segunda-feira, 14 de maio de 2018

Descanse em Paz Dhlakama: meus pêsames a Frelimo




A morte do líder da Renamo Afonso Dhlakama representa um enorme revés para as dinâmicas internas do partido Frelimo. Isto mesmo. Sem nenhuma intenção de santificar a imagem e as acções do líder da Renamo, que de santo até nada tinha, a Renamo, sob a liderança de Afonso Dhlakama, foi o principal factor externo catalizador de profundas transformações de carácter político dentro do partido Frelimo, que tiveram consequências no estado moçambicano, pós-independência. Na verdade, Dhlakama foi para a Frelimo, uma faca de dois gumes. Enquanto que, por um lado, o seu discurso e a acção belicistas causaram mudanças positivas dentro da Frelimo, por outro lado, também justificaram a permanência na estrutura de liderança da Frelimo da chamada corrente histórica conservadora, corrente esta, profundamente atrelada à ideais igualmente belicistas e monopartidários. E agora Frelimo? Vencido o colonialismo português, pouco habituada a ser confrontada, aberta e pacificamente, sem essas ditas necessárias transformações, a Frelimo talvez não se tivesse adequado, atempadamente, às dinâmicas sócio-políticas, económicas e culturais da sociedade moçambicana, que a permitiram responder a algumas exigências dessa mesma sociedade e não só. São essas transformações de ordem política forçadas, fundamentalmente, por fora, que tem provavelmente garantido sua actualidade e consequente permanência no poder. Nesta lógica, com o desaparecimento físico de Afonso Dhlakama e um consequente potencial enfraquecimento da Renamo, mais do que a sociedade moçambicana, no geral, e a Renamo em particular, pode-se considerar que a maior desgraça recai mesmo sobre a própria Frelimo. É irrefutável que, internamente, foi a força da Renamo, liderada por Afonso Dhlakama, obviamente, também associada às dinâmicas do contexto regional e global, que obrigou à Frelimo, por exemplo, ao abandono oficial do modelo de partido único, dando assim espaço para a democracia multipartidária, para a uma relativa liberdade de imprensa, de expressão, de movimento, de associação e de outras liberdades que permitiram que as suas políticas e do estado moçambicano estivessem hoje em relativa consonância com os anseios de grande parte da população. Nós todos também sabemos que foi a mesma força da Renamo, sob a liderança de Dhlakama, que forçou à Frelimo à mudança de abordagem e ao reconhecimento do poder local, hoje um dos grandes elementos da sua própria reprodução e sustentação, em tanto que força política, nas zonas rurais do país. Por exemplo, hoje, os líderes tradicionais são convidados especiais às cerimónias locais quer do partido quer do Estado. O mesmo se pode referir sobre a liberdade de religião, factor que possibilitou a transformação de algumas igrejas, outrora não bem vistas no contexto da revolução, em locais de culto político do próprio partido Frelimo, principalmente, em momentos de campanha eleitoral. Com a morte de Dhlakama, a Frelimo perde o principal termómetro de uma população, que por receio real à represália, tinha em Afonso Dhlakama seu destemido alto-falante. Era Dhlakama quem expressava as vontades e o pensamento que as camadas mais marginalizadas da sociedade assim como alguns intelectuais críticos, até de dentro da própria Frelimo, não se sentiam seguros em, se sequer, suspirar. Isto possibilitava, até então, que a Frelimo estivesse a par do que ia, verdadeiramente, na alma do povo que ela própria governa. A Frelimo perde o pretexto externo que justificava a condução de debates internos de alguns temas considerados verdadeiramente incómodos, principalmente para as chamadas correntes conservadoras, como o tema da despartidarização do Estado e do aprofundamento da descentralização em Moçambique. Aliás, foi necessário recorrer à força das armas para levar estes temas para o centro do debate político em Moçambique, agora em curso. É verdade que a Frelimo também ganha. Com o potencial fim do discurso e da acção belicistas, eternos cavalos de batalha de Dhlakama, para obtenção de concessões políticas, tornam-se irrelevantes as correntes belicistas de dentro do próprio partido Frelimo, o que para o seu próprio bem, passa a ser relativamente fácil expurgar-se dos indivíduos pertencentes à essas correntes. Só para aqui recordar, foi também sob o pretexto de se defender do belicismo dhlakamista que se contraiu a dívida oculta, em relação a qual, esclarecimento cabal pode levar à profundas divisões internas no seio do partido no poder. Arisco-me até a avançar que, a acção de Dhlakama pode ter influenciado o modelo de liderança que o partido Frelimo adoptou pós-Machel. Deve ter sido em resposta às acções de Dhlakama e da Renamo que a Frelimo percebeu que depois de Samora Machel ela devia apostar numa liderança como a de Joaquim Chissano relativamente mais convidativa ao diálogo com a oposição, quer interna, quer internacional, abandonando, desta forma, um modelo de governação há muito desajustado às duas realidades. Como consequência, Moçambique abriu-se ao mundo e a si próprio. E foi, muito provavelmente, esta mesma lógica que deve ter levado a que, depois do modelo de governação guebuziano, mais orientado ao afunilamento do espaço político ao exercício da aposição e a favor do controle crescente do estado pelo partido no poder, a Frelimo apostasse numa liderança como a do Presidente Filipe Nyusi que pudesse dar lugar ao diálogo como mecanismo de busca da paz efectiva para o país. Isto tudo foi reacção à acção de Dhlakama. E agora, o que esperar do futuro de uma Frelimo sem a sua maior, mais teimosa, e muitas vezes incómoda liderança externa? Qual será a resposta da Frelimo a esta perda? Irá ela fechar-se ainda mais, ou abrir-se-á às dinâmicas históricas e aos anseios do seu povo? E num hipotético contexto não belicista, como é que a Frelimo passará a captar e a acomodar as demandas dos moçambicanos? E qual será o futuro das correntes conservadoras internas que sobreviviam do medo que Dhlakama, em vida, representava?


