândalos partam mais janelas ainda. Após algum tempo, poderão entrar no edifício e, se ele estiver desocupado, tornar-se-á uma ocupação. E poderá ser incendiado depois”, lê-se no livro. O que isto quer dizer é que até o menor dos crimes deve ter uma atuação forte por parte da polícia. Com detenções se preciso for. Com acusação e pena de prisão, se preciso.
Sim, Giuliani e Bratton foram acusados de excesso de zelo (e até de violência) na atuação da polícia que coordenavam em Nova Iorque. Mas Giuliani tinha mais obra feita na cidade. E socorria-se dela nessas alturas.
A primeira dessa “obra” é o emprego. Quando este chegou a mayor, mais de um milhão nova-iorquinos não tinham emprego e dependia do Governo e de prestações sociais para sobreviver. Giuliani conseguiu reduzir essa “folha de pagamento” para metade. Como? Com mais um programa, agora o “Welfare to Work”. E o programa permitiu voltar a empregar mais de 640 mil trabalhadores.
Mais: antes dele, Nova Iorque era uma cidade endividada — com um deficit anual de mais de 2.3 mil milhões de dólares. Com as políticas de estimulo ao emprego (não só o “Welfare to Work”, mas também a redução da carga fiscal às empresas) que implementou na cidade, Giuliani deixou o cargo com um superavit na tesouraria.
Apesar de tudo, o derradeiro ano de Giulini como mayor não foi feliz.
11 de setembro de 2001. O atentado terrorista reivindicado pela al-Qaeda derrubava as torres do World Trade Center. 2751 é o número de mortes. O “coração” da cidade estava reduzido a pó e cinza. Em escombros, contorcido de metal e de horror. O esforço de Giuliani, que coordenou as operações de socorro, dia e noite, horas a fio, durante semanas, permitiu que mais de 25 mil pessoas acabassem resgatadas e sobrevivessem ao ataque. Mas Rudy foi mais do que isso, do que um coordenador de resgates. Rudy olhou o terrorismo de frente, nas TV’s – as mesmas para onde anteriormente olhava ao algemar os detidos –, olhou-o nos olhos e deu coragem à cidade, ao país, ao mundo que tremia, amedrontado. A coragem dele, a mensagem, reergueu a cidade dos escombros. E garantiu, no próprio dia do atentado: “Amanhã, Nova Iorque continuará aqui. E nós vamos reconstrui-la. Seremos mais fortes do que antes. Quero que as pessoas de Nova Iorque sejam um exemplo para o resto do pais, para o resto do mundo. E quero que o terrorismo nunca nos trave.”
Ganhou então um epíteto: “America’s Mayor”. Deixaria o cargo a 31 de dezembro de 2001. Depois do 11 de setembro, e nesse mesmo ano, a revista Time nomeou-o “Personalidade do Ano”. No Reino Unido foi-lhe atribuído (no ano seguinte) o titulo de Cavaleiro Honorário pela rainha Isabel II. Mas Giuliani enfrentava por esses dias a maior de todas as lutas, pela vida, contra um cancro na próstata. O mesmo cancro do qual o pai havia morrido anos antes, em 1981. Como ao crime, como ao desemprego, como ao deficit, como ao terrorismo, como sempre: Giuliani venceu.
Afastou-se da política ativa. Michael Bloomberg foi eleito mayor na vez de Rudy Giuliani. Mas quando George W. Bush deixou a Casa Branca, o nome de Giuliani foi um dos primeiros a ser ventilado pela imprensa como candidato republicano ao lugar. As sondagens davam-no como favorito. Os rivais democratas tentavam desvalorizá-lo, talvez amedrontados pela popularidade que granjeara. Joe Biden chegou mesmo a dizer dele que a sua candidatara se resumia a somente três coisas: “Um nome, um verbo e o 11 de Setembro”. Começou bem as Primárias. Vivia o que nos Estados Unidos é apelidado de “momentum”. Até que chegou a votação do importante (um “barómetro”, como o caracterizam) estado da Florida. Acabaria em terceiro lugar. E abandonou logo ali, em janeiro de 2008, a corrida, apoiando Mitt Romney até final.
Giuliani não chegou à Casa Branca. Nem Romney.
Mas chegaria Trump. E com Trump podia chegar o próprio Giuliani como Secretário de Estado. O ex-mayor é próximo do presidente eleito. Sempre foi. E ao contrário de outros republicanos de mérito — como George W. Bush, por exemplo –, sempre apoiou Trump, sempre lhe sacudiu dos ombros a poeira das polémicas, sempre acreditou que este venceria Hillary Clinton. Como venceu. Mas agora é o próprio amigo que anuncia que ele se retirou da corrida. Abrindo portas ao adversário de sempre: Romney.

