

















A morte do líder da Renamo Afonso Dhlakama representa um enorme
revés para as dinâmicas internas do partido Frelimo. Isto mesmo. Sem nenhuma
intenção de santificar a imagem e as acções do líder da Renamo, que de santo
até nada tinha, a Renamo, sob a liderança de Afonso Dhlakama, foi o principal
factor externo catalizador de profundas transformações de carácter político
dentro do partido Frelimo, que tiveram consequências no estado moçambicano,
pós-independência. Na verdade, Dhlakama foi para a Frelimo, uma faca de dois
gumes. Enquanto que, por um lado, o seu discurso e a acção belicistas causaram
mudanças positivas dentro da Frelimo, por outro lado, também justificaram a
permanência na estrutura de liderança da Frelimo da chamada corrente histórica
conservadora, corrente esta, profundamente atrelada à ideais igualmente
belicistas e monopartidários. E agora Frelimo? Vencido o colonialismo
português, pouco habituada a ser confrontada, aberta e pacificamente, sem essas
ditas necessárias transformações, a Frelimo talvez não se tivesse adequado,
atempadamente, às dinâmicas sócio-políticas, económicas e culturais da
sociedade moçambicana, que a permitiram responder a algumas exigências dessa
mesma sociedade e não só. São essas transformações de ordem política forçadas,
fundamentalmente, por fora, que tem provavelmente garantido sua actualidade e
consequente permanência no poder. Nesta lógica, com o desaparecimento físico de
Afonso Dhlakama e um consequente potencial enfraquecimento da Renamo, mais do
que a sociedade moçambicana, no geral, e a Renamo em particular, pode-se
considerar que a maior desgraça recai mesmo sobre a própria Frelimo. É
irrefutável que, internamente, foi a força da Renamo, liderada por Afonso
Dhlakama, obviamente, também associada às dinâmicas do contexto regional e
global, que obrigou à Frelimo, por exemplo, ao abandono oficial do modelo de
partido único, dando assim espaço para a democracia multipartidária, para a uma
relativa liberdade de imprensa, de expressão, de movimento, de associação e de
outras liberdades que permitiram que as suas políticas e do estado moçambicano
estivessem hoje em relativa consonância com os anseios de grande parte da
população. Nós todos também sabemos que foi a mesma força da Renamo, sob a liderança
de Dhlakama, que forçou à Frelimo à mudança de abordagem e ao reconhecimento do
poder local, hoje um dos grandes elementos da sua própria reprodução e
sustentação, em tanto que força política, nas zonas rurais do país. Por
exemplo, hoje, os líderes tradicionais são convidados especiais às cerimónias
locais quer do partido quer do Estado. O mesmo se pode referir sobre a
liberdade de religião, factor que possibilitou a transformação de algumas
igrejas, outrora não bem vistas no contexto da revolução, em locais de culto
político do próprio partido Frelimo, principalmente, em momentos de campanha
eleitoral. Com a morte de Dhlakama, a Frelimo perde o principal termómetro de
uma população, que por receio real à represália, tinha em Afonso Dhlakama seu
destemido alto-falante. Era Dhlakama quem expressava as vontades e o pensamento
que as camadas mais marginalizadas da sociedade assim como alguns intelectuais
críticos, até de dentro da própria Frelimo, não se sentiam seguros em, se
sequer, suspirar. Isto possibilitava, até então, que a Frelimo estivesse a par
do que ia, verdadeiramente, na alma do povo que ela própria governa. A Frelimo
perde o pretexto externo que justificava a condução de debates internos de
alguns temas considerados verdadeiramente incómodos, principalmente para as
chamadas correntes conservadoras, como o tema da despartidarização do Estado e
do aprofundamento da descentralização em Moçambique. Aliás, foi necessário
recorrer à força das armas para levar estes temas para o centro do debate político
em Moçambique, agora em curso. É verdade que a Frelimo também ganha. Com o
potencial fim do discurso e da acção belicistas, eternos cavalos de batalha de
Dhlakama, para obtenção de concessões políticas, tornam-se irrelevantes as
correntes belicistas de dentro do próprio partido Frelimo, o que para o seu
próprio bem, passa a ser relativamente fácil expurgar-se dos indivíduos
pertencentes à essas correntes. Só para aqui recordar, foi também sob o
pretexto de se defender do belicismo dhlakamista que se contraiu a dívida
oculta, em relação a qual, esclarecimento cabal pode levar à profundas divisões
internas no seio do partido no poder. Arisco-me até a avançar que, a acção de
Dhlakama pode ter influenciado o modelo de liderança que o partido Frelimo
adoptou pós-Machel. Deve ter sido em resposta às acções de Dhlakama e da Renamo
que a Frelimo percebeu que depois de Samora Machel ela devia apostar numa
liderança como a de Joaquim Chissano relativamente mais convidativa ao diálogo
com a oposição, quer interna, quer internacional, abandonando, desta forma, um
modelo de governação há muito desajustado às duas realidades. Como
consequência, Moçambique abriu-se ao mundo e a si próprio. E foi, muito
provavelmente, esta mesma lógica que deve ter levado a que, depois do modelo de
governação guebuziano, mais orientado ao afunilamento do espaço político ao
exercício da aposição e a favor do controle crescente do estado pelo partido no
poder, a Frelimo apostasse numa liderança como a do Presidente Filipe Nyusi que
pudesse dar lugar ao diálogo como mecanismo de busca da paz efectiva para o
país. Isto tudo foi reacção à acção de Dhlakama. E agora, o que esperar do
futuro de uma Frelimo sem a sua maior, mais teimosa, e muitas vezes incómoda
liderança externa? Qual será a resposta da Frelimo a esta perda? Irá ela
fechar-se ainda mais, ou abrir-se-á às dinâmicas históricas e aos anseios do
seu povo? E num hipotético contexto não belicista, como é que a Frelimo passará
a captar e a acomodar as demandas dos moçambicanos? E qual será o futuro das
correntes conservadoras internas que sobreviviam do medo que Dhlakama, em vida,
representava?
Tempos de incerteza
Com a notícia da
morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pairam dúvidas na mente dos
moçambicanos sobre como será o futuro da democracia. Ouvimos muitos comentários
sobre este assunto e a questão da sucessão foi das mais analisadas. Os líderes
africanos são conhecidos por monopolizar a liderança e quando deixam de liderar
a sucessão fica uma dúvida. A continuidade fica ameaçada. É preciso termos a
cultura de sucessão para que os ideais tenham continuidade e outros
desenvolvimentos em termos de mobilidade. A questão sobre quem vai substituir o
líder da Renamo que, recentemente, perdeu a vida levanta muitas nuances em
termos de protagonismo a partir de agora. Essas questões que vão ser postas à
mesa de agora em diante vão mostrar a outra realidade. Mas enquanto esses
momentos não chegam, Ossufo Momade vai coordenando a Comissão Política do
partido até à realização do Congresso ou do Conselho Nacional. A morte quebra
barreiras partidárias, ideológicas, culturais, étnicas e religiosas. É
justamente por isso que ilustres figuras provenientes de todos os cantos do
país cruzaram-se na cidade da Beira para se curvarem perante a urna de Afonso
Dhlakama A morte faz com que figuras que nunca foram vistas próximas se
aproximem. Não condenamos os desabafos que todos fazem. Ninguém foge da morte.
Outros comportam-se como se a morte não lhes fosse atingir. Não condenamos
ninguém. Cada um expressa o seu sentimento à sua maneira. Neste momento de
luto, vemos figuras a darem condolências aos seus adversários. Primeiro, está a
Chefe da bancada parlamentar da Frelimo na Assembleia da República, Margarida
Talapa, a dar as suas condolências a Manuel Bissopo, Secretário-geral da
Renamo. É mesmo para dizer que no momento desses é preciso respeitar a dor do
seu adversário. A cara de consternação pela perda do líder do maior partido da
oposição moçambicana foi notória. Voltamos a falar da sucessão. Antes da sua
expulsão do partido da Perdiz, Raul Domingos era visto como o sucessor na
liderança do partido. Nesta terceira imagem, aparece a confortar Ivone Soares,
Chefe da bancada parlamentar da Renamo na AR. Como se os olhares estivessem a
vislumbrar o ambiente de incertezas que se avizinha. Mesmo com o seu penteado
que desperta toda a atenção para quem está ao redor, neste momento muitos não
deram conta disso. Estavam concentrados na cerimónia fúnebre. Referimo-nos a
Venâncio Mondlane, deputado do MDM na escolinha do barulho, apresentando as
suas condolências a Paulo Vahanle, Presidente do Conselho Municipal de Nampula,
que ganhou recentemente na segunda volta das eleições municipais pelo partido
Renamo. Outro momento de olhar repleto de incerteza quanto ao futuro foi
testemunhado entre Joanna Kuenssberg, alta-comissária britânica em Moçambique,
e Manuel de Araújo, edil de Quelimane. Pelo olhar, parece estarem a partilhar a
ideia de como vai ser o país a partir deste acontecimento. Outros aproveitaram
o momento para lançar algumas hipóteses do que poderá ser o nosso país em
termos de democracia e liberdade. Nesta derradeira imagem, vemos Erik Charas,
do Jornal @Verdade, a dar o seu posicionamento sobre a situação que o país vai
atravessar para Jorge Marcos, jornalista da STV, e Adriano Nuvunga, director do
Centro de Integridade Pública (CIP). O futuro pertence a Deus. As incertezas
aos seres humanos. Uma certeza para todos é a morte. A vida é igual à morte.
TEMA DA SEMANA 2 Savana
11-05-2018 Enquanto Nyusi reiterava os compromissos de Estado para com um
processo político iniciado com Dhlakama, Ivone Soares, em nome da juventude da
Renamo, quis assegurar que o seu partido não quebrou e está presente nos
desafios pela democracia. Foi assim quarta-feira na Beira, quando perante
milhares de populares, Governo e Renamo reiteraram posicionamentos de princípio
perante o corpo de Afonso Dhlakama, ladeado por militares do exército e com o
caixão envolto pelas cores da bandeira nacional moçambicana. Na lista ordenada,
protocolarmente, falando primeiro a líder parlamentar da Renamo, longamente
aplaudida, Ivone Soares, exortou os moçambicanos a lutarem contra todas as
tiranias, incluindo as protagonizadas pelo governo do dia. As várias
intervenções dos membros da Renamo foram acompanhadas por palmas, uma forma de
lutar contra a natural resignação e tristeza decorrente do sentimento de perda.
Afonso Dhlakama faleceu, inesperadamente, a 3 de Maio, na serra da Gorongosa, a
oeste da capital de Sofala, deixando atrás de si uma nação com grandes
interrogações sobre o futuro. Filipe Nyusi, tratando Dhlakama por irmão,
garantiu que o seu empenhamento continuará para se produzir um compromisso
final sobre a descentralização e a integração dos militares da Renamo, para que
se alcance em Moçambique “uma terra sem ódio”. Referindo-se ao líder da Renamo,
Nyusi disse que “cada um de nós, guardará, à sua maneira” o legado de Dhlakama.
Ele fez questão de destacar que o trabalho iniciado continuará, pois estão no
terreno todos os assessores nacionais e internacionais que estão ao corrente de
todos os detalhes do processo. O largo dos CFM (Caminhos de Ferro de
Moçambique), onde se realizou a cerimónia, estava bem emoldurado, mas não
chegou a encher. O ministra do Trabalho indeferiu um pedido de tolerância de
ponto solicitado pelo presidente do Conselho Municipal da Beira, Daviz Simango,
também líder de outro partido da oposição, o MDM (Movimento Democrático de
Moçambique). Uma das explicações fornecidas sobre a afluência é de que havia a
expectativa popular que a urna contendo o corpo, antes de chegar aos CFM,
passaria pela Munhava e por Chipangara, arrastando as populações desses bairros
para o centro da cidade. As cerimónias foram iniciadas por um momento religioso
orientado pelo Arcebispo da Beira, Claudio Zuanna. O clérigo católico prestou
homenagem a Dhlakama “que acreditava no que fazia” para o bem comum. Zuanna
exortou os Na morte de Dhlakama Golpe duro na oposição Milhares acorreram ao
largo dos CFM para prestarem o último adeus a Dhlakama Por Fernando Lima
(texto) e Naíta Ussene (fotos), na Beira TEMA DA SEMANA Savana 11-05-2018 3 A
Sasol está a desenvolver e a operar jazigos em Moçambique, na Província de
Inhambane, para fornecer gás processado a clientes em Moçambique e na África do
Sul (clientes industriais, comerciais e domésticos). Através da sua estratégia
de Conteúdo Local, busca maximizar os benefícios económicos que este
empreendimento traz para a economia moçambicana, focados em aumentar o número
de empresas moçambicanas que fazem negócios com a Sasol, e os gastos com
empresas moçambicanas. Para o efeito, a Sasol, através deste convite a
Manifestações de Interesse (MDI), tenciona aumentar e actualizar a sua base de
dados de fornecedores moçambicanos para a oferta de diferentes bens e serviços.
Note-se que este exercício não deve ser considerado parte de um processo de
concurso ou contratação. Caso tenha interesse, por favor contacte o Gestor de
Procurement pelo e-mail SPT_PROCUREMENT_MOZAMBIQUE. Maputo@sasol.com para obter
uma cópia do documento que terá que preencher de modo que a Sasol entenda as
capacidades da sua empresa e melhor perceba se existe competição e capacidade
suficiente no mercado nacional para as categorias e sub-categorias
identificadas. São encorajados a apresentarem as vossas respostas o mais
rapidamente possível até ao dia 29 de Maio de 2018 e as respostas podem ser em
português ou inglês. CONVITE A MANIFESTAÇÕES DE INTERESSE PARA O FORNECIMENTO
DE BENS E SERVIÇOS PARA A SASOL EM MOÇAMBIQUE INVITATION FOR EXPRESSIONS OF
INTEREST FOR THE SUPPLY OF GOODS AND SERVICES FOR SASOL IN MOZAMBIQUE Sasol is
developing and operating reservoirs in Mozambique, in the province of Inhambane,
to supply processed gas to consumers throughout Mozambique and South Africa
(industrial, commercial and domestic customers). Through its Local Content
strategy, Sasol seek to maximize the economic benefits that this enterprise
brings to the Mozambican economy, focused on increasing the number of
Mozambican companies that do business with Sasol, and the expenses with
Mozambican companies. In order to enable this, Sasol, through this invitation
for Expressions of Interest (EOI) intends to increase and update its data base
of Mozambican suppliers for the offering of different goods and services.
Please note that this exercise should not be construed as being a tender or a
contracting process. If you are interested, please contact the Procurement
Manager via the email SPT_PROCUREMENT_MOZAMBIQUE. Maputo@sasol.com for a copy
of the document that you will have to complete in order for Sasol to understand
the capabilities of your company and better establish if there is sufficient
competition and capacity within the local Mozambique market for the categories
and sub categories identified. You are encouraged to submit your responses as
soon as possible but not later than the 29th of May 2018 and submissions can be
in Portuguese or English. moçambicanos a trabalharem “na reconciliação, na
valorização das diferenças sem nenhuma forma de exclusão”. O corpo diplomático
baseado em Maputo deslocou-se em peso à cidade da Beira, ocupando um dos
lugares de destaque no velório. Nenhum diplomata falou, mas Chiara Torrini, a
representante da Comunidade de Sant’Egídeo de Itália lembrou os Acordos de Paz
de 1992 em Roma e considerou Dhlakama “um protagonista da história çambique, em
1973, e a fuga para se juntar à Resistência Nacional Moçambicana, em 1977 para
“combater o sistema marxista”, depois de ter sido preso na Beira. Viandro disse
que Dhlakama, como responsável dos serviços de intendência em Sofala, apoiou a
luta dos combatentes da ZANU-PF do Zimbabwe. Manecas Daniel, falando em nome
dos partidos extra-parlamentares, numa intervenção também muito aplaudida,
disse que Dhlakama mereceria que se versidade sul-africana conhecida por cursos
universitários por correspondência. Momade, natural da Ilha de Moçambique e
responsável pela guerrilha da Renamo na província de Nampula, afirmou o
cometimento do partido no prosseguimento das correntes negociações. “Fizeste a
tua parte”, disse a terminar a sua intervenção. Daviz Simango, estranhamente,
como edil da cidade e como líder do terceiro partido com assento parlamentar,
não falou na cerimónia. Segundo apurou o jornal, a “falha” é atribuída à
comissão governamental que organizou as cerimónias. Uma fonte do MDM disse que
o governo tentou sugerir que o boicote teria partido da Renamo, mas o deputado
José Manteigas desmentiu categoricamente a insinuação. Ao princípio da tarde o
corpo de Afonso Dhlakama partiu do largo dos CFM, acompanhado por uma enorme
multidão para Mangunde, em Chibabava, no sudoeste de Sofala. recente de
Moçambique”, chamando à atenção que “a busca da paz é uma responsabilidade”
para que aconteça o diálogo e a reconciliação. Victor Mudivila Viandro leu a
mensagem dos “veteranos da luta pela democracia”. Ele traçou um percurso de
vida de Dhlakama, que incluiu a integração no serviço militar obrigatório
colonial, em 1972, a deserção para a Frente de Libertação de Motivesse
decretado luto nacional em sua memória e fosse dado espaço na cripta dos heróis
nacionais. Depois acrescentou: “mas sabemos que ele é um herói nacional nos
nossos corações” com os presentes a responder: “é verdade”. Ossufo Momade, o
líder interino da Renamo, provocou os primeiros aplausos quando disse que
Dhlakama cursou Ciência Política, na UNISA, uma uniIvone Soares Nyusi presta
última homenagem a Dhlakama Membros do Destacamento Feminino da Renamo choram a
partida do “papá” TEMA DA SEMANA 4 Savana 11-05-2018 F oi numa mata fresca,
junto à aldeia de Ndindijane, em Chibabava, que os restos mortais de Afonso
Dhlakama foram a sepultar pouco antes do meio dia, esta quinta-feira. Eram
11.15h quando foram dados os últimos retoques na campa rasa, onde fica para já
o líder da Renamo, ladeado por mais quatro sepulturas familiares em terra
batida. Os oficiais de protocolo suspiraram de alívio por terem entregue o
corpo à terra antes do meio dia, uma tradição na zona centro. O cemitério
familiar foi feito numa clareira natural, mas a floresta natural, muito densa,
teve de ser desbastada a golpes de catana para que milhares de moçambicanos
fizessem a última despedida ao “Mudara”, o mais velho, como era tratado pelos
que lhe eram mais próximos. Uma secção do exército moçambicano, conforme
estabelecido previamente, prestou honras militares, fazendo o disparo de três
salvas de pólvora seca. O corpo de Dhlakama viajou por terra, a partir da Beira
na quartaO Mudara voltou a Mangunde Fernando Lima, em Ndindijane, Chibabava
-feira, um percurso de 152km. até ao regulado de Mangunde, a sua terra natal.
Os últimos 24km, depois de se deixar a N1, são feitos em estrada de terra
batida, onde passou uma niveladora nos últimos dias. A aldeia da família
Dhlakama fica a quatro quilómetros do povoado comercial de Mangunde, em
Ndindijane, o que significa lugar elevado. “Sítio alto”, por se tratar da casa
do régulo mas também porque resistiu às cheias do rio Búzi, que corre ali
mesmo. “Em 2000, as águas andaram perto mas não chegaram aqui”, explica o
professor João Chirequejande, que dá aulas de Física na Missão Francisco de
Assis de Mangunde, o local onde o jovem Afonso, o primogénito de uma família de
nove irmãos, se iniciou nos misteres de ler e escrever. Em Ndindijane, uma
aldeia com 10 palhotas em colmo, destaca-se a casa de alvenaria que Dhlakama
mandou construir em Setembro de 2014, pouco depois de abandonar a serra da
Gorongosa. “Era a casa que ele queria para descangerador com postes eléctricos
na aldeia, as máquinas de terraplanagem trabalharam nos dias anteriores para
darem um aspecto asseado ao espaço familiar. A antena da operadora de telefonia
móvel vietnamita está por perto. Também havia UIR, GOE (forças especial da
polícia) e Sises. Discretos e sem grande espalhafato. Os que vieram da Beira,
de todo o país, e mesmo do exterior, a família alargada, os amigos e os
militantes da Renamo dormiram em tendas, ou nos seus próprios veículos.
Fizeram-se muitas fogueiras “para espantar o sono”, enquanto grupos religiosos
tradicionais faziam os seus cânticos noite adentro. Pelas 04.30h os tambores
começaram a rufar, um momento que se prolongou até ao amanhecer. Pelas 09.30h.
a igreja católica tomou conta das operações. A representar o governo estava
Helena Taipo, a governadora de Sofala. Nas primeiras filas, de forma destacada,
os filhos de Afonso e Dona Rosália, acompanhados por Linette Olofson (do MDM) e
Carmo Jardim, a filha do empresário português, Jorge Jardim e madrinha de
Afonso Jr. A urna, ornada com a bandeira nacional, foi colocada ao centro. Dos
dois lados do cerimonial, dignatários da Renamo. Actuais e do antigamente.
Estava Ivette Fernandes, víuva de Evo Fernandes, ex-secretário-geral do
movimento que se fez do filho, Ivo, um jovem advogado no escritório da
Linklaters, Raul Domingos, o negociador da paz em Roma, o general Hermínio
Morais, o ex-deputado Anselmo Victor e o a actual deputado do MDM, Geraldo de
Carvalho. O pai de Dhlakama não foi visto. “A sua saúde é precária”, foi a explicação.
O padre Lipsungo, debaixo de uma massaniqueira, cingiu-se estritamente à
liturgia, enquanto um coro pungente repetia: “não chores não, não chores pai,
pelo teu filho que morreu”. Depois vieram as mensagens. Poucas e breves. Quase
de improviso falou um representante dos Matsangaíssa que reuniu os “poucos
doutores da família” para preparar uma mensagem de condolências. Os presentes
responderam com palmas. “Aplaudam em vez de chorarem” pediu o padre Machate,
uma cerimónia na Munhava, durante o fim de semana. André Matsangaíssa foi o
primeiro líder do Movimento Nacional de Resistência, falecido em combate em 17
de Outubro de 1979. Junto à campa da floresta, Dona Rosália distribui flores.
