segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Afinal não é só falta de confiança mas também de honestidade


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Canal de Opinião por Noé Nhantumbo
Reeditam-se os impasses do Centro de Conferências “Joaquim Chissano” de maneira cada vez mais visível.
Afinal, para além da muitas vezes mencionada necessidade de criar confiança entre as partes que constituem a Comissão Mista, é urgente acrescentar mais um ingrediente para que a “sopa da PAZ” finalmente aconteça.
Estamos em presença de equilibristas e de estrategas veteranos no jogo das manobras dilatórias.
Gente não se importando de colocar mancebos na frente de batalha fratricida, desde que os seus inúmeros interesses sejam e saiam salvaguardados.
Nunca foi tão urgente ver os moçambicanos batendo-se pela única coisa que realmente interessa e importa que é a paz.
A nova série de impasses mostra que o AGP de Roma foi assinado em bases falsas como forma de “ganhar tempo”, como dizem os cobradores de “chapa cem” na Beira.
Sabido que os pontos de discórdia ou aqueles que impedem que surjam consensos entre as partes, estavam ou estão em “banho-maria”, isso deve ser por alguma coisa concreta que incomoda as partes.
Dos discursos e proclamações recorrentes de diversos quadrantes, está ficando claro que se está jogando sem honestidade.
Sem honestidade não é possível construir confiança. Sem confiança, não se estabelecem as bases para a aceitação generalizada da necessidade de reconciliação e perdão entre os moçambicanos desavindos.
O comportamento daqueles que se bateram pela independência nacional começa a ser questionado ao se descobrir que, afinal, estavam combatendo para ficarem ricos, latifundiários e accionistas de “joint-ventures” baseadas em recursos naturais descobertos ou redescobertos.
Como aves de rapina prontas a capturar mais uma vítima, as corporações multinacionais foram reconhecendo o campo e afinando as suas estratégias, de tal forma que apresentam os seus “lobistas” como mediadores nas discussões acontecendo na Comissão Mista.
Silenciosamente, viu-se dirigentes partidários de topo preterindo mediadores de relevo e reconhecimento internacional, para preferir, em seu lugar, pessoas que, num passado não remoto, haviam tomado parte em campanhas cheias de êxito em denegrir um dos opositores políticos do Governo de Moçambique.
O alinhamento milimétrico dos mediadores internacionais ignorou africanos independentes e credíveis como Kofi Annan, e isso foi feito propositadamente.
Ou as partes infantilmente ignoraram que estavam escolhendo “lobistas” do sector petrolífero internacional, ou andam distraídas.
ENI, Anadarko e ExxonMobil estão na mesa cozendo e remendando como bem querem.
Amanhã, diremos que fomos mais uma vez enganados, mas já será tarde. O AGP abriu as portas para a entrada galopante de multinacionais e ocorreu numa altura em que reservas minerais antes conhecidas e catalogadas beneficiaram do apetite das multinacionais.
Negociando com gente pouco conhecedora dos “dossiers”, o Governo de Moçambique ofereceu de bandeja recursos que poderiam ter alavancado a economia e criado uma base ou reserva financeira importante.
Hoje, queixamo-nos de que as multinacionais sacam o que querem, com mais-valias mínimas para o país. Contra conselhos mais do que válidos de pessoas entendidas em fiscalidade e desenvolvimento, viu-se sucessivos Governos adoptando decisões que só enriqueceram os governantes locais.
Após um AGP que se demonstrou cosmético ao longo dos anos por não ter atacado questões como a despartidarização do aparelho de Estado, a equidistância do judiciário e a plena construção de forças armadas e policiais apartidárias, registaram-se sucessivas crises decorrentes de eleições sem credibilidade, mas autenticadas por um Tribunal Constitucional conivente com o poder do dia.
Terminado o mandato de Joaquim Chissano, Armando Guebuza terá julgado que o tempo se tinha encarregado de destruir a estrutura da guerrilha da Renamo, daí que tenha encetado alguns ataques provocatórios, que serviriam para medir a sua prontidão combativa.
Houve dezoito meses de hostilidades, que terminaram com um acordo mais ou menos precário, que permitiu realizarem-se eleições gerais e presidenciais.
Só que as eleições foram seguidas de uma crise pós-eleitoral como tem acontecido desde 1994.
Os resultados eleitorais demoraram tanto tempo a serem “conhecidos e cozinhados”, que, logo após o seu anúncio em 2014, gerou-se um clima de contestação jamais visto.
A eclosão de mais uma era de hostilidades militares, desta vez espalhadas por quase todas as províncias do país, não demorou, após o líder da Renamo ter sofrido várias emboscadas.
Desta vez, terá sido a presunção de que eliminar o líder da Renamo seriam favas contadas que levou a um rearmamento descomunal. Vagas sucessivas de ofensivas foram desencadeadas.
Os resultados não surgem naquela perspectiva de “savimbização ao estilo angolano”, como um veterano coronel havia sugerido. Idas e voltas de Angola para Moçambique e daqui para Angola parece não surtirem os efeitos desejados.
Assim, e como não interessa“entregar o ouro ao bandido”, arranjam-se subterfúgios de toda a ordem para atrasar entendimentos que se julgavam próximos.
Se houvesse honestidade, já haveria acordo. Se o mediador-chefe e alguns embaixadores se pronunciaram sobre a falta de confiança entre as partes, isso não deixa de ser verdade, mas é completo.
Uma negociação que decorre sob o espectro dos hidrocarbonetos e de outros minerais estratégicos contém uma “handicap” fundamental que é a vontade da parte que é o Governo acelerar a assinatura de contratos de concessões, como forma de garantir apoio das potências de onde provém as multinacionais.
Os acenos de capitais da ENI, Anadarko e ExxonMobil estão atrapalhando as negociações, pois, a cada avanço na Comissão Mista, não se encontra correspondência no que estas multinacionais fazem no terreno.
Quem compra gosta de comprar barato e, neste caso, quanto mais confusão e guerra existirem, mais baratos serão o gás e petróleo moçambicanos.
Aquelas negociatas da Riversdale com a Rio Tinto estão agora em investigação em Londres e em Washington, porque, de facto, quem compra por 4 biliões e vende por 50 milhões deverá ter muitas coisas por explicar.
E porque as escolhas de chefes de pelouros importantes como os minerais e energia, principais bases para relançar a economia moçambicana, são muito importantes, mais uma vez vemos que se fez “copy” e “paste” do passado, colocando quem não incomode e não emita opiniões sobre os negócios a realizar. Isso contraria qualquer disposição de discutir o ponto agendado das questões económicas em sede de Comissão Mista.
Mais uma vez só se pode concluir que não há honestidade nem interesse em alcançar uma paz sustentável.
Há quem está afincadamente envolvido na sabotagem dos esforços para a pacificação de Moçambique, e cabe aos moçambicanos descobrirem e denunciarem.
Mas ninguém se iluda, se não formos nós a resolver os nossos problemas, os mediadores e os seus Governos pouco ou nada farão. (Noé Nhantumbo)
CANALMOZ – 12.12.2016

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