FOI ontem que Afonso
Macacho Marceta Dhlakama
perdeu a vida, na
serra da Gorongosa, província
de Sofala, provavelmente
traído pela crise de
diabete.
Dhlakama escapou
sempre com vida sucessivamente
durante a guerra
colonial, defendendo a
tropa portuguesa, e mais
tarde defendendo os interesses
da Renamo contra
os da Frelimo.
Também saiu ileso das
inúmeras encruzilhadas
que teriam sido montadas
pelos governo-Frelimo, na
sequência dos conflitos a
seguir aos pleitos eleitorais.
O líder da Renamo e
da oposição moçambicana
escapou, pois, a tantas
armadilhas para depois
ser traído, eventualmente,
por uma crise de diabete.
Na memória, o Acordo
Geral de Paz assinado em
Roma, Itália, lado-a-lado
com Joaquim Chissano,
que ditou o término da
guerra civil que durou 16
longos anos.
Quando muitos duvidavam
da capacidade organizativa
de Afonso
Dhlakama, nomeadamente
no comando dos
seus homens, éis que a
partir de Roma o homem
anuncia o cessar-fogo
em Moçambique, deixando
boquiaberto meio-mundo,
incluíndo os
do governo-Frelimo.
A sua voz de comando
era cumprida à letra
pelos seus homens, em
todo o lado, por vezes,
muito mais tarde, obrigado
a puxar pelos galões
para que os seus seguidores
o escutassem,
na necessidade de não
levar avante os conflitos,
ou provocações da Frelimo,
antes, optando pela
ponderação.
Ainda na guerra civil,
interessantes episódios
em que Dhlakama teria
escapado às incurssões
do exército oficial, na boleia
de uma motorizada
(exímio) vestido de mulher.
Aliás, todos os oficiais
superiores da Renamo,
durante a guerra civil, se
faziam em motorizadas,
úteis sobretudo em caso
de fuga e na passagem
de mensagem de uma para
outra posição.
Mais recentemente e
quando, mais uma vez,
meio-mundo julgava
Afonso Dhlakama sob
custódia das Forças de
Defesa e Segurança, na
cidade da Beira, Ponta-Gêa,
o homem “sumiu”
de forma misteriosa de
sua residência, perante a
presença de elementos
armados e não armados
que se encontravam a cercar
o edifício.
Até à altura destas linhas
não se sabe como é
que Dhlakama saiu da
residência para depois se
fazer anunciar a partir da
Serra da Gorongosa.
Pós-Roma
Um recuo para assinalar
que após o acordo de Roma,
no dia 4 de Outubro
de 1992, veio a Organização
das Nações Unidas
para Moçambique (ONUMOZ),
responsável por
gerir o cumprimento do
entendimento de Paz no
país.
As partes, tanto o governo-Frelimo
quanto a
Renamo, se desconfiavam
mutuamente, de tal modo
que Afonso Dhlakama levou
tempo para sair das
matas para a cidade de
Maputo, como aliás o documento
assinado com Joaquim
Chissano, na Itália
assim determinava.
A equipa de avanço, liderada
por Raul Domingos,
foi rejeitando as várias
propostas de residência
oficial de Dhlakama, por
questões de segurança.
Uma das residências
mencionadas para o efeito,
é onde Daviz Simango na
qualidade de presidente do
Conselho Municipal de Maputo.
O facto de a referida
residência se encontrar do
lado oposto do prédio Pigale,
na Avenida 24 de Julho,
em matéria de segurança,
foi determinante
para a nega da Renamo.
É que lá de cima, de um
dos apartamentos do refe-
maputo, sexta-feira - 04.05.18 expresso edição nr. 4386 - Pág 2/5
rido prédio, podia-se visualizar
qualquer objecto no quintal ou
no interior da luxuosa residência.
Foi rejeitada de imediato,
tal como outras tantas.
A polémica em torno da
residência para Afonso Dhlakama
só termina com a oferta
do embaixador italiano em
Moçambique, ao disponibilizar
a sua ao líder da Renamo.
Aldo Ajello, o italiano representante
especial da ONUMOZ,
teria visto os guerrilheiros
da Renamo a desmobilizar
e a entregar armas que
nem sequer tinham qualidade
para aquilo que foi a performance
exibida durante os 16
anos contra o exército oficial,
as Forças Armadas de Moçambique
(FAM).
Tal como os homens a desmobilizar,
franzinos e aparentemente
sem nenhum preparo
técnico-táctico à dimensão da
intensa guerra civil.
Em causa, soube-se mais
tarde, a tal desconfiança de
Dhlakama. Os verdadeiros
efectivos que fizeram frente às
FAM’s haviam sido criteriosamente
seleccionados para servir
da guarda presidencial de
Dhlakama e dos seus quadros
superiores, outros desmobilizados
de facto e um terceiro grupo
provavelmente escondidos.
Os desmobilizados permaneceram
em aldeias com respectivas
famílias, enquanto a
determinada distância controlavam
armamento militar, sujeito
a manutenção periódica,
feita em regime de escala pelos
guerrilheiros desmobilizados.
Marínguè, antiga base central
da Renamo, diz-se, continuou
durante largo período
responsável pela manutenção
do sistema de comunicação
que por diversas vezes o governo-Frelimo
pretendia que o
mesmo fosse entregue, à luz
do entendimento de Roma.