Para que todos possam colocar pelo menos uma flor na sepultura singela de
Afonso. sar”, explica um familiar próximo. Foi nesta casa que a urna ficou na
noite de quarta-feira, velado por um grupo muito restrito de familiares. O
governo colocou um grupo Casa de alvenaria que Dhlakama mandou construir em
Setembro de 2014, pouco depois de abandonar a Serra da Gorongosa Funeral em
Mangunde Filhos do líder da Renamo. Ao centro está Afonso Dhlakama Jr TEMA DA
SEMANA Savana 11-05-2018 5 PUBLICIDADE SOCIEDADE 6 Savana 11-05-2018 E nquanto
milhares de pessoas se despediam, ao largo dos Caminhos de Ferro de Moçambique
(CFM), na cidade da Beira, do histórico líder da Renamo, na capital do país, o
último adeus a Afonso Dhlakama era feito entre quatro paredes, através da magia
da rádio e da televisão. Pelo lado de fora, parecia que nada se estava a
passar. Mas era a habitual azáfama das sempre movimentadas avenidas da capital
a esconderem os “velórios” a Dhlakama, que aconteciam entre quatro paredes, nas
casas, nos mercados e até nas instituições públicas. Quando saiu à rua, entre o
fim da manhã e o início da tarde desta quarta-feira, a nossa reportagem
constatou que havia funcionários atentos aos aparelhos televisores, na sua
maioria suspensos em paredes nas recepções ou salas de espera, que transmitiam
a cerimónia da Beira. Mesmo sem tolerância de ponto, muitos são aqueles que
paralisaram os seus afazeres e se juntarem à rádio ou à tv para, detalhe a
detalhe, seguirem, à distância, o último adeus ao líder histórico da Renamo,
que foi a enterrar, esta quinta-feira, em sua terra natal, Mangunde, distrito
de Chibabava. Era o assunto do dia, que dominava também as conversas nos
transportes de passageiros e nos serviços de táxi, quase todos sintonizados à
rádio. Numa cidade onde a oposição é ainda vista com preconceito, fruto do Foi
assim na capital do país Por Armando Nhantumbo que a própria oposição um dia
chamou de “frelimização do Estado”, muitos preferiram acompanhar o evento quase
que na clandestinidade. É o caso de um funcionário público que o interpelamos
num estabelecimento comercial, ele que não precisou de nenhuma autorização da
ministra do Trabalho, Emprego e Segurança Social, para largar o seu ofício e ir
acompanhar o elogio fúnebre a Afonso Dhlakama. Ciente do tabu sobre a oposição,
só aceitou falar à nossa reportagem sob condição de anonimato. “Faz sentido
estar a acompanhar esta transmissão na qualidade de moçambicano que acompanha a
vida política do país. Não faz sentido falar da história do país sem falar
deste homem. É um momento difícil porque não só se perdeu um homem, como também
perdeu-se uma página da história de Moçambique. E é pena que Deus fala sozinho,
senão diríamos para que este homem morresse amanhã, porque foi-se na fase
decisiva de encontrar o bem comum, a paz”, disse, considerando a morte de
Dhlakama como uma “perda de verdade”. Um proprietário de uma casa de pasto na
baixa da cidade, que seguia a cerimónia desde as primeiras horas do dia, também
não aceitou falar à nossa reportagem. “Eu sei o que isso significa”,
recusou-se, diplomaticamente. Num dos movimentados salões de beleza da capital,
encontramos mulheres que, enquanto tratavam da sua beleza, também seguiam, pela
televisão, as cerimónias fúnebres de Afonso Dhlakama. Mas também preferiram o
politicamente correcto, para não aparecem na imprensa associados à oposição.
“Não me fotografem, por favor”, grita uma. Enquanto isso, a dona do salão,
quando questionada pela nossa reportagem se o velório a Afonso Dhlakama lhe
dizia alguma coisa ou não, ripostou: “claro que diz-nos. É a morte de um
cidadão, mas nada de política”. João Chunguane é dos poucos que aceitaram dar a
cara. Na quarta-feira decidiu paralisar as suas actividades para acompanhar,
via tv, a despedida a Afonso Dhlakama. “Acompanhar esta cerimónia, com certeza
diz alguma coisa porque é a perda de um homem que lutou e trouxe a democracia
no país, embora a maioria só agora perceba o alcance dos seus feitos. É uma
perda irreparável”, precisou Chunguane. Para Pedro Djedje, fazia muito sentido
acompanhar a despedida a Dhlakama. “Tem significado porque, para além de
compatriota, é um herói moçambicano que lutou para o bem do povo. Por isso, ele
merece”, comentou Djedje, para quem a morte de Afonso Dhlakama é uma grande
perda para o país e para o mundo. Na sede nacional da Renamo, vários membros e
simpatizantes do partido reuniam-se, entre quatro paredes, para também
acompanharem a cerimónia que era transmitida a partir da capital provincial de
Sofala. Cabisbaixos e rostos machucados, ali estavam eles inconformados com a
partida do seu dirigente de todos os tempos. Em vida, Afonso Dhlakama recorreu,
vezes sem conta, às tecnologias de informação e comunicação para se dirigir aos
seus seguidores, naquilo que ficou conhecido como teleconferências, e quis o
destino que os membros e simpatizantes também se despedissem do seu líder
através da magia da rádio e televisão. No início da tarde de quinta-feira, 3 de
Maio, o país era sacudido por uma notícia, que circulava insistentemente nas
redes sociais, que surpreendeu muitos, mas era admitida como possível por uns outros
tantos: a morte de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, o político-militar que
mais soube usar a media, o telefone e os telecomícios para se fazer ouvir.
Afonso Dhlakama, que liderava a Renamo há mais de 40 anos, resistiu a três
presidentes da República e morreu de uma aguda crise de diabetes associada a
anemia, a 3 de Maio do ano corrente. Na sua agonia, esteve ao lado de um
enfermeiro que o acompanhava desde os tempos da guerra dos 16 anos e de alguns
dos seus homens mais próximos na serra de Gorongosa, onde se refugiou após
escapar a dois atentados (12 e 25 de Setembro de 2015 em Manica) e de uma
invasão pelas forças governamentais à sua residência na cidade da Beira, a 9 de
Outubro de 2015. As primeiras campainhas de que Afonso Dhlakama estava numa derradeira
batalha contra a doença que se agudizou passava uma semana, começaram a soar na
madrugada de quarta-feira, 2 de Maio, quando alguns dirigentes da Renamo em
Maputo receberam telefonemas da Serra de Gorongosa de que “o presidente estava
mal”. Na semana que antecedeu a sua morte, Dhlakama, como habitualmente,
manteve contactos com vários interlocutores. Ao que o jornal apurou, nalguns
casos, ele solicitou que as mensagens para terceiras pessoas fossem gravadas,
uma indicação que, ao contrário do que queria transparecer, o seu estado de
saúde era precário. “Nos vários contactos telefónicos com importantes quadros
do partido, o Presidente em nenhum momento denunciou que não estava bem de
saúde. Sempre fez um esforço para não alarmar. Infelizmente, quando o pedido de
socorro chegou, o tempo era escasso para tratar do resgaste”, lamentou um
quadro da Renamo próximo a Afonso Dhlakama. Imediatamente, foi colocado em
marcha um pedido de socorro. Foi accionado o embaixador suíço, acreditado em
Maputo, Mirko Manzoni, na qualidade de chefe do Grupo de Contacto no diálogo
que o Presidente Filipe Nyusi e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, vinham
mantendo. Para além da Suíça, o Grupo de Contacto é composto pelos embaixadores
dos Estados Unidos da América, Reino Unido, Botswana, Irlanda, Noruega, China e
da União Europeia. Mirko Manzoni foi sempre uma peça importante no xadrez das
conversas entre Nyusi e Dhlakama e fez deslocações regulares à serra da
Gorongosa para se ultimarem os acordos a serem estabelecidos entre o governo de
Moçambique e a Renamo. Participou na preparação dos dois encontros entre Nyusi
e Dhlakama na Serra de Gorongosa e no encontro falhado em Chitengo no Parque
Nacional de Gorongosa (PNG). Foi o embaixador suíço que comunicou ao Presidente
Nyusi sobre o estado crítico de saúde de Afonso Dhlakama e de “decisões
urgentes” que era importante tomar, tendo em conta que se estava numa
verdadeira corrida contra o relógio. Contactos foram feitos com o Presidente
sul-africano, Cyril Ramaphosa e o chefe de Estado do Zimbábwe, Emmerson
Mnangagwa, para devidas “autorizações urgentes” para o uso do espaço aéreo
daqueles dois países. Outro detalhe que precisava de ser tratado com urgência
era o passaporte de Dhlakama. O que estava na sede da Renamo, havia expirado há
quatro dias. Foi necessário um passaporte urgente que foi feito em menos de 15
minutos, um processo que decorreu na quarta-feira, 24 horas antes da morte do
líder da Renamo. Um transporte aéreo apoiado pela Suíça foi fretado na Beira.
Na companhia de um médico, partiu até à Serra da Gorongosa, mas experimentou
dificuldades para encontrar um local menos acidentado para aterragem junto ao
“esconderijo do líder”. O helicóptero terá saído tarde da cidade Beira, porque
também eram necessárias algumas autorizações para sobrevoar “uma zona
considerada de conflito” na Gorongosa. “As FDS estacionadas naquela região
tinham que saber que não era um helicóptero que levava logística para a
Renamo”, frisou uma fonte do maior partido da oposição. Após aterrar, quando eram
11 horas, a alguma distância, o médico foi assistir Afonso Dhlakama: Foi apenas
a tempo de declarar óbito, porque o líder da Renamo já tinha perdido a vida. Há
diferentes versões sobre a hora exacta da sua morte, mas o jornal apurou
durante as cerimónias fúnebres que o óbito ocorreu durante a madrugada e não às
08.00h, como é habitualmente referido. O helicóptero, de dimensões pequenas-
apenas para quatro passageiros-não era adequado para transportar o corpo de
Afonso Dhlakama para a cidade da Beira. Por isso o corpo foi até Beira via
terrestre, onde foi velado nesta quarta-feira, numa cerimónia oficial, no largo
dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Contrariamente ao que alguns sectores
defendiam, o brigadeiro Elias e Sebastião Dhlakama, irmãos do líder da Renamo,
disseram não haver necessidade de autópsia. “Não há necessidade. A autópsia,
para nós, não traz senão mesmo especulações”, referiram. Os últimos momentos de
Afonso Dhlakama Em Maputo , o último adeus a Dhlakama era seguido pela rádio ou
tv Despedir-se de Dhlakama pela rádio e tv - por temerem perseguições, alguns
acompanharam as cerimónias quase na clandestinidade Pedro Djedje João Chunguane
PUBLICIDADE Savana 11-05-2018 7 SOCIEDADE 8 Savana 11-05-2018 É um conhecedor
profundo da Renamo, onde chefiou a delegação do partido na Comissão Conjunta
para a Formação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (CCFADM), na
sequência do Acordo Geral de Paz (AGP). Homem de confiança de Afonso Dhlakama,
chegou a ser assessor pessoal do presidente da Renamo para Assuntos de Defesa e
Segurança. Hoje general na reserva, Hermínio Morais ou, simplesmente, “general
Bob”, alcunha dos tempos de guerrilha, vê na morte de Afonso Dhlakama um vazio
enorme para a Renamo e para o país. Confrontado sobre a sucessão no partido,
numa entrevista telefónica ao SAVANA, a partir da Beira, para onde se deslocou
para prestar o último adeus àquele que considera como seu mestre, Morais é
peremptório em afirmar que, na Renamo, não existe, até hoje, um líder à altura
para substituir Afonso Dhlakama. O que significa a morte de Afonso Dhlakama? É
um revês para a Renamo e para o país porque morre numa altura em que estávamos
na derradeira fase das conversações entre o presidente da Renamo e o presidente
da República, e num modelo em que eram os dois a conversarem directamente.
Assim, para nós é um retrocesso, porque temos de começar a saber o que afinal
de contas estava já avançado nessas conversações. General Hermínio Morais e a
sucessão na Renamo Como Dhlakama, não existe! Por Armando Nhantumbo Queríamos
que recuasse ao passado para partilhar alguns momentos marcantes que terá tido
com Afonso Dhlakama, desde os tempos da guerrilha até à vida política? Eu me
lembro desde 1977 quando estive com ele na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe),
depois nos anos 81 já nas matas da Gorongosa e, por fim, como participei também
dos Acordos Gerais de Paz, em Roma, quer dizer, são momentos que me marcam
bastante. Como alguém com quem conviveu, então, quem foi Afonso Dhlakama? Para
mim foi um mestre, foi o meu comandante, tudo quanto sei sobre estratégias
militares, tive com ele. Mas ao mesmo tempo que é adorado por uns, ele também é
odiado por outros. Claro que nem todos nós podemos aceitar certas coisas que os
nossos líderes fazem. Então, para uns, o que Afonso Dhlakama fez foi muito bom
para o país, mas para outros, não, principalmente, para os opositores. O
presidente Dhlakama perde a vida num momento crucial no processo da paz e
descentralização, e liderava pessoalmente com o presidente Nyusi as negociações.
Que futuro? Eu acredito que a própria Frelimo esteja interessada que haja uma
paz definitiva no país. Então, sendo assim, é necessário que ambas partes
respeitem esses acordos que estavam a ser feitos e outros até assinados para o
bem do país. Renamo não tem líder à altura de Dhlakama A sucessão de Afonso
Dhlakama da liderança do partido foi sempre encarada como um tabu na Renamo.
Até porque numa entrevista ao Jornal O País, em 2009, o general dizia que na
Renamo não existia alternativa a Afonso Dhlakama, que ele era a única
alternativa ao partido. E agora, general? O que eu disse é uma pura verdade
porque até o presente momento nós ainda temos de procurar um verdadeiro líder
carismático à altura de Afonso Dhlakama, o que não existe na Renamo. Como
disse? Que não existe? Sim, não existe. Se não existe na Renamo, então, onde
será encontrado? Nós temos de começar agora a pensar e pôr a mão na consciência
e começar a copiar aquilo que foram os feitos de Afonso Dhlakama, de forma a
termos um líder sólido, conciso, um líder carismático, um líder que seja de
todos nós. O general Ossufo também não? O general Ossufo, ele sozinho… nós
temos de dar todo o apoio ao general Ossufo Momade de forma que ele seja
moldado aos moldes de Afonso Dhlakama. Cabe a nós todos os membros e
simpatizantes darmos apoio total ao general Ossufo Momade de forma a dirigir os
destinos do partido. Qual é o perfil ideal para um sucessor de Afonso Dhlakama?
O perfil ideal seria um líder carismático, um líder amigo de todos, um líder
compreensivo, que saiba ouvir as opiniões de todos os seus membros,
independentemente, de que idade tiverem e de que grau social forem, de forma a
ser um líder a altura. Tendo em conta a estrutura da Renamo, que tem uma ala
política que está nas cidades e uma ala militar que está nas matas, certamente,
que também deverá ser um líder com uma capacidade de conciliar esses grupos que
são diferentes. Sim, é isso mesmo, não só a parte política mas como se sabe
ainda existem tropas residuais da Renamo na Gorongosa e noutras partes do país
que estão à espera de uma reintegração efectiva e essas pessoas deve-se tomar
em conta que não podem ficar marginalizadas ou dispersas sem comando. Sendo
assim, o que acha do regresso de Raul Domingos, um ex-guerrilheiro, mas também
um político, que já foi número dois na Renamo? Eu aí não posso comentar porque
o regresso de Raul Domingos ou qualquer outra pessoa como Daviz Simango, não
sei se eles já tinham conversado com o próprio presidente da Renamo num
possível regresso deles, não sei. Que vazio é que Afonso Dhlakama deixa para a
Renamo e para os moçambicanos? É um vazio muito grande não só para os membros
da Renamo, mas para todo o povo moçambicano. Tanto no país como a nível
internacional as pessoas lamentam a morte de Afonso Dhlakama porque deixou um
vazio enorme. Uma das perguntas que muita gente coloca é: “com a morte de
Dhlakama, quem vai colocar a Frelimo na linha”? Nós estamos preocupados agora
em fazer o funeral do nosso presidente e depois, é claro, a Renamo vai se
reunir para decidir como é que vai levar avante aquilo que foram as ideias e o
sonho do presidente da Renamo. Mas não é o fim da democracia em Moçambique.
Não, não é o fim e nunca pode ser o fim porque seria um caos não só para a
Renamo, nem para a Frelimo, mas para todo o povo moçambicano. Hermínio Morais,
antigo braço direito do presidente da Renamo, entende que, até hoje, o partido
não tem um líder à altura de Dhlakama Q uando os jornalistas perguntaram a
Ossufo Momade sobre o futuro da Renamo pós-Afonso Dhlakama, o novo líder
interino do principal partido da oposição deu uma resposta que retrata o seu
perfil: esquivo e discreto. “Deixem-nos realizar o funeral do nosso presidente.
Não é altura de procurarmos o dia e a data em relação àquilo que vai acontecer
no futuro”, afirmou, de modo assertivo, Ossufo Momade, 57 anos, natural da Ilha
de Moçambique. Na Assembleia da República, onde é deputado desde 1999, ninguém,
entre os deputados, se lembra de Ossufo Momade intervir nas sessões plenárias
Um general esquivo e discreto do órgão legislativo moçambicano. Na chamada
“Casa do Povo”, tem primado pelo silêncio, que apenas intercala com os aplausos
“compulsivos” que as bancadas devem legar no final do discurso ou interpelação
de um colega do grupo parlamentar. Vinda de um militar, primeiro como cadete da
Academia Militar (do lado governamental), que integrou em 1974, e depois como
comandante da guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), e
responsável pela guerrilha da Renamo na província de Nampula, a discrição de
Ossufo Momade pode ser por táctica: não quer que lhe adivinhem os pensamentos e
lhe antecipem os passos. Como comandante militar da Renamo, em que milita desde
a sua “captura” pela mão de Afonso Dhlakama, em 1978, numa dura incursão da
guerrilha, no distrito de Ribáue, província de Nampula, e mais tarde
secretário-geral do partido (entre 2007-2012), Ossufo Momade “aprendeu” do seu
falecido líder, pautando pela submissão incondicional a um Afonso Dhlakama
avesso a bicefalias e proliferação de centros de poder internos. Ossufo Momade
furtou-se sempre de posições políticas vincadas, mesmo nos períodos de maior
crispação com o Governo e de confrontos militares entre as Forças de Defesa e
Segurança (FDS), evitando dar o peito às balas, como o fizeram colegas de
partido. Alguns “renamistas” foram mortos e outros detidos no período mais
alucinante da crise com o Governo, mas Ossufo Momade andou poupado dessa “lista
de alvos”. A circunstância de não se lhe ser conhecida colagem a nenhuma facção
dentro da Renamo pode ter levado o partido a apontá-lo para “coordenador da
comissão política nacional”. Os tempos de guerrilha tornaram Ossufo Momade numa
figura aceitável para o braço armado que a Renamo ainda mantém nas matas da
Gorongosa e a “socialização” que teve com os deputados da Assembleia da
República dão-lhe respeitabilidade no seio da bancada. Ao apontar-lhe para
líder interino, o principal partido da oposição quererá sinalizar ao Governo
que aposta no projecto da paz, mas não abre mão da eventualidade de uma pressão
militar, caso o contexto assim o justifique. Com esse gesto, o principal
partido da oposição mantém, através de Ossufo Momade, uma estratégia que o
antecessor sempre seguiu. Nos próximos dias, Ossufo Momade poderá subir à Serra
da Gorongosa, num esforço para apaziguar os guerrilheiros e dar explicações
detalhadas sobre a nova ordem não se sabendo se de lá voltará. Ossufo Momade
Ossufo Momade SOCIEDADE Savana 11-05-2018 9 PUBLICIDADE PUBLICIDADE 10 Savana
11-05-2018 OPINIÃO A Nação Moçambicana foi colhida de surpresa, na manhã do dia
3 de Maio de 2018. Deixou-nos, fisicamente, Afonso Macacho Marceta Dhlakama,
Presidente da RENAMO, o maior Partido da Oposição em Moçambique, vítima de
doença! Em nome do Governo de Moçambique, do Povo e no meu próprio, lamento a
perda de um compatriota que, do seu modo, fez parte da História recente de
Moçambique. Com a mesma serenidade, enfrentamos juntos o mesmo sentimento de
luto. Esta é uma prova da maturidade e do sentido cívico do nosso povo. Em
situações difíceis como esta, todos temos de ter a força e a lucidez para
superarmos as emoções que nos atravessam. Todas as nossas diferenças tornam-se,
neste momento, secundárias e irrelevantes. Somos um só sentimento, um mesmo
sentimento de Norte a Sul do país. Como Moçambicanos, reconhecemos acima de
tudo que, até à sua morte, Afonso Dhlakama tinha convicções próprias sobre o
pluralismo político em Moçambique. E que ele se entregou, inteiramente, à
defesa dessas convicções. Caro, Irmão Dhlakama, filho mais velho do Régulo Mangunde!
