sábado, 17 de dezembro de 2016

18 de Dezembro, 2016

Foto de Vasco Pulido Valente
O Diário de 
Vasco Pulido Valente
EUROPA

18 de Dezembro, 2016

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Para o alemão ou o inglês medianamente educado, Portugal (fora Ronaldo e o turismo) é um vácuo: pobre ou rico, oprimido ou livre, não o preocupa, excepto pelo dinheiro que lhe gasta.

Segurança

A defesa da democracia, quase histérica, que apareceu ultimamente nos jornais, na televisão e na net, com ou sem pretextos relevantes, significa uma única coisa: que as pessoas sentem o risco cada vez mais próximo de ela acabar. Não se defende um regime que se considera garantido e nem os perigos da “Europa” (a que nunca de facto pertencemos) justificam a universalidade e a veemência da defesa do que já temos prática e constitucionalmente. A questão é outra. É o sentimento geral de que a democracia está em risco. E está em risco porquê? Porque a ditadura atrai o cidadão comum na razão inversa da insegurança. Como sempre acontece nos países pobres, os portugueses põem a segurança acima de qualquer valor. Daí a atracção pelo funcionalismo (inamovível) e a desconfiança do emprego privado (por definição, imprevisível). Mas também, e apesar de tudo, pela ordem tradicional. O indígena, que vive na miséria ou perto dela, precisa de acreditar na estabilidade da família, do emprego, da reforma e da assistência médica; precisa de ver os filhos bem “encaminhados”; e os ladrões na cadeia. Numa palavra, precisa de acreditar na autoridade e hoje basta ligar a televisão para constatar que a autoridade democrática dia a dia se desfaz. O Estado faliu, os banqueiros faliram (ou andam lá perto), o desemprego continua, as criancinhas do 5º ano de escolaridade vão ser instruídas nas realidades do aborto e da contracepção, o PC e o Bloco proclamam a urgência de tornar Portugal numa espécie de Albânia e o governo vive da mão para a boca. No meio disto, naturalmente, o cidadão treme e, no fundo, começa a pensar que a sua paz de espírito vale um pouco de tirania. Não vale. Mas cada vez mais parece que vale. Salazar não chegou onde chegou, senão por isso. E não lhe custou muito.

Portugal e a Europa

O que escrevo hoje parece contradizer o que escrevi a semana passada. Mas não contradiz. Se a Europa não suportará a instalação em Portugal de uma ditadura de direita ou de esquerda, não está obviamente disposta – como se vê na Hungria – a impedir um regime autoritário, disfarçado com meia dúzia de ornamentos da democracia. Por uma razão muito simples, que a maioria de nós sempre se recusou a reconhecer: Portugal não faz parte da Europa. Se há ainda um sentido em falar de Europa (a não ser como expressão geográfica), só pode ser no sentido de cultura europeia. Mais precisamente a cultura europeia do século XVIII até meados do século XX. Ora Portugal só muito marginalmente participou nessa cultura, que ligava a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Holanda e a Bélgica, parte da Áustria e parte de Itália. Este país periférico e desconhecido não passava de um assunto para livros de viagem. Nada saiu daqui que tivesse uma real influência para além de Badajoz: os melhores copiavam com zelo a França (em vernáculo ou em calão, como se lamentava Eça) e nunca atraíram a atenção de ninguém. Para o alemão ou o inglês medianamente educado, Portugal (fora Ronaldo – que vive em Espanha – e o turismo) é um vácuo: pobre ou rico, oprimido ou livre, não o preocupa, excepto pelo dinheiro que lhe gasta. Está fora da consciência e da história moderna da Europa, como a Bulgária ou a Roménia. Quando o governo e o Presidente da República apregoam os nossos méritos isso não comove uma cultura que existe por si própria e, desde 1919, pela universal influência da cultura americana. E quando os pobres políticos locais resolvem ameaçar com “murros na mesa” ou a “renegociação” da dívida não são considerados mais do que um pequeno incómodo. Sei bem que isto custa a ouvir aos nacionalistas de profissão ou convicção. Mesmo assim, não deixa de ser a verdade.

