quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A história do relatório polémico sobre Trump



Zangado, Trump garante que Rússia não tem nada que o comprometa

Na primeira conferência de imprensa desde que foi eleito, Presidente eleito dos EUA diz que se o Kremlin tivesse informação sensível sobre si a tinha divulgado. "Se Putin gosta de Trump, óptimo, é uma vantagem", disse.

Trump, na sua primeira conferência de imprensa após a eleição, disse alimentar a expectativa de “entender-se bem” com o seu homólogo russo, Putin
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Trump, na sua primeira conferência de imprensa após a eleição, disse alimentar a expectativa de “entender-se bem” com o seu homólogo russo, Putin

O futuro Presidente dos Estados Unidos reagiu com fúria às sugestões de que poderá vir a ser manipulado ou chantageado pelo líder russo Vladimir Putin. E desmente as informações dos serviços de informação norte-americanos sobre acções de espionagem, encomendadas por Moscovo, para influenciar o processo eleitoral e facilitar a sua eleição para a Casa Branca. “Se Vladimir Putin gosta de Donald Trump, eu acho óptimo, é uma vantagem”, considerou, salientando a importância de melhorar o relacionamento entre os dois países.


A expectativa de Donald Trump é que venha a “entender-se bem” com o Presidente russo. “Mas também é possível que isso não aconteça”, consentiu. Uma coisa é certa: “A Rússia vai passar a ter muito mais respeito pelos Estados Unidos comigo na presidência. Aquilo que eles faziam de errado vão deixar de fazer”, frisou, reconhecendo pela primeira vez as conclusões dos serviços norte-americanos que responsabilizaram o regime de Moscovo pelos ataques informáticos aos servidores da campanha da democrata Hillary Clinton. “Nesse caso, foi a Rússia”, concluiu, admitindo pouco depois que poderia ter sido outro país, “muito provavelmente a China”.


“A pirataria está errada. É coisa de que eu não gosto. Mas pensem no que descobrimos sobre Hillary Clinton por causa dessa fuga de informação”, assinalou. E, prosseguindo com a sua lógica, seria natural que a Rússia também divulgasse informação comprometedora sobre si: “Quer dizer, se eles tivessem alguma coisa, certamente que a teriam divulgado”. “Porque existe alguém que acredite honestamente que Hillary Clinton seria mais dura com Putin do que eu?”, questionou.
Segundo a CNN e outros media que deram conta das investigações das autoridades americanas às suspeitas de que Moscovo também dispunha de informação que prejudicaria as aspirações eleitorais do magnata, o objectivo de Vladimir Putin seria prejudicar a campanha de Clinton para abrir caminho à vitória de Trump, que ficaria em condições de controlar. O relatório aponta para a “colaboração” do regime russo com a equipa do republicano, e refere a existência de material potencialmente embaraçoso que poderia ser utilizado para fazer chantagem.
Sobre o documento em causa, que foi publicado na íntegra pelo site Buzzfeed, o Presidente eleito disse que “nada daquilo aconteceu”, presumivelmente uma referência a descrições de actividades de cariz sexual num hotel de Moscovo aquando de uma viagem sua à Rússia para promover o concurso Miss Universo. “Sou o primeiro a avisar os meus guarda-costas e toda a gente que viaja comigo para terem cuidado com os gravadores e câmaras nos quartos”, informou, desviando-se do assunto.
“Esse papel nunca devia sequer ter sido escrito. Essa informação é falsa, é lixo”, disparou Donald Trump. “Foi um grupo de opositores, gente doente, que inventou essa porcaria e fabricou esse relatório”, acusou, responsabilizando os serviços de informação pela sua divulgação, que considerou “vergonhosa” (numa sucessão de invectivas no Twitter, chegou mesmo a considerar-se vítima de perseguição, comparando os serviços à Alemanha nazi). Questionado sobre se a matéria tinha sido abordada na sua reunião com os dirigentes dos serviços secretos sobre as investigações às acções russas – e especificamente se o teor do relatório tinha sido discutido –, o Presidente eleito recusou responder dizendo que esses encontros são confidenciais. A Casa Branca, questionada esta quinta-feira sobre a polémica, deu a mesma resposta.


