sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Murimismo

Elisio Macamo
19/1 às 18:07 ·

Vou entrar no mato. Nas primeiras duas décadas do século XX houve um movimento muito interessante no Sul de Moçambique proveniente do Zimbabwe: O movimento “Murimi” que em Xangan quer dizer “cultivador/camponês”. Era uma resposta à seca que assolou a região e que foi interpretada como efeito da falta de fé e da forte presença de feitiçaria. Os sacerdotes oriundos do Zimbabwe distribuíram uma poção que todo o aderente deveria usar para ritualmente purificar a sua família, aldeia e, sobretudo, os trabalhadores migrantes ao regressarem do Djoni. O movimento foi fortemente combatido pela Igreja Presbiteriana e pelas autoridades coloniais. É uma história fascinante que interrompo para fantasiar um pouco.

Imaginemos que dois milénios depois o movimento “Murimi”, entretanto com o nome pomposo de “Murimismo”, se espalhou por todo o mundo como descrição da origem do mundo e como referência ética. Zimbabwe virou Terra Santa, mas porque foi em Moçambique onde o movimento ganhou o ímpeto essencial à expansão do movimento o Criador (do mundo, não do movimento) é, nos seus atributos, semelhante ao ideal normativo xangana. Vamos supor que a profetiza xangana que dinamizou o movimento nasceu numa árvore qualquer durante aquelas inundações típicas do início do ano e que os seus seguidores, um grupo de vagabundas que não sabiam como ocupar o seu tempo de forma útil, chamadas subsequentemente “Xigidini N’hoveni” (obrigado Elsa Mangue pela inspiração), andaram aí a dizer que essa árvore em tempos tinha sido uma mulher e que foi por essa razão que ela concebeu e deu à luz ali mesmo à “Manda-chuva”, título com o qual a profetiza xangana ficou uma vez que a Criadora (Nkulukumba) a tinha enviado à África para trazer chuva, o que segundo as teólogas do movimento não devia ser interpretado literalmente, mas sim como bem-estar, sossego, paz, etc.

Imaginemos ainda que o sucesso do Murimismo tinha sido tão grande que em toda a Europa havia “B’ndhlas”, templos para a adoração da Nkulukumba, oficiados por “svikomu” (singular “xikomu”, enxada – era com esta palavra que os membros originais do movimento Murimi se cumprimentavam), os representantes de Nkulukumba na terra. Os europeus abraçaram o Murimismo por duas vias: uma foi a comunhão dos objectivos e a outra foi a violência das “Xigidini N’hoveni” quando espalharam a boa nova pelo mundo. O essencial da doutrina do Murimismo como forma de estar no mundo era simples. Tinha o nome de “Ku kholwa”, isto é, não importa o que o bom senso te diz, manda lixar o conhecimento científico ou tudo que é possível saber através da razão e da análise de dados, acredita apenas naquilo que te parecer o mais bizarro possível, nem que por essa via te ridicularizes. Exija que os outros respeitem o direito que tens de acreditar em coisas fantásticas e reclama nessa base mesmo posição de destaque na sociedade como referência moral e ética. Na sua história milenar o Murimismo sofreu várias cisões, opôs-se ao avanço da ciência, torturou e matou em nome de Nkulukumba, oprimiu os homens – considerados impuros por fazerem necessidades menores de pé e segurarem o órgão com a mão – mas mesmo assim é aceite como mediador natural para qualquer conflito. Diz-se que a árvore que deu à luz à Manda-chuva foi estuprada por um homem quando ainda mulher e foi por isso que se transformou em árvore. Não faz sentido, claro, mas não fazer sentido é condição essencial de profundidade intelectual no Murimismo.

As Svikomu europeias (não se aceitavam sacerdotes homens) passaram a andar com trajes de peles de animais selvagens que tapavam apenas as partes íntimas do corpo e na cabeça traziam um “Ngiani” (uma corôa de cera preta) que as distinguia dos comuns mortais. O frio da Europa não importava nada. Como houvesse muitas denominações do Murimismo elas se distinguiam pelo animal a partir do qual faziam o traje oficial. A seita original usava pele de hiena. A que se constituiu na vizinha Swazilândia (e também se espalhou pelo mundo fora) quando o Rei Sobuza recusou a monogamia, o que lhe valeu a ex-comunhão do verdadeiro Murimismo, usava pele de lebre. Esta seita passou a aceitar homens como Svikomu. Depois dum passado glorioso em que os europeus tinham dominado o mundo o ciclo fechou-se e eles voltaram à sua condição natural. Os africanos estavam na mó de cima e atribuíam o seu sucesso económico e todas as ideias que tinham sobre a organização política e o respeito pela dignidade humana (a todo o tipo exemplares daqui a dois milénios) à sua crença no Murimismo, as suas raízes murímicas, por assim dizer. Os europeus batiam-se (e matavam-se) em nome do Murimismo, transformaram toda a sua vida numa imitação imbecil daquilo que eles consideravam como sendo os valores primordiais da Terra Santa, algures na África do Sul, mas longe donde o Júlio Mutisse nasceu.