Tempos de incerteza
Com a notícia da morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pairam dúvidas na mente dos moçambicanos sobre como será o futuro da democracia. Ouvimos muitos comentários sobre este assunto e a questão da sucessão foi das mais analisadas. Os líderes africanos são conhecidos por monopolizar a liderança e quando deixam de liderar a sucessão fica uma dúvida. A continuidade fica ameaçada. É preciso termos a cultura de sucessão para que os ideais tenham continuidade e outros desenvolvimentos em termos de mobilidade. A questão sobre quem vai substituir o líder da Renamo que, recentemente, perdeu a vida levanta muitas nuances em termos de protagonismo a partir de agora. Essas questões que vão ser postas à mesa de agora em diante vão mostrar a outra realidade. Mas enquanto esses momentos não chegam, Ossufo Momade vai coordenando a Comissão Política do partido até à realização do Congresso ou do Conselho Nacional. A morte quebra barreiras partidárias, ideológicas, culturais, étnicas e religiosas. É justamente por isso que ilustres figuras provenientes de todos os cantos do país cruzaram-se na cidade da Beira para se curvarem perante a urna de Afonso Dhlakama A morte faz com que figuras que nunca foram vistas próximas se aproximem. Não condenamos os desabafos que todos fazem. Ninguém foge da morte. Outros comportam-se como se a morte não lhes fosse atingir. Não condenamos ninguém. Cada um expressa o seu sentimento à sua maneira. Neste momento de luto, vemos figuras a darem condolências aos seus adversários. Primeiro, está a Chefe da bancada parlamentar da Frelimo na Assembleia da República, Margarida Talapa, a dar as suas condolências a Manuel Bissopo, Secretário-geral da Renamo. É mesmo para dizer que no momento desses é preciso respeitar a dor do seu adversário. A cara de consternação pela perda do líder do maior partido da oposição moçambicana foi notória. Voltamos a falar da sucessão. Antes da sua expulsão do partido da Perdiz, Raul Domingos era visto como o sucessor na liderança do partido. Nesta terceira imagem, aparece a confortar Ivone Soares, Chefe da bancada parlamentar da Renamo na AR. Como se os olhares estivessem a vislumbrar o ambiente de incertezas que se avizinha. Mesmo com o seu penteado que desperta toda a atenção para quem está ao redor, neste momento muitos não deram conta disso. Estavam concentrados na cerimónia fúnebre. Referimo-nos a Venâncio Mondlane, deputado do MDM na escolinha do barulho, apresentando as suas condolências a Paulo Vahanle, Presidente do Conselho Municipal de Nampula, que ganhou recentemente na segunda volta das eleições municipais pelo partido Renamo. Outro momento de olhar repleto de incerteza quanto ao futuro foi testemunhado entre Joanna Kuenssberg, alta-comissária britânica em Moçambique, e Manuel de Araújo, edil de Quelimane. Pelo olhar, parece estarem a partilhar a ideia de como vai ser o país a partir deste acontecimento. Outros aproveitaram o momento para lançar algumas hipóteses do que poderá ser o nosso país em termos de democracia e liberdade. Nesta derradeira imagem, vemos Erik Charas, do Jornal @Verdade, a dar o seu posicionamento sobre a situação que o país vai atravessar para Jorge Marcos, jornalista da STV, e Adriano Nuvunga, director do Centro de Integridade Pública (CIP). O futuro pertence a Deus. As incertezas aos seres humanos. Uma certeza para todos é a morte. A vida é igual à morte.

TEMA DA SEMANA 2 Savana 11-05-2018 Enquanto Nyusi reiterava os compromissos de Estado para com um processo político iniciado com Dhlakama, Ivone Soares, em nome da juventude da Renamo, quis assegurar que o seu partido não quebrou e está presente nos desafios pela democracia. Foi assim quarta-feira na Beira, quando perante milhares de populares, Governo e Renamo reiteraram posicionamentos de princípio perante o corpo de Afonso Dhlakama, ladeado por militares do exército e com o caixão envolto pelas cores da bandeira nacional moçambicana. Na lista ordenada, protocolarmente, falando primeiro a líder parlamentar da Renamo, longamente aplaudida, Ivone Soares, exortou os moçambicanos a lutarem contra todas as tiranias, incluindo as protagonizadas pelo governo do dia. As várias intervenções dos membros da Renamo foram acompanhadas por palmas, uma forma de lutar contra a natural resignação e tristeza decorrente do sentimento de perda. Afonso Dhlakama faleceu, inesperadamente, a 3 de Maio, na serra da Gorongosa, a oeste da capital de Sofala, deixando atrás de si uma nação com grandes interrogações sobre o futuro. Filipe Nyusi, tratando Dhlakama por irmão, garantiu que o seu empenhamento continuará para se produzir um compromisso final sobre a descentralização e a integração dos militares da Renamo, para que se alcance em Moçambique “uma terra sem ódio”. Referindo-se ao líder da Renamo, Nyusi disse que “cada um de nós, guardará, à sua maneira” o legado de Dhlakama. Ele fez questão de destacar que o trabalho iniciado continuará, pois estão no terreno todos os assessores nacionais e internacionais que estão ao corrente de todos os detalhes do processo. O largo dos CFM (Caminhos de Ferro de Moçambique), onde se realizou a cerimónia, estava bem emoldurado, mas não chegou a encher. O ministra do Trabalho indeferiu um pedido de tolerância de ponto solicitado pelo presidente do Conselho Municipal da Beira, Daviz Simango, também líder de outro partido da oposição, o MDM (Movimento Democrático de Moçambique). Uma das explicações fornecidas sobre a afluência é de que havia a expectativa popular que a urna contendo o corpo, antes de chegar aos CFM, passaria pela Munhava e por Chipangara, arrastando as populações desses bairros para o centro da cidade. As cerimónias foram iniciadas por um momento religioso orientado pelo Arcebispo da Beira, Claudio Zuanna. O clérigo católico prestou homenagem a Dhlakama “que acreditava no que fazia” para o bem comum. Zuanna exortou