Debalde. Dhlakama sempre se
mostrou contra isso, até que
anos mais tarde acabou parcialmente
por ceder.
Das vezes que Afonso Dhlakama
concordou com o posicionamento
do governo-Frelimo,
foi quando da elaboração
do novo organigrama das
Forças Armadas de Defesa de
Moçambique (FADM), tendo
como base, a formação académica
dos militares.
Porque os provenientes da
Renamo não tiveram tempo
para ir à escola, muitos foram
desmobilizados de forma
compulsiva, irritando a Renamo.
Embora reconhece a pertinência
do assunto, Dhlakama
defendia que o processo passasse
por um mecanismo menos
compulsivo como foi realizado.
Sucessão de Dhlakama
A Frelimo, ou alguém em seu
nome, nunca se simpatizou
com Afonso Dhlakama como
líder da Renamo e da oposição
política em Moçambique.
Terá activado inúmeras
iniciativas que culminasse com
a queda do homem à frente
da Renamo.
Esta questão levou Afonso
Dhlakama a anunciar, alto e
em bom som, que ele é que é
a Renamo e que o partido depende
dele inteiramente. Logo,
sem ele à frente do partido, a
Renamo não era nada.
Na altura, estava em voga
uma campanha que incentivada
eleições internas na Renamo
que visassem o afastamento
do líder. Sem sucesso.
Até que anos mais tarde,
o próprio Afonso Dhlakama
deixou claro que a sua morte
não significaria, necessariamente,
a ausência de liderança
no seio do partido, pois este
estava suficientemente preparada
e organizada para as vá-
rias frentes.
Dhlakama temia que, com
a sua morte, a Renamo fosse
liderada por militantes mais perigosos
que ele. E isso foi transmitindo
aos da Frelimo, na sequência
dos sucessivos conflitos
entre as partes.
Ou seja, Dhlakama era
sinónimo da paciência e que,
muitas vezes, conseguia travar
os mais fervosos militantes
que não hesitariam em levar
a cabo um conflito armado de
maiores proporções.
Afonso Macacho Marceta
Dhlakama morreu ontem,
quinta-feira, na Serra da Gorongosa,
supostamente traído
por uma crise de diabete. srESTA casa entende que a morte de Afonso Dhlakama, presidente
da Renamo, não vai dar lugar à crise de liderança, precisamente
porque questão há muito acautelada.
O único receio dos moçambicanos está em saber responder
à pergunta, pertinente. E agora?
É que, a dado momento, Dhlakama ia dizendo aos da Frelimo
que cabe a ele próprio o cenário de paz e da não guerra,
consciente de que em seu redor estão homens que não hesitariam
em recorrer a “guerra sem quartel”.
Dhlakama alertou nesse sentido “mil e uma vezes”.
Impressiona que Dhlakama nem precisava de continuar à
frente da Renamo, uma vez que até tem a família em Portugal
para onde podia ter se mudado e optado por uma vida mais
folgada, gozando de merecida reforma.
Prescindiu de tudo isso para continuar em Moçambique e,
pior do que isso, nas matas da Serra da Gorongosa.
O homem esteve na tropa colonial ainda jovem. Depois integrou
a guerrilha da Frente a poucos anos da independência
nacional, de onde acabaria por abandonar para a Renamo,
junto ao André Matsangaiça.
Em Outubro de 1992, Afonso Dhlakama assina, juntamente
com Joaquim Chissano, o acordo geral de paz.
Já com a ONUMOZ a supervisionar a implementação do
entendimento de Roma, Afonso Dhlakama é desmobilizado junto
dos “seus” guerrilheiros, em Marínguè, província de Sofala.
Com Dhlakama, outros tantos oficiais superiores da Renamo,
idos ao local do cerimonial, na boleia de novinhas motorizadas
e trajados a rigor, uniforme de gala e respectivas patentes.
Em Marínguè, a desmobilização decorreu não longe da base
central da Renamo e da vila-sede distrital.
A improvisada pista de aterragem foi obra dos guerrilheiros
e da população local, para permitir que avionetas se fizessem
com tranquilidade.
Nada disso aconteceu, uma vez que a avioneta em que nos
fizemos transportar, enfrentou dificuldades – não tantas – durante
a aterragem, muito por culpa de pequenas dunas.
Ao longo da caminhada para o local do cerimonial, colados
às árvores o suficiente para que os forasteiros tomassem
nota, panfletos da Frelimo. O guia, comandante Zero, fez questão
de explicar que aquela era a zona liberdade e onde emperra
a democracia.
O comandante Zero dizia mesmo que ninguém estava alí
por imposição, sim por vontade própria. Ele próprio, natural
de Sofala, se entregou às ordens da Renamo por acreditar na
sua ideologia de implementar a democracia em Moçambique,
mas para isso tinha que lutar contra a ditadura da Frelimo.
Nem com isso, lá dizia o homem, nas zonas libertadas da
Renamo, outros partidos políticos, incluíndo a Frelimo, tinham
as portas abertas para se implementar.
À espera da desmobilização, Afonso Dhlakama foi espalhando
abraços pelas dezenas de mulheres e crianças que lá se encontravam,
dando a ideia de ser muito querido. Adeus ! sr
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