Homem incaracterístico na sua visão, homem a quem a história de Moçambique
reserva páginas indeléveis, assinalando um percurso histórico; Perante o teu
corpo inerte, recordamos que a vida é um presente, uma dádiva que nos supera a
todos nós. Essa dádiva termina em qualquer momento como se a morte nos
lembrasse que tudo o que temos como certo é apenas o presente. Quero reafirmar
que iremos prosseguir a obra que juntos iniciámos, isto é, a construção da Paz
e o reforço da democracia, através do aperfeiçoamento da descentralização e
desconcentração. Reafirmo a minha disponibilidade de continuar com o processo
de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração Social dos militares da RENAMO
já iniciado. O fecho deste dossier será sempre considerado uma obra colectiva
dos Moçambicanos, uma obra para a que Afonso Dhlakama contribuiu até ao final
dos seus dias. O tempo que hoje vivemos, tomamo-lo como fonte de inspiração e
como uma oportunidade para transformar Moçambique numa terra sem ódio, numa
nação que sabe ser unida e forte mesmo nos momentos mais difíceis e tristes. A
sua colaboração no processo de Paz, mantém-se viva em mim. A sua voz não se
desvanece, quando, telefonicamente, falámos, no passado dia 11 de Abril. E
ainda ecoam em mim as suas palavras: “Presidente, mesmo que haja dificuldades
ou Um compatriota que, do seu modo, fez parte da História recente de Moçambique
Por Filipe Nyusi* obstáculos, nunca cortemos os laços de entendimento…o
processo de paz não pode falhar…”. Que fique claro que, com os moçambicanos,
irei dar continuidade a todo o processo de construção da Paz, juntamente, com a
nova liderança do Partido do Dhlakama, respeitando, sempre, o quadro legal e
institucional. O diálogo que juntos estabelecemos, as conclusões que alcançámos
na presença da sua equipa mais restrita, aquela que, mesmo não fazendo parte
das comissões formalmente por nós estabelecidas, tudo isso constitui um
património seguro para que o processo de diálogo seja concluído a favor do Povo
Moçambicano. As pessoas que acompanharam este processo de diálogo continuam
connosco e os registos desses encontros prevalecem como testemunho e como base
para os próximos passos que, juntos, iremos dar. É esta a promessa que lhe
queremos fazer. Como Presidente de todos os moçambicanos, assumi, desde o
início, o dever de criar uma cultura de diálogo que sustentasse a construção da
paz efectiva no nosso país. Este processo já deu passos decisivos e está a
criar uma cultura nova de aceitação das nossas diferenças. É preciso não
esquecer que, ainda há pouco tempo, a violência e a intolerância minavam as
pontes do nosso entendimento. Neste processo de reconciliação, Afonso Dhlakama
foi-se revelando parceiro incontornável para colocar um ponto final num passado
carregado de suspeitas, de ódio e de mortes. Com Afonso Dhlakama mantive um
diálogo próximo e intenso. Nessa interacção pessoal, procuramos sempre
aproximar os Moçambicanos em defesa dos interesses comuns que nos fazem ser
Nação. Soubemos definir, em cada passo, que aquilo que nos podia unir era mais
forte do que o que nos separava. Nesse processo de diálogo houve momentos de
discórdia, de tensão e de muita pressão. Houve questionamentos, houve dúvidas,
houve confronto de ideias. Não podia ser de outro modo, pois sabíamos que
estavam em jogo assuntos sensíveis e dos quais dependia a vida do Estado
Moçambicano e dos seus mais de 28 milhões de habitantes. Nesse debate regular,
fomos construindo confiança mútua. Nesse debate, aprendemos a respeitarmo-nos e
a reconhecermo-nos, como irmãos que partilhavam o mesmo destino. Esse destino
chama-se Moçambique. Ambos sabíamos que não havia senão uma escolha enquanto
compatriotas. E essa escolha chama-se Paz. Quando a solução das nossas
discussões tardava, quando essas demoras exigiam a minha serenidade e
paciência, recordo-me do seu apurado sentido de humor que nos ajudava a aliviar
a tensão do momento e a vislumbrar novos caminhos. A partida prematura do nosso
compatriota não deve constituir um revés neste processo de diálogo. Estaremos
honrando a sua memória, se soubermos concluir, de forma responsável e célere, o
diálogo político que agora se centra, sobretudo, no processo de
descentralização, no desarmamento, desmobilização e reintegração. Aos nossos
amigos internacionais, pedimos para que continuem a nos ajudar a respeitar as
diferenças dos Moçambicanos para que o grande país se reencontre, e promova o
bem-estar das gerações vindouras. Afonso Dhlakama já não se encontra,
fisicamente, entre nós. Ficarão em todos nós as memórias da sua vida, do seu percurso
social e político, memórias que, cada um de nós guardará à sua maneira. Da
RENAMO, esperamos que se assuma o espírito e a obra do seu líder e se honre a
sua memória, em palavras e actos. Esperamos prosseguir, juntos, os caminhos já
iniciados para a criação de uma paz efectiva, duradoura e sustentável em
Moçambique. Esperamos que os dirigentes da RENAMO encontrem a serenidade de que
precisam para se reerguerem da dor causada por este infortúnio. Há muito que
tenho sublinhado a importância do papel da oposição na governação em
Moçambique. Não se pode falar duma democracia sólida sem uma oposição sólida.
Todos precisamos de uma oposição construtiva e patriótica, de uma oposição que
saiba colocar Moçambique em primeiro lugar. O diálogo político implica
ajustamentos e cedências, cedências alinhadas com os interesses colectivos dos
moçambicanos. O campeão pelo sucesso do diálogo só pode ser Moçambique. O
vencedor seremos todos nós. E ao vencermos, poderemos, então, recolher os
frutos de um Moçambique unido, moderno e próspero. Todos sabemos que
Moçambique, ao longo dos anos, perdeu muitos dos seus melhores filhos. O diálogo
que mantinha com o líder da RENAMO era uma homenagem a esses moçambicanos cujas
vidas foram eliminadas pela violência e pela intolerância. Ambos sabíamos que é
imperioso virarmos não apenas uma página, mas escrevermos uma outra narrativa
em que as diferenças políticas sejam vividas como um factor de respeito, de
agregação e de unidade. Afonso Dhlakama não foi apenas um dirigente político.
Ele era também esposo, pai, chefe de família, filho, irmão, tio, avó,
companheiro e amigo dos seus amigos. À viúva, aos filhos, ao pai, Régulo
Mangunde, à família e aos amigos do Presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, bem
como aos membros e simpatizantes do seu Partido, a RENAMO, endereço as nossas
mais sinceras condolências. Em nome do Povo moçambicano, quero deixar palavras
de reconhecimento a todos aqueles que tudo fizeram, prestando apoio na
tentativa de lutar contra a partida precoce do compatriota Afonso Macacho
Marceta Dhlakama. O reconhecimento vai, também para o grupo internacional de
contacto, no âmbito do diálogo, indicado por mim e pelo Presidente da RENAMO,
Afonso Dhlakama. A esse grupo, agradeço por tudo o que fizeram no terreno, na
tentativa de ajudar o nosso compatriota Afonso Dhlakama. Não gostaria de
ignorar a disponibilidade imediata mostrada pelo irmão Cyril Ramaphosa,
Presidente da África do Sul, quando por antecipação, solicitei apoio caso fosse
possível a transferência de Afonso Dhlakama na fase final da sua doença.
Igualmente, ao irmão Emmerson Mnangagwa, Presidente da República do Zimbabwe
que, mesmo tomando conhecimento tardiamente, acedeu ao nosso pedido, colocando
à disposição meios aéreos capazes de prestar qualquer apoio, mas igualmente não
foi a tempo de agir. Em nome do Governo de Moçambique, quero manifestar os
agradecimentos aos Presidentes e outras individualidades de outros cantos do
Mundo que nos dirigem mensagens de condolências e de conforto. Em nome de todo
o povo, muito obrigado a todos. Nós os moçambicanos podemos e devemos fazer o
melhor para este país. Nós os moçambicanos queremos e devemos viver juntos e em
harmonia. Nós os moçambicanos em paz devemos trabalhar para melhorar a
qualidade das nossas vidas. Em Moçambique haja justiça para todos os que
habitam este solo pátrio. Descanse em Paz, Caro Irmão, Afonso Macacho Marceta
Dhlakama! *Intervenção editada do Presidente da República nas exéquias fúnebres
do presidente da Renamo e membro do Conselho do Estado, Afonso Dhlakama. Título
da responsabilidade do SAVANA. Afonso Dhlakama SOCIEDADE Savana 11-05-2018 11 A
crise da dívida que Moçambique enfrenta continua a representar um elevado risco
de colapso económico e com potencial para um elevado impacto negativo, considera
a análise mais recente sobre o país da Economist Intelligent Unit (EIU),
entidade de análise económica ligada à revista britânica The Economist. A
avaliação tem a data de 02 de Maio, um dia antes da morte do líder da Renamo,
Afonso Dhlakama, uma ocorrência que aquela entidade não tomou, por isso, em
conta nesta análise sobre Moçambique. Na tabela que intitula “Maiores riscos
para a nossa previsão”, a EIU atribui a “intensidade 20” ao risco colocado
pelas “dívidas ocultas”, “probabilidade elevada” e “impacto muito elevado”. Há
também uma probabilidade elevada de risco de seca ou cheias provocarem uma
queda na economia, com impacto muito alto e intensidade 20. As dificuldades de
o sector privado mobilizar financiamento para as suas actividades também são
elevadas, com um impacto muito elevado na economia e uma intensidade 16. Por
outro lado, é igualmente elevado o risco de o governo alterar unilateralmente
os contratos, o que coloca uma alta ameaça, com uma intensidade 16. A
probabilidade de o governo aumentar impostos para as grandes empresas e outras
é muito elevada e o impacto é moderado, com a intensidade 15. Revisão em baixa
A EIU baixou de 5% para a 4,3% a previsão de crescimento económico que tinha
projectado para o período 2020-2022, justificando essa revisão em baixa com as
fracas perspectivas no sector industrial, devido ao progresso lento nos grandes
projectos do sector extractivo. Citando dados do Banco de Moçambique, aquela
entidade de pesquisa refere que a importação de bens e serviços em 2017 esteve
acima do previsto, levando a um ajustamento por alto das importações e do
défice da conta corrente. “Revimos em baixa a nossa previsão de crescimento das
importações em 2018, de 14% para 11,9%, devido a perspectivas de baixos preços
para o carvão e alumínio, que, colectivamente, contribuem com mais de 50% do
cabaz de exportações de Moçambique”, lê na avaliação Tomados em conjunto, um
défice da conta corrente superior ao estimado em 2017 e as perspectivas de um
fraco crescimento das exportações significa que foi feita uma revisão em alta
do défice da conta Crise da dívida moçambicana Risco de colapso da economia
continua - EIU corrente para 2018-2022, para uma média anual de 17,1% do
Produto Interno Bruto (PIB), de uma estimativa inicial de 15, 6% do PIB. Em
relação à inflação, a EIU prevê a subida de preços nos próximos meses, devido
ao aumento de preços regulados pelo governo e a preços mais altos no petróleo.
As pressões inflacionárias, observa a análise, abrandaram desde o início de
2017, mas começaram a registar uma subida em Março. Situação política frágil A
EIU mantém a sua antecipação anterior de que a situação política em Moçambique
continuará frágil, prevendo que Filipe Nyusi e a Frelimo se mantenham no poder,
ganhando nas eleições gerais de 2019. A luta por influência dentro da Frelimo
vai aumentar o grau de volatilidade da situação política no país, acrescenta.
Um acordo entre a Frelimo e a Renamo é provável e deverá levar a uma maior
descentralização, mas a lenta implementação do processo levará o principal
partido da oposição a ser relutante em aceitar o desarmamento, alimentando o
risco de violência. A crise de liquidez provocada pelo fardo da dívida e pelo
corte da ajuda internacional continuará a pesar sobre as perspectivas macro-económicas
do país. O incumprimento no pagamento da dívida soberana vai excluir o país da
maioria das fontes externas de financiamento. Devido à necessidade de o Governo
evitar medidas impopulares, a política fiscal continuará relaxada, no curto
prazo, e os constrangimentos financeiros vão tornar esta estratégia
insustentável. “Contudo, esperamos alguma consolidação fiscal depois das
eleições de 2019. O crescimento do PIB real continuará fraco entre 2018- 2019,
com uma média anual de 3,3%, devido a uma procura doméstica débil e baixo
investimento”, lê-se no documento. A EIU prevê uma recuperação económica
ligeiramente robusta, à medida que os sectores mais orientados para as
exportações nas grandes indústrias ganharem maior ímpeto. “Depois de ter
contraído em 2018 para 15,2% do PIB face a uma forte balança comercial, o
défice da conta corrente vai expandir-se para 19% do PIB em 2022, devido ao
abrandamento nas exportações e à subida da procura nas importações”, refere a
avaliação. Apesar de prever a vitória da Frelimo nas eleições municipais deste
ano e gerais de 2019, a EIU projecta um declínio no peso do triunfo do partido
no poder, devido a uma grande frustração em relação à má gestão da economia. No
domínio das relações internacionais, o governo moçambicano vai tentar
fortalecer a cooperação com os países importadores de carvão e gás,
principalmente da Ásia, face ao esfriamento dos laços com os países doadores
ocidentais. Contudo, a tentativa de maior aproximação com os parceiros
asiáticos será obstaculizada pela situação desfavorável prevalente em
Moçambique. OPINIÃO 12 Savana 11-05-2018 A Síria, cujo nome oficial é República
Árabe da Síria, é uma república laica sem religião oficial. Tem 185.180 Km2 e à
volta de 18 Milhões de habitantes, sendo a grande maioria muçulmana de filiação
sunita. Curiosamente é a facção xiita, que constitui menos de 15% da população,
que controla o partido Socialista Baath, as forças armadas e o aparelho de
estado. Os cristãos são à volta de 10%. A capital é Damasco. A Síria localiza-se
no Médio Oriente no sudoeste da Ásia e tem fronteiras com o Líbano e o Mar
Mediterrânio a Oeste, com a Jordânia a Sul, com Israel a Sudoeste, com o Iraque
a Leste e com a Turquia a Norte. Na prática está no centro de várias disputas
políticas e económicas na região. A actividade económica centra-se na
agricultura e na exportação do gás e petróleo, outro factor que atrai conflitos
de interesses. Terá sido em 1949 que o Serviço Secreto americano se interessou
pela Síria (a CIA tinha apenas dois anos de existência como Estado) com vista a
apoiar um investimento nacional norte-americano personificado na construção do
pipeline “Trans-Arabian” que atravessaria a Síria ligando os campos de petróleo
da Arábia Saudita (ARAMCO) ao porto de Sidon no Líbano. Com o desenvolvimento
da guerra fria a análise americana da ameaça aos seus interesses identificou o
comunismo da União Soviética associado ao nacionalismo árabe como seu principal
inimigo, tendo então a CIA implementado a estratégia de fomento do fundamentalismo
islâmico contra o nacionalismo árabe e seus aliados comunistas, como sendo o
melhor e mais eficaz método de defender seus interesses nacionais em particular
para o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente, na época
consideradas as maiores do mundo. Uma estreita cooperação entre os serviços
secretos americanos e britânicos viabilizou o projecto de defesa na Síria dos
interesses nacionais ocidentais contra o controlo comunista e a influência do
nacionalismo árabe. Desde 19556 planos para derrubar o regime laico e neutral
da Síria foram sendo preparados. Várias tentativas para derrubar o regime foram
frustrados pela segurança Síria e os agentes internos e americanos envolvidos
foram identificados e publicamente denunciados. Em 1970, o general da força
aérea Hafez al-Assad, do partido socialista árabe Baath assume o poder na Síria
e combate com vigor a oposição política baseada no fundamentalismo islâmico em
defesa do interesse nacional sírio. Face à permanente e continuada ofensiva
ocidental para destabilizar o governo, Hafez al-Assad acaba se aliando à União
Soviética que também tinha um grande interesse geo-estratégico na Síria para
contrariar a influência americana na região. Em 1980, a URSS e a Síria firmam
um tratado de Amizade e Cooperação formalizando a já existente aliança militar
e política. No ano 2000, o general al-Assad morre de ataque cardíaco
sucedendo-lhe seu filho Bashar al-Assad que ainda hoje permanece no poder.
Segundo revelações do wikileaks, desde pelo menos 2005 que o Departamento de
Estado americano disponibiliza anualmente dezenas de milhões de dólares em
apoio aos movimentos de oposição na Síria, o que inclui o financiamento a um
canal de rádio e televisão controlado pelos opositores no exílio. Um dos
interesses ocidentais para o derrube de Bashar al-Assad é de novo um problema
ligado à logística do petróleo, nomeadamente o projecto de construção de um
pipeline através da Síria. Qatar é um candidato à construção deste pipeline de
1 500 quilómetros, orçado em dez biliões de dólares, saindo da Arábia Saudita e
passando pela Jordânia, Síria e Turquia para abastecer mercados na união
Europeia. Bashar al-Assad recusou-se a autorizar a construção deste pipeline
muito provavelmente em linha com o pacto de Amizade com a Rússia, seu aliado
principal e estratégico. O consórcio ocidental sente seus interesses ainda mais
ameaçados quando Bashar al-Assad autoriza a construção de um outro pipeline
chamado de “islâmico”, que sairia do Irão, atravessaria a Síria até ao Líbano.
Uma dupla ameaça: por um lado a matéria-prima sairia do Irão (chiita)
aumentando sua influência no Médio-Oriente, contra os interesses
americano-sauditas (sunitas), o que agudizaria a contradição fundamentalista
islâmica entre sunitas e xiitas. O contrato para a exploração e construção do
pipeline islâmico foi assinado em 2012. Contudo, sua construção ainda não
iniciou (estamos em 2018) pois uma sangrenta guerra movida pelo choque de vários
interesses económicos e políticos eclodiu na Síria, exactamente para inviabilizar
o projecto “xiita” iraniano, contra os “sunitas” do Qatar e da Arábia Saudita.
Até parece um problema religioso! A oposição a Bashar al-Assad tem sido
financiada pelos interesses sunitas em mais de três biliões de dólares. Em
2011/2013, compensaram cada desertor das forças armadas sírias em cinquenta mil
dólares. Estes desertores foram retreinados pelos americanos e acabaram
formando o chamado Exercito Sírio Livre de oposição ao regime de al-Assad. A
Síria tanto no mandato de George Bush como de Barack Obama, sempre foi
considerada uma ameaça aos interesses ocidentais sendo um alvo prioritário dos
serviços de inteligência dos Estados Unidos, porque considerado capaz de
desenvolver armas de destruição maciça (inclui armas químicas e mísseis transportadores
de ogivas nucleares) potencialmente utilizáveis no conflito contra Israel que é
considerado o alvo da aliança árabo-muçulmana. Logo após o derrube de Saddam
Hussein no Iraque, o Departamento de Defesa dos EUA elaborou planos
operacionais para levar a guerra à Síria, o que foi vetado porque inoportuno
pelo então presidente George W. Bush. O plano de acção militar era no
entretanto mais amplo, prevendo a invasão de sete países: Líbia, Irão, Iémen,
Somália e Sudão para além do Iraque e Síria, o que foi na época considerado
politicamente inoportuno implementar pelo consórcio político ocidental. Em
alternativa, os interesses euro-americanos optaram pelo uso maciço dos seus
serviços secretos e pelo apoio directo aos grupos terroristas afiliados ao
“estado islâmico”. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, a 2 de Outubro de
2014, apontou em conferência pública na Universidade de Harvard, que os grandes
problemas no Médio Oriente eram a Turquia, a Arábia Saudita e os Emiratos
Árabes Unidos, a quem acusou de apoiarem com armas e dinheiro os operacionais
do Estado Islâmico apostados em derrubar o presidente Bashar al-Assad. A
aliança em defesa dos interesses ocidentais, representada pela Arábia Saudita,
deslocou-se então a Moscovo no início de Agosto de 2013 para negociar o voto
favorável da Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas para a
condenação do regime sírio de Bashar al-Assad. A Arábia Saudita, em
contrapartida, comprometia-se a comprar da Rússia armamento diverso no valor de
15 biliões de dólares. A resposta de Vladimir Putin foi negativa porque
considerou que sendo o regime de Bashar al-Assad um regime laico, é o que
melhores garantias dá à estabilidade política do Médio Oriente e assim melhor
defende os interesses da Rússia na região. A 21 de Agosto de 2013, um ataque de
gás sarin teve lugar em Ghouta, perto de Damasco, matando centenas de civis, o
que violou a “linha vermelha” traçada por Barack Obama, condição necessária
para justificar a intervenção militar na Síria, o que veio a acontecer. Os
Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e a Liga Árabe, sem qualquer
comprovação ou evidência, acusaram as forças militares de Bashar al-Assad de
usar armas químicas, consideradas de destruição maciça, e em resposta atacaram
a Síria. Assim ficou justificada a intervenção armada dos Estados Unidos e da
União Europeia na Síria. As fontes da notícia sobre o uso das armas químicas
foram os próprios grupos terroristas afiliados ao Estado Islâmico.
Curiosamente, a história repetiu-se em Abril de 2018: o governo sírio é de novo
acusado (e punido militarmente) por usar armas químicas (de destruição maciça)
contra o seu próprio povo também em Ghouta nos arredores de Damasco. O
relatório final da comissão de peritos que investigou o uso de armas químicas
em Ghouta em 2013 não conseguiu determinar a origem e os autores do ataque com
armas químicas. Será que a actual comissão de investigação conseguirá
identificar a origem e os autores deste último ataque? Para Nafeez Ahmed,
director do Instituto para a Investigação em Políticas e Desenvolvimento, os
reais factores que determinaram o plano de intervenção militar ocidental na
Síria foram: o controlo geopolítico do Médio Oriente (inclui a protecção de
Israel) e as rotas dos pipelines que materializam a logística do negócio dos
hidrocarbonetos na região (the Guardian, 30 de Agosto de 2013) Nos relatórios
dos serviços de inteligência ocidentais, publicados em 2013, foram omitidas as
passagens que informavam que é a hipótese mais provável de terem sido grupos
terroristas da Al-Qaeda os responsáveis pelo ataque com armas químicas em
Ghouta a 21 de Agosto de 2013. Estava demonstrado, que esta organização
terrorista tinha capacidade para produzir o gás sarin em grandes quantidades e
como tal era um possível suspeito que nunca foi indicado como tal. Testemunhas
individuais afirmaram na época que os Jihadistas possuíam gás sarin e que foram
eles que lançaram o gás em Ghouta para incriminar o regime de Bashar al-Assad.
A grande operação euro-americana para lançar um ataque total militar contra a
Síria em 2013 teve grande oposição nos países ocidentais e teve o veto da
Rússia nas Nações Unidas, razão pela qual o ataque não teve lugar. Este
precedente explica também porque o recente ataque militar (EUA, França e Grã
Bretanha) não foi levado às aprovação do Conselho de Segurança. Por outro lado,
o Departamento de Defesa americano tinha informação detalhada do sistema de
defesa sírio bem estruturado com o apoio militar russo que poderia fazer
fracassar uma invasão militar, o que não era nada de arriscar. A alternativa
encontrada a consenso e com especial acordo da Rússia, foi na época, a decisão
de inspeccionar, controlar e eliminar todas as armas químicas armazenadas pelo
estado sírio que de imediato concordou e a operação foi realizada. Teoricamente
não há mais armas químicas na Síria. Os interesses sírio-russos estavam
salvaguardados. Uma empresa sírio-russa negociou a prospecção e exploração das
reservas de gás e petróleo ao longo do litoral da Síria em aparente choque com
os interesses ocidentais na região. No entretanto a guerra continua! Factos
históricos extraídos do livro “A desordem mundial” (Rio de Janeiro 2016) do
conceituado historiador brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira. As
considerações políticas e de segurança são da responsabilidade do autor.