os Na morte de Dhlakama Golpe duro na oposição Milhares acorreram ao largo dos CFM para prestarem o último adeus a Dhlakama Por Fernando Lima (texto) e Naíta Ussene (fotos), na Beira TEMA DA SEMANA Savana 11-05-2018 3 A Sasol está a desenvolver e a operar jazigos em Moçambique, na Província de Inhambane, para fornecer gás processado a clientes em Moçambique e na África do Sul (clientes industriais, comerciais e domésticos). Através da sua estratégia de Conteúdo Local, busca maximizar os benefícios económicos que este empreendimento traz para a economia moçambicana, focados em aumentar o número de empresas moçambicanas que fazem negócios com a Sasol, e os gastos com empresas moçambicanas. Para o efeito, a Sasol, através deste convite a Manifestações de Interesse (MDI), tenciona aumentar e actualizar a sua base de dados de fornecedores moçambicanos para a oferta de diferentes bens e serviços. Note-se que este exercício não deve ser considerado parte de um processo de concurso ou contratação. Caso tenha interesse, por favor contacte o Gestor de Procurement pelo e-mail SPT_PROCUREMENT_MOZAMBIQUE. Maputo@sasol.com para obter uma cópia do documento que terá que preencher de modo que a Sasol entenda as capacidades da sua empresa e melhor perceba se existe competição e capacidade suficiente no mercado nacional para as categorias e sub-categorias identificadas. São encorajados a apresentarem as vossas respostas o mais rapidamente possível até ao dia 29 de Maio de 2018 e as respostas podem ser em português ou inglês. CONVITE A MANIFESTAÇÕES DE INTERESSE PARA O FORNECIMENTO DE BENS E SERVIÇOS PARA A SASOL EM MOÇAMBIQUE INVITATION FOR EXPRESSIONS OF INTEREST FOR THE SUPPLY OF GOODS AND SERVICES FOR SASOL IN MOZAMBIQUE Sasol is developing and operating reservoirs in Mozambique, in the province of Inhambane, to supply processed gas to consumers throughout Mozambique and South Africa (industrial, commercial and domestic customers). Through its Local Content strategy, Sasol seek to maximize the economic benefits that this enterprise brings to the Mozambican economy, focused on increasing the number of Mozambican companies that do business with Sasol, and the expenses with Mozambican companies. In order to enable this, Sasol, through this invitation for Expressions of Interest (EOI) intends to increase and update its data base of Mozambican suppliers for the offering of different goods and services. Please note that this exercise should not be construed as being a tender or a contracting process. If you are interested, please contact the Procurement Manager via the email SPT_PROCUREMENT_MOZAMBIQUE. Maputo@sasol.com for a copy of the document that you will have to complete in order for Sasol to understand the capabilities of your company and better establish if there is sufficient competition and capacity within the local Mozambique market for the categories and sub categories identified. You are encouraged to submit your responses as soon as possible but not later than the 29th of May 2018 and submissions can be in Portuguese or English. moçambicanos a trabalharem “na reconciliação, na valorização das diferenças sem nenhuma forma de exclusão”. O corpo diplomático baseado em Maputo deslocou-se em peso à cidade da Beira, ocupando um dos lugares de destaque no velório. Nenhum diplomata falou, mas Chiara Torrini, a representante da Comunidade de Sant’Egídeo de Itália lembrou os Acordos de Paz de 1992 em Roma e considerou Dhlakama “um protagonista da história çambique, em 1973, e a fuga para se juntar à Resistência Nacional Moçambicana, em 1977 para “combater o sistema marxista”, depois de ter sido preso na Beira. Viandro disse que Dhlakama, como responsável dos serviços de intendência em Sofala, apoiou a luta dos combatentes da ZANU-PF do Zimbabwe. Manecas Daniel, falando em nome dos partidos extra-parlamentares, numa intervenção também muito aplaudida, disse que Dhlakama mereceria que se versidade sul-africana conhecida por cursos universitários por correspondência. Momade, natural da Ilha de Moçambique e responsável pela guerrilha da Renamo na província de Nampula, afirmou o cometimento do partido no prosseguimento das correntes negociações. “Fizeste a tua parte”, disse a terminar a sua intervenção. Daviz Simango, estranhamente, como edil da cidade e como líder do terceiro partido com assento parlamentar, não falou na cerimónia. Segundo apurou o jornal, a “falha” é atribuída à comissão governamental que organizou as cerimónias. Uma fonte do MDM disse que o governo tentou sugerir que o boicote teria partido da Renamo, mas o deputado José Manteigas desmentiu categoricamente a insinuação. Ao princípio da tarde o corpo de Afonso Dhlakama partiu do largo dos CFM, acompanhado por uma enorme multidão para Mangunde, em Chibabava, no sudoeste de Sofala. recente de Moçambique”, chamando à atenção que “a busca da paz é uma responsabilidade” para que aconteça o diálogo e a reconciliação. Victor Mudivila Viandro leu a mensagem dos “veteranos da luta pela democracia”. Ele traçou um percurso de vida de Dhlakama, que incluiu a integração no serviço militar obrigatório colonial, em 1972, a deserção para a Frente de Libertação de Motivesse decretado luto nacional em sua memória e fosse dado espaço na cripta dos heróis nacionais. Depois acrescentou: “mas sabemos que ele é um herói nacional nos nossos corações” com os presentes a responder: “é verdade”. Ossufo Momade, o líder interino da Renamo, provocou os primeiros aplausos quando disse que Dhlakama cursou Ciência Política, na UNISA, uma uniIvone Soares Nyusi presta última homenagem a Dhlakama Membros do Destacamento Feminino da Renamo choram a partida do “papá” TEMA DA SEMANA 4 Savana 11-05-2018 F oi numa mata fresca, junto à aldeia de Ndindijane, em Chibabava, que os restos mortais de Afonso Dhlakama foram a sepultar pouco antes do meio dia, esta quinta-feira. Eram 11.15h quando foram dados