E agora, senhor Secretário de Estado?

Giuliani não era o único nome sobre a mesa de Trump. Também lá estava desde o início o de Mitt Romney — outrora crítico do presidente eleito, o qual chegou a apelidar de “perigoso”. Ou o de John Bolton. A próposito deste, e quando perguntaram a Rudy Giuliani se o antigo Embaixador dos EUA nas Nações Unidas seria um Secretário de Estado a considerar, Giuliani respondeu que Bolton seria uma “muita boa escolha”. A pergunta foi-lhe atirada num encontro que o Wall Street Jornal organizou em Washington com empresários e representantes da alta-finança. Trump vencera as eleições poucos dias antes. E melhor do que Bolton, haverá alguém?
– Talvez eu! — respondeu Giuliani, na altura.
Aos 72 anos, mais de uma década após ter abandonado o cargo de mayor, Giuliani deve ter pensado melhor e adiou o seu regresso à política. Talvez regresse, quem sabe, por uma porta (ainda) maior.
Mas a relação entre Trump e Giuliani é longa. É a cidade de Nova Iorque que os une. Um ascendeu desde Brooklyn à 253 Broadway e a mayor; o outro está (e sempre esteve, afinal) na Fifth Avenue como em casa. E não há quem não se recorde (como não?) da noite em que um Donald Trump, galanteador, levou uma bofetada de um Giuliani vestido de drag queen. Como assim? Sim. Aconteceu mesmo, em meados de 2000, quando o então mayor organizou um roast com a imprensa – e no qual fez pouco de si mesmo e permitiu (roast que é roast a isso permite) que outros fizessem também.
Adiante. O apoio a Trump, Rudy deu-o em abril, descrevendo o então candidato como um “negociador”. E garantiu: “Ele vai fazer pelo país o que eu fiz por Nova Iorque!” Trump devolveu-lhe a gentileza. “O Rudy conhece-me bem. É uma honra – maior do que habitualmente seria – ouvi-lo dizer isso.”
Quando Trump caía nas sondagens e Hillary ganhava a dianteira, Giuliani vinha a terreiro (na TV ou em comícios) apoiá-lo. A poucas horas de se saber quem seria o presidente, os analistas diziam que este seria Hillary Clinton. Giuliani surgiu em direto na MSNBC. E apelou ao voto ao Trump. Talvez não diretamente. Mas subtil é coisa que o apelo não foi. “A Hillary cometeu um número significativo de crimes”, atiraria. Não foi a primeira vez que atacou Hillary para valorizar Trump. Quando a coisa “azedou” entre os dois, Trump e Hillary, Rudy Giuliani disse de Hillary que esta foi “tão estúpida” quando defendeu o marido Bill no caso Monica Lewinsky, que “não poderia ser” presidente dos Estados Unidos.
No final, Trump venceu. E não tardaram a ver-se e ouvir-se os protesto na rua. Rudy atirou de chofre: “Estão a exagerar…” Não se lhe fie no sorriso amável; Giuliani é direto, às vezes até rude no trato. Hillary Clinton, Colin Powell ou Condoleezza Rice, até John Kerry, o último no cargo: nenhum destes Secretários de Estado foi como ele seria se tivesse aceitado. Eles: serenos quando os focos estão diante de si – que a política externa a isso obriga. Ele: provocador, misantropo, incontrolável. Para o bem e o mal.
Tudo apontava (desde os encontros recentes com Trump à experiência política) para Giuliani no cargo de Secretário de Estado. Mas ele ou outro, as prioridades externas devem ser as mesmas. Analisemos a dele.
Em Washington, e falando à margem do encontro que Wall Street Jornal organizou, definiu prioridades externas. Uma das prioridades é o Irão. E o (histórico) acordo nuclear alcançado há pouco mais de um ano entre este e os Estados Unidos. Giuliani quer que se renegoceie tudo. Curiosamente, e recuando na história até meados de 2006, Giuliani chegou a integrar um grupo de estudo no qual (também) se debateu o Irão – e nele se falaria da questão nuclear, claro. Mas “integrar”, aqui, é um eufemismo; deixá-la-ia ao fim de poucos meses, quase sem comparecer às primeiras reuniões. A razão? À época, Giuliani assumiria que só a deixou porque não descartava uma candidatura à Casa Branca e não queria que a comissão de tornasse “demasiado partidária”.