*General na Reserva e antigo ministro da segurança no Governo de Samora Machel
Síria: Choque de interesses nacionais Por Jacinto Veloso* PUBLICIDADE Savana
11-05-2018 13 1. Introdução As organizações a sociedade civil Centro de
Integridade Pública (CIP), Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE),
Mecanismo de Apoio à Sociedade Civil (MASC) e Observatório do Meio Rural (OMR),
preocupadas, como sempre, com a situação política, económica e social do país
têm acompanhado a evolução da crise despoletada com a dívida então designada de
“oculta”. Em diferentes momentos, as organizações acima citadas, em parceria ou
individualmente, têm exposto em debates e estudos as suas preocupações
fundamentadas em evidências. Estas acções de advocacia e prática do exercício
da cidadania, tem merecido apreço de muitos organizações e individualmente por
cidadãos dos mais diversos quadrantes da sociedade moçambicana. Tem também
recebido críticas, sobretudo em defesa do sistema político e principalmente da
governação, o que é considerado lógico no exercício da liberdade de pensamento
e expressão. Porém, tem havido formas de crítica pessoalidades e de ataque a
carácter individual pouco concordantes com a ética e convivência saudável. As
organizações promotoras desta conferência, mantêm o seu compromisso de promover
debates abertos, disseminação do conhecimento e actividades de advocacia junto
dos centros de decisão. Essa perspectiva se enquadra esta conferência. 2.
Objectivos A conferência Como está Moçambique tem como objectivo principal
analisar a actual situação politica, económica e social e sugerir possíveis
medidas de natureza política e de politica económica para a saída da crise.
Supõe-se que ainda não foram assumidas medidas que invertam a situação da
economia real. - cos são os seguintes: Necessidade de recuperar a imagem do
país para o que é necessário estabelecer a gestão transparente e com boas
práticas do orçamento, introduzir reformas profundas no Estado, nas empresas
públicas e nos fundos públicos, negociar a dívida, Conferência COMO ESTÁ
MOÇAMBIQUE? Data 16 de Maio de 2018 Período Das 08:30 às 12:30 horas Local
Montebelo, Indy Entrada Livre PROGRAMA Tema Orador/instituição Abertura João
Pereira MASC Crise Financeira e Consolidação Fiscal: O Problema da
Desorçamentação António Francisco IESE Sistema político como factor de crise
Edson Cortez CIP Dilemas da saída da crise João Mosca OMR Encerramento não
apenas a que foi designada de oculta. As negociações com o FMI, credores e
doadores devem ser transparentes e aceitar com coragem e humildade democrática
dos erros cometidos. O país não possui, nem gerará recursos Dmental contar a
médio prazo com a poupança externa. A comunicação à sociedade e a concordância
entre o discurso interno e para o exterior é importante para a credibilidade da
governação. A conferência procurará discutir como as burocracias do sistema
político e económico têm sido instrumentalizadas pelas elites detentoras do
poder na Frelimo, com o objectivo de maximizar interesses e rendimento
individuais e de grupos económicos, cuja acumulação assenta em mecanismo pouco
transparentes. As oportunidades de acesso e poder de distribuição de recursos,
obedece a hierarquias no sistema de poder e a alianças assentes em grupos que
têm como vínculos relações étnicas, clânicas e partidárias. dades na formulação
de políticas públicas como também, no surgimento e consolidação de grupos
empresariais locais. Pretende-se debater acerca dos dilemas das opções de saída
da crise, considerando que os factores políticos internos a situação económica
e social e os contextos internacionais se reforçam mutuamente em ciclo vicioso.
A questão é saber sobre as medidas que permitem o inicio de um ciclo de saída
da crise, considerando que a economia moçambicana não possui recursos para o
efeito e que o FMI, credores e doadores possuem condicionalidades que, a serem
satisfeitas, poderão provocar “tsunamis” no sistema politico. Por outro lado se
não forem satisfeitas, ticularmente sobre a economia real (tecido empresarial,
geração de emprego, custo de vida sobretudo dos mais pobres, baixo investimento
externo e publico - excepto nos recursos naturais e sectores relaccionados).
Hora Tema Orador Instituição Moderador 08:30 Abertura João Pereira MASC
Jeremias Langa 09:00 Crise Financeira e Consolidação Fiscal: O Problema da
Desorçamentação António Francisco IESE Crise financeira sistema politico como
factor da crise. Edson Cortez CIP Dilemas da saída da crise João Mosca OMR
10:30 Intervalo - Lanche 11:00 Debate 12:30 Encerramento 4. Local: Montebelo,
Indy Village. 5 Data: 16 de Maio de 2018. queixas dos próprios de que são
discriminados e maltratados, conforme ainda recentemente denunciaram os 500
trabalhadores angolanos ao serviço do consórcio chinês China Gezhouba Group
Corporation, que constrói uma nova barragem no rio Cuanza, Caculo-Cabaça,
financiada pelo Banco de Comério e Indústria da China. Corrupção vs construção
Está convencionado que 2006 foi o ano em que a corrupção em Angola começou a
expandir-se sem nunca mais parar. Os apartamentos, alguns dos quais modestos,
que membros das elites angolanas até então tinham em Lisboa, começaram a dar
lugar a outros de superior qualidade ou a vivendas de situadas em urbanizações
de alta categoria. Com o tempo, viriam mesmo os investimentos na aquisição de
palacetes, quintas ou na compra de empresas e acções. O ano de 2006 foi aquele
em que a China, ao que agora se diz atraída por expectativas de elevadas taxas
de crescimento da economia angolana, começou a fazer jorrar dinheiro em Angola.
Ao todo, USD 60 B, concedidos sob forma de linhas de crédito do Estado,
invariavelmente garantidas por petróleo. O montante (porventura muitas vezes
superior à soma de todas as ajudas e créditos concedidos a Angola desde a
independência), foi revelado num artigo de autoria de Zhang Beisan, embaixador
chinês, que assim rompeu pela primeira vez com o denso sigilo desde sempre
mantido à volta do assunto. Das normas legais aplicadas em Angola à adjudicação
de obras pelo Estado faz parte uma modalidade chamada “contratação
simplificada”. Em bom rigor, é uma adjudicação política. O anterior Presidente
reservava a si próprio a faculdade exclusiva de autorizar a contração de
empreitadas na referida modalidade, fazendo-o ao abrigo dos poderes executivos
nele concentrados pela constituição de 2010. Ainda em Junho de 2017, cerca de
dois meses do fim do seu mandato, José Eduardo dos Santos emitiu 23 despachos
presidenciais, aprovando a adjudicação de outras tantas obras a empresas
chinesas. Apresentavam a novidade de impor a subcontratação de empresas angolanas.
O que valiam tais imposições não era muito, partindo do princípio de que nunca
foi respeitada uma norma de acordo com a qual o pessoal afecto a uma obra devia
compreender chineses e angolanos, na proporção de 30/70%. É por demais sabido
que os chineses não têm em boa conta as qualidades de trabalho dos angolanos. O
destino que viria a ser o do Hos14 Savana 11-05-2018 15 NO CENTRO DO FURACÃO
São dezenas e dezenas de quilómetros de desvios, por vezes desvios dos desvios.
O estado lastimoso em que se encontra a estrada, que passa mesmo ao lado, é a
razão de ser dos desvios, muitos dos quais com dezenas de quilómetros e quase
todos verdadeiras picadas no pior sentido do termo. É esta a realidade presente
ao longo de pelo menos um terço da extensão total da estrada Luanda-Huambo.
Doze penosas horas, o dobro do que seria preciso se fossem normais as condições
da estrada, é o tempo que leva a fazer os seus 550 kms de extensão total. Em
estado ainda pior está parte considerável da chamada estrada marginal que liga
o Lobito a Luanda, passando pelo Sumbe e Porto Amboim. Aqui, o estado dos
desvios, em especial os que se começam a apanhar logo à saída do Lobito, a
seguir à Caponte, e por aí fora até ao ponto em que a estrada bifurca com a que
vai para a Quibala, é ainda mais penoso. Aos buracos, ainda mais cavados,
juntam-se nuvens cerradas de poeira provocada pela circulação de camiões que
demandam o porto ou dele procedem. Ambas as estradas têm a categoria de
principais no sistema viário de Angola. A que liga Luanda ao Huambo tem mesmo a
importância de espinha dorsal de todo o sistema viário do território. Derivam
dela ou prolongam-na muitas das mais importantes vias que em todas as direcções
rasgam o território. O mau estado das duas repete-se em quase todas as estradas
do país, mas de forma mais calamitosa no caso das secundárias ou das rurais.
Uma das poucas que destoa é a que liga o Huambo a Benguela ao longo do Caminho
de Ferro de Benguela. É difícil de entender o estado em que se encontram as
estradas em Angola. O país está em paz completa há dezasseis anos. Dispôs de
recursos abundantíssimos quase integralmente provindos da generosa fonte do
petróleo (USD 128 B, valor do PIB, a preços correntes, em 2014, ano em que a
actual crise estalou), para reconstruir o que foi destruído ou não foi
conservado ao longo da guerra civil ou, ainda, para construir o que não foi
construído. As estradas agora esventradas foram quase todas reconstruídas e
pomposamente reinauguradas nesse período de dezasseis anos de paz. As últimas inaugurações,
todas amplamente publicitadas, remontam há uns oito anos apenas. Partindo do
princípio de que o tempo de vida de uma estrada asfaltada, construída como deve
ser e mantida de acordo com as regras, pode chegar aos 20/30 anos (antigas
estradas coloniais são concludente exemplo disso em Angola), o que explica
então que a duração destas tenha sido tão fugaz? A resposta que está na ponta
da língua dos angolanos é a falta de seriedade que “comandou” o chamado esforço
de reconstrução de Angola. A qualidade das obras foi sacrificada de interesses
obscuros, entre os quais avulta a corrupção. Uma corrupção voraz e tentacular,
implicando angolanos e estrangeiros. Até 2014, ano a partir do qual a crise
provocada pela queda dos preços do petróleo trouxe à superfície fragilidades
económicas de todo o tipo, que apenas estavam dissimuladas ou para as quais se
olhava fingindo não ver, os dirigentes angolanos, num coro ampliado por
personalidades estrangeiras, portuguesas em especial, agora sintomaticamente
emudecidas, exaltavam sobremaneira o imparável e sustentado crescimento
económico e social do país – geralmente apresentado como uma promissora
potência regional. Aconteceu sempre, em todo o lado: quando um país saído de
guerras ou de graves convulsões reúne condições para finalmente se lançar num
esforço de reconstrução sério, aquilo a que atende prioritariamente, por razões
económicas, sociais, políticas e de segurança até, é à recuperação das suas
vias de comunicação e das infra-estruturas em geral. Foi assim que em Angola
também se procedeu. Mas ante a curtíssima duração que veio a ser a das estradas
então reabilitadas, a conclusão instalada é a de que não houve seriedade nem
competência no que se fez. O desastroso estado actual das estradas também
permite concluir que a tão exaltada diversificação da economia não tinha,
afinal, correspondência com a realidade. Tal como, aliás, parecia a muitos
observadores das realidades angolanas, à data destratados por isso. A ter sido
real, o funcionamento de sectores como a agricultura, minas e indústria não
poderiam dispensar a existência de estradas transitáveis, assim como
precisariam de contar com energia e água, abundantes e baratas – outras
exigências para as quais só tardiamente se começou a olhar. A especial severidade
da crise que se abateu sobre Angola e nunca mais a largou é, aliás, remetida
para a inexistência de uma economia produtiva, com músculo suficiente para
compensar, pelo menos minorar, os efeitos da perda de valor da chamada
petroeconomia em que o país, de facto, foi sempre vivendo, fazendo orelhas
moucas a advertências de que estava a incorrer numa imprevidência. Foram
chineses, brasileiros, portugueses e angolanos os empreiteiros das obras de
reconstrução da rede estradas em Angola, após o fim da guerra. Os chineses são,
porém, o alvo do grosso das críticas e das lamúrias que o mau estado em que as
estradas se encontram de novo alimenta na sociedade em geral. Apesar de o
trabalho dos outros também não ter ficado isento de defeitos. A manifesta falta
de qualidade das obras de construção civil dos chineses, em particular no
domínio da habitação, ajuda à severidade especial com que é olhado o seu
trabalho no domínio das estradas. A TPA, na esteira de uma abertura da imprensa
cujo alcance, apesar de ainda limitado, a converteu numa das reformas do
consulado do novo Presidente, difundiu em Fevereiro uma reportagem sobre os
problemas de construção (infiltração de águas, má qualidade das tubagens,
deficiências das redes técnicas, empenamento de paredes, etc.), que proliferam
em apartamentos da centralidade do Sequele, periferia de Luanda, construída
pelos chineses. Na terminologia angolana, centralidades são vastíssimas
urbanizações situadas nos arredores das cidades tradicionais. A do Kilamba-Kiaxi
(KK), igualmente situada na área metropolitana da capital, mas esta ainda mais
gigantesca que a do Sequele, padece dos mesmos problemas, acrescidos de outros.
As inundações provocadas pelas chuvas de Março último, em particular na segunda
fase da centralidade, conhecida por KK5000, foram atribuídas a falta de
infra-estruturas para escoamento das águas pluviais ou, simplesmente, ao facto
de não terem funcionado as bombas de um sistema de drenagem. Ainda permanece na
memória colectiva a má sorte do Hospital Geral de Luanda, ou dos Cajueiros,
demolido em 2010, quatro anos depois de ter sido inaugurado. Foi construído
pela empresa chinesa COVEC. A causa determinante do ingrato destino que lhe
estava reservado foi a falta de consistência das suas fundações. Não tardou
começarem a aparecer fissuras nas paredes de todo o edifício, daí advindo
consequências como a inutilização do sistema de ar condicionado. A apreciação
negativa, por vezes desdenhosa, a que a qualidade das obras dos chineses dá azo
na sociedade angolana, incluindo nas próprias elites, manifesta-se de muitas
maneiras. Desde o surgimento de um anedotário popular inspirado no tema, até à
exclusão a que os chineses são previamente votados quando um particular trata
de encontrar empreiteiro para uma obra. Em condições de à vontade ou
intimidade, quando alguém se quer ironicamente superiorizar a outro com quem
está em conversa, diz que a sua casa foi consO grande pecado da China em Angola
Por Xavier de Figueiredo truída por portugueses, enquanto a do outro foi por
chineses. Aos problemas já visíveis nas obras de empreiteiros chineses
juntam-se outros, apresentados como os que estão para vir no futuro. É uma
referência aos altos prédios por eles construídos na própria cidade de Luanda.
Diz-se que a diminuta ocupação de muitos deles (considerados proibitivos os
preços dos apartamentos) tende a dar origem a lacunas de conservação capazes de
virem a afectar a estrutura dos próprios edifícios. Caminhos de Ferro No
princípio de 2013 o Governo encomendou à General Electric (GE) 100 locomotivas
diesel destinadas aos três caminhos de ferro nacionais – Caminho de Ferro de
Luanda, CFL; Caminho de Ferro de Benguela, CFB; Caminho de Ferro de Moçâmedes,
CFM. A encomenda, no valor de mais de 400 milhões de dólares, foi a solução
encontrada pelas autoridades para atender a uma emergência: as máquinas
originalmente fornecidas pela China não tinham força, conforme queixume
corrente entre os maquinistas. No entanto, quatro anos depois de terem começado
a ser utilizadas, as locomotivas norte-americanas só permitiram parcialmente
permitiram resolver os problemas que afectavam a operacionalidade das vias. A
sua superior potência pouco pôde ante deficiências que as vias e o seu traçado
apresentam. No troço ascendente do CFM (da Bibala em diante) as máquinas
chinesas não ultrapassavam 30 Km/h (deveriam atingir 100 km/h), mas as GE
também não rendem muito mais devido a problemas técnicos e de segurança da via.
As travessas em que os carris assentam quebram-se de forma considerada anormal
devido a uma constatada desproporção na mistura de areia e do cimento de que
são feitas. No período colonial dava-se preferência às travessas metálicas ou
de madeira maciça, por se ter concluído que eram mais resistentes. Na
reconstrução das vias não se teve em conta que em certos pontos, o seu traçado
deveria ter sido alterado de modo a permitir que as novas máquinas, mais
potentes que as antigas “Garrat” do tempo colonial rendessem o que delas se
esperava. Além dos problemas estruturais de concepção e construção das vias, a
que se juntam os de carácter técnico representados pela desadequação do
material circulante de fabrico chinês, as baixas taxas de operacionalidade das
três vias (no CFB apenas 20% dos valores do tempo colonial), também são devidas
a factores de organização, entre os quais a carência de pessoal especializado,
problema remetido para um alegado não cumprimento por parte dos chineses de
obrigações de formação e valorização profissional destinados a angolanos. A
lacuna é colmatada com o emprego de trabalhadores chineses. Os efeitos
negativos da carência e/ ou impreparação do pessoal também se fazem sentir na
manutenção da própria via e nas 151 estações construídas de raiz, muitas delas
consideradas sobredimensionadas; algumas não estão equipadas ou encontram-se
fechadas e a degradar-se. Em muitas, como a do Huambo, chama a atenção a traça
tipicamente chinesa da sua arquitectura. Por via directa das baixas taxas de
operacionalidade de todas as vias férreas (uma viagem Luanda-Malanje leva 12
horas, quando o normal seria 5), a sua exploração vem acumulando volumosos
défices, patentes no facto de as receitas nem sequer cobrirem os salários. No
ambiente de contração orçamental em que o Estado se encontra, a solução parece
ser a privatização parcial dos três caminhos de ferro, de preferência a favor
de parceiros internacionais ou regionais que também assegurem a sua gestão. As
obras de reabilitação das três vias férreas e o reequipamento de cada uma das
companhias concessionárias, em que terão sido investidos USD 3B, foram
financiados pela China, através do CIF-China International Fund, uma das mais
opacas entidades chinesas envolvidas em negócios com Angola. Como condição, as
empreitadas foram todas levadas a cabo por empresas chinesas, empregando
maioritariamente pessoal chinês, e o material circulante teria de ser também de
fabrico chinês. Os problemas gerais que as três vias apresentam e para os quais
é remetida a causa principal do seu subaproveitamento são atribuídos a uma
duvidosa qualidade das obras de reabilitação, não fiscalizadas, bem como para a
deficiente manutenção das vias por parte dessas mesmas empresas (outra
obrigação contratual do financiamento), com base em contratos anuais com um
valor médio de USD 60 milhões. A entrega à China da reabilitação de todos os
caminhos de ferro nacionais é considerada desavisada em meios com conhecimento
do assunto. Dois dos principais fracassos técnicos da China em África no campo
da construção, foram no plano ferroviário. Um, o Tazara, que ainda na década de
sessenta ligou países encravados, como a Zâmbia, ao porto de Dar-es-Salam, na
Tanzânia, de modo a pôr termo à dependência em que se encontravam em relação
aos portos da África do Sul. O outro, já no presente século, a via de 650 quilómetros
que no Gabão liga as minas de ferro de Belinga a Port Gentil. Realidade antiga
Em 2007, estavam os chineses a entrar em força no mercado da construção e das
obras públicas, um engenheiro de uma empresa portuguesa então muito pujante em
Angola, a Soares da Costa, alertava numa conversa informal para a duvidosa
qualidade das obras de construção dos chineses, naquele tempo ainda
circunscritas a edifícios – públicos e privados. As técnicas de construção que
usavam, os acelerados ritmos de construção das obras e a má qualidade dos
materiais usados, que considerava incompatíveis com o clima local, haveriam de
vir a gerar problemas futuros. Se, como parece, nada há a apontar de
depreciativo à engenharia civil chinesa (as suas cidades e as suas auto-estradas
não apresentam ruindades com as que se observam em Angola e noutros países
africanos), nem dar por bom que técnicos chineses não tenham verificado que a
qualidade dos materiais aplicados nas suas obras em Angola, em larga maioria
importados da China – então o que explica imperfeições que acerca do seu
trabalho se contam como construir uma estrada com base numa camada inferior de
terra compactada e depois, sobreposta, uma outra de asfalto betuminoso, apenas
se fazendo o espalhamento de um viscoso líquido preto entre ambas? Na
“reconstrução da reconstrução” de estradas agora em curso, incluindo em troços
de extensão considerável da que liga Luanda ao Huambo, nota-se que os chineses
(são outra vez eles os empreiteiros) espalham agora uma camada de brita entre a
terra batida e o asfalto e estão finalmente a construir valetas de drenagem de
águas pluviais nas suas bermas, também inexistentes na versão anterior. Na
busca de explicações para o facto de não se ter procedido antes conforme as
boas técnicas mandam, é a uma que geralmente se chega: a diferença que deve ter
havido entre o custo real das obras e os valores, mais elevados, pelas quais
foram adjudicadas, serviu a corrupção. A inexistência de fiscalização facilitou
“a tarefa”. No centro de Luanda há dois grandes edifícios cujos empreiteiros
foram empresas chinesas. As sedes do antigo BESA (Banco Espírito Santo Angola)
e a do Instituto Nacional de Segurança Social, no Eixo Viário. Não consta que
qualquer dos edifícios apresente problemas de construção. É assim, diz-se
correntemente, porque as obras foram fiscalizadas, não apenas pelos seus donos,
como pelas empresas às quais foram directamente adjudicadas (a Soares da Costa,
no caso do BESA), subcontratando a seguir construtoras chinesas para as
executar. Especula-se também que aquilo que correu mal nas obras a cargo de
empresas chinesas não foi estranho a desígnios políticos e propagandísticos do
Governo que consistiam na conveniência de “apresentar rapidamente serviço” em
matéria de desenvolvimento do país. Mais importante que a qualidade das obras,
era apresentá-las já prontas dentro dos prazos ou mesmo antes do seu termo.