os últimos retoques na campa rasa, onde fica para já o líder da Renamo, ladeado por mais quatro sepulturas familiares em terra batida. Os oficiais de protocolo suspiraram de alívio por terem entregue o corpo à terra antes do meio dia, uma tradição na zona centro. O cemitério familiar foi feito numa clareira natural, mas a floresta natural, muito densa, teve de ser desbastada a golpes de catana para que milhares de moçambicanos fizessem a última despedida ao “Mudara”, o mais velho, como era tratado pelos que lhe eram mais próximos. Uma secção do exército moçambicano, conforme estabelecido previamente, prestou honras militares, fazendo o disparo de três salvas de pólvora seca. O corpo de Dhlakama viajou por terra, a partir da Beira na quartaO Mudara voltou a Mangunde Fernando Lima, em Ndindijane, Chibabava -feira, um percurso de 152km. até ao regulado de Mangunde, a sua terra natal. Os últimos 24km, depois de se deixar a N1, são feitos em estrada de terra batida, onde passou uma niveladora nos últimos dias. A aldeia da família Dhlakama fica a quatro quilómetros do povoado comercial de Mangunde, em Ndindijane, o que significa lugar elevado. “Sítio alto”, por se tratar da casa do régulo mas também porque resistiu às cheias do rio Búzi, que corre ali mesmo. “Em 2000, as águas andaram perto mas não chegaram aqui”, explica o professor João Chirequejande, que dá aulas de Física na Missão Francisco de Assis de Mangunde, o local onde o jovem Afonso, o primogénito de uma família de nove irmãos, se iniciou nos misteres de ler e escrever. Em Ndindijane, uma aldeia com 10 palhotas em colmo, destaca-se a casa de alvenaria que Dhlakama mandou construir em Setembro de 2014, pouco depois de abandonar a serra da Gorongosa. “Era a casa que ele queria para descangerador com postes eléctricos na aldeia, as máquinas de terraplanagem trabalharam nos dias anteriores para darem um aspecto asseado ao espaço familiar. A antena da operadora de telefonia móvel vietnamita está por perto. Também havia UIR, GOE (forças especial da polícia) e Sises. Discretos e sem grande espalhafato. Os que vieram da Beira, de todo o país, e mesmo do exterior, a família alargada, os amigos e os militantes da Renamo dormiram em tendas, ou nos seus próprios veículos. Fizeram-se muitas fogueiras “para espantar o sono”, enquanto grupos religiosos tradicionais faziam os seus cânticos noite adentro. Pelas 04.30h os tambores começaram a rufar, um momento que se prolongou até ao amanhecer. Pelas 09.30h. a igreja católica tomou conta das operações. A representar o governo estava Helena Taipo, a governadora de Sofala. Nas primeiras filas, de forma destacada, os filhos de Afonso e Dona Rosália, acompanhados por Linette Olofson (do MDM) e Carmo Jardim, a filha do empresário português, Jorge Jardim e madrinha de Afonso Jr. A urna, ornada com a bandeira nacional, foi colocada ao centro. Dos dois lados do cerimonial, dignatários da Renamo. Actuais e do antigamente. Estava Ivette Fernandes, víuva de Evo Fernandes, ex-secretário-geral do movimento que se fez do filho, Ivo, um jovem advogado no escritório da Linklaters, Raul Domingos, o negociador da paz em Roma, o general Hermínio Morais, o ex-deputado Anselmo Victor e o a actual deputado do MDM, Geraldo de Carvalho. O pai de Dhlakama não foi visto. “A sua saúde é precária”, foi a explicação. O padre Lipsungo, debaixo de uma massaniqueira, cingiu-se estritamente à liturgia, enquanto um coro pungente repetia: “não chores não, não chores pai, pelo teu filho que morreu”. Depois vieram as mensagens. Poucas e breves. Quase de improviso falou um representante dos Matsangaíssa que reuniu os “poucos doutores da família” para preparar uma mensagem de condolências. Os presentes responderam com palmas. “Aplaudam em vez de chorarem” pediu o padre Machate, uma cerimónia na Munhava, durante o fim de semana. André Matsangaíssa foi o primeiro líder do Movimento Nacional de Resistência, falecido em combate em 17 de Outubro de 1979. Junto à campa da floresta, Dona Rosália distribui flores. Para que todos possam colocar pelo menos uma flor na sepultura singela de Afonso. sar”, explica um familiar próximo. Foi nesta casa que a urna ficou na noite de quarta-feira, velado por um grupo muito restrito de familiares. O governo colocou um grupo Casa de alvenaria que Dhlakama mandou construir em Setembro de 2014, pouco depois de abandonar a Serra da Gorongosa Funeral em Mangunde Filhos do líder da Renamo. Ao centro está Afonso Dhlakama Jr TEMA DA SEMANA Savana 11-05-2018 5 PUBLICIDADE SOCIEDADE 6 Savana 11-05-2018 E nquanto milhares de pessoas se despediam, ao largo dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), na cidade da Beira, do histórico líder da Renamo, na capital do país, o último adeus a Afonso Dhlakama era feito entre quatro paredes, através da magia da rádio e da televisão. Pelo lado de fora, parecia que nada se estava a passar. Mas era a habitual azáfama das sempre movimentadas avenidas da capital a esconderem os “velórios” a Dhlakama, que aconteciam entre quatro paredes, nas casas, nos mercados e até nas instituições públicas. Quando saiu à rua, entre o fim da manhã e o início da tarde desta quarta-feira, a nossa reportagem constatou que havia funcionários atentos aos aparelhos televisores, na sua maioria suspensos em paredes nas recepções ou salas de espera, que transmitiam a cerimónia da Beira. Mesmo sem tolerância de ponto, muitos são aqueles que paralisaram os seus afazeres e se juntarem à rádio ou à tv para, detalhe a detalhe, seguirem, à distância, o último adeus ao líder histórico da Renamo, que foi a enterrar, esta quinta-feira, em sua terra natal, Mangunde, distrito de Chibabava. Era o assunto do dia, que dominava também as conversas nos transportes de passageiros e nos serviços de táxi, quase todos sintonizados à rádio. Numa cidade onde a oposição é ainda vista com preconceito, fruto do Foi assim na capital do