Fim das lucubrações.

O que a pobreza material faz com o nosso espírito é incrível, Lyndo A. Mondlane. Esta semana Angola e Moçambique protagonizaram exemplos particularmente incríveis disso. Em Angola, num debate televiso muito mal conduzido sobre a religião e política – em que só um dos quatro pastores envolvidos dizia coisas com algum sentido – disseram-se coisas preocupantes sobre a laicidade do Estado numa manifestação confrangedora do entendimento quase cafreal que alguns de nós temos de crenças que chegam a nós de lá longe. Em Moçambique, para não ficarmos atrás – afinal somos povos irmãos – assistiu-se ao triste espectáculo duma instituição estatal violar a laicidade do Estado convidando os funcionários para uma missa realizada nas próprias instalações – e não na igreja (pelo menos isso, por amor de Deus) – e a uma defesa ridícula desse acto feita pelo sacerdote chamado a oficiar o evento.

A África está lixada mesmo. E não é só no futebol, Sizaltina Cutaia

Comentários

Júlio Mutisse Kkkk. Oremos irmão Elisio. Oremos
Gosto · Responder · 3 · 19/1 às 18:13

Elisio Macamo aquele é teu pessoal.
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 23:42

Asaf Augusto
Traduzido do Inglês
Amém :)Ver Original

Lyndo A. Mondlane Eu até agora estou em estado de shok professor, se fosse verdade até entendía, más nao entendo como todo um senhor é capaz de estafa emocional a cidadaos é fazer creer q pode povocar chuvas.. Aquí está nevar na costa (pena q nunca mais voltaste porq te ia levar a sitios incriveis) ha 100 anos nao nevava assim, é mesmo assim nao esta nenhum bispo a rezar aquí.. Me indigna é apena porq estou ciente q o bispo sabe que não provoca nenhuma chuva, más se aproveita da ignorancia dos demais para estafar.. O mais triste é ver toda uma instituicao supostamente científica convocar em horario laboral supostas prácticas nao científicas para provocar chuvas...é o proprio bispo, consciente de q nao provoca caisa nenhuma vai la nao sei com q intuito
Gosto · Responder · 3 · 19/1 às 18:51 · Editado

Elisio Macamo estamos lixados.

Mussá Roots Guardei, para ler em casa...estou sem carga, e na rua, nos meus biscates...

Este comentário, é mesmo para garantir notificações...

Ai de mim, tentar dar-me ao luxo de perder algum escrito do professor Elisio Macamo...

"Mais vale seguír uma dúvida, até mesmo equívoco do professor Macamo, do que as certezas de um grupo de pedantes que abundam cá na nossa pérola indiana, através desta plataforma"

Mais ou menos isto...de resto, vou chegar a casa,carregar a bateria, e ler...

Sou teu fã,profe...high level...hugs!
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 19:09 · Editado

Isaac Paxe Professor sempre tive dificuldades de explicar a minha viagem ao ateísmo até que terça-feira a Zimbu ajudou essa "alma perdidamente possuída". Estamos transversalmente lixados de facto.
Gosto · Responder · 3 · 19/1 às 19:20

Elisio Macamo é. muito vergonhoso aquilo. pelo menos um salvou a coisa.