Seria um mal menor se a sua qualidade não fosse a melhor por inobservância de
requisitos técnicos como a falta da camada de brita ou ausência de valetas nas
estradas. Má imagem Para além da má qualidade das suas obras de construção e de
coisas também antigas como a concorrência directa em que entraram com os
angolanos comuns ao dedicarem-se a pequenos negócios ambulantes, a imagem dos
chineses em Angola, também passou a não ser favorecida por realidades novas da
sua presença, igualmente mal vistas pela população. Por efeito do estado de
quase paralisia em que a construção foi caindo, devido à crise, os muitos
milhares de chineses que constituíam a principal força de trabalho no sector,
foram ficando desocupados. Cavadores de enxada, operários especializados,
engenheiros, todos foram atingidos. A quantidade obras inacabadas, de todo o
tripo, que agora se encontram simplesmente paradas em todo o país, incluindo
prédios de grande porte em Luanda, dá uma ideia do que foi a razia. Os chineses
que decidiram ficar, não seguindo os 250.000 que se estima terem feito o
“torna-viagem”, dedicam-se agora a outras actividades. Não há estimativas
fiáveis quanto ao número dos que ficaram devido ao facto de também não haver
estimativas fidedignas em relação à grandeza que a comunidade atingiu no “boom”
da construção. Os números variam entre 300.000 e 700.000, mas conhecem-se
outros, ainda mais empolados. As novas actividades em que se lançaram aqueles
que permaneceram são quase todas motivo de reservas ou objecções da sociedade
que não abonam a favor dos próprios. A começar pelos casinos que abriram (ao
longo da Via Expresso há muitos) e acerca de cuja actividade circulam
mirabolantes histórias. A mais inofensiva de todas as histórias é a de que os
casinos são utilizados para, entre outras práticas especulativas, provavelmente
ilegais, açambarcar as escassas divisas que hoje em dia circulam no país. No
rol das novas vidas abraçadas pelos chineses no pós-construção figuram também
negócios como estações de serviço para automóveis, lugares de vendas de peças e
roupas contrafeitas, armazéns de varejo em que tudo se vende e em cujos fundos
vive a família que é dona da casa. Até os gabinetes de massagens, nalguns dos
quais se diz que também se praticam determinadas intimidades, mas com base em
critérios de selecção de clientes que excluem os angolanos. A má imagem dos
chineses em Angola e na África em geral também não é estranha à repercussão
pública de condutas consideradas impróprias a que se dedicam. O abate
clandestino de árvores, seguido do contrabando dos toros para a China. A
mineração não licenciada. A exploração de trabalhadores locais (salários mais
baixos) agravada por O novo Hospital Geral de Luanda, construído no mesmo local
onde existiu o anterior, demolido devido a graves defeitos de construção.
Savana 11-05-2018
PUBLICIDADE 16 Savana
11-05-2018 NO CENTRO DO FURACÃO pital Geral de Luanda foi sempre atribuído por
eles à falta de qualidade dos trabalhadores angolanos. Ante constantes
advertências das empresas chinesas de que não poderiam respeitar prazos de
execução contratados se dependessem de mão-de-obra angolana, as autoridades
fecharam sempre os olhos à norma dos 30/70%. Quem verdadeiramente lidava com os
chineses para assuntos que iam desde a negociação de linhas de crédito até à
adjudicação de empreendimentos que as mesmas se destinavam a financiar, era o
chamado Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN) instalado no primeiro edifício
de grande porte erguido em Luanda pelos chineses. O presidente do GRN era o
general Manuel Vieira Dias “Kopelipa”, chefe da Casa Militar do Presidente. Os
ministérios, mesmo aqueles em cuja jurisdição caem as obras públicas não eram
inteiramente postos ao corrente dos contratos com empresas chinesas. Acontecia,
até, que as levas de chineses procedentes da China com destino às obras de
construção, eram acolhidos por pessoal do GRN. A seguir, transportados em
autocarros da Casa Militar para os seus destinos. Ainda se vêem em Luanda
talhões murados, guarnecidos de guaritas e lá dentro as camaratas dos chineses.
Em fins de 2015 foi preso na China, sob acusação de corrupção, um “magnata”,
Sam Pa (nome fictício, pelo qual era usualmente conhecido). Quase ao mesmo
tempo foi detido Su Shulin, ex-presidente da petrolífera Sinopec (antes,
coercivamente afastado por corrupção. Não fazia muito tempo, Sam Pa, através de
uma das suas muitas empresas, havia constituído, em parceria com a Sinopec e
figuras ligadas à elite angolana, uma companhia petrolífera, China Sonangol,
para entrar na indústria da prospecção e exploração de petróleo. A prisão de
Sam Pa (Xu Jinghua, nome verdadeiro), foi considerada o elemento que faltava
conhecer para ligar à corrupção os negócios sino-angolanos, pelo menos alguns
deles. Operando com base num grupo, Queensway, sediado em Hong-Kong, e do qual
é supostamente dono, apesar de não ter vínculos formais ao mesmo, Sam Pa foi,
de longe, o principal intermediário dos negócios entre os dois países. Os seus
interesses em Angola, quase sempre envolvendo membros da mais alta elite do
regime, são considerados muito mais volumosos do que os instalados no país que
aparece a seguir na escala – o Zimbabué. O seu último investimento foi numa
fábrica de cerveja, a Lowenda Brewery Company Limited, uma sociedade comercial
constituída entre o CIF (China International Fund) e o CIF (Angola) Logistics
Company, esta representada por dois indivíduos considerados “testas de ferro”.
A inauguração da fábrica, em Outubro de 2014, contou com a presença do então
Presidente, José Eduardo dos Santos, que se deixou fotografar ao lado de Sam
Pa. A deferência presidencial não pode deixar de ter sido influenciada por
coisas como o facto de os principais parceiros angolanos de Sam Pa serem três
figuras de primeiro plano do círculo presidencial – Manuel Vicente, Vieira Dias
“Kopelipa” e Leopoldido do Nascimento “Dino”, todos presentes na inauguração. O
passaporte angolano a certa altura concedido a Sam Pa, no qual é identificado
com um nome aportuguesado, foi devido a uma intercessão directa de JES. Foco de
descontentamento A enorme embaixada da China em Luanda está cheia de gente dos
seus serviços de informações. Tendo em conta aquilo que é a sua missão,
recolher informação aberta e fechada, verificar a sua consistência e
analisá-la, pode-se concluir sem medo de errar que as autoridades chinesas
estão a par de um fenómeno presente na sociedade angolana: a corrupção que
grassa no país é um dos principais focos de descontentamento, não apenas em
estratos sociais médios, mas na gente comum. A aversão à corrupção, acirrada na
sociedade angolana pela falta de decoro com que os seus principais
beneficiários nacionais ostentam o seu novo-riquismo (um deles mandou construir
uma casa que no fundo são dois blocos, cada um deles com a forma das letras
iniciais do seu próprio nome), vem de coisas como considerar-se que males
capitais como a pobreza e as injustiças; o estado dos hospitais, das escolas e
a má qualidade dos serviços prestados pelo Estado, tudo isso é devido à
corrupção. Os oficiais de informações na embaixada da China também devem ter
verificado que “na ideia” da população angolana a corrupção que grassa no país
não é estranha aos dinheiros chineses postos à disposição das autoridades
angolanas ou à forma como tem sido feita a sua aplicação. O ónus para o
prestígio da China a que isso dá lugar deve ter sido a razão suficiente para
uma reapreciação das suas políticas para Angola. A prisão de Sam Pa e de Su
Shulin deve ter servido objectivos da política interna chinesa, mas seguramente
serviu também como prenúncio de que estavam a chegar ao fim “facilidades” das
suas políticas de concessão de créditos e ajudas fomentadoras de corrupção. Da
parte do Estado e mesmo das empresas chinesas começaram a notar-se novas
preocupações de transparência na celebração e aplicação de acordos ou contratos
comerciais e financeiros. E a prontidão com que a China abria os cordões à
bolsa passou a ser realidade passada. A consciência crítica que hoje em dia
existe em meios da sociedade civil angolana no que toca aos “malefícios”
(corrupção e pobreza) que os negócios com a China vinham acarretando para o
país, tende a aumentar e a adquirir acrescida capacidade escrutinadora. Terá
sido esta a perspectiva que levou a China a arrepiar caminho. A alegada
ligeireza de procedimentos que marcou os primórdios da implantação da China em
Angola (um caso considerado padrão, a par da Nigéria e do Sudão), é remetida em
estudos sobre o assunto para a conveniência que então a moveu de ganhar
vantagem concorrencial face aos países ocidentais. As oligarquias políticas
locais haveriam de se deixar atrair por perspectivas de enriquecimento
implícitas nas condições em que os créditos eram concedidos. O tipo de relações
que a China tem mantido com os países africanos (o grau da sua opacidade é
proporcional à grandeza de recursos de cada um), também a tem exposto a críticas
e pressões internacionais, em geral baseadas em dois argumentos: contribuem
para a corrupção e o empobrecimento; constituem concorrência desleal. A
autenticidade e eficácia de políticas e planos anti-corrupção lançados nos referidos
país, também são prejudicadas pela existência de fontes de dinheiro como as da
China. A reconstrução da reconstrução da estrada para o Huambo, conforme jargão
local, está a ser feita seguindo técnicas e métodos que os especialistas
consideram mais apuradas. E, outro exemplo, é uma construção nitidamente mais
sólida o novo Hospital Geral de Luanda, implantado no mesmo local onde esteve o
outro que depois de ter começado a partir-se aos bocados acabou por ser
demolido. A China dá mostras de estar em Angola para durar. Considera que o
país reúne boas condições para o crescimento da sua economia bem como para a
sua afirmação como potência global. É uma rica fonte de matérias-primas. A
vastidão das suas terras aráveis é o ideal para promover empreendimentos agrícolas
que a China e outras partes do mundo já não toleram. Pode tirar partido da sua
fraca densidade populacional para deslocar parte dos seus excedentes
populacionais. Já se instalou, conquistando uma posição própria. Percebe-se
isso na atitude deferente dos responsáveis políticos angolanos em relação à
China. Parece estar agora a esforçar-se por melhorar a má imagem que tem na
população, advinda de práticas de que se está também a libertar. Troço inicial
da estrada Lobito-Luanda (à saída do Lobito). Assinatura do jornal A partir de
01 de Agosto de 2017 DESTINO PERÍODO Trimestral Semestral Anual TODO O PAÍS
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Localizado na Av. Lurdes Mutola, Magoanine Perto da Paragem Fim do Muro
Contactos: 82 8815880/84 0651802 A edição do Jornal de Angola online salientou
nesta quinta-feira a vitória do Presidente angolano, João Lourenço, pelo envio
do processo do ex-vice-Presidente Manuel Vicente para aquele país. O jornal
relembra o processo, afirmando que Manuel Vicente tinha sido acusado em
Portugal pelo crime de “corrupção activa” de um magistrado do Ministério
Público, Orlando Figueira, que está a agora a ser julgado em Lisboa. “Mas a
defesa recorreu, alegando que Manuel Vicente não foi constituído arguido nem
notificado da acusação. Além disso, gozava de imunidade pelo facto de ter sido
vice-Presidente da República.” Logo a seguir a notícia lembra que “o Presidente
João Lourenço tomou a dianteira na defesa da posição de que o processo deveria
ser transferido para Angola de modo a que pudesse ser aqui julgado, caso as
autoridades angolanas assim o entendessem”. E conclui: “Finalmente, agora, a
Justiça portuguesa deu-lhe razão [a João Lourenço].” Também Marcelo Rebelo de
Sousa, de visita a Itália, comentou a decisão hoje conhecida. Recorrendo à
expressão antes utilizada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, o Presidente
da República considerou que com a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa
“desaparece o irritante” que existia e “era invocado periodicamente nas
relações entre Portugal e Angola”. O Presidente da República foi surpreendido
pela notícia em Florença, onde se encontra para participar num debate com o
editor do Financial Times para a Europa, Tony Barber, no âmbito da conferência
The State of the Union organizada pelo Instituto Universitário Europeu. “Está a
comunicar-me uma informação que eu não tinha. Se for assim, se quem tem poder
de decidir, decidiu isso, significa que há uma transferência. Se for esse o
caso, desaparece o irritante”, observou Marcelo Rebelo de Sousa. Para o
Presidente da República portuguesa, embora tratando-se de “um ponto menor”, o
processo em curso na justiça portuguesa em que o ex-vice-Presidente angolano,
Manuel Vicente, é suspeito de corrupção activa e lavagem de dinheiro, era um
estorvo para as relações bilaterais, de tal forma que era “invocado
periodicamente nas Caso Manuel Vicente Jornal de Angola “festeja” vitória do...
Presidente angolano
relações
Portugal-Angola”. O ministro da Defesa prepara uma visita a Angola dentro de
duas semanas e, ao que o PÚBLICO confirmou, o Governo está confiante que esta
deslocação se concretize mesmo. Ultrapassado esse constrangimento, os países
poderão retomar as suas relações, acredita Marcelo. “Eu sempre achei que os
dois países estavam vocacionados a encontrarem-se. Espero que assim aconteça e
que nós possamos fazer, em conjunto, um percurso que é importante para o povo
angolano e o povo português”, afirmou. O primeiro-ministro, por sua vez,
afirmou que ficou feliz com a decisão judicial de transferir para Angola o
processo Manuel Vicente. Também ele recorreu à expressão usada pelo ministro
dos Negócios Estrangeiros português, considerando que desapareceu o único
factor “irritante” nas relações luso-angolanas. Numa declaração à agência Lusa,
António Costa disse que a decisão “é a demonstração de que vale a pena confiar
no regular funcionamento das instituições judiciais para assegurar a boa
aplicação da lei”. “Fico feliz que o único ‘irritante’ que existia nas relações
entre Portugal e Angola desapareça”, acrescentou. Esta decisão do tribunal é
conhecida quando está a ser preparada uma visita oficial do ministro Defesa
português, Azeredo Lopes, a Angola. Será a primeira visita de um governante
português àquele país depois de, em Fevereiro do ano passado, a ministra da
Justiça, Francisca Van Dunem, ter cancelado à última hora uma visita a Luanda,
devido à tensão entre os dois países. “Não havia condições”, argumentou na
altura o lado angolano. A visita de Azeredo Lopes, que deverá ocorrer dentro de
duas semanas, é vista pelo Governo luso como “um sinal de boa vontade” por
parte de Angola, uma vez que acontece depois de o regime de João Lourenço ter
“congelado” as relações diplomáticas com Lisboa. Quarta-feira, Azeredo Lopes
afirmou que as relações com Angola no domínio da Defesa são “excelentes” e
disse que aquele país representa um parceiro importante, “muito antigo e muito
amigo” na projecção externa da Defesa Nacional. Questionado sobre se as
relações com Angola na área da Defesa se ressentiram ou esfriaram, Azeredo
Lopes respondeu que nunca sentiu “esfriar nenhum”. “Sinto uma excelente
temperatura, nunca senti esfriar nenhum. As relações na área da Defesa estão a
desenvolver-se muito bem e de forma muito saudável e espero, tenho a certeza,
de que assim vai continuar a ser”, declarou, citado pela Lusa. INTERNACIONAL
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arriou as calças. O culpado foi Jean-Claude Arnault (marido da poeta Katarina
Frostenson, que é membro da Academia do Nobel) e os seus arremessos sexuais à
esquerda e direita - oh lá, lá, nem a princesa herdeira, Victoria, nos seus
imaculados vinte anos, escapou de ser “tocada nas nalgas”, dizia a notícia,
pelas suas mãos inquiridoras. Resultado do tumulto e das demissões que
provocou: a Academia ficou sem quórum. Na verdade, consta que o empoleirado na
esposa também influía na filtragem dos nomes dos candidatos ao Nobel – impondo
o seu voto por delegação -, o que minou o crédito da Academia, mais habituada
ao recato melancólico das esposas dos membros da Academia. «Sou levado na
sombra/ como um violino/ no seu estojo negro», escreveu Tomas Transtromer, o
último grande poeta laureado, e por acaso sueco. Não sabemos se este violino
ocultado na sombra já aludia a Arnault, mas no caso do poeta sueco o estojo
transportava uma espessa substância lírica. Porém, este ano o estojo do Nobel
está vazio, por causa do tanto que vazou Arnault, à esquerda e à direita. Falo
dos zunzuns em que era especialista e que matavam sempre a confidencialidade do
prémio (- contava às amantes, que depois contavam ao porteiro do prédio, etc.)
Em relação ao Nobel, temos de perguntar como o fazia Rilke ao jovem poeta a
quem, endereçou cartas: morre a literatura se não houver o Nobel (- o poeta
alemão perguntava ao seu destinatário se ele morria, caso não escrevesse
poemas, sugerindo que se assim não fosse ele deixasse de escrever porque nenhum
poeta brota da presunção mas sim duma necessidade interior, vital e
inescapável)? Qual o peso específico do Nobel na manutenção do capital
simbólico que a literatura, talvez, ainda represente? E é relevante o seu
papel, em relação à literatura, ou ao comércio de uma parte dela? Em Moçambique
é indiferente, percorrendo as livrarias não se encontrará os nobéis dos últimos
trinta anos – apenas um ou outro, residual. E talvez não fosse mau este cenário
mudar, para os jovens candidatos a escritor medirem o fosso entre a sua vaidade
e aquilo que literatura pode proporcionar. Na escolha dos últimos premiados
notava-se ter havido um pequeno desvio ao paradigma do prémio, inflectindo para
uma maior aproximação ao “mercado” e à ”cultura de massas”. Era uma espécie de
“literatura à Hollywood”. Daí que os critérios que premeiam a Física, ou
a Matemática, por exemplo, não tenham sido reproduzidos na Literatura. Aí
premeiam-se investigadores de ponta, gente que experimenta e arrisca
“cegamente”, como é próprio da ciência. Na literatura têm-se escolhido vozes em
concordância com o “mercado”, que oferecem segurança, escritores de
qualidade mas que conduzem com airbag. Patrick Modiano, Bob Dylan ou
Kazuo Ishiguro, são bons, mas decididamente não tanto. Alguma vez a algum génio
foi dado um Nobel – a um «génio sem espinhas»? Vejamos quatro exemplos: Pessoa
e Henri Michaux, Borges ou Ezra Pound. Não lhes emprestaram a bola de ouro. Embora
fossem avessos às agremiações literárias que tornam a coisa possível. Mas não
dramatizemos. Para o meu gosto, a poesia não tem estado mal servida nos Prémios
Nobel. Se ao irlandês Seamus Heaney eu preferia o britânico Ted Hughes, a
poesia do primeiro atinge um nível altíssimo na tradição que representa. E não
tenho dúvidas, tanto o polaco Czeslaw Milozs, como o mexicano Octavio Paz (que
se tem de ver como um todo e não unicamente como fazedor de versos), o russo
Joseph Brodsky ou o poeta da Trinidad, Derek Walcott, cada um no seu género,
são poetas que roçam o “génio”, no sentido em que todos atingiram picos
altíssimos no sistema das suas cordilheiras. O Derek Walcott, por exemplo, que
nem teve direito a tradução em Portugal, provavelmente por ser negro, nem em
Moçambique, suponho que por não ser moçambicano, é um poeta extraordinário,
capaz de ímpeto, improviso e arquitectura, isto é, capaz de embarcar no mais
puro beat jazzístico como na cadência clássica. Ainda por cima, é igualmente um
dramaturgo de monta. «Ao longe no caminho, avisto o Poder./ Tal e qual uma
cebola,/ os malabarismos do seu rosto/ a caírem um após o outro.», escreveu,
entretanto, Transtromer e é extraordinário como de forma tão simples fala da
nossa tumultuada época, afinal de todas. Mas mais da nossa. E é tão universal
isto – piscadela de olho ao leitor. Era esta a função do Nobel, fazer-nos
confiar que existia uma Academia que premeia os melhores e não os que mais
vendem ou os que são bons a fornecer entretenimento. Dado que o entretenimento
é uma das funções da literatura mas não de todo a única. O Nobel era uma
espécie de Realeza Republicana que nos apresentava um modelo de excelência.
Esperemos que com este ano de jejum corrija a rota. Quem não espreitará este
ano o vestidinho decotado da Glória do Nobel, uma moça como se sabe com
predicados, é o meu amigo Zetho Gonçalves, poeta angolano, que se tinha
anunciado no FB como candidato ao Nobel deste ano. Nem neste nem nos próximos.
Sabem porquê? É misteriosamente a cara chapada de Arnault – podiam ser gémeos
ou sósias. Camarada Zetho, roga ao teu sócio para fazer uma operação plástica,
senão serás sempre vetado por antipatia! Do Nobel, sem pruridos Espere, tire
uma com o meu celular, também! T erá sido por ironia do destino, que Afonso
Dhlakama, que sempre se proclamou de “Pai da Democracia”, perdeu a vida
exactamente no mesmo dia em que o mundo inteiro comemorava um dos mais
importantes pilares de qualquer sistema democrático; a Liberdade de Imprensa.
Nos vários eventos que decorreram por todo o país, para marcar o dia 3 de Maio,
a nenhum dos participantes teria passado a premonição de ao fim do dia ter de
ser informado da triste notícia sobre a morte do líder da Renamo. Foi um
acontecimento que colheu muita gente de surpresa, incluindo a maioria dos
membros e simpatizantes da Renamo. Foi o virar de uma página, o surgimento de
uma nova era na história de Moçambique e da Renamo, em particular. Dhlakama foi
mais do que um guerrilheiro e líder do maior partido da oposição em Moçambique.
Ainda que com um percurso de certo modo controverso, Dhlakama deixa uma marca
indelével na turbulenta história deste país, que não obstante todos os
esforços, continua ainda à procura de uma paz definitiva, para cuja busca o
homem nascido em Mangunde, a 1 de Janeiro de 1953, era peça fundamental.
Dhlakama deixa um vazio dentro da Renamo, mas também será lembrado pelos
moçambicanos pela sua incansável dedicação à luta pela implantação da
democracia multipartidária em Moçambique. Não existe uma clara descrição das
circunstâncias em que Dhlakama se viu envolvido nas actividades da Renamo,
quando esta era ainda conhecida pela sua designação inicial de Movimento
Nacional de Resistência (MNR). Sabe-se apenas que ele terá assumido a liderança
da organização em 1979, na sequência da morte do seu primeiro comandante, André
Matsangaissa, antes de em 1983 ser proclamado presidente, durante o primeiro
congresso do movimento. Mesmo assumindo que as suas origens estiveram centradas
nas questões geoestratégicas que na época dominavam na África Austral, é
necessário reconhecer que foi mérito de Dhlakama ter conseguido transformar a
Renamo na poderosa força de guerrilha que anos mais tarde viria a obrigar o
governo da Frelimo a aceitar a inevitabilidade de uma solução negociada para
acabar com a guerra em Moçambique. Antes, a Renamo passara por uma série de
metamorfoses que incluíram ter de se definir como uma força interna
moçambicana, empenhada em lutar pela implantação da democracia multipartidária
no país, muito a contragosto de sectores que estavam apostados em usá-la como
um instrumento ao serviço de interesses neocoloniais. De facto, círculos
ligados a alguns antigos colonos portugueses em Moçambique teriam visto na
Renamo o veículo privilegiado para a recuperação de propriedades e interesses
económicos perdidos depois da proclamação da independência nacional, em 1975.