país Por Armando Nhantumbo que a própria oposição um dia chamou de “frelimização do Estado”, muitos preferiram acompanhar o evento quase que na clandestinidade. É o caso de um funcionário público que o interpelamos num estabelecimento comercial, ele que não precisou de nenhuma autorização da ministra do Trabalho, Emprego e Segurança Social, para largar o seu ofício e ir acompanhar o elogio fúnebre a Afonso Dhlakama. Ciente do tabu sobre a oposição, só aceitou falar à nossa reportagem sob condição de anonimato. “Faz sentido estar a acompanhar esta transmissão na qualidade de moçambicano que acompanha a vida política do país. Não faz sentido falar da história do país sem falar deste homem. É um momento difícil porque não só se perdeu um homem, como também perdeu-se uma página da história de Moçambique. E é pena que Deus fala sozinho, senão diríamos para que este homem morresse amanhã, porque foi-se na fase decisiva de encontrar o bem comum, a paz”, disse, considerando a morte de Dhlakama como uma “perda de verdade”. Um proprietário de uma casa de pasto na baixa da cidade, que seguia a cerimónia desde as primeiras horas do dia, também não aceitou falar à nossa reportagem. “Eu sei o que isso significa”, recusou-se, diplomaticamente. Num dos movimentados salões de beleza da capital, encontramos mulheres que, enquanto tratavam da sua beleza, também seguiam, pela televisão, as cerimónias fúnebres de Afonso Dhlakama. Mas também preferiram o politicamente correcto, para não aparecem na imprensa associados à oposição. “Não me fotografem, por favor”, grita uma. Enquanto isso, a dona do salão, quando questionada pela nossa reportagem se o velório a Afonso Dhlakama lhe dizia alguma coisa ou não, ripostou: “claro que diz-nos. É a morte de um cidadão, mas nada de política”. João Chunguane é dos poucos que aceitaram dar a cara. Na quarta-feira decidiu paralisar as suas actividades para acompanhar, via tv, a despedida a Afonso Dhlakama. “Acompanhar esta cerimónia, com certeza diz alguma coisa porque é a perda de um homem que lutou e trouxe a democracia no país, embora a maioria só agora perceba o alcance dos seus feitos. É uma perda irreparável”, precisou Chunguane. Para Pedro Djedje, fazia muito sentido acompanhar a despedida a Dhlakama. “Tem significado porque, para além de compatriota, é um herói moçambicano que lutou para o bem do povo. Por isso, ele merece”, comentou Djedje, para quem a morte de Afonso Dhlakama é uma grande perda para o país e para o mundo. Na sede nacional da Renamo, vários membros e simpatizantes do partido reuniam-se, entre quatro paredes, para também acompanharem a cerimónia que era transmitida a partir da capital provincial de Sofala. Cabisbaixos e rostos machucados, ali estavam eles inconformados com a partida do seu dirigente de todos os tempos. Em vida, Afonso Dhlakama recorreu, vezes sem conta, às tecnologias de informação e comunicação para se dirigir aos seus seguidores, naquilo que ficou conhecido como teleconferências, e quis o destino que os membros e simpatizantes também se despedissem do seu líder através da magia da rádio e televisão. No início da tarde de quinta-feira, 3 de Maio, o país era sacudido por uma notícia, que circulava insistentemente nas redes sociais, que surpreendeu muitos, mas era admitida como possível por uns outros tantos: a morte de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, o político-militar que mais soube usar a media, o telefone e os telecomícios para se fazer ouvir. Afonso Dhlakama, que liderava a Renamo há mais de 40 anos, resistiu a três presidentes da República e morreu de uma aguda crise de diabetes associada a anemia, a 3 de Maio do ano corrente. Na sua agonia, esteve ao lado de um enfermeiro que o acompanhava desde os tempos da guerra dos 16 anos e de alguns dos seus homens mais próximos na serra de Gorongosa, onde se refugiou após escapar a dois atentados (12 e 25 de Setembro de 2015 em Manica) e de uma invasão pelas forças governamentais à sua residência na cidade da Beira, a 9 de Outubro de 2015. As primeiras campainhas de que Afonso Dhlakama estava numa derradeira batalha contra a doença que se agudizou passava uma semana, começaram a soar na madrugada de quarta-feira, 2 de Maio, quando alguns dirigentes da Renamo em Maputo receberam telefonemas da Serra de Gorongosa de que “o presidente estava mal”. Na semana que antecedeu a sua morte, Dhlakama, como habitualmente, manteve contactos com vários interlocutores. Ao que o jornal apurou, nalguns casos, ele solicitou que as mensagens para terceiras pessoas fossem gravadas, uma indicação que, ao contrário do que queria transparecer, o seu estado de saúde era precário. “Nos vários contactos telefónicos com importantes quadros do partido, o Presidente em nenhum momento denunciou que não estava bem de saúde. Sempre fez um esforço para não alarmar. Infelizmente, quando o pedido de socorro chegou, o tempo era escasso para tratar do resgaste”, lamentou um quadro da Renamo próximo a Afonso Dhlakama. Imediatamente, foi colocado em marcha um pedido de socorro. Foi accionado o embaixador suíço, acreditado em Maputo, Mirko Manzoni, na qualidade de chefe do Grupo de Contacto no diálogo que o Presidente Filipe Nyusi e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, vinham mantendo. Para além da Suíça, o Grupo de Contacto é composto pelos embaixadores dos Estados Unidos da América, Reino Unido, Botswana, Irlanda, Noruega, China e da União Europeia. Mirko Manzoni foi sempre uma peça importante no xadrez das conversas entre Nyusi e Dhlakama e fez deslocações regulares à serra da Gorongosa para se ultimarem os acordos a serem estabelecidos entre o governo de Moçambique e a Renamo. Participou na preparação dos dois encontros entre Nyusi e Dhlakama na Serra de Gorongosa e no encontro falhado em Chitengo no Parque Nacional de Gorongosa (PNG). Foi o embaixador suíço que comunicou ao Presidente Nyusi sobre o estado