Juma Aiuba Só olho!
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 19:28

Edson Godinho Amen Professor!
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 19:29

Dolce Saia Estou confusa...mas entendi onde queria chegar. Á nossa África oremos ao senhor!
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 19:38

Jaime Langa Yeah professor... oremos mesmo.
Gosto · Responder · 1 · 19/1 às 19:39

Danilo da Silva Tem coisas neste país que arrepiam. Apesar de formalmente sermos um estado democrático de direito e laico as pessoas não conseguem entender isso. Vezes sem conta cerimónias e algumas reuniões do estado iniciam com orações, no espaço público... a última foi aquele espetáculo.
Espaço estatal, publico- de todos os moçambicanos, não só teístas - funcionários públicos, a serem "ordenados" (sim, ordenados. Que digam o que quiserem foi ordem) a se apresentarem para uma oração a chuva...
Eu morri logo!
Gosto · Responder · 3 · 19/1 às 21:51 · Editado

Elisio Macamo o bom é que logo ressuscitou. vai entender jesus melhor...

José Teixeira Vénia Elisio Macamo, nosso sacerdote da razão ...
Gosto · Responder · 2 · 19/1 às 21:49

Elisio Macamo risos.
Emilio Maueie Com tamanha falsidade, espera-se que avancemos. Ngeke (nunca).
Gosto · Responder · 1 · 19 h

Elisio Macamo o problema é que não é sempre pela razão que avançamos. essa é a chance da mente torturada que depois confunde coinciência com providência.

António Cabrita Se ao menos o Trump fosse convertdo ao Murimismo...
Gosto · Responder · 2 · 18 h

Elisio Macamo risos. suspeito que já tenha sido...

Wilson Profirio Nicaquela E como não se tratou de deslize ou lapso que nunca teve o Bispo mor, não tardou de sair em legítima defesa por via das improcedentes redes (in)sociais. #Estamoslixados", de facto.
Gosto · Responder · 14 h · Editado

Fermino Jose Mujovo Professor, oremos somente.
Gosto · Responder · 11 h
Mablinga Shikhani Interessante.

