segunda-feira, 7 de maio de 2018

Dhlakama, o visionário dos excluídos!



Afonso Dhlakama (1953-2018), líder da Renamo, o mais alto dirigente desta organização (1979-2018) perdeu a vida, algures na Serra da Gorongosa para onde se havia refugiado depois de duas perigosas emboscadas à sua caravana, nos dias 12 e 25 de Setembro de 2015 e do cerco à sua residência, na Cidade da Beira, no mês de Outubro do mesmo ano, actos perpetrados pelas forças gover
namentais. A vontade de o matarem nunca faltou por parte do regime. Agora, embora publicamente eles chorem, sabe-se que foram os mesmos que lhe fizeram emboscadas e o cercaram na sua própria casa e o queriam assassinar na sua base, em Sadundjira. Dhlakama foi vencido pela doença, longe dos cuidados médicos, da sua família, de amigos e colegas. Morreu numa pedra gélida. Morreu como um dos mais altos heróis da 
nossa pátria. Dhlakama é um herói sem paralelo e consensual, pelo menos, do Save até ao Rovuma. Não se pretende fazer tábua rasa à recente atroz guerra pela democracia (1976-1992) que, em 16 anos, cobriu todo o território nacional, com o apoio do povo que queria se livrar do regime comunista instalado pelos novos senhores de Moçambique. A guerra dos 16 anos fez muitas vítimas, provocadas pelas duas partes beligerantes. Não existe guerra santa. Todas as guerras alimentam-se de sangue de inocentes, sem nenhuma excepção, mesmo as ditas de causas justas, e arruínam as economias nacionais dos países nelas envolvidas. As guerras patrióticas ou de libertação nacional estão cheias de sangue. A acusar quem derramou mais ou menos sangue do povo é uma comédia. A Renamo matou e a Frelimo matou centenas de inocentes antes da independência e continua a matar até aos nossos dias.

Temos as valas comuns para onde eram atirados os corpos das vítimas dos esquadrões da morte. A Estrada Circular de Maputo foi transformada em cemitério e de torturas dos que falam “demais” contra o regime. Mesmo a grande propaganda montada pelo regime para denegrir a imagem de Dhlakama, catalogando-o de bandido ao serviço de forças inimigas à pátria não logrou os efeitos desejados porque, de facto, ele representa os oprimidos e excluídos, que são a maioria do povo moçambicano. Pode-se facilmente denegrir um indivíduo, porém é impossível excluir e denegrir todo um povo. A imagem de Dhlakama que leva o povo atrás de si não vai aparecer todos os dias. Ele é alto demais para ser encontrado em qualquer momento. Temos vários líderes bons mas Dhlakama era o único que se impunha pela sua presença e postura. Era o único que falava e a Frelimo o ouvia em sentido feitos que nem soldados na formatura matinal. Dhlakama vai fazer não só à 
Renamo mas ao país todo e, particularmente, à democracia. Foi a Renamo, dirigida por Dhlakama, que impôs o sistema multipartidário, em Moçambique, eleições multipartidárias, liberdade de expressão e de imprensa. As guias de marcha, aldeias comunais, campos de reeducação, chicotadas em praça pública e fuzilamentos arbitrários foram eliminadas graças à luta encabeçada por Dhlakama. Dhlakama pegou em armas e lutou, com tenacidade, para que todo o povo estivesse livre da nova dominação.


Muito cedo ele se apercebeu de que o colono branco havia sido substituído pelo colono preto que promovia actos nunca antes vistos, no país, que recusa a democracia, impõe a violência e abocanha os órgãos eleitorais que escrevem, para si, os resultados eleitorais que mais lhe convêm. Dhlakama viu que o adversário que procede de tal modo, não deixa o poder por via de um simples processo eleitoral que se limita apenas a formalizar a fraude. Assim, aceitou abraçar a luta armada, como a expressão mais alta da revolta popular contra o regime que descaracterizava e oprimia o povo. 
Dhlakama fica, para sempre, registado como um ícone da luta popular e não só como líder da Renamo. Com a descoberta de imensas jazidas gás e petróleo, no subsolo moçambicano, nos próximos anos, o Governo vai ter que lidar com centenas de biliões dólares e, como se pode vislumbrar, até não teremos ainda um Governo forte, sério e comprometido com o desenvolvimento nacional. O mar de dinheiro que vem aí fará instalar um Governo tremendamente corrupto e ditatorial. Os exemplos da Nigéria e da Guiné-Equatorial são suficientemente elucidativos que nos podem ajudar a ver para onde vai o nosso destino comum e, nessa altura, a voz como a de Dhlakama fará imensa falta. 
Que a Frelimo não perca se socorra da fórmula angolana que juntou, num único, saco a UNITA, como um corta-mato para se chegar à paz. Dhlakama não é Savimbi e Renamo não é UNITA. A “mugabização”, que consiste em prender e chicotear a oposição, em momentos eleitorais, leva ao descalabro político. A consciência pela liberdade é demasiado forte para se socorrer a soluções ditatoriais como a extinção pela força das armas ou persuasão com rebuçados. O mundo de hoje é pela diversidade de opinião e tolerância. O contrário é andar em contramão da História da Humanidade. Nas sociedades progressistas, ninguém ganha tudo e ninguém perde tudo, como acontece entre nós. 
Por fim, esclarecer que a não proclamação de Dhlakama à categoria de herói nacional e a não decretação de luto nacional evidencia a exclusão e discriminação que sempre caracterizou a Frelimo e os seus governos. 
Quanto a nós, Dhlakama é herói e os seus ideais continuarão a guiar a luta do povo como a estrela da manhã que conduziu os reis magos ao presépio onde se encontrava o Menino de Belém. A Frelimo que fique na sua! (Edwin Hounnou)
CANALMOZ – 07.05.2018

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