sexta-feira, 4 de maio de 2018

Dhlakama traído pela diabete

FOI ontem que Afonso Macacho Marceta Dhlakama perdeu a vida, na serra da Gorongosa, província de Sofala, provavelmente traído pela crise de diabete. Dhlakama escapou sempre com vida sucessivamente durante a guerra colonial, defendendo a tropa portuguesa, e mais tarde defendendo os interesses da Renamo contra os da Frelimo. Também saiu ileso das inúmeras encruzilhadas que teriam sido montadas pelos governo-Frelimo, na sequência dos conflitos a seguir aos pleitos eleitorais. O líder da Renamo e da oposição moçambicana escapou, pois, a tantas armadilhas para depois ser traído, eventualmente, por uma crise de diabete. Na memória, o Acordo Geral de Paz assinado em Roma, Itália, lado-a-lado com Joaquim Chissano, que ditou o término da guerra civil que durou 16 longos anos. Quando muitos duvidavam da capacidade organizativa de Afonso Dhlakama, nomeadamente no comando dos seus homens, éis que a partir de Roma o homem anuncia o cessar-fogo em Moçambique, deixando boquiaberto meio-mundo, incluíndo os do governo-Frelimo. A sua voz de comando era cumprida à letra pelos seus homens, em todo o lado, por vezes, muito mais tarde, obrigado a puxar pelos galões para que os seus seguidores o escutassem, na necessidade de não levar avante os conflitos, ou provocações da Frelimo, antes, optando pela ponderação. Ainda na guerra civil, interessantes episódios em que Dhlakama teria escapado às incurssões do exército oficial, na boleia de uma motorizada (exímio) vestido de mulher. Aliás, todos os oficiais superiores da Renamo, durante a guerra civil, se faziam em motorizadas, úteis sobretudo em caso de fuga e na passagem de mensagem de uma para outra posição. Mais recentemente e quando, mais uma vez, meio-mundo julgava Afonso Dhlakama sob custódia das Forças de Defesa e Segurança, na cidade da Beira, Ponta-Gêa, o homem “sumiu” de forma misteriosa de sua residência, perante a presença de elementos armados e não armados que se encontravam a cercar o edifício. Até à altura destas linhas não se sabe como é que Dhlakama saiu da residência para depois se fazer anunciar a partir da Serra da Gorongosa. Pós-Roma Um recuo para assinalar que após o acordo de Roma, no dia 4 de Outubro de 1992, veio a Organização das Nações Unidas para Moçambique (ONUMOZ), responsável por gerir o cumprimento do entendimento de Paz no país. As partes, tanto o governo-Frelimo quanto a Renamo, se desconfiavam mutuamente, de tal modo que Afonso Dhlakama levou tempo para sair das matas para a cidade de Maputo, como aliás o documento assinado com Joaquim Chissano, na Itália assim determinava. A equipa de avanço, liderada por Raul Domingos, foi rejeitando as várias propostas de residência oficial de Dhlakama, por questões de segurança. Uma das residências mencionadas para o efeito, é onde Daviz Simango na qualidade de presidente do Conselho Municipal de Maputo. O facto de a referida residência se encontrar do lado oposto do prédio Pigale, na Avenida 24 de Julho, em matéria de segurança, foi determinante para a nega da Renamo. É que lá de cima, de um dos apartamentos do refe- maputo, sexta-feira - 04.05.18 expresso edição nr. 4386 - Pág 2/5 rido prédio, podia-se visualizar qualquer objecto no quintal ou no interior da luxuosa residência. Foi rejeitada de imediato, tal como outras tantas. A polémica em torno da residência para Afonso Dhlakama só termina com a oferta do embaixador italiano em Moçambique, ao disponibilizar a sua ao líder da Renamo. Aldo Ajello, o italiano representante especial da ONUMOZ, teria visto os guerrilheiros da Renamo a desmobilizar e a entregar armas que nem sequer tinham qualidade para aquilo que foi a performance exibida durante os 16 anos contra o exército oficial, as Forças Armadas de Moçambique (FAM). Tal como os homens a desmobilizar, franzinos e aparentemente sem nenhum preparo técnico-táctico à dimensão da intensa guerra civil. Em causa, soube-se mais tarde, a tal desconfiança de Dhlakama. Os verdadeiros efectivos que fizeram frente às FAM’s haviam sido criteriosamente seleccionados para servir da guarda presidencial de Dhlakama e dos seus quadros superiores, outros desmobilizados de facto e um terceiro grupo provavelmente escondidos. Os desmobilizados permaneceram em aldeias com respectivas famílias, enquanto a determinada distância controlavam armamento militar, sujeito a manutenção periódica, feita em regime de escala pelos guerrilheiros desmobilizados. Marínguè, antiga base central da Renamo, diz-se, continuou durante largo período responsável pela manutenção do sistema de comunicação que por diversas vezes o governo-Frelimo pretendia que o mesmo fosse entregue, à luz do entendimento de Roma. Debalde. Dhlakama sempre se mostrou