EDITORIAL
Terá sido por ironia do destino, que Afonso Dhlakama, que sempre se proclamou de “Pai da Democracia”, perdeu a vida exactamente no mesmo dia em que o mundo inteiro comemorava um dos mais importantes pilares de 9qualquer sistema democrático; a Liberdade de Imprensa.
Nos vários eventos que decorreram por todo o país, para marcar o dia 3 de Maio, a nenhum dos participantes teria passado a premonição de ao fim do dia ter de ser
informado da triste notícia sobre a morte do líder da Renamo. Foi um acontecimento que colheu muita gente de surpresa, incluindo a maioria dos membros e simpatizantes da Renamo.
Foi o virar de uma página, o surgimento de uma nova era na história de Moçambique e da Renamo, em particular. Dhlakama foi mais do que um guerrilheiro e líder do maior partido da oposição em Moçambique.
Ainda que com um percurso de certo modo controverso, Dhlakama deixa uma marca indelével na turbulenta história deste país, que não obstante todos os esforços, continua ainda à procura de uma paz definitiva, para cuja busca o homem nascido em Mangunde, a 1 de Janeiro de 1953, era peça fundamental.
Dhlakama deixa um vazio dentro da Renamo, mas também será lembrado pelos moçambicanos pela sua incansável dedicação à luta pela implantação da democracia multipartidária em Moçambique.
Não existe uma clara descrição das circunstâncias em que Dhlakama se viu envolvido nas actividades da Renamo, quando esta era ainda conhecida pela sua designação inicial de Movimento Nacional de Resistência (MNR). Sabe-se apenas que ele terá assumido a liderança da organização em 1979, na sequência da morte do seu primeiro comandante, André Matsangaissa, antes de em 1983 ser proclamado presidente, durante o primeiro congresso do movimento.
Mesmo assumindo que as suas origens estiveram centradas nas questões geoestratégicas que na época dominavam na África Austral, é necessário reconhecer que foi mérito de Dhlakama ter conseguido transformar a Renamo na poderosa força de guerrilha que anos mais tarde viria a obrigar o governo da Frelimo a aceitar a inevitabilidade de uma solução negociada para acabar com a guerra em Moçambique.
Antes, a Renamo passara por uma série de metamorfoses que incluíram ter de se definir como uma força interna moçambicana, empenhada em lutar pela implantação da democracia multipartidária no país, muito a contragosto de sectores que estavam apostados em usá-la como um instrumento ao serviço de interesses neocoloniais.
De facto, círculos ligados a alguns antigos colonos portugueses em Moçambique teriam visto na Renamo o veículo privilegiado para a recuperação de propriedades e interesses económicos perdidos depois da proclamação da independência nacional, em 1975.
Só esta redefinição ideológica viria a tornar possíveis as negociações que culminariam com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) no dia 4 de Outubro de 1992, em Roma. A expectativa era que este acordo abrisse uma nova era de reconciliação, reconstrução e desenvolvimento em Moçambique, num quadro em que a Renamo se transformaria de uma força de guerrilha, ancorada em estratégias militares para a obtenção de objectivos políticos, para uma organização política apostada em provar o enraizamento da sua ideologia junto da maioria do eleitorado moçambicano.
Mas o que se pensava que seria produto de duas assinaturas mágicas viria provar ser uma missão difícil. Apesar de possuir uma estrutura política que com distinção tem desempenhado o seu papel de oposição ao nível do parlamento e de líder em algumas assembleias provinciais, a Renamo continua essencialmente a ser uma organização que se funda numa doutrina militar.
Depois de cinco eleições multipartidárias, a Renamo continua ainda a reivindicar que a fraude a tem impedido de formar governo ou de obter maioria no parlamento.
E, alegando que a legislação eleitoral não correspondia a fundamentos democráticos, boicotou as primeiras eleições autárquicas em 1998, e depois as últimas em 2013, e de forma contínua, sempre com a ameaça do recurso ao uso da força para impor a sua visão de um Estado democrático.
Ao boicotar as duas eleições autárquicas, a Renamo poder ter desperdiçado oportunidades para conferir maior experiência de governação aos seus quadros, para além de lhes ter vedado acesso a recursos que contribuiriam para o melhoramento das suas condições sociais.
Provavelmente ciente desta realidade, viria a Renamo a contestar o município de Nampula, na intercalar ganha pelo seu candidato em Março último.
Dhlakama era um homem de fortes e profundas convicções, das quais não se demovia facilmente. Mas seria injusto caracterizá-lo como um radical ou irrazoável.
Depois de insistir, por muito tempo, que a solução para o impasse resultante das eleições de 2014 passava por a Renamo governar as seis províncias onde reivindicava ter obtido a maioria, acabaria por aceitar que tal não era algo que se pudesse alcançar à margem da Constituição. Concordou dar mais uma oportunidade ao diálogo e mandou suspender todas as confrontações militares.
Não foi a tempo de ver o fruto do seu sacrifício, mas a melhor homenagem que os seus sucessores lhe poderão prestar é manterem-se firmes neste projecto inacabado de construção de uma paz duradoura, de uma reconciliação genuína e de uma democracia onde ninguém se deve sentir excluído por pensar diferente.
SAVANA – 11.05.2018
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