Só esta redefinição ideológica viria a tornar possíveis as negociações que
culminariam com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) no dia 4 de Outubro
de 1992, em Roma. A expectativa era que este acordo abrisse uma nova era de
reconciliação, reconstrução e desenvolvimento em Moçambique, num quadro em que
a Renamo se transformaria de uma força de guerrilha, ancorada em estratégias
militares para a obtenção de objectivos políticos, para uma organização
política apostada em provar o enraizamento da sua ideologia junto da maioria do
eleitorado moçambicano. Mas o que se pensava que seria produto de duas
assinaturas mágicas viria provar ser uma missão difícil. Apesar de possuir uma
estrutura política que com distinção tem desempenhado o seu papel de oposição
ao nível do parlamento e de líder em algumas assembleias provinciais, a Renamo
continua essencialmente a ser uma organização que se funda numa doutrina
militar. Depois de cinco eleições multipartidárias, a Renamo continua ainda a
reivindicar que a fraude a tem impedido de formar governo ou de obter maioria
no parlamento. E, alegando que a legislação eleitoral não correspondia a
fundamentos democráticos, boicotou as primeiras eleições autárquicas em 1998, e
depois as últimas em 2013, e de forma contínua, sempre com a ameaça do recurso
ao uso da força para impor a sua visão de um Estado democrático. Ao boicotar as
duas eleições autárquicas, a Renamo poder ter desperdiçado oportunidades para
conferir maior experiência de governação aos seus quadros, para além de lhes
ter vedado acesso a recursos que contribuiriam para o melhoramento das suas
condições sociais. Provavelmente ciente desta realidade, viria a Renamo a contestar
o município de Nampula, na intercalar ganha pelo seu candidato em Março último.
Dhlakama era um homem de fortes e profundas convicções, das quais não se
demovia facilmente. Mas seria injusto caracterizá-lo como um radical ou
irrazoável. Depois de insistir, por muito tempo, que a solução para o impasse
resultante das eleições de 2014 passava por a Renamo governar as seis
províncias onde reivindicava ter obtido a maioria, acabaria por aceitar que tal
não era algo que se pudesse alcançar à margem da Constituição. Concordou dar
mais uma oportunidade ao diálogo e mandou suspender todas as confrontações
militares. Não foi a tempo de ver o fruto do seu sacrifício, mas a melhor
homenagem que os seus sucessores lhe poderão prestar é manterem-se firmes neste
projecto inacabado de construção de uma paz duradoura, de uma reconciliação
genuína e de uma democracia onde ninguém se deve sentir excluído por pensar
diferente. Afonso Dhlakama (1953-2018): O General de Mangunde OPINIÃO Savana
11-05-2018 19 579 Email: carlosserra_maputo@yahoo.com Portal:
http://oficinadesociologia.blogspot.com A morte do líder da Renamo Afonso
Dhlakama representa um enorme revés para as dinâmicas internas do partido
Frelimo. Isto mesmo. Sem nenhuma intenção de santificar a imagem e as acções do
líder da Renamo, que de santo até nada tinha, a Renamo, sob a liderança de
Afonso Dhlakama, foi o principal factor externo catalizador de profundas
transformações de carácter político dentro do partido Frelimo, que tiveram
consequências no estado moçambicano, pós-independência. Na verdade, Dhlakama
foi para a Frelimo, uma faca de dois gumes. Enquanto que, por um lado, o seu
discurso e a acção belicistas causaram mudanças positivas dentro da Frelimo,
por outro lado, também justificaram a permanência na estrutura de liderança da
Frelimo da chamada corrente histórica conservadora, corrente esta,
profundamente atrelada à ideais igualmente belicistas e monopartidários. E
agora Frelimo? Vencido o colonialismo português, pouco habituada a ser
confrontada, aberta e pacificamente, sem essas ditas necessárias
transformações, a Frelimo talvez não se tivesse adequado, atempadamente, às
dinâmicas sócio-políticas, económicas e culturais da sociedade moçambicana, que
a permitiram responder a algumas exigências dessa mesma sociedade e não só. São
essas transformações de ordem política forçadas, fundamentalmente, por fora,
que tem provavelmente garantido sua actualidade e consequente permanência no
poder. Nesta lógica, com o desaparecimento físico de Afonso Dhlakama e um consequente
potencial enfraquecimento da Renamo, mais do que a sociedade moçambicana, no
geral, e a Renamo em particular, pode-se considerar que a maior desgraça recai
mesmo sobre a própria Frelimo. É irrefutável que, internamente, foi a força da
Renamo, liderada por Afonso Dhlakama, obviamente, também associada às dinâmicas
do contexto regional e global, que obrigou à Frelimo, por exemplo, ao abandono
oficial do modelo de partido único, dando assim espaço para a democracia
multipartidária, para a uma relativa liberdade de imprensa, de expressão, de
movimento, de associação e de outras liberdades que permitiram que as suas
políticas e do estado moçambicano estivessem hoje em relativa consonância com
os anseios de grande parte da população. Nós todos também sabemos que foi a
mesma força da Renamo, sob a liderança de Dhlakama, que forçou à Frelimo à
mudança de abordagem e ao reconhecimento do poder local, hoje um dos grandes
elementos da sua própria reprodução e sustentação, em tanto que força política,
nas zonas rurais do país. Por exemplo, hoje, os líderes tradicionais são
convidados especiais às cerimónias locais quer do partido quer do Estado. O
mesmo se pode referir sobre a liberdade de religião, factor que possibilitou a
transformação de algumas igrejas, outrora não bem vistas no contexto da
revolução, em locais de culto político do próprio partido Frelimo,
principalmente, em momentos de campanha eleitoral. Com a morte de Dhlakama, a
Frelimo perde o principal termómetro de uma população, que por receio real à
represália, tinha em Afonso Dhlakama seu destemido alto-falante. Era Dhlakama
quem expressava as vontades e o pensamento que as camadas mais marginalizadas
da sociedade assim como alguns intelectuais críticos, até de dentro da própria
Frelimo, não se sentiam seguros em, se sequer, suspirar. Isto possibilitava,
até então, que a Frelimo estivesse a par do que ia, verdadeiramente, na alma do
povo que ela própria governa. A Frelimo perde o pretexto externo que
justificava a condução de debates internos de alguns temas considerados
verdadeiramente incómodos, principalmente para as chamadas correntes
conservadoras, como o tema da despartidarização do Estado e do aprofundamento
da descentralização em Moçambique. Aliás, foi necessário recorrer à força das
armas para levar estes temas para o centro do debate político em Moçambique,
agora em curso. É verdade que a Frelimo também ganha. Com o potencial fim do
discurso e da acção belicistas, eternos cavalos de batalha de Dhlakama, para
obtenção de concessões políticas, tornam-se irrelevantes as correntes
belicistas de dentro do próprio partido Frelimo, o que para o seu próprio bem,
passa a ser relativamente fácil expurgar-se dos indivíduos pertencentes à essas
correntes. Só para aqui recordar, foi também sob o pretexto de se defender do
belicismo dhlakamista que se contraiu a dívida oculta, em relação a qual,
esclarecimento cabal pode levar à profundas divisões internas no seio do
partido no poder. Arisco-me até a avançar que, a acção de Dhlakama pode ter
influenciado o modelo de liderança que o partido Frelimo adoptou pós-Machel.
Deve ter sido em resposta às acções de Dhlakama e da Renamo que a Frelimo
percebeu que depois de Samora Machel ela devia apostar numa liderança como a de
Joaquim Chissano relativamente mais convidativa ao diálogo com a oposição, quer
interna, quer internacional, abandonando, desta forma, um modelo de governação
há muito desajustado às duas realidades. Como consequência, Moçambique abriu-se
ao mundo e a si próprio. E foi, muito provavelmente, esta mesma lógica que deve
ter levado a que, depois do modelo de governação guebuziano, mais orientado ao
afunilamento do espaço político ao exercício da aposição e a favor do controle
crescente do estado pelo partido no poder, a Frelimo apostasse numa liderança
como a do Presidente Filipe Nyusi que pudesse dar lugar ao diálogo como
mecanismo de busca da paz efectiva para o país. Isto tudo foi reacção à acção
de Dhlakama. E agora, o que esperar do futuro de uma Frelimo sem a sua maior,
mais teimosa, e muitas vezes incómoda liderança externa? Qual será a resposta
da Frelimo a esta perda? Irá ela fechar-se ainda mais, ou abrir-se-á às
dinâmicas históricas e aos anseios do seu povo? E num hipotético contexto não
belicista, como é que a Frelimo passará a captar e a acomodar as demandas dos
moçambicanos? E qual será o futuro das correntes conservadoras internas que
sobreviviam do medo que Dhlakama, em vida, representava? Descanse em Paz
Dhlakama: meus pêsames a Frelimo Por Fredson Guilengue D epois da vertigem e das
incidências do acto de casamento, decidimos passar o primeiro dia de solidão e
tranquilidade em casa, sem necessidade de acordo prévio, cada um entregue ao
que lhe deu para fazer naquele dia. Enquanto ele se entretinha implicando-se na
sala a curtir a sua ressaca e a bebericar aos goles os restos do que tinha sido
o regabofe, multiplicando-se em chamadas para chalacear com os amigos, eu
entregava-me de corpo e alma à realização de um sonho que acalentava há muito
tempo: o de aconchegar as peças de roupa que tinha coleccionado ao longo
daquelas décadas, para oferecer como herança, na altura própria, às minhas
filhas. Estava a aconchegar tudo no baú que me tinha calhado como prenda de
casamento – na verdade, para mim, a maior de entre todas as prendas, e explico
porquê. Muita gente ficou a pensar que a maior prenda seria o casamento, ele
próprio, por algumas razões simples: o casamento aconteceu no dia 16 de junho
de 2001, era um sábado, e naquele sábado eu celebrava os meus 45 anos de idade;
por outro lado, naquele ano, não precisamente naquela data, passavam-se 35 anos
de vida em comum, sem que isso tivesse sido registado oficialmente. Poderia,
portanto, pensar-se que o facto de me casar naquele dia com um homem com quem
tinha vivido tanto tempo em regime de união de facto e com o qual já tinha sete
filhos era uma prenda que ele tinha decidido oferecer-me. Na verdade não era
isso. Era uma conquista mútua, resultante de várias discussões ao longo
daqueles anos todos, nem sempre muito pacíficas. Mas, como digo, a maior prenda
– e para isso tive que perder um pouco o descaramento com os padrinhos para
manifestar a minha vontade – era aquela mala enorme de jambirre, com um fecho
banhado em ouro. Naquela segunda-feira, 18 de junho de 2001, decidi passar o
dia a arrumar nela todas as capulanas, lenços e roupa básica de cama que tinha
coleccionado. Como já tinha programado, arrumei as peças em três camadas
diferentes, sendo a do mais fundo destinada à filha mais nova. Sobre aquela
camada coloquei o nome dela, para que não restassem duvidas: Débora. Coloquei a
segunda camada, e em cima dela o nome da segunda filha: Morgana. E, por fim, a
última camada, por cima da qual também coloquei o registo: Clarabela. Os homens
não me preocupavam. Isso caberia a eles. Era um pouco de sacanice, mas era com
boas intenções. Quando terminei a tarefa, pus por cima de tudo aquilo o
tabuleiro que vinha como cobertura superior da mala e nele coloquei as minhas
pequenas bugigangas pessoais, objectos de adorno, na maior parte deles de fantasia,
dourados ou prateados, mas também as jóias que tinham servido para o meu lobolo
e as do casamento. Fechei tudo e, tendo trancado o baú com gestos solenes de
quem guarda um tesouro inestimável, coloquei a chave num sítio onde eu jurava
nunca revelar a ninguém, a não ser em circunstancias extremas. Em último caso,
deixaria isso tudo por escrito no testamento, e dei-me por tranquila, realizada
e feliz. O Gamito também estava feliz, pelos vistos, embora isso pudesse ser
também por efeito das ebulições alcoólicas a que se entregava desde manhã. No
fim, não tínhamos motivos para nos queixarmos muito: o casamento tinha corrido
simples e maravilhosamente bem, com pouco, mas com muita alegria e amizade, e
nem nos queríamos dar ao trabalho de comentar isso naquela segunda-feira.
Quando, anos depois, demos por concluída a nossa casa em Tchumene, uma
construção de alvenaria modesta de três divisões, sendo dois quartos e uma sala
mais ou menos grande, com cozinha e casa de banho fora, decidimos mudar-nos
para lá, tanto mais que os apertos de cinto a que a crise económica nos
obrigava já aconselhavam a isso. Negociámos o arrendamento da nossa flat no
Bairro da Malhangalene, flat que, fosse como fosse, nos deixaria saudades, e
cujo abandono depois daqueles anos todos nos traria certamente lágrimas aos
olhos por ter sido nela que construímos as nossas vidas e fizemos os nossos
filhos. Partimos para a nossa nova residência, mas, como se diz, “gato
escaldado, até de água fria tem medo”, e eu tinha ouvido ao longo daquele tempo
todo histórias aterrorizantes sobre o clima de insegurança no nosso novo bairro
e sobre a apetência pelos roubos que por ali abundava, alimentada pela pobreza
e pelo facto de o bairro ser novo e ter muita gente jovem e desempregada. Vinha
também em nosso desfavor o facto de, sendo bairro longe do centro da cidade,
obrigar-nos a ter que admitir uma empregada, coisa a que sempre resistíramos.
Decidi então aferrolhar duplamente o meu baú, não fosse ele objecto de cobiça
da empregada ou de alguém acicatado por si, e vivi tranquila, certa de que por
ali não haveria de vir dano maior. Até que, um dia, o cheiro persistente a
urina, de origem desconhecida, no nosso quarto na nova casa, e um fedor subtil,
cuja origem também não conseguíamos distinguir, me levou a remover todo o
mobiliário do quarto da sua posição. Fiquei horrorizada! Por debaixo do meu baú
descobri pedaços pequenos de tecidos de várias cores e texturas. Movida por um
instinto quase sobrenatural, abri o baú, o que me deixou quase derrubada no chão.
Dentro dele estava instalada há anos, pelo que me parecia, uma autêntica
colónia de ratos – pequenos, grandes, velhos, novos, gordos e magros –, que, ao
longos daqueles anos todos em que estávamos a viver na nossa nova casa, em
Tchumene, se tinha entretido de modo insolente, vergonhoso e cruel a
alimentar-se com tudo o que eram capulanas, lenços, fronhas e lençóis que eu
tão ciosamente tinha guardado naquele baú para oferecer um dia como herança.
Cleptofobia Uma coleção internacional [2] OPINIÃO 20 Savana 11-05-2018 SACO
AZUL Por Luís Guevane A notícia da morte de Afonso Dhlakama deixou os
moçambicanos num misto de surpresa e incredulidade. Deste modo,
independentemente da orientação política de cada um, deu para perceber, tanto
pela imprensa (pública e privada) como pelas conversas de ocasião, que o choque
estava patente na voz e no rosto dos moçambicanos. Quanto mais a imprensa
internacional passava a notícia da sua morte, mais as pessoas acreditavam no
facto ocorrido e reforçavam a sua compreensão sobre a grandeza do “Pai da
democracia”. Pelo facto de Dhlakama ter sido o rosto da luta pela democracia,
pela liberdade, pelo desacorrentamento do Estado, a notícia, por si só, foi
gerando a maior dúvida nisto tudo, ou seja, “e agora, como será? ” Mas, está claro
que não foi a primavera que morreu, mas a andorinha que se foi. Há Afonso
Dhlakama, um líder carismático um fundo de verdade ao se afirmar, no sentido
figurado, que “por morrer uma andorinha não acaba a primavera”. A luta pela
democracia e seu crescente aprimoramento continuará. Um novo rosto surgirá.
Mas, como é óbvio, está subjacente no íntimo de qualquer moçambicano a
“irrepetibilidade”da identidade do líder carismático. E é nesse sentido que,
apesar de “óbvio”, fica-se com uma sensação de descontinuidade. Contudo, como
essa sensação é efémera, já se fazem contas à figura que irá suceder a Afonso
Dhlakama. Sobre a sucessão há, no mínimo, duas correntes: uma que sugere uma
figura com uma costela marcadamente militar e, uma outra, que se inclina mais
para um sucessor com uma forte fibra política. As sugestões ou mesmo
prognósticos valem por si. Assumindo que em vida Dhlakama teria dito, ele
próprio, que em caso de necessidade a sua substituição poderia ser feita por
uma “figura forte” (que não cedesse a pressões) e que tinha quadros capazes,
tudo parece indicar que o seu sucessor poderá vir a ser alguém com uma forte
costela militar. Admitindo que ao nível do partido Renamo houve ao longo destas
últimas décadas um considerável crescimento político, essa figura que o irá
suceder, já tem acoplado em si um determinado peso político. O seu sucessor
será, assim, um indivíduo com um self ligado à vida militar e um outro self
orientado para a política. Quanto à continuidade das negociações e da
construção do processo de entendimento, parece claro que terão de existir
mecanismos de defesa que garantam o seu sucesso e que permitam, por isso, uma
paz definitiva. Um novo rosto como interlocutor válido não atrapalhará o rumo
do processo, a menos que os referidos “mecanismos de defesa” sejam fragilizados
por aqueles que rezam para que voltemos a uma situação de conflito
político-militar. E esse perigo, esse e outros riscos, existem se olharmos não
só para a questão das dívidas ocultas que tardam em ser resolvidas como também
para as imagens dos partidos diante da proximidade de pleitos eleitorais que se
avizinham. Cá entre nós: esta morte é, em si, um grande capital político que
jogará a favor do sucessor e do partido Renamo. É uma espécie de adubo
proporcionador da vitória da democracia. Contrariar o poder dessa adubação não
deixará de ser equacionado por forças geradoras de conflitos. A democracia
perdeu, sem dúvida, um líder carismático (o que é reconhecido por todos os
partidos políticos de Moçambique). A história não se esquecerá deste homem. Uma
lenda. É assim que uma nova página se abre reforçada na luta pela democracia
para que Moçambique seja de todos os moçambicanos. Paz à sua alma. E stamos
aqui, em representação dos milhões de moçambicanos que confiaram
na Renamo para ser a sua voz esclarecida e descomprometida em todo o
território nacional exprimindo a dor que partilhamos pela
inesperada partida de Afonso Dhlakama. Para a sua família, vão
as nossas primeiras palavras, de profunda e
sentida solidariedade! Sou aqui a Presidente da Juventude da Renamo, a
representante da Bancada Parlamentar da Renamo, mas também a sobrinha que
expressa publicamente a gratidão ao seu tio querido, por tudo o
que me ensinou e pela oportunidade que me deu de defender,
junto dos meus concidadãos, as suas ideias e os seus sonhos. Os nossos
corações estão despedaçados por uma perda
que muito nos abala. Todos nós, não mais poderemos conversar com
o nosso Presidente Afonso Dhlakama. Sentiremos a falta de ouvir os seus
ensinamentos sobre as políticas de governação, sobre a
cultura do Partido e como este pode contribuir para resolver os
problemas do nosso Povo. Parte o
guerrilheiro, um general que desde jovem iniciou a luta dos direitos
dos povos de África e do Mundo. O general dos generais! Parte um
homem que era o escudo intransponível contra as injustiças dos
poderosos, aquele que nos protegia dos abusos dos que usam a
governação para perpetuar tiranias e privilégios próprios.
Inclinamo-nos, eternamente agradecidos, perante aquele que, até ao
seu último sopro de vida, sempre se bateu com enorme coragem
pelos nossos direitos e liberdades, contra os tiranos e os
seus exércitos e polícias armados. Não foi em vão a luta do
nosso general pelo respeito dos direitos humanos, pelo bem-estar dos povos
e pela defesa das nossas riquezas naturais. Parte Afonso
Dhlakama, mas fica a herança dos seus ideais que são mais um
património que todos os moçambicanos devem preservar! Ideais de um herói e
filho do povo que enriquecem a nossa cultura e reforçam a defesa das
nossas tradições, dos nossos recursos naturais, contra a destruição da
terra e das florestas, em defesa das savanas, das
praias, dos lagos e dos rios, da fauna e da flora que
dão brilho ao nosso Moçambique. Perdemos o Pai da Democracia Moçambicana,
mas ficam os seus ideais para guiar a nossa
prática em defesa da liberdade de pensamento e expressão. As
lágrimas que os jovens da Renamo e toda a sociedade vertem são sinal da nossa
dor. Mas é grande a determinação da maioria dos jovens, futuros chefes de
família e toda a sociedade em transformar essa dor em energia, para
lutarmos ainda com mais força pela liberdade e por um futuro melhor!
Vamos celebrar a vida de Afonso Dhlakama com o compromisso de
prosseguir o caminho de progresso que nos mostrou e cumprir os objectivos
da obra que tinha em mãos: consolidar a democracia, promover a justiça
social e garantir um futuro melhor para o nosso povo. O Povo
Moçambicano esteve com Afonso Dhlakama e estará connosco,
dando continuidade à luta contra arbitrariedades e
tiranias, celebrando a vida humilde mas de bravura, nos campos, nas
cidades, nas vilas, nas localidades e nas povoações, crianças e jovens, idosos,
homens e mulheres que todos sejam Dhlakama. Uma vez, o Pai da Democracia
disse: «Eu estou aqui, não porque quero estar, mas porque quero que
todos os moçambicanos se sintam parte de Moçambique.» Essas simples
palavras traduzem a realidade moçambicana do passado e do
presente! Afonso Dhlakama, com grande cumplicidade e apoio do Povo
moçambicano, estava a construir a estrada do nosso futuro. A sua vida deve ser
um exemplo para todos nós não importa a idade. Para os jovens
moçambicanos, que são o nosso futuro! A força, a determinação
e a coragem que ele nos ensinou a cultivar e a interpretar, têm
por base as fortes convicções humanistas e os valores
democráticos que sempre orientaram a sua prática política. Nunca se
esqueçam de que, mesmo perseguido pelo sistema e regime
vigentes, foi capaz de recusar o conforto e os luxos que lhe ofereciam
para lutar pela liberdade. Se a liberdade hoje ecoa em
todos os cantos de Moçambique, isso se deve à sua incansável luta.
