terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Trabalhadores franceses ganham direito a ignorar email fora do horário


Nova lei entra em vigor hoje em França e aplica-se às empresas com mais de 50 trabalhadores.
Várias grandes empresas a operar em França já tinham tomado medidas no sentido de definir a fronteira em que os trabalhadores estão dispensados de ver o email
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Várias grandes empresas a operar em França já tinham tomado medidas no sentido de definir a fronteira em que os trabalhadores estão dispensados de ver o email MARIA JOÃO GALA
Os trabalhadores franceses vão poder desligar-se do seu email profissional, fora do horário de trabalho, ao abrigo de uma lei que entra este domingo em vigor em França.
As empresas com mais de 50 trabalhadores vão ser obrigadas a ter um quadro de boa conduta que define o período a partir do qual não é obrigatório enviar ou responder a mensagens de correio electrónico.
Esses períodos de repouso serão definidos em resultado de negociações entre a entidade patronal e o trabalhador. Caso não haja acordo, o trabalhador deverá elaborar um documento com as regras sobre a forma como vai exercer "o direito à desconexão" - assim se apelidou o novo direito.
Os defensores da lei argumentam que essa disponibilidade para ver o email não está a ser paga de forma justa, além de que pode contribuir para agravar o stress, burnout (distúrbio psíquico precedido por esgotamento físico e mental intenso) e problemas em dormir.
Um inquérito da Deloitte, em Abril de 2015, citado pela BBC, revelou que por escolha ou obrigação 71% dos quadros das empresas lêem mensagens de email à noite ou em férias e 76% consideravam que isso tinha um impacto negativo para a sua vida profissional e familiar.
Apesar da nova lei - aprovada no âmbito de uma reforma laboral - , as regras não são aplicadas de forma impositiva, o que deixa antever um longo caminho para que se tornem uma realidade generalizada. Magali Prost, doutorada em psicologia ergonómica, e especialista na utilização das novas tecnologias em contexto de trabalho, esteve envolvida numa experiência levada a cabo por uma empresa de criação de um sistema de bloqueio do email fora do horário de trabalho. Em entrevista ao Le Monde, a especialista realça que, com esta prática, “o trabalho torna-se uma preocupação constante e entra na esfera privada” e que “alguns directores sempre ligados ao email podem transmitir uma pressão implícita aos seus colaboradores que se sentem na obrigação de responder às mensagens a horas indevidas”. Prost considera que “neste contexto se a ordem para desligar não for imposta pela organização não avançará”.
Segundo o jornal Le Figaro, várias grandes empresas a operar em França já tinham tomado medidas no sentido de definir a fronteira em que os trabalhadores estão dispensados de ver o email, mesmo dentro do horário laboral. Foi o caso da Orange (telecomunicações) que num documento interno, datado de Setembro deste ano, pediu aos seus colaboradores que não vissem as mensagens electrónicas durante as reuniões para facilitar a concentração. Já a Michelin estabeleceu um horário de repouso, entre as 21h e 7h da manhã, e de sexta-feira das 21h00 às 7h00 de segunda, para os seus colaboradores itenerantes. Um outro exemplo é o da Volkswagen, que aplica a um milhar de funcionários, desde 2011, um período de tréguas diário de consulta do email no seu telemóvel da empresa fora do horário de trabalho.

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