contra isso, até que anos mais tarde acabou parcialmente por ceder. Das vezes que Afonso Dhlakama concordou com o posicionamento do governo-Frelimo, foi quando da elaboração do novo organigrama das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), tendo como base, a formação académica dos militares. Porque os provenientes da Renamo não tiveram tempo para ir à escola, muitos foram desmobilizados de forma compulsiva, irritando a Renamo. Embora reconhece a pertinência do assunto, Dhlakama defendia que o processo passasse por um mecanismo menos compulsivo como foi realizado. Sucessão de Dhlakama A Frelimo, ou alguém em seu nome, nunca se simpatizou com Afonso Dhlakama como líder da Renamo e da oposição política em Moçambique. Terá activado inúmeras iniciativas que culminasse com a queda do homem à frente da Renamo. Esta questão levou Afonso Dhlakama a anunciar, alto e em bom som, que ele é que é a Renamo e que o partido depende dele inteiramente. Logo, sem ele à frente do partido, a Renamo não era nada. Na altura, estava em voga uma campanha que incentivada eleições internas na Renamo que visassem o afastamento do líder. Sem sucesso. Até que anos mais tarde, o próprio Afonso Dhlakama deixou claro que a sua morte não significaria, necessariamente, a ausência de liderança no seio do partido, pois este estava suficientemente preparada e organizada para as vá- rias frentes. Dhlakama temia que, com a sua morte, a Renamo fosse liderada por militantes mais perigosos que ele. E isso foi transmitindo aos da Frelimo, na sequência dos sucessivos conflitos entre as partes. Ou seja, Dhlakama era sinónimo da paciência e que, muitas vezes, conseguia travar os mais fervosos militantes que não hesitariam em levar a cabo um conflito armado de maiores proporções. Afonso Macacho Marceta Dhlakama morreu ontem, quinta-feira, na Serra da Gorongosa, supostamente traído por uma crise de diabete. srESTA casa entende que a morte de Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, não vai dar lugar à crise de liderança, precisamente porque questão há muito acautelada. O único receio dos moçambicanos está em saber responder à pergunta, pertinente. E agora? É que, a dado momento, Dhlakama ia dizendo aos da Frelimo que cabe a ele próprio o cenário de paz e da não guerra, consciente de que em seu redor estão homens que não hesitariam em recorrer a “guerra sem quartel”. Dhlakama alertou nesse sentido “mil e uma vezes”. Impressiona que Dhlakama nem precisava de continuar à frente da Renamo, uma vez que até tem a família em Portugal para onde podia ter se mudado e optado por uma vida mais folgada, gozando de merecida reforma. Prescindiu de tudo isso para continuar em Moçambique e, pior do que isso, nas matas da Serra da Gorongosa. O homem esteve na tropa colonial ainda jovem. Depois integrou a guerrilha da Frente a poucos anos da independência nacional, de onde acabaria por abandonar para a Renamo, junto ao André Matsangaiça. Em Outubro de 1992, Afonso Dhlakama assina, juntamente com Joaquim Chissano, o acordo geral de paz. Já com a ONUMOZ a supervisionar a implementação do entendimento de Roma, Afonso Dhlakama é desmobilizado junto dos “seus” guerrilheiros, em Marínguè, província de Sofala. Com Dhlakama, outros tantos oficiais superiores da Renamo, idos ao local do cerimonial, na boleia de novinhas motorizadas e trajados a rigor, uniforme de gala e respectivas patentes. Em Marínguè, a desmobilização decorreu não longe da base central da Renamo e da vila-sede distrital. A improvisada pista de aterragem foi obra dos guerrilheiros e da população local, para permitir que avionetas se fizessem com tranquilidade. Nada disso aconteceu, uma vez que a avioneta em que nos fizemos transportar, enfrentou dificuldades – não tantas – durante a aterragem, muito por culpa de pequenas dunas. Ao longo da caminhada para o local do cerimonial, colados às árvores o suficiente para que os forasteiros tomassem nota, panfletos da Frelimo. O guia, comandante Zero, fez questão de explicar que aquela era a zona liberdade e onde emperra a democracia. O comandante Zero dizia mesmo que ninguém estava alí por imposição, sim por vontade própria. Ele próprio, natural de Sofala, se entregou às ordens da Renamo por acreditar na sua ideologia de implementar a democracia em Moçambique, mas para isso tinha que lutar contra a ditadura da Frelimo. Nem com isso, lá dizia o homem, nas zonas libertadas da Renamo, outros partidos políticos, incluíndo a Frelimo, tinham as portas abertas para se implementar. À espera da desmobilização, Afonso Dhlakama foi espalhando abraços pelas dezenas de mulheres e crianças que lá se encontravam, dando a ideia de ser muito querido. Adeus ! sr

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