Um exemplo também para as mulheres moçambicanas, que não devem esquecer
que, se a Constituição de Moçambique consagra hoje direitos
iguais a homens e mulheres, isso se deve aos Acordos de
Roma. Afonso Dhlakama dedicou toda a sua força e
inteligência ao propósito de garantir condições de justiça e
igualdade a todas as mulheres jovens e não só, muito sacrificadas pelo
sistema e regime vigentes deste 1975. Porque foi capaz de
interpretar os sonhos e os desejos dos cidadãos moçambicanos mais
maltratados, Dhlakama tem um lugar de primeiro plano na história de
Moçambique. Em 1994 realizaram-se as primeiras eleições democráticas
e, apesar de não ter sido empossado formalmente como Presidente
da República, Afonso Dhlakama foi eleito Presidente de Moçambique
no coração dos mais desfavorecidos, dos mais injustiçados, de todos aqueles que
o sistema colocou – e continua a colocar – na
periferia da sociedade. O presidente Afonso Dhlakama já
não está connosco fisicamente. Mas está bem vivo no coração de todos os
moçambicanos! Se temos a liberdade de nos expressar livremente por todos
os lugares deste nosso belo país a ele o devemos. A sua
presença carismática, de trato afável, simpática, foi estrutural
para impedir a propagação da tirania. Para tal, abdicou de uma vida
própria, dedicando, desde a mocidade, todas as suas horas e energias
à causa da nossa liberdade e do nosso progresso como seres
humanos. Moçambicanos, sejam Dhlakama! Por tudo isto, Afonso
Dhlakama é um exemplo para o Povo moçambicano. Ainda recentemente, com a
sua determinação e graças a uma estratégia de negociação serena
e inteligente, colocando Moçambique acima dos seus interesses
particulares e partidários, o nosso Presidente declarou
unilateralmente o cessar fogo ilimitado, permitindo até que o
Presidente Filipe Nyusi o fosse visitar à Serra da Gorongosa. Com a
sua enorme experiência política e militar, mostrou-nos como a
violência indirecta mata mais do que a «violência directa». Com as
suas contribuições e sugestões políticas, à luz da Constituição da
República e respondendo aos anseios de todos os moçambicanos,
fez entender ao Presidente Nyusi que o país deveria ficar numa situação
firme e segura, mas independente de influências. A Segurança
Nacional deve garantir a capacidade do Estado
em preservar o modo de vida dos seus cidadãos. Por isso, os
Comandos da Renamo, ontem jovens como nós, devem a bem da Nação, ser integrados
nas Forças de Defesa e Segurança.
Dhlakama sempre mobilizou o melhor que há em nós. Parte,
mas deixa a sua marca na nova estrutura do Estado moçambicano,
com a proposta da descentralização incorporada na proposta de Revisão Pontual
da Constituição de Moçambique depositada na Assembleia da República.
Desde os Acordos de Roma, celebrados em 1992, que Dhlakama
contribuiu conceitualmente para que o Estado e as suas estruturas se
moldem e edifiquem na base de novos alicerces democráticos. Pela sua
palavra e pelo seu exemplo, Afonso Dhlakama, na prática, vimos que uniu
os Moçambicanos de todas as idades. A visita do Presidente Nyusi à
Serra da Gorongoza é o sinal de ter compreendido que o general Dhlakama era portador
de uma mensagem multiculturalista, homem com a alma de um ser
jovem, superior e aberto para todos. Ele tinha verdadeiramente todos os
Moçambicanos no coração e por isso a sua morte, se é motivo de dor, não é o fim
da esperança para uma vida melhor. Ele parte, mas ficamos nós, para
continuar a sua missão! Mantendo vivo o seu sonho de um país livre e
democrático, lugar onde moçambicanos sejam verdadeiramente iguais em
oportunidades e direitos. Dhlakama foi descansar depois de 42 anos ao
serviço do povo. Compatriotas, de hoje em diante, somos todos Dhlakama!
*Presidente da Liga da Juventude da Renamo. Texto lido nessa qualidade no
velório de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, no largo dos CFM na cidade da
Beira. Moçambicanos, sejam Dhlakama! Por Ivone Soares* SOCIEDADE Savana
11-05-2018 21 PUBLICIDADE DESPORTO 22 Savana 11-05-2018 A Federação Moçambicana
de Futebol (FMF) realizou, na semana passada, mais uma assembleia-geral, a qual
foi protagonizada pelas 11 associações provinciais e dirigida por Alcido Nguenha,
presidente da Mesa da Assembleia, sendo que os presentes aprovaram, por
unanimidade, o Plano de Actividades e o Orçamento para 2017. Houve também uma
monção de saudação ao presidente desta instituição, Alberto Simango Júnior,
pela nomeação a cargos na COSAFA, CAF e FIFA. Mas o relatório financeiro mostra
que nem tudo é um mar de rosas. Para já, a contracção económica que o país
atravessou o ano passado influenciou no desempenho da Federação Moçambicana de
Futebol durante o ano passado, que teve de se manter firme na busca de soluções
e meios para a implementação e execução do seu plano de actividades, visando
minimizar e acautelar os seus efeitos nefastos. E apesar desta contrariedade,
no capítulo desportivo tornou-se possível a realização de todas as actividades
inicialmente programadas para a selecção nacional “A” e as de sub-23, sub-20 e
sub17, bem como as de futsal, futebol feminino e futebol de praia. Segundo o
relatório financeiro da FMF apresentado na última assembleia-geral, a direcção
daquele organismo desencadeou acções de mobilização de financiamentos para a
implementação de projectos, tendo conseguido arrecadar da FIFA, para além do
valor de USD 500.000 de contribuição regular, um montante adicional, na ordem
de USD 1.107.921, dos quais USD 304.487, relativos à contribuição da FIFA para
transporte e hospedagem das selecções nacionais; USD 391. 247 de patrocínio
para a construção do Estádio da Maxixe e reabilitação do campo de Mocuba (cerca
de USD 200.000) e mais de USD 191.000 de reembolso à FMF pelas obras de
reabilitação da nova sede deste organismo. Segundo dados disponíveis, os meios
circulantes financeiros registaram um saldo de 1.897.146 meticais no ano
passado, contra 1.010.993 meticais registados em 2016, o que significou 88 por
cento acima do saldo de 2016. Explicação que faltava Num passado recente, a FMF
chegou a recorrer à banca para fazer face à situação difícil em
5HODWyULRÀQDQFHLURGD)0)GHDSRQWDIDFWRUHVH[WHUQRVFRPRWHQGRFRQGLFLRQDGRRVHXGHVHPSHQKR
(QWUHJDQKRVHGHVDILRV Por Paulo Mubalo que se encontrava, mas este organismo
esclarece que a última prestação do empréstimo que tinha no valor de 6.170.000
meticais foi liquidada. Segundo as demonstrações financeiras, o resultado
líquido de 2017 foi positivo na ordem de 1.892.418.05 meticais, o que significa
uma redução de 63 por cento comparativamente ao ano de 2016. Para a FMF, este
indicador não joga nenhum papel determinante para avaliação do seu desempenho
económico-financeiro, uma vez que por não ser uma instituição com fins lucrativos,
a realização das suas actividades e o desempenho económico-financeiro estão
dependentes do nível de patrocínios e apoios recebidos de terceiros. Mas ao
nível de rendimentos e ganhos, estes estão na ordem de 142.168.976,67 meticais
em 2017, contra 123.796.151 meticais arrecadados em 2016. Parte significativa
desses rendimentos, segundo o relatório financeiro da FMF, provém dos
patrocínios da FIFA, CAF e Fundo de Promoção Desportiva, mas com ligeiro
decréscimo dos patrocínios vindos do BCI e Mcel, quando comparados aos valores
arrecadados em 2016. Entretanto, outras fontes de receitas da FMF são as taxas
cobradas às associações, pela sua filiação; inscrições dos clubes e atletas e
emissão de cartões, para além das receitas de jogos dos Mambas e jogos da
Supertaça. O documento esclarece que as receitas dos jogos dos Mambas foram
melhores quando comparadas com as de 2016, devido, em parte, ao melhor
desempenho da nossa selecção, o que contribuiu para atrair o público para os
campos de jogo. De acordo ainda com o relatório que temos vindo a citar, em
termos de custos e perdas operacionais, a FMF registou em 2017, um montante na
ordem de 140.276.558 meticais, contra 118.667. 836 meticais de custo registado
no ano anterior, o que significou um incremento de 18 por cento. Nesta rubrica
de custos, os valores mais significativos estão relacionados com o transporte,
deslocações e estadias, acomodação das equipas visitantes, despesas de
realização de jogos, ajudas de custos pagos aos atletas, prémios de jogos,
entre outras despesas. O relatório mostra que a FMF gastou 17.427.172 meticais
em 2016 com o pagamento ao gabinete técnico, e 23.419.385 meticais no ano
passado, uma relativa subida, enquanto que as deslocações e estadias diminuíram
de 20.132. 322 meticais em 2016, para 17.256.952 meticais no ano passado.
Enquanto isto, em termos de despesas, uma vez que as de maior peso são as
passagens aéreas e as de acomodação, os auditores recomendam que se encontre,
entre o departamento técnico e o secretariado, um mecanismo de, com alguma
antecedência, apurar-se o número provisório de atletas e outros elementos da
delegação que devem fazer parte de um determinado jogo. Com este mecanismo,
poder-se-ia fazer, atempadamente, uma negociação de preços competitivos com agências
de viagens e hotéis para a hospedagem das selecções. O mesmo documento apela à
direcção da FMF para adoptar medidas de contenção de custos, a começar pela
negociação, em tempo útil, dos custos de passagens aéreas; a necessidade de se
identificar fontes adicionais de financiamento que passa, de entre outras
acções, pela criação de iniciativas de melhor rentabilização do património
detido pela FMF. Outrossim, “há necessidade de se adoptar medidas de controlo
mais rigoroso dos serviços prestados à FMF a crédito, para evitar dívidas
insustentáveis à tesouraria da instituição”, afiançam as fontes. O desempenho
dos Mambas fez subir a receita da FMF em 2017 A manutenção das i n f r a - e s
t r u t u r a s desportivas no país continua a ser bico de obra, como o nosso
colega de imagem Ilec Vilanculos documenta. Num passado recente, a Escola
Superior de Ciências de Desportos da UEM juntou especialistas de várias áreas
para discutirem a questão das infra-estruturas desportivas, em parte como
reposta ao repto que havia sido lançado pelo Presidente da República, Filipe
Nyusi, depois que visitara, em 2015, o Parque dos Continuadores e, o ano
2ILOPHGDYHUJRQKD
passado, o Estádio Nacional do Zimpeto. Nesse encontro saíram ideias brilhantes sobre como deve ser feita a gestão e manutenção dos recintos desportivos, mas parece que tudo não passou de conversa para boi dormir. O campo do clube 1º de Maio, no bairro da Maxaquene, é disso exemplo. Está em degradação a olhos vistos, mas num passado recente foi um local privilegiado para os treinos da selecção nacional, os Mambas, para além de ter acolhido muitos jogos do Moçambola. Assim não! Mas as imagens falam por si. SOCIEDADE Savana 11-05-2018 23 PUBLICIDADE custa 60,00Mt, preço de CAPA desde dia 04 de Maio O jornal Anuncie a sua marca, produto e serviços, na SAVANA FM . Proporcionamos para si pacotes promocionais, contacte-nos através de: 84 1440048, 82 8944278 ou ainda através do e-mail: radiosavana100.2@mediacoop.co.mz SAVANA 100.2 FM Visite agora e mantenha-se informado, (integridade & independência) https://www.savana.co.mz CULTURA 24 Savana 11-05-2018 O moçambicano José Cabral, que viu nos meses precedentes ser editado o volume antológico por que há tanto se esperava, o livro Moçambique, foi agora objecto da exposição que complementa a edição. A exposição Moçambique- José Cabral, que reúne um conjunto alargado de fotografias, entre provas de autor e novas impressões, apresenta-se no Camões e na Galeria da Associação Kulungwana, e demonstra de forma autoritária a sua trajectória e o seu iniludível lugar como um dos grandes artistas do país nas últimas décadas. A curadoria, eficiente e sensível, foi de Filipe Branquinho, um dos nomes cimeiros da nova geração; que deste modo o homenageia. O percurso de José Cabral, fotógrafo intimorato e algo “marginal”, foi sempre o do rigor e da intransigência, colocando a sua arte acima de qualquer tutela. Mesmo a do fotojornalismo em que se formou. Referia-se-me o crítico Alexandre Pomar – organizador do livro do Cabral –, apontando a foto que se pode ver na exposição em que uma equipa de fotógrafos se afadiga para fazer um retrato de estúdio do Presidente Chissano, e na qual Cabral aproveita um espelho, na base do enquadramento, para se fotografar fotografando o presidente: “Repara como ele desvia a centralidade da fotografia para o acto de fotografar, esvaziando o sujeito do poder”. Este atrevimento de reverter as hierarquias ou mesmo anulá-las é aliás uma das constantes mais felizes da fotografia de José Cabral, seja qual for a matéria que aborde, e explica que, por exemplo, a presença dos pés nas suas composições tenha a mesma importância que a dos rostos ou que as árvores assumam uma dignidade que lhes restitui uma existência extra-humana. Cabral desideologizou a fotografia em Moçambique, fez o resgate da inocência e, para além disso, como indicou Pomar, foi o fotógrafo que deu o salto “da fotografia testemunhal e de intervenção”, de feição colectivista, “para uma outra forma de activismo que não está do lado imediato da denúncia, esse lugar tão ocupado e gasto, mas sim do lado sensível da confiança e da convivência, fraterna e íntima ou intimista”. Por isso, fugindo da epicidade da Celebrar a fotografia -Uma das melhores exposições do ano está patente no Camões e na Kulungwana, na Baixa: a do fotógrafo José Cabral expressão colectivista, tornou-se o primeiro “autor” assumido da fotografia moçambicana, fazendo uma ponte entre a velha geração e a nova geração – Luís Basto, Mauro Pinto, Mauro Macilau e Filipe Branquinho – que encontrou na atitude de Cabral um estímulo e enveredou por novas vias que paulatinamente a conduziu a uma carreira internacional. Os temas principais de José Cabral estão bem documentados na exposição: as árvores, a Ilha de Moçambique, as crianças, o espaço íntimo, o nu, a ruralidade na cidade, as viagens, os auto-retratos, os trabalhos e os momentos intersticiais, por exemplo. E com estes temas “percorre-se uma obra e um país”. À entrada da exposição lêem-se duas declarações do fotógrafo. Diz uma delas: “O acto fotográfico? Há dois tipos de potencialidades, as que estão dentro de mim e as que estão fora, e quando estas duas se encontram há a fotografia”. Ora, isto é análogo ao que defendia Cartier-Bresson: “Fotografar, é pôr a cabeça, o olho e o coração no mesmo ponto de mira”. Ambas as frases apontam para uma indivisibilidade entre o corpo e o acto de fotografar, que tornam o observador e o observado um. Quando isto acontece a fotografia capta a essência do momento, isto é, acaba por produzir-se nela uma espécie de dobra: o reconhecimento simultâneo de um facto espelha-se na organização rigorosa das formas, percebidas visualmente, as quais reiteram e significam esse facto. Dou três exemplos. A foto do cartaz do Museu Al Capone, onde por “um acaso objectivo da luz” (como diriam os surrealistas) a silhueta da cidade aparece reflectida na parte de baixo do vidro que protege a foto do gansgter, como se a cidade estivesse ainda sob a redoma da sua sombra - e assim transforma-se a imagem na metáfora do extremo poder que o gangster teve sobre Chicago. Só um olhar muito treinado percebia o valor expressivo dos reflexos no vidro para sustentar o que a figura simbolizava. Na fotografia escolhida para a capa do livro, e que está exposta, a força está na composição: um casal, ela de trouxa na cabeça, passa ao lado de uma montra com uma cortina que lhes esconde o que esteja à venda, como se o direito ao que lhes está lá lhes fosse vedado. As pregas da cortina prolongam a infinito o eixo horizontal. Mas a dignidade com que eles caminham, quase hieráticos dá-lhes uma verticalidade que os coloca acima das circunstâncias (leia-se sociais) de que padecem. Leitura que só podia dar-se naquele momento de centralidade em que eles se encontram em relação à montra, dois passos antes ou dois passos depois e essa “dimensão oculta” e estrutural da composição da fotografia diluía-se. O terceiro exemplo é um caso de pundonor. A foto pertence ao ciclo “Os Americanos” e foi captada em Santa Fé, no Novo México. Um cowboy orgulhoso é fotografado contra uma montra onde, à exacta altura da sua cabeça, se encontram outros chapéus de vaqueiro. O seu olhar, colaborando com a foto, é de orgulho, ou seja, ele representa um tipo humano, de bem consigo: naquele momento deixa de ser um cowboy singular para se tornar um ícone. Nos três casos as figuras representadas têm uma enorme “qualidade de presença”, um rasgo imprescindível para detectar uma obra de arte, segundo Walter Benjamin. Contudo, faça-se a ressalva, pois para o ensaísta alemão, uma fotografia, por ser um objecto reproduzido mecanicamente não podia ter uma presença genuína. Entre outras qualidades, esta exposição demonstra-nos que Benjamin não tinha razão e isso torna mais evidente a urgência de a visitar, no Camões, até 1 de Junho, e na Kulungwana, até 25 de Maio. E streia nesta sexta-feira, 11 de Maio, no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), às 19h, Tributo a Djavan, que terá nova sessão na próxima quinta-feira, dia 17 de Maio, no Café Gil Vicente, também às 19h, com ingressos a 200 meticais. Djavan, um dos mais aclamados músicos brasileiros será homenageado nesta apresentação. Das músicas mais conhecidas àquelas que fazem parte de sua história e repertório, onde clássicos como “Oceano”, “Meu Bem Querer” e “Um Dia Frio” farão parte deste tributo que emocionará a todos que amam este grande poeta da música brasileira e ainda mais, os amantes dos ritmos latinos e do romantismo. Com o músico moçambicano Jesse Malunguissa e participação especial do actor brasileiro Expedito Araujo que ilustrará curiosidades, histórias e contará a poesia de suas composições criando um aspecto de interacção ainda maior. Expedito Araujo, actor brasileiro que também assina a concepção do concerto, enfatiza: “esta homenagem a Djavan em formato lítero-musical está intimamente relacionada ao carácter da poesia romântica que Djavan imprimiu nas suas músicas, sobretudo nos clássicos apresentados, por suas composições singulares, que hoje são lembradas e relembradas não só no Brasil como em muitos países por onde este grande cantor e compositor brasileiro pôde expor seu trabalho”. Na opinião do actor brasileiro, “as músicas de Djavan são conhecidas pelas suas “cores”. Na minha opinião, Djavan retrata muito bem nas suas composições a riqueza das cores do dia-a-dia e se utiliza de seus elementos em construções metafóricas que nenhum outro compositor conseguiu nem mesmo ousar. Exemplos disso são os temas Oceano e Um Dia Frio. Djavan, apesar de nordestino, não se solidificou com o samba de rua ou a música sertaneja, mas sim por composições próprias que extrapolam o romantismo da época, da música popular brasileira”, enaltece. A música do Djavan provoca e faz reflectir pela forma e conteúdo. “Chama-me a atenção e é um marco de sua poesia romântica que toca, provoca e faz reflectir, “Rua dos amores”, um disco de canções de amor. Canções as mais diversas possíveis. Ouvi-las é passear por essa diversidade, com os ouvidos e a empolgação daquele garoto negro de Maceió que teve uma infância humilde e chegou a passar fome e que um dia largou a bola pela música”, destaca o actor. Para o guitarrista Jesse Malunguissa é uma honra participar num tributo ao músico. “Uma homenagem a Djavan é mais que um artista que eu admiro por ser uma referência na música da língua portuguesa. O que mais me atrai em cantar Djavan é o desafio de colocar a voz para cada tom uma nota. Um exemplo disso é a música Flor de Lis porque é um ícone na música popular brasileira e em Moçambique”, frisa. A escolha do repertório teve como base os temas sonantes do artista. “O repertório traz muito sentimento, músicas que ouvi muito na minha adolescência e também na identificação dos temas mais sonantes, que mais ouviram, quer em Brasil, quer em Moçambique, como Oceano, Um Dia Frio e Te Devoro. Também Flor de Lis, Pétala, Meu Bem Querer, Faltando um Pedaço, Um amor Puro, Oração ao Tempo, Cigano e muito mais. O guitarrista também enfatiza “o que mais gosto em Djavan é o carisma e a encarnação na interpretação de suas músicas”, confessa. Tributo a Djavan Museu Al Capone, Chicago, 1996 Santa Fé, EUA, 1996 Maputo, 1987 Dobra por aqui SUPLEMENTO HUMORÍSTICO DO SAVANA Nº 1270 DE MAIO DE 2017 Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão, no entanto, Kim Jong Un questiona as pretenções de se desnuclearizar a Coreia do Norte Camarada presidente, com a morte de Dhlakama, a minha profecia de que a Frelimo irá governar mais 50 anos está mais do que clara. SUPLEMENTO 2 Savana 11-05-2018 Savana 11-05-2018 3 Qual suspensão da advocacia... estou bem nas empresas clarividentes e visionárias OPINIÃO Savana 11-05-2018 27 Abdul Sulemane (Texto) Naita Ussene (Fotos) C om a notícia da morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pairam dúvidas na mente dos moçambicanos sobre como será o futuro da democracia. Ouvimos muitos comentários sobre este assunto e a questão da sucessão foi das mais analisadas. Os líderes africanos são conhecidos por monopolizar a liderança e quando deixam de liderar a sucessão fica uma dúvida. A continuidade fica ameaçada. É preciso termos a cultura de sucessão para que os ideais tenham continuidade e outros desenvolvimentos em termos de mobilidade. A questão sobre quem vai substituir o líder da Renamo que, recentemente, perdeu a vida levanta muitas nuances em termos de protagonismo a partir de agora. Essas questões que vão ser postas à mesa de agora em diante vão mostrar a outra realidade. Mas enquanto esses momentos não chegam, Ossufo Momade vai coordenando a Comissão Política do partido até à realização do Congresso ou do Conselho Nacional. A morte quebra barreiras partidárias, ideológicas, culturais, étnicas e religiosas. É justamente por isso que ilustres figuras provenientes de todos os cantos do país cruzaram-se na cidade da Beira para se curvarem perante a urna de Afonso Dhlakama A morte faz com que figuras que nunca foram vistas próximas se aproximem. Não condenamos os desabafos que todos fazem. Ninguém foge da morte. Outros comportam-se como se a morte não lhes fosse atingir. Não condenamos ninguém. Cada um expressa o seu sentimento à sua maneira. Neste momento de luto, vemos figuras a darem condolências aos seus adversários. Primeiro, está a Chefe da bancada parlamentar da Frelimo na Assembleia da República, Margarida Talapa, a dar as suas condolências a Manuel Bissopo, Secretário-geral da Renamo. É mesmo para dizer que no momento desses é preciso respeitar a dor do seu adversário. A cara de consternação pela perda do líder do maior partido da oposição moçambicana foi notória. Voltamos a falar da sucessão. Antes da sua expulsão do partido da Perdiz, Raul Domingos era visto como o sucessor na liderança do partido. Nesta terceira imagem, aparece a confortar Ivone Soares, Chefe da bancada parlamentar da Renamo na AR. Como se os olhares estivessem a vislumbrar o ambiente de incertezas que se avizinha. Mesmo com o seu penteado que desperta toda a atenção para quem está ao redor, neste momento muitos não deram conta disso. Estavam concentrados na cerimónia fúnebre. Referimo-nos a Venâncio Mondlane, deputado do MDM na escolinha do barulho, apresentando as suas condolências a Paulo Vahanle, Presidente do Conselho Municipal de Nampula, que ganhou recentemente na segunda volta das eleições municipais pelo partido Renamo. Outro momento de olhar repleto de incerteza quanto ao futuro foi testemunhado entre Joanna Kuenssberg, alta-comissária britânica em Moçambique, e Manuel de Araújo, edil de Quelimane. Pelo olhar, parece estarem a partilhar a ideia de como vai ser o país a partir deste acontecimento. Outros aproveitaram o momento para lançar algumas hipóteses do que poderá ser o nosso país em termos de democracia e liberdade. Nesta derradeira imagem, vemos Erik Charas, do Jornal @Verdade, a dar o seu posicionamento sobre a situação que o país vai atravessar para Jorge Marcos, jornalista da STV, e Adriano Nuvunga, director do Centro de Integridade Pública (CIP). O futuro pertence a Deus. As incertezas aos seres humanos. Uma certeza para todos é a morte. A vida é igual à morte. Tempo de incertezas www.savana.co.mz gg5 #hfgm5R5
5 5R5
o 1270 IMAGEM DA SEMANA À HORA DO FECHO Diz-se... Diz-se A PCA do Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), Ana Isabel Coanai, admitiu que a salvação das cerca de 20 empresas participadas ou detidas pelo Estado passará por um acordo com os bancos.