Mas a primeira prioridade de Giuliani parecia ser o Estado Islâmico. “O Estado Islâmico, no curto prazo, é a maior das ameaças para nós. E não é por causa do Estado Islâmico no Iraque e na Siria, mas porque eles podem fazer algo que a al-Qaeda nunca fez. O Estado Islâmico é capaz de se expandir pelo mundo”, explicou em Washington, referindo-se aos atentados de Orlando e de Nice. E continuou: “Se a prioridade for eliminar o Estado Islâmico, tens que deixar isso [renegociação do acordo nuclear com o Irão] um pouco de parte. Primeiro vês-te livre do Estado Islâmico. E depois voltas a isso.”
Mudando de geografia. Trump e Putin conversaram por telefone dias após a vitória do primeiro e terão feito promessas de cooperação — uma cooperação que com os Estados Unidos é cada vez menor (ou mesmo nula) desde a anexação da Crimeia pelos russos. Curiosamente, os dois conversaram no mesmo dia em que Giuliani discursava no evento do Wall Street Jornal. Este sugeriu que Putin não respeitava Obama. Mas respeitará Trump. Ou melhor, os Estados Unidos. “A Rússia pensa que é para nós um rival militar, mas não é”, atirou. E culpou Obama — o qual certo dia acusou de “não gostar” dos Estados Unidos a que presidia. “Foi a nossa falta de vontade [durante a administração Obama] em ameaçá-los com o uso da força que fez a Rússia sentir-se tão poderosa”, garantiu.
Mas Trump e Giuliani não estavam em sintonia total no discurso. Por exemplo: Trump criticou Hillary por esta (quando foi Senadora, em 2003) ter votado a favor da invasão do Iraque. O presidente eleito garantia que sempre foi contra a decisão. Giuliani discorda… de Trump. O problema não foi invadir. Foi a partida. “Eu penso que a forma como saímos do Iraque foi a pior decisão de sempre na história norte-americana”, explicou em Washington.
Ah, é verdade: e quanto à China? Trump falou dela como um país que “manipula” o yuan e prejudica os Estados Unidos com tal manipulação. Giuliani vê os chineses como parceiros “de comércio”. Não, aqui não estavam mesmo em sintonia.
Mas estaria ele, Giuliani, preparado ou não para ser Secretário de Estado? Sim. E explica: “Eu tenho amigos em todo o mundo. Isto não propriamente é uma novidade para mim. Quando chegas a mayor, interessaste pela política externa. Quando saí, o meu principal trabalho foi a legalidade e a segurança à volta do mundo”, chegou a dizer. Durante anos, e após deixar o cargo de mayor, Giualini usou a empresa Giuliani Partners para fazer contratos com empresas e governos de todo o mundo. O que fazia ele? Sobretudo discursos — como aquele que Hillary fez para a Goldman Sachs e Trump atacou impiedosamente. Cada discurso de Giuliani rondava os 200 mil dólares a quem o quisesse ter. Fazia mais de uma centena por ano. Em 2006, por exemplo, ganhou mais de 11 milhões de dólares assim. Até aqui, tudo bem também. O problema vem quando o que faz é consultoria e não somente discursos.
Uma das “empresas” à qual o fez foi a Mujahideen-e Khalq, ou MEK. Em 2012, chegou mesmo a viajar até Paris para se encontrar com Maryam Rajavi, o líder do MEK. E acabaria por ser investigado pelas autoridades norte-americanas por causa disso. É que o grupo iraniano MEK não é só um “grupo”; é oposicionista (por alguns visto como de ideologia marxista, por outros como um “culto”) ao regime iraniano e nos Estados Unidos é tido como uma “organização terrorista”.
Mas continuemos por dentro do “principal trabalho” de Giuliani após ser mayor. Aquele com o qual fez “amigos em todo o mundo”. Quer o Irão, quer a Rússia, foram criticados por ele em Washignton, dias após a eleição de Trump. Mas tal como ao Irão, também à Rússia o Secretário de Estado tem ligações. E estas não são da “oposição”; são estatais.
A empresa de Giuliani (a da consultoria e dos discursos por encomenda) colaborou durante anos com a TriGlobal Strategic Ventures. E o que é que faz a TriGlobal? Faz consultoria a “clientes ocidentais” que pretendam “promover os seus interesses nas economias emergentes da antiga União Soviética”, assim se lê no próprio site da TriGlobal. Ou seja, é o elo de ligação, o “facilitador” entre investidores estrangeiros e oligarcas russos com ligações ao Kremlin, como é o caso da petrolífera Transneft. A convite da empresa, Giuliani visitou em 2004 Moscovo. Na visita, sentou-a à mesa com o então ministro dos Negócios Estrangeiros Sergey V. Lavrov, assim como com políticos e empresários russos.
Não bate a bota com a perdigota, no (agressivo) dircurso recente e nas (polémicas) acções passadas. E talvez por isso tenha recuado ser Secretário de Estado. Veremos quem será o senhor que se segue.

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