crítico de saúde de Afonso Dhlakama e de “decisões urgentes” que era importante tomar, tendo em conta que se estava numa verdadeira corrida contra o relógio. Contactos foram feitos com o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa e o chefe de Estado do Zimbábwe, Emmerson Mnangagwa, para devidas “autorizações urgentes” para o uso do espaço aéreo daqueles dois países. Outro detalhe que precisava de ser tratado com urgência era o passaporte de Dhlakama. O que estava na sede da Renamo, havia expirado há quatro dias. Foi necessário um passaporte urgente que foi feito em menos de 15 minutos, um processo que decorreu na quarta-feira, 24 horas antes da morte do líder da Renamo. Um transporte aéreo apoiado pela Suíça foi fretado na Beira. Na companhia de um médico, partiu até à Serra da Gorongosa, mas experimentou dificuldades para encontrar um local menos acidentado para aterragem junto ao “esconderijo do líder”. O helicóptero terá saído tarde da cidade Beira, porque também eram necessárias algumas autorizações para sobrevoar “uma zona considerada de conflito” na Gorongosa. “As FDS estacionadas naquela região tinham que saber que não era um helicóptero que levava logística para a Renamo”, frisou uma fonte do maior partido da oposição. Após aterrar, quando eram 11 horas, a alguma distância, o médico foi assistir Afonso Dhlakama: Foi apenas a tempo de declarar óbito, porque o líder da Renamo já tinha perdido a vida. Há diferentes versões sobre a hora exacta da sua morte, mas o jornal apurou durante as cerimónias fúnebres que o óbito ocorreu durante a madrugada e não às 08.00h, como é habitualmente referido. O helicóptero, de dimensões pequenas- apenas para quatro passageiros-não era adequado para transportar o corpo de Afonso Dhlakama para a cidade da Beira. Por isso o corpo foi até Beira via terrestre, onde foi velado nesta quarta-feira, numa cerimónia oficial, no largo dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Contrariamente ao que alguns sectores defendiam, o brigadeiro Elias e Sebastião Dhlakama, irmãos do líder da Renamo, disseram não haver necessidade de autópsia. “Não há necessidade. A autópsia, para nós, não traz senão mesmo especulações”, referiram. Os últimos momentos de Afonso Dhlakama Em Maputo , o último adeus a Dhlakama era seguido pela rádio ou tv Despedir-se de Dhlakama pela rádio e tv - por temerem perseguições, alguns acompanharam as cerimónias quase na clandestinidade Pedro Djedje João Chunguane PUBLICIDADE Savana 11-05-2018 7 SOCIEDADE 8 Savana 11-05-2018 É um conhecedor profundo da Renamo, onde chefiou a delegação do partido na Comissão Conjunta para a Formação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (CCFADM), na sequência do Acordo Geral de Paz (AGP). Homem de confiança de Afonso Dhlakama, chegou a ser assessor pessoal do presidente da Renamo para Assuntos de Defesa e Segurança. Hoje general na reserva, Hermínio Morais ou, simplesmente, “general Bob”, alcunha dos tempos de guerrilha, vê na morte de Afonso Dhlakama um vazio enorme para a Renamo e para o país. Confrontado sobre a sucessão no partido, numa entrevista telefónica ao SAVANA, a partir da Beira, para onde se deslocou para prestar o último adeus àquele que considera como seu mestre, Morais é peremptório em afirmar que, na Renamo, não existe, até hoje, um líder à altura para substituir Afonso Dhlakama. O que significa a morte de Afonso Dhlakama? É um revês para a Renamo e para o país porque morre numa altura em que estávamos na derradeira fase das conversações entre o presidente da Renamo e o presidente da República, e num modelo em que eram os dois a conversarem directamente. Assim, para nós é um retrocesso, porque temos de começar a saber o que afinal de contas estava já avançado nessas conversações. General Hermínio Morais e a sucessão na Renamo Como Dhlakama, não existe! Por Armando Nhantumbo Queríamos que recuasse ao passado para partilhar alguns momentos marcantes que terá tido com Afonso Dhlakama, desde os tempos da guerrilha até à vida política? Eu me lembro desde 1977 quando estive com ele na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), depois nos anos 81 já nas matas da Gorongosa e, por fim, como participei também dos Acordos Gerais de Paz, em Roma, quer dizer, são momentos que me marcam bastante. Como alguém com quem conviveu, então, quem foi Afonso Dhlakama? Para mim foi um mestre, foi o meu comandante, tudo quanto sei sobre estratégias militares, tive com ele. Mas ao mesmo tempo que é adorado por uns, ele também é odiado por outros. Claro que nem todos nós podemos aceitar certas coisas que os nossos líderes fazem. Então, para uns, o que Afonso Dhlakama fez foi muito bom para o país, mas para outros, não, principalmente, para os opositores. O presidente Dhlakama perde a vida num momento crucial no processo da paz e descentralização, e liderava pessoalmente com o presidente Nyusi as negociações. Que futuro? Eu acredito que a própria Frelimo esteja interessada que haja uma paz definitiva no país. Então, sendo assim, é necessário que ambas partes respeitem esses acordos que estavam a ser feitos e outros até assinados para o bem do país. Renamo não tem líder à altura de Dhlakama A sucessão de Afonso Dhlakama da liderança do partido foi sempre encarada como um tabu na Renamo. Até porque numa entrevista ao Jornal O País, em 2009, o general dizia que na Renamo não existia alternativa a Afonso Dhlakama, que ele era a única alternativa ao partido. E agora, general? O que eu disse é uma pura verdade porque até o presente momento nós ainda temos de procurar um verdadeiro líder carismático à altura de Afonso Dhlakama, o que não existe na Renamo. Como disse? Que não existe? Sim, não existe. Se não existe na Renamo, então, onde será encontrado? Nós temos de começar agora a pensar e pôr a mão na consciência e começar a copiar aquilo que foram os feitos de Afonso Dhlakama, de forma a termos um