Savana 11-05-2018 EVENTOS EVENTOS C om objecto
de promover o turismo e cultura de África, a maior exposição de Turismo
Africano, Indaba, espera receber este ano mais de sete mil delegados do
continente e de outras partes do mundo. O evento que abriu, nesta segunda-feira,
em Durban, África do Sul, recebeu expositores de mais de 22 países africanos,
incluindo Moçambique. As boas vindas e o anúncio da abertura oficial foram
proferidas por Derek Hanekom, Ministro do Turismo sul-africano, que mencionou
que o verdadeiro significado do Indaba é criar oportunidades de negó- cios para
o turismo africano. Na sua intervenção de abertura, Hanekon recordou o discurso
do Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, em Fevereiro último, aquando do
Indaba promove turismo integrado e competitivo seu discurso de empossamento,
que identificou o turismo como um dos três sectores prioritários da sua
governação. Ramaphosa salientou que o seu governo vai envidar esforços
adicionais para a promoção do mercado turístico-chave, tomar medidas para reduzir
as constantes barreiras e desenvolver o negócio do turismo emergente. Hanekom
aproveitou a oportunidade para salientar a importância dos diferentes
intervenientes deste evento, um dos quais os investidores, e compradores de
toda a parte do mundo, que foram chamados a ter uma experiência única com a
cultura e tradição dos mais de 22 países africanos representados. Para estes
últimos, o governante afirmou: “nós estamos aqui para cativar o interesse dos
nossos visitantes com os nossos produtos, para permitir que o turismo duplique,
triplique, quadruplique o crescimento económico e criação de mais emprego para
as nossas populações”. Ainda no mesmo discurso, o governante reconheceu a
contribuição dos media, mais de 600 presentes no evento, de diferentes partes o
mundo, como importantes para a divulgação da história do turismo, o seu
desenvolvimento, e como este tem mudado o continente e tem beneficiado mais
pessoas. Moçambique esteve representado com cerca de 20 expositores, dentre
quais agências de viagens, Hotelaria, reservas e representantes de direcções
provinciais de cultura e turismo. A representar Moçambique esteve a
vice-ministra da Cultura e Turismo, Ana Comoana, que mostrou a sua satisfação
em ver Moçambique a consolidar o seu Networking com diferentes investidores e
expositores. Ao SavanaEventos, a vice-ministra referiu-se ao Indaba como uma
plataforma incontornável para vender oportunidades de investimento, mas também
para estabelecer parcerias com operadores turísticos e fechar negócios. A presença
do governo moçambicano serviu para colher novas ideias e ensinamentos. A
participação em workshops e reuniões com diferentes líderes africanos foi
oportuna para discutir o turismo integrado. “Devemos olhar para o turismo de
uma forma complementar. Não devemos olhar só para o nosso país, mas também para
os que nos rodeiam e como juntos podemos tornar os nossos países atractivos”,
disse Comoana. A governante aproveitou para destacar o plano estratégico
2016-2014, que visa tornar Moçambique num destino turístico internacional.
“Turismo é um dos quatros pilares de desenvolvimento de Moçambique, pelo que
devemos continuar a investir, tendo em conta as expectativas do nosso turista.
Também devemos olhar para o turismo emergente, turismo doméstico e o turismo voltado
para a camada mais jovem, que começa a ter bastante relevância para o sector”,
frisou. De Moçambique estiveram as marcas: VIP Hotel, Dana Tours, Travessia
Beach Lodge, Naurro Lodge Beach, Southern Sun Maputo, Bahia Mar Boutique Hotel,
White Perals Resort, Mozaico do Indico, Linhas Aéreas de Moçambique, Polana
Serena Hotel, ANAC, Hotel Bilene, Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto,
parquet de Malonguane, Femotour, e as Direcções Provinciais de Cultura e
Turismo de Gaza e Inhambane. Ministro de turismo sul-africano, Derek Hanekom, e
Vice ministra da cultura e turismo Ana Comoana no Stand de Moçambique 2 EVENTOS
Savana 11-05-2018 O ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita,
entende que o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) constituem
um factor-chave para o processo de transformação social e económica do país.
Mesquita falava nesta quarta-feira, em Maputo na abertura da 5ª edição do
Projecto MozTech, a maior feira de tecnologias de informação e comunicação, que
visa colocar a tecnologia ao serviço do desenvolvimento de Moçambique. Na
ocasião, Mesquita defendeu: “a construção de uma sociedade de conhecimento
hiperconectada”, lema principal da 5ª edição Carlos Mesquita defende
massificação do uso das TICs do MozTech, “deve ser entendida como um processo
incontornável no desenvolvimento das sociedades modernas. Aliás, para o
governante, a aposta do país no desenvolvimento das TICs prende-se com o
reconhecimento do impacto que o conhecimento e a informação têm na vida das pessoas.
“As TICs constituem uma ferramenta importante para a transformação da economia
e da sociedade moçambicana. A sociedade hiperconectada que pretendemos
construir deve ser inclusiva, integrando as comunidades locais, respeitando a
diversidade cultural e linguística de cada comunidade”, disse. De seguida
Mesquita avançou que os resultados alcançados na promoção do acesso e segurança
no uso das TICs permitiram atingir uma cobertura territorial de
telecomunicações de cerca de 80% dos 12 milhões de subscritores de telefonia
móvel devidamente registados. Entretanto, ainda persistem vários desafios,
entre eles a massificação do uso das TICS; a promoção da segurança cibernética;
e a promoção da alfabetização digital. Por sua vez, o Presidente da
Confederação das Associações Econó- micas (CTA), Agostinho Vuma, considerou
que, para responder aos desafios no uso das TICS, é preciso encontrar políticas
e estratégias para um desenvolvimento tecnológico do país como um todo e
incentivar a sua dispersão para as províncias e reduzindo a sua concentração em
Maputo. (E.C) T erminou com êxito mais uma dragagem de emergência do canal de
acesso, cais e bacias de manobras do Porto da Beira, bem como da repulsão de
areias para aterros hidráulicos, no tardoz do Cais 11. Recorde-se que idêntica
dragagem havia sido feita em 2010 e 2011. A cerimónia oficial de encerraPorto
da Beira conclui dragagem de emergência mento deste projecto estratégico e
estruturante do sistema ferro-portuário do centro do País decorreu no dia 3 de
Maio último, no Porto da Beira, após a confirmação física dos trabalhos pela
Comissão de Coordenação do Projecto dos CFM, na Cidade da Beira. No total,
foram dragados 2.904.284 m3 de sedimentos, incluindo 838.070 m3 de areias
repulsadas para o tardoz do Cais 11 e para aterros hidráulicos. Foram gastos de
fundos próprios do CFM, 29.102.078,47 Euros, incluindo 17% de IVA. Com a
conclusão desta dragagem, estão recriadas as condições para que possam
continuar a atracar naquele estratégico porto navios com capacidade até O
Standard Bank, através da sua Incubadora de Negócios e a Munay, uma associação
juvenil que se dedica ao fomento do empreendedorismo juvenil, organizaram,
recentemente, uma sessão de orientação vocacional, para estudantes
pré-universitá- rios de diversas escolas públicas e privadas da cidade de
Maputo. Os mentores da iniciativa pretendem que a mesma sirva de guia para a
escolha académica e profissional dos jovens, razão pela Incubadora de Negócios
organiza orientação vocacional qual, durante a sessão, os participantes
estiveram envolvidos em actividades ligadas à exploração do potencial
individual, à análise da realidade através de informações sobre a oferta
académica, à liderança pessoal, entre outras. Aos participantes foram,
igualmente, transmitidas lições sobre a importância da poupança, bem como as
particularidades e dinâ- micas do mercado de trabalho, que está cada vez mais
exigente, o que demanda dos candidatos habilidades e competências para se
distinguirem dos demais. De acordo com Geralda Antique, directora da Munay, o
objectivo da sessão era de transmitir aos participantes elementos que lhes
permitam fazer escolhas acadé- micas acertadas no futuro. “O que se nota é que
os jovens se deixam influenciar na hora de escolher o curso porque, pelo menos
ao nível das escolas públicas, ainda não temos a orientação vocacional”,
asseverou Geralda Antique. “Uma escolha errada tem implicações na vida
profissional. Muitos descobrem que não gostam da área que seguiram já no
mercado 60.000 toneladas brutas de arqueação (DWT), 24 horas por dia. O canal
de acesso ao Porto da Beira e a Curva de Macúti foram as suas cotas
restabelecidas para 8,00 e 9,20 metros abaixo do zero hidrográfico e as suas
larguras mínimas de 135 e 250 metros, respectivamente. A empresa adjudicatária
desta dragagem foi a Van Oord Mozambique, Lda., vencedora do concurso
internacional, lançado para o efeito e que executou o trabalho dentro do prazo
estabelecido de seis meses. A supervisão técnica e financeira deste projecto
foi, integralmente, efectuada por técnicos especializados do CFM. de trabalho.
Sentem-se frustrados porque estão a fazer algo de que não gostam”, acrescentou
a directora da Munay. Já Neusa Nhatsave, do Standard Bank, explicou que o apoio
a esta iniciativa surge da necessidade de desafiar os jovens a seguirem as
áreas em que possuem vocação ou habilidades. “Seguir uma área em que temos
vocação abre-nos várias possibilidades de singrar no mercado de trabalho, sendo
o empreendedorismo uma delas. Os jovens devem formar-se a pensar nisso”, disse
Neusa Nhatsave. Lídia Lopes é estudante da 11ª classe, na Escola Secundária
Josina Machel, e disse ter gostado da iniciativa, que, na sua opinião, devia
ser alargada a mais escolas do País para poder alcançar mais jovens. “É uma
iniciativa muito boa e educativa. Eu, por exemplo, consolidei a minha ideia
sobre o curso que pretendo seguir depois de concluir o ensino secundário.
Estava indecisa entre Gestão e Jornalismo, mas com a ajuda dos palestrantes
pude fazer uma escolha”, referiu Lídia Lopes. P assados quatro anos após o
assassinato do juiz Dinis Sílica, os magistrados judiciais exigem a criação de
melhores condições de segurança para exercerem a actividade com serenidade.
Para tal, a Associação Moçambicana de Juízes (AMJ) apresentou semana passada na
Assembleia da República (AR) um projecto de lei que visa assegurar uma maior
Juízes moçambicanos exigem segurança protecção dos magistrados judiciais.
Carlos Mondlane, presidente da Associação Moçambicana de Juízes (AMJ),
considera muito importante garantir a segurança dos juízes, para que se possam
concentrar no desempenho da função. Mondlane falava na terça-feira durante a
celebração do Dia do Juiz assinalado a 08 de Maio. A data foi escolhida como
forma de homenagem ao juiz Dinis Sí- lica, que foi assassinado nesse dia em
2014 na cidade de Maputo. Para o presidente da AMJ, o facto de o homicídio não
ter sido esclarecido demonstra a incapacidade do Estado e tem gerado uma onda
de insatisfação no seio dos magistrados. “Há um organismo próprio criado por
lei, que é a PGR, em que o Ministério Público tem a função de exercer a acçao
penal. Portanto, cabe à PGR esclarecer e identificar os autores do crime e
levá-los à barra do tribunal para serem julgados. É disso que estamos à
espera”, declarou Carlos Mondlane O magistrado assinalou que o sector da
administração da justiça enfrenta desafios relacionados com a falta de
independência financeira. Para Carlos Mondlane, há a necessidade de os tribunas
terem um orçamento independente, para que possam definir as suas prioridades.
As celebrações do Dia do Juiz iniciaram com a cerimónia de deposição de flores
no local do assassinato do juiz Sílica e terminou com uma palestra, cujo tema
foi “O papel do juiz numa sociedade em transformação. A efeméride foi ainda assinalada
com o lançamento do programa “Tribunal de Porta Aberta”. (C.C) Savana
11-05-2018 EVENTOS 3 ANOS 2ª Série 2018 9 a 12 de Maio Dedicada ao Maestro José
António Abreu AN PUBLICIDADE 4 EVENTOS Savana 11-05-2018 A Khuzula procede, na
pró- xima sexta-feira, 18 de Maio, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, à
abertura oficial da 8ª Edição do Festival AZGO com a mostra de fotografia
intitulada “Capas Africanas”, do francês Youri Lenquette. A exposição comporta
retratos de vários músicos com quem o jornalista aposentado vem trabalhando nos
últimos 30 anos. Algumas das fotografias foram usadas para capas de álbuns,
cartazes de concertos, capas de revistas e propagações duplas em todo o mundo.
Paralelamente à sua carreira como “Capas Africanas” inaugura Festival AZGO
retratista, Youri tem reaproveitado a sua experiência no jornalismo para
produzir documentários em forma de reportagem nos países que tem visitado,
sendo que esses trabalhos têm sido publicados em revistas dedicadas a viagens e
lazer. O seu portifólio conta com registos de vídeos e documentários de
artistas de cravera como Sergent Garcia, Youssou N’Dour, Yuri Buenaventura,
Havana Cultura, para além da colaboração com os maiores programas musicais
franceses. Desde que começou a exibir os seus trabalhos em exposições, a
crítica o tem aclamado. A título de exemplo, pode se referir a mostras como
“The Last Shooting”, que fez o registo da última sessão de fotos de Kurt Cobain
apresentado em Paris em 2014. A residir entre Paris e Dakar, Youri exibiu no ano
passado a exposição «Youri ne dort pas» na prestigiada Galerie du Manege,
composta por mais de 150 fotos, cuja curadoria finalidade era fazer uma
retrospectiva de seu trabalho no continente africano de 1995 a 2017. O evento
será precedido de concertos (Showcase) da jovem banda moçambicana Gran’Mah e da
francesa Natalie Natiembé na sala grande do “Franco”, bem como da brasileira
Flávia Coelho e do Leshoto Kommanda Obbs, palco do jardim. (E.C) O Millennium
bim realizou, na passada quinta-feira, em Maputo, o primeiro encontro “Negócios
do Millennium” de 2018, um evento que reuniu clientes e empresários do
município de Maputo. A iniciativa promovida pela instituição financeira tinha
por objectivo promover o investimento das Pequenas e Médias Empresas (PME) da
região, através do debate sobre o investimento e o potencial desenvolvimento
sócio-económico em Moçambique. Os “Negócios do Millennium” pretendem ainda
aproximar o Millennium bim das PME, reforçando o seu compromisso enquanto
instituição financeira de referência no apoio às Empresas. Falando na ocasião,
José Reino da Costa, Presidente do Conselho de Administração do Millennium bim,
destaBim promove debate empresarial cou a importância do evento, tendo referido
que os “Negó- cios do Millennium” é mais um contributo do banco para o
desenvolvimento sustentá- vel da economia em Moçambique. “Através deste
encontro demonstramos o empenho em estar cada vez mais próximo das PME com uma
proposta de valor sustentada e relevante para o seu negócio”, disse. Por seu turno,
os participantes defenderam a necessidade da contínua melhoria financeira e
organizacional das PME nacionais, como forma de melhorar a economia e aumentar
a taxa de empregabilidade em Moçambique. Refira-se que, ainda no evento, foram
premiadas 180 empresas Mlíder, pelo seu empenho no desenvolvimento da economia
moçambicana bem como pela adopção de melhores práticas de gestão e bom nível de
risco nas suas operações junto do Banco. (E.C) A Odebrecht vai construir o
Centro Portuário São Mateus (CPSM), terminal marítimo localizado no município
de São Mateus, no norte do Espírito Santo, no Brasil, ao abrigo de um memorando
de entendimento celebrado, recentemente, com a Petrocity Portos S.A. O novo
porto multimodal, cujo desenvolvimento de estudos de engenharia está em curso,
deverá movimentar diversos tipos de carga e é considerado uma ferramenta de
integração regional, que vai ligar o norte e o noroeste do estado do Espírito
Santo, além do sul da Bahia e leste e norte de Minas Gerais. Com o início das
obras previsto para o primeiro trimestre de 2019 e a conclusão no segundo
semestre de 2021, a expectativa é o CPSM gerir 2mil postos de trabalho durante
o pico da obra. Durante a operação, o terminal portuário deverá empregar cerca
de 2 mil pessoas. A ser construído numa área de 1milhão de metros quadrados, o
novo porto - com um investimento estimado de cerca de 584 milhões de dólares
norte-americanos - contará com quatro tipos de operações, nomeadamente, uma
terminal para coordenar as actividades de petró- Odebrecht constrói terminal
marítimo leo e gás, uma dedicada ao sector de rochas ornamentais, uma terceira
para gerir a movimentação de contentores e uma quarta com foco em movimentação
de carcaças de madeira e de celulose. O estudo de viabilidade técnica e
económica indica uma grande procura por cargas na região, como rochas
ornamentais, celulose e madeiras do Sul da Bahia, café, granéis líquidos,
reparação naval, automóveis, agricultura e, principalmente, cargas
contentorizadas do sul da Bahia, norte e noroeste do Espírito Santo e Minas
Gerais. “Contar com a expertise internacional da Odebrecht Engenharia e
Construção será fundamental para garantir a execução deste complexo, que irá
impulsionar a economia das cidades do interior destes três estados, para além
de garantir a integração económica entre elas”, afirmou José Roberto da Silva,
director da Petrocity Portos S.A. “A nossa experiência e capacidade técnica
garantirá a instalação de um dos mais belos e eficientes portos do Brasil”,
enfatizou, por seu turno, Giorgio Bullaty, gestor de contratos da Odebrecht,
responsável pelos estudos do empreendimento e um dos responsáveis pela
construção de uma terminal de contentores no porto de Doraleh, em Djibouti,
país localizado no nordeste do continente africano. Agenda Cultural
Cine-Gilberto Mendes Sextas, Sábados e Domingos 18h30 “Amor, Aguenta” Maputo
Waterfront Todas Sextas, 19h Jantar Dancante com Alexandre Mazuze Todos
Sábados, 19h Música com Zé Barata ou Fernando Luís Chefs Restaurante Todas
Sextas, 19h Música ao vivo O Observatório de Cidadania de Moçambique (OCM) e a
Fundação MASC apresentaram, esta semana, uma proposta de criação de um
documento único de identificação denominado Cartão do Cidadão. Trata-se de um
documento único que visa facilitar a vida do cidadão, uma vez que congrega
dados e fins dos actuais Bilhete de Identidade (BI), Número Único de
Identificação Tributária (NUIT), Cartão de Eleitor, Segurança Social e Carta de
Condução. Segundo o OCM, proponente do documento, o cidadão, para comSociedade
civil apresenta cartão cidadão provar a sua identidade civil, fiscal, de
segurança social e eleitoral e ainda a sua habilitação para a condução de
veículos, deve fazer várias diligências junto a várias entidades públicas e
privadas, no sentido de obter tal documentação e arcar com os custos associados
aos mesmos. Entende aquela organização que esta situação produz um impacto
significativo na vida do cidadão bem como nos gastos públicos, para além de
acarretar burocracia, o dispêndio de tempo e de recursos na aquisição desta
múltipla e essencial documentação para a sua vida em sociedade. Deste modo,
considera que a criação de um documento único onde estejam atestadas a
identidade do cidadão para os vários efeitos bem como as habilitações
adquiridas resolveria a questão do dispêndio de tempo e de dinheiro bem como
permitiria ao Estado a redução nas despesas associadas à criação de condições
materiais em vários sectores para a emissão da múltipla documentação necessária
ao cidadão moçambicano. Depois de colher várias sensibilidades, dentre
instituições pú- blicas, privadas e organizações da sociedade civil em torno da
matéria, a proposta será submetida à Assembleia da República para a devida
apreciação. (E.C)
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