O negócio? Aos filhos

Trump recusou também responder quando foi pressionado para negar – on the record – a existência de contactos, encontros ou reuniões entre membros da sua equipa e indivíduos ligados ao regime russo. Também recusou divulgar a sua declaração de rendimentos, lista de património e outra documentação relativa aos seus interesses financeiros para provar que as acusações de troca de favores ou influência são falsas. “Não tenho nenhum negócio com a Rússia nem tenho empréstimos na Rússia”, garantiu.
Numa conferência de imprensa desconcertante – que confirma que a actuação de Donald Trump no futuro nada terá a ver com a tradição presidencial ou as convenções políticas de Washington –, a sua advogada subiu ao palanque para dar explicações sobre a fórmula encontrada pelo Presidente eleito para isolar-se dos conflitos de interesses na Casa Branca e provar que não beneficiará do desempenho do cargo: colocar os filhos à frente do seu império empresarial e submeter os seus negócios, que não serão discutidos com ele, ao escrutínio de entidades externas. “Eu podia continuar a gerir a Organização Trump, que é uma excelente organização, por um lado, e a liderar o país e o governo, por outro. Mas preferi não o fazer”, justificou.
Além disso, elencou uma série de decisões que vai converter em acção imediatamente depois de tomar posse: a aplicação de um novo imposto às empresas que deslocalizem a sua produção, a construção de um muro na fronteira com o México, ou a implementação de um plano para “revogar e substituir” o programa de saúde Obamacare que os congressistas republicanos desconhecem. Também anunciou a sua escolha para dirigir o Departamento dos Assuntos de Veteranos de Guerra, David Shulkin.
O Presidente eleito, que já não aceitava responder a questões da imprensa desde 27 de Julho, começou por confessar a sua satisfação por enfrentar os jornalistas porque durante a campanha eleitoral se tinha habituado a dar conferências de imprensa diárias. “Mas deixei-me disso porque as notícias que saíam eram todas erradas”. Por causa disso, escusou-se a ouvir questões colocadas pelo repórter da CNN e de jornalistas de outros meios que descreveu como “falsos”, “terríveis” e “desonestos”. “Vocês vão sofrer as consequências”, prometeu.
Não foi feito por agências de espionagem nem foi encomendado por Moscovo. Na sua origem estão os rivais de Trump dentro do Partido Republicano.

Escolhas de Trump para CIA e Pentágono prontos para confronto com Rússia

Nas audiências no Senado, Mike Pompeo e James Mattis distanciaram-se de Trump. Falaram verdade ou para apaziguar John McCain?
O congressista Mike Pompeo, anets de começar a audiência para o emprego de director da CIA
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O congressista Mike Pompeo, anets de começar a audiência para o emprego de director da CIA CARLOS BARRIS/REUTERS
Os homens que Donald Trump escolheu para integrarem o Governo dos EUA e estão a ser auditados no Senado - que tem que confirmar as nomeações - continuam a distanciar-se das declarações do Presidente eleito quando respondem às perguntas dos senadores. Esta quinta-feira, foram interrogados Mike Pompeo e o general James Mattis (respectivamente CIA e Pentágono) e ambos advertiram para o perigo que constitui a Rússia.
Mattis disse que a Rússia, a China e os militantes islamistas radicais são as grandes ameaças para os EUA, ao defender que o Congresso deve acabar com os limites a certos gastos militares que, na sua opinião, estão a diminuir a capacidade de resposta do país. Foi neste momento que disse: "Considero que a principal ameaça começa na Rússia".
No painel que interrogou Mattis e Pompeo estava o senador John McCain, um dos mais duros críticos da política de bom entendimento com a Rússia defendida por Trump. Os candidatos a um lugar na Administração Trump pareceram responder directamente a McCain - e tudo o que disseram só pode ter agradado ao influente senador republicano.
Pompeo disse pretender dar uma resposta "incrivelmente forte" à pirataria informática de Moscovo e garantiu que investigará o relatório onde é exposto que a Rússia, através de ciberataques, interferiu no processo eleitoral americano. Contariando Trump, que acusou as agências de informação de terem passado aos media uma adenda desse relatório que diz que o Kremlin tem na sua posse dados comprometedores sobre Trump (episódios sexuais), defendeu a espionagem americana e afirmou que a Rússia tem de pagar pelo que fez.
O general na reserva - noutro distanciamento do Presidente eleito, que pôs em causa o papel da NATO e os gastos dos EUA com a defesa colectiva dos aliados - defendeu a Aliança Atlântica e acusou o Presidente russo de pretender "destruir a aliança militar de maior sucesso da História". Defendeu o reforço de efectivos nos países bálticos - operação em curso - para travar a ameaça russa.
Os analistas disseram que Pompeo e Mattis fizeram um "jogo de equilíbrios" (CNN) que pode tornar-se uma constante durante a Administração Trump (El País). Ou seja, foram a uma entrevista de emprego e disseram o que queria ouvir quem os estava a interrogar; entraram em contradição com as posições assumidas pelo homem que os escolheu para apaziguar o Congresso e para explicarem que, depois de Trump tomar posse, a 20 de Janeiro, poderá haver muitos ajustamentos entre o que é dito por uns e os que é dito por outros.