líder sólido, conciso, um líder carismático, um líder que seja de todos nós. O general Ossufo também não? O general Ossufo, ele sozinho… nós temos de dar todo o apoio ao general Ossufo Momade de forma que ele seja moldado aos moldes de Afonso Dhlakama. Cabe a nós todos os membros e simpatizantes darmos apoio total ao general Ossufo Momade de forma a dirigir os destinos do partido. Qual é o perfil ideal para um sucessor de Afonso Dhlakama? O perfil ideal seria um líder carismático, um líder amigo de todos, um líder compreensivo, que saiba ouvir as opiniões de todos os seus membros, independentemente, de que idade tiverem e de que grau social forem, de forma a ser um líder a altura. Tendo em conta a estrutura da Renamo, que tem uma ala política que está nas cidades e uma ala militar que está nas matas, certamente, que também deverá ser um líder com uma capacidade de conciliar esses grupos que são diferentes. Sim, é isso mesmo, não só a parte política mas como se sabe ainda existem tropas residuais da Renamo na Gorongosa e noutras partes do país que estão à espera de uma reintegração efectiva e essas pessoas deve-se tomar em conta que não podem ficar marginalizadas ou dispersas sem comando. Sendo assim, o que acha do regresso de Raul Domingos, um ex-guerrilheiro, mas também um político, que já foi número dois na Renamo? Eu aí não posso comentar porque o regresso de Raul Domingos ou qualquer outra pessoa como Daviz Simango, não sei se eles já tinham conversado com o próprio presidente da Renamo num possível regresso deles, não sei. Que vazio é que Afonso Dhlakama deixa para a Renamo e para os moçambicanos? É um vazio muito grande não só para os membros da Renamo, mas para todo o povo moçambicano. Tanto no país como a nível internacional as pessoas lamentam a morte de Afonso Dhlakama porque deixou um vazio enorme. Uma das perguntas que muita gente coloca é: “com a morte de Dhlakama, quem vai colocar a Frelimo na linha”? Nós estamos preocupados agora em fazer o funeral do nosso presidente e depois, é claro, a Renamo vai se reunir para decidir como é que vai levar avante aquilo que foram as ideias e o sonho do presidente da Renamo. Mas não é o fim da democracia em Moçambique. Não, não é o fim e nunca pode ser o fim porque seria um caos não só para a Renamo, nem para a Frelimo, mas para todo o povo moçambicano. Hermínio Morais, antigo braço direito do presidente da Renamo, entende que, até hoje, o partido não tem um líder à altura de Dhlakama Q uando os jornalistas perguntaram a Ossufo Momade sobre o futuro da Renamo pós-Afonso Dhlakama, o novo líder interino do principal partido da oposição deu uma resposta que retrata o seu perfil: esquivo e discreto. “Deixem-nos realizar o funeral do nosso presidente. Não é altura de procurarmos o dia e a data em relação àquilo que vai acontecer no futuro”, afirmou, de modo assertivo, Ossufo Momade, 57 anos, natural da Ilha de Moçambique. Na Assembleia da República, onde é deputado desde 1999, ninguém, entre os deputados, se lembra de Ossufo Momade intervir nas sessões plenárias Um general esquivo e discreto do órgão legislativo moçambicano. Na chamada “Casa do Povo”, tem primado pelo silêncio, que apenas intercala com os aplausos “compulsivos” que as bancadas devem legar no final do discurso ou interpelação de um colega do grupo parlamentar. Vinda de um militar, primeiro como cadete da Academia Militar (do lado governamental), que integrou em 1974, e depois como comandante da guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), e responsável pela guerrilha da Renamo na província de Nampula, a discrição de Ossufo Momade pode ser por táctica: não quer que lhe adivinhem os pensamentos e lhe antecipem os passos. Como comandante militar da Renamo, em que milita desde a sua “captura” pela mão de Afonso Dhlakama, em 1978, numa dura incursão da guerrilha, no distrito de Ribáue, província de Nampula, e mais tarde secretário-geral do partido (entre 2007-2012), Ossufo Momade “aprendeu” do seu falecido líder, pautando pela submissão incondicional a um Afonso Dhlakama avesso a bicefalias e proliferação de centros de poder internos. Ossufo Momade furtou-se sempre de posições políticas vincadas, mesmo nos períodos de maior crispação com o Governo e de confrontos militares entre as Forças de Defesa e Segurança (FDS), evitando dar o peito às balas, como o fizeram colegas de partido. Alguns “renamistas” foram mortos e outros detidos no período mais alucinante da crise com o Governo, mas Ossufo Momade andou poupado dessa “lista de alvos”. A circunstância de não se lhe ser conhecida colagem a nenhuma facção dentro da Renamo pode ter levado o partido a apontá-lo para “coordenador da comissão política nacional”. Os tempos de guerrilha tornaram Ossufo Momade numa figura aceitável para o braço armado que a Renamo ainda mantém nas matas da Gorongosa e a “socialização” que teve com os deputados da Assembleia da República dão-lhe respeitabilidade no seio da bancada. Ao apontar-lhe para líder interino, o principal partido da oposição quererá sinalizar ao Governo que aposta no projecto da paz, mas não abre mão da eventualidade de uma pressão militar, caso o contexto assim o justifique. Com esse gesto, o principal partido da oposição mantém, através de Ossufo Momade, uma estratégia que o antecessor sempre seguiu. Nos próximos dias, Ossufo Momade poderá subir à Serra da Gorongosa, num esforço para apaziguar os guerrilheiros e dar explicações detalhadas sobre a nova ordem não se sabendo se de lá voltará. Ossufo Momade Ossufo Momade SOCIEDADE Savana 11-05-2018 9 PUBLICIDADE PUBLICIDADE 10 Savana 11-05-2018 OPINIÃO A Nação Moçambicana foi colhida de surpresa, na manhã do dia 3 de Maio de 2018. Deixou-nos, fisicamente, Afonso Macacho Marceta Dhlakama, Presidente da RENAMO, o maior Partido da Oposição em Moçambique, vítima de doença! Em nome do Governo de Moçambique, do Povo e no meu próprio, lamento a perda