As premissas das ciências sociais
Uma das coisas que retira „cientificidade“ às ciências sociais é a sua vulnerabilidade ao que alguns de nós, pesquisadores, consideramos óbvio. Peguemos, a título de exemplo, uma afirmação como a seguinte: “A sociedade moçambicana não está preparada para aceitar certos comportamentos, por isso tem razão o Ministério da Justiça em não diferir o pedido de reconhecimento jurídico duma determinada associação”. O que se considera óbvio nesta afirmação, que facilmente poderia ser pronunciada por um cientista social, é a ideia de que certos comportamentos só podem ter protecção jurídica a partir do momento em que a sociedade estiver preparada para os aceitar. Esta é uma ideia com a qual muitos de nós, intuitivamente, concordamos. Isto é, o que essa afirmação faz é dar-nos um argumento com uma premissa implícita – senão mesmo suprimida – que não constitui o foco da discussão e nos leva a concentrar a atenção no que é menos interessante. Em lógica tem o nome de entimema, em ciências sociais é uma oportunidade perdida.
Digo isto a propósito duma notícia que li, da autoria da UNICEF, com o seguinte título “Fonte de água melhora aproveitamento escolar das crianças na Zambézia”. Vão compreender que tudo o que diz respeito à água me interesse estes dias. A notícia é na verdade uma peça publicitária para o trabalho desse organismo das Nações Unidas. Mas é mais do que isso. É também a insistência numa forma de abordar os nossos problemas que constitui, ela própria um problema. A notícia baseia-se num menino de 15 anos (com seis irmãos mais novos) no distrito de Gurué que tem que percorrer 3 kms para chegar ao rio onde há água para as suas necessidades, para as necessidades da família e ainda tem que ir à escola.
Eis o que o próprio menino “diz”: “Eu acordava todos os dias às 5 horas para ir ao rio, e quando lá chegasse, primeiro tomava banho e depois levava a água para casa e só depois é que poderia ir para a escola que fica a 2 km. Sempre chegava tarde e cansado às aulas, e o meu rendimento escolar era baixo.” A notícia acrescenta: “...conta Jordão com ar triste.” E o problema, como todos nós sabemos, é que em muitos destes lugares pratica-se o fecalismo ao céu aberto, o que cria o risco de doenças. Vamos ouvir o Jordão de novo: “Aqui em casa sempre que bebêssemos a água do rio apanhávamos diarreia que passava de pessoa para pessoa, muitas vezes faltei a escola por ter diarreia.” Pobrezinho.
Graças à intervenção dum programa de higiene e saneamento da UNICEF, que construiu uma fonte de água e está a ajudar a comunidade a atingir o estatuto de LIFECA (juro palavra de honra), isto é, Comunidade Livre do Fecalismo a Céu Aberto, as coisas agora melhoraram. Como diz o pai do Jordão, “[H]oje respiro de alívio, pois temos uma fonte por perto, agora bebemos água potável e as doenças diarreicas na minha família diminuíram, temos uma latrina e um tip-tap para facilitar a lavagem das mãos para toda a família. A construção desta fonte trouxe mudanças na vida da minha família e de toda comunidade. E para a manutenção da mesma formou-se um Comité de Gestão de Água, que está a funcionar devidamente”. O próprio Jordão é a alegria em pessoa: “Estou feliz! Agora já tenho tempo para descansar, brincar, e o meu aproveitamento escolar melhorou, porque tenho tempo de rever as lições e fazer o meu trabalho de casa”. Parece conto de fadas. E viveram felizes para todo o sempre...
Qual é a premissa suprimida neste longo argumento enfadonho? É a ideia segundo a qual intervenções técnicas são as soluções que fazem falta ao nosso país. Faltou instalar aquela fonte de água para que o Jordão virasse bom aluno, a população cuidasse da sua higiene e saúde, a comunidade soubesse resolver os seus problemas localmente sem intervenção de fora, etc. É conto de fadas isto. Porque é que isto é do interesse das ciências sociais? Porque a supressão de premissas desvia a nossa atenção dos problemas que precisam de ser abordados. Premissas suprimidas são, por norma, premissas que correspondem ao que nós damos por adquirido. O que damos por adquirido na reflexão sobre os nossos problemas é justamente a ideia de que nos faltam meios técnicos, nunca, ou raramente, as condições sociais dentro das quais as coisas acontecem, ou não.
Aqui levantam-se vários problemas bicudos de ordem metodológica. Primeiro, este tipo de raciocínio funciona sob condição de infantilização das pessoas. Consideramos natural que a “população” esteja entregue à sua própria impotência e falta de imaginação. Consome água impoluta, as crianças têm mau rendimento escolar, etc., opá, é a vida em Moçambique. As pessoas não sabem o que fazer ou como se ajudar a si próprias. Segundo, naturalizamos a desculpa da falta de meios para não promovermos a exigência às autoridades públicas que, por sua vez, ficam aí à vontade a coçar o umbigo ou a urdir planos para convidar bispos reformados a rezarem missas que ajudem a resolver os problemas do povo. Terceiro, aceitamos que organizações como a UNICEF se perpetuem à nossa custa usando a nossa incapacidade de pensar os problemas a fundo como subterfúgio para se reproduzirem no nosso meio.
As ciências sociais servem também para este tipo de interpelação. Elas estão no seu melhor quando vão para além do óbvio e chamam a atenção da sociedade para o que está realmente em causa. Na circunstância, o que está em causa na falta de água potável no distrito de Gurué, não é, do ponto de vista de ciências sociais sérias, o facto de o rio estar distante e poluído. É a naturalização da intervenção técnica. Ficamos aí constantemente a lamentar a falta de meios técnicos quando a pergunta que devíamos colocar é outra: porque é que a comunidade fica à espera dos Bons Samaritanos ao invés de agir ela própria? Isso é o que precisamos de entender porque para a falta de meios a UNICEF já tem a sua própria resposta narcisa.
É caso para dizer que ainda vamos esperar muito pela razão... estou a deturpar Oleta Adams, mas justifica-se...
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Amarildo M. C.Tongolo Qual é a premissa suprimida neste longo argumento enfadonho?aprendo muito com os artigos do DR.obrigado .
Elias Gilberto Djive
Elias Gilberto Djive Esperamos, sempre, que os outros (Messias) venham resolver os nossos problema.
Danilo da Silva
Danilo da Silva Essa palavra "sociedade", é igual aquela outra palavra muito abusada pelos políticos-"povo"... descaracterizadora e paternalista.

Quem é essa "sociedade"? O sujeito fala como se não fizesse parte dessa tal "sociedade", como se ele/ela já estivesse pr
eparado(a) (seja lá que diabos isso significa). Lá do alto do ser cavalo é um mero observador do "despreparo" dessa (pobre, incapaz) sociedade.

Até hoje eu não sei quais são os sinais que irão demostrar que uma sociedade está preparada para certas coisas.

Os moçambicanos não estavam preparados para o multipartidarismo, mas por que achamos que era esse o caminho, avançamos.

Não estamos preparados para o quê mesmo? Para viver como gente civilizada que sabe respeitar os outros? É isso?

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