Comentários
18 de Dezembro, 2016
Todos6
Manuel Lisboa XII
1 h
Da mordacidade das primeiras crónicas, passou-se ao conselho céptico, desiludido da última crónica e nesta à pura amargura. Humores. Apenas uns breves comentários. O fenómeno que se passa nos chamados países pobres como a segurança no emprego, o funcionalismo, as referências sócio-culturais acontecem também nos ricos. Em nenhuns há exclusividade. Trata-se de um lugar comum esse tipo de afirmações ou comparações em nada correspondendo à verdade, sobretudo na Europa de hoje com tantos desempregados. E quanto à pobreza (pobres são quase todos os países africanos, por exemplo) portuguesa é tão relativa como a riqueza dos maiores países europeus ou mesmo dos Estados Unidos, tratando-se de uma generalidade fácil para impressionar e deprimir alguns pacóvios menos informados. E insistir no mesmo complexo que Portugal não foi e é da Europa, além da negação dos próprios factos para além da geografia, não faz sentido. Basta conhecer a História de Portugal  e da restante Europa para se observar similaridades em tudo, no melhor e no pior - se se pretender fazer juízos valorativos como é o caso deste comentário. Ainda a ideia pouco original da utilização, exemplo muito frequente, dos comentários do extraordinário Eça de Queiroz (como diria o meu avô: um "poseur" com manias de snob - talvez pelos seus complexos familiares) é esquecer críticas queirosianas em relação à própria França, a "potência cultural" de referência na época. Quanto à questão actual da democracia basta buscar inspiração no Grande Poeta para numa frase se dizer: os maus políticos e governos enfraquecem os regimes democráticos. É o que se passa actualmente talvez na maioria dos países europeus, onde os governantes  mais parecem burocratas e estes últimos quase sempre meros contínuos (já não devem existir ou ter outro nome...). Portanto, reflecte completa inconsistência a ideia de se querer reduzir a Europa a uma região entre Paris e Londres, na qual se poderá englobar Oxford...talvez o autor se queira no fundo referir ao mundo das roupas e da moda em geral... mesmo assim teria de englobar a Itália, mas face a esta última hipótese certamente consideraria apenas o norte com dignidade europeia e nunca o sul...francamente...mas para a semana, espero, estarei a ler, de novo e com gosto, os verrinosos comentários de Vasco Pulido Valente.             
José Paulo C Castro
2 h
A democracia é um meio para um fim. Não é um fim em si mesmo. Se começar a faltar paz, segurança, pão, etc. o povo vende a liberdade em troca de tudo isso. 
Para que a democracia seja plena, deveria juntar-se à liberdade a correspondente responsabilidade. A cada direito, um dever correspondente. 
No entanto, não é essa a forma como a democracia tem sido 'vendida', principalmente pela esquerda sedenta de direitos sem deveres. Juntando a isso a dose de irresponsabilidade que o povo vê nas elites, políticas e financeiras, está criado o contexto para a morte da democracia. Quem a matou ? Todos que declinaram responsabilidades. Do eleitor ao líder eleito.

Helder Vaz Pereira
2 h
Nós temos é um arremedo de democracia; Nós temos é uma democracia a fingir:  Nós temos e uma pseudo-democracia; Nós temos é a democracia dos barões, baronetes, dos oligarcas, dos "senhores muito importantes" que só pedem o votinho aos tugas no dia apropriado que metem no seu bolso no dia seguinte;  Juntando a estes, ...os outros...temos também uma cleptocracia e partidocracia.  Os tugas que se lixem e deitem cá o votinho para qualquer um  que apareça.
Ó Vasco , por acaso até são os países ricos veja se o recente caso da Áustria quase a eleger um profascista que se estão a preocupar com a segurança. A França de Le Pên também é outro caso , os verdadeiros finlandeses etc . 

Os miseraveis , Vasco não têm família , nem reforma e os filhos andam na droga ou assaltar carros . Você não pode passar o tempo ao balcao do gambrinos e depois falar de coisas que não conhece . 
Vasco Abreu
4 h
Enfim, Vasco Pulido Valente coloca as duas questões fundamentais deste momento, pelo menos como as sinto também:

- a nossa democracia está em perigo e isso sente-se progressivamente, por diversas razões, pelas apontadas pelo cronista e pelo facto do PS se ter vendido à extrema-esquerda;

- a ideia de que a Europa não permitirá tal regime entre nós é falsa: também na Venezuela, em 1998, quando Chavez ganhou as eleições, os Venezuelanos confiavam que os EUA nunca permitiriam uma ditadura naquele país! Pois bem, já lá vão quase 20 anos!

PS.: E, tal como Vasco Pulido Valente, também sinto que entre a liberdade e a segurança, o povo escolherá a segurança! Por todas as razões apresentadas pelo cronista e por mais uma: o povo tende a acreditar que uma ditadura na Europa no séc XXI não é possível... Além disso, "os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço!"- dizem!

Ai se comem e como comem! Os venezuelanos que o digam!
martins bento
4 h
Nem ao menos a chegada do menino nas palhinhas,tranquiliza VPV.Os portugueses são o que são e têm os votos.Só quando vier o próximo abanão,seja pelo corte do rating,seja pelo fim do apoio do Draghi a politicos irresponsáveis,vão todos perceber.Hoje o PCP anuncia querer "repensar com PS+BE e democratas"uma nova politica de esquerda(devem estar preocupados com  baixa nas sondagens).Tudo o que vai afastar mais os investidores e tornar o crédito,de que vivemos,mais caro.Haja paciência

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