Reuters
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Além de Donald Trump, o nome de outro republicano estava na manhã desta quarta-feira em praticamente todas as notícias relativas ao controverso relatório sobre as actividades do Presidente eleito dos EUA — o de John McCain, presidente do comité das Forças Armadas do Senado.



O senador do Arizona, que nunca escondeu a sua aversão a Trump, entregou o dossier ao director do FBI, em Dezembro, escreveram os jornais. Mas McCain, tudo indica, é apenas uma etapa nas muitas voltas que o documento deu desde que começou a ser produzido até ter chegado às manchetes.



O relatório foi encomendado a uma empresa de investigação por republicanos opositores de Trump durante as primárias do partido. Um homem identificado como ex-espião britânico em Moscovo deu início ao seu trabalho de recolha de informações. Quando as primárias terminaram, e Trump se tornou candidato, a mesma empresa e o mesmo investigador continuaram a fazer o trabalho, só que mudou o empregador — trabalhavam, agora, para democratas, o que não quer dizer que tivesse sido a campanha de Hillary Clinton, diz o USA Today.
Segundo a CNN, toda esta espionagem a Trump acabou por revelar, a dado momento, que a sua equipa mantinha relações próximas com Moscovo desde 2015 e que os russos estavam na posse de dados comprometedores sobre o Presidente eleito — de teor privado e financeiros.
Segundo a CNN, em Julho de 2016, um antigo colaborador de Trump, Carter Page, encontrou-se com uma pessoa identificada como “Divyken”, enviada do Kremlin. Os dois homens discutiram a existência de material comprometedor sobre Hillary Clinton, mas no encontro também foi mencionada informação sobre Trump. As informações sobre Clinton não foram passadas aos homens de Trump.
Prossegue o USA Today que as conclusões do ex-espião — ou seja, o conjunto de memorandos que ia entregando a quem o contratou — “corriam tão livremente em Washington [quer nos meios políticos, quer nas redacções] que as agências de espionagem entenderam ser necessário fazer chegar a informação a Obama, a Trump e a oito senadores e congressistas”. O que foi feito em Dezembro.
Foi nesta altura que a notícia chegou a John McCain. Que, ao saber dos contactos Trump-Moscovo — e da existência da informação que poderia deixar Trump refém de Vladimir Putin — “enviou um emissário ao outro lado do Atlântico para se reunir com a fonte”. Os memorandos continham sobretudo informação não verificada, alguns dados errados e muita coisa impossível de confirmar. Mas a credibilidade da fonte — e o facto de ter sido o único a dizer que a simpatia de Trump pela Rússia podia ter motivos ocultos — levou McCain a decidir entregar o relatório ao FBI; que, dizem os jornais, já o tinha.
O senador, que segundo um amigo que falou com o Guardianestava relutante em envolver-se no assunto — é um opositor declarado do Presidente eleito, e receava ser acusado de estar a prejudicá-lo de propósito —, deu o relatório ao director do FBI, James Comey, a 9 de Dezembro de 2016. De seguida, anunciou que a cibersegurança e a ciberespionagem eram as suas novas prioridades e marcou uma audiência no Senado para ouvir o chefe dos espiões, James Clapper. McCain queria que Trump parasse de criticar e menorizar a missão das agências de espionagem americanas.
Tudo se precipita a partir daí: Clapper confirma a espionagem russa e, na tarde de 13 de Dezembro, entrega a Trump o relatório sobre o tema, obrigando este a admitir pela primeira vez que existiu uma intervenção de Moscovo. Acrescenta-lhe em adenda um resumo dos memorandos polémicos. Obama já tinha recebido um pacote igual. Porque decidiu Clapper incluir a adenda na documentação que entregou a Trump e a Obama? Essa era a pergunta que muitos analistas faziam esta quarta-feira.

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