de um compatriota que, do seu modo, fez parte da História recente de Moçambique. Com a mesma serenidade, enfrentamos juntos o mesmo sentimento de luto. Esta é uma prova da maturidade e do sentido cívico do nosso povo. Em situações difíceis como esta, todos temos de ter a força e a lucidez para superarmos as emoções que nos atravessam. Todas as nossas diferenças tornam-se, neste momento, secundárias e irrelevantes. Somos um só sentimento, um mesmo sentimento de Norte a Sul do país. Como Moçambicanos, reconhecemos acima de tudo que, até à sua morte, Afonso Dhlakama tinha convicções próprias sobre o pluralismo político em Moçambique. E que ele se entregou, inteiramente, à defesa dessas convicções. Caro, Irmão Dhlakama, filho mais velho do Régulo Mangunde! Homem incaracterístico na sua visão, homem a quem a história de Moçambique reserva páginas indeléveis, assinalando um percurso histórico; Perante o teu corpo inerte, recordamos que a vida é um presente, uma dádiva que nos supera a todos nós. Essa dádiva termina em qualquer momento como se a morte nos lembrasse que tudo o que temos como certo é apenas o presente. Quero reafirmar que iremos prosseguir a obra que juntos iniciámos, isto é, a construção da Paz e o reforço da democracia, através do aperfeiçoamento da descentralização e desconcentração. Reafirmo a minha disponibilidade de continuar com o processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração Social dos militares da RENAMO já iniciado. O fecho deste dossier será sempre considerado uma obra colectiva dos Moçambicanos, uma obra para a que Afonso Dhlakama contribuiu até ao final dos seus dias. O tempo que hoje vivemos, tomamo-lo como fonte de inspiração e como uma oportunidade para transformar Moçambique numa terra sem ódio, numa nação que sabe ser unida e forte mesmo nos momentos mais difíceis e tristes. A sua colaboração no processo de Paz, mantém-se viva em mim. A sua voz não se desvanece, quando, telefonicamente, falámos, no passado dia 11 de Abril. E ainda ecoam em mim as suas palavras: “Presidente, mesmo que haja dificuldades ou Um compatriota que, do seu modo, fez parte da História recente de Moçambique Por Filipe Nyusi* obstáculos, nunca cortemos os laços de entendimento…o processo de paz não pode falhar…”. Que fique claro que, com os moçambicanos, irei dar continuidade a todo o processo de construção da Paz, juntamente, com a nova liderança do Partido do Dhlakama, respeitando, sempre, o quadro legal e institucional. O diálogo que juntos estabelecemos, as conclusões que alcançámos na presença da sua equipa mais restrita, aquela que, mesmo não fazendo parte das comissões formalmente por nós estabelecidas, tudo isso constitui um património seguro para que o processo de diálogo seja concluído a favor do Povo Moçambicano. As pessoas que acompanharam este processo de diálogo continuam connosco e os registos desses encontros prevalecem como testemunho e como base para os próximos passos que, juntos, iremos dar. É esta a promessa que lhe queremos fazer. Como Presidente de todos os moçambicanos, assumi, desde o início, o dever de criar uma cultura de diálogo que sustentasse a construção da paz efectiva no nosso país. Este processo já deu passos decisivos e está a criar uma cultura nova de aceitação das nossas diferenças. É preciso não esquecer que, ainda há pouco tempo, a violência e a intolerância minavam as pontes do nosso entendimento. Neste processo de reconciliação, Afonso Dhlakama foi-se revelando parceiro incontornável para colocar um ponto final num passado carregado de suspeitas, de ódio e de mortes. Com Afonso Dhlakama mantive um diálogo próximo e intenso. Nessa interacção pessoal, procuramos sempre aproximar os Moçambicanos em defesa dos interesses comuns que nos fazem ser Nação. Soubemos definir, em cada passo, que aquilo que nos podia unir era mais forte do que o que nos separava. Nesse processo de diálogo houve momentos de discórdia, de tensão e de muita pressão. Houve questionamentos, houve dúvidas, houve confronto de ideias. Não podia ser de outro modo, pois sabíamos que estavam em jogo assuntos sensíveis e dos quais dependia a vida do Estado Moçambicano e dos seus mais de 28 milhões de habitantes. Nesse debate regular, fomos construindo confiança mútua. Nesse debate, aprendemos a respeitarmo-nos e a reconhecermo-nos, como irmãos que partilhavam o mesmo destino. Esse destino chama-se Moçambique. Ambos sabíamos que não havia senão uma escolha enquanto compatriotas. E essa escolha chama-se Paz. Quando a solução das nossas discussões tardava, quando essas demoras exigiam a minha serenidade e paciência, recordo-me do seu apurado sentido de humor que nos ajudava a aliviar a tensão do momento e a vislumbrar novos caminhos. A partida prematura do nosso compatriota não deve constituir um revés neste processo de diálogo. Estaremos honrando a sua memória, se soubermos concluir, de forma responsável e célere, o diálogo político que agora se centra, sobretudo, no processo de descentralização, no desarmamento, desmobilização e reintegração. Aos nossos amigos internacionais, pedimos para que continuem a nos ajudar a respeitar as diferenças dos Moçambicanos para que o grande país se reencontre, e promova o bem-estar das gerações vindouras. Afonso Dhlakama já não se encontra, fisicamente, entre nós. Ficarão em todos nós as memórias da sua vida, do seu percurso social e político, memórias que, cada um de nós guardará à sua maneira. Da RENAMO, esperamos que se assuma o espírito e a obra do seu líder e se honre a sua memória, em palavras e actos. Esperamos prosseguir, juntos, os caminhos já iniciados para a criação de uma paz efectiva, duradoura e sustentável em Moçambique. Esperamos que os dirigentes da RENAMO encontrem a serenidade de que precisam para se reerguerem da dor causada por este infortúnio. Há muito que tenho sublinhado a importância do papel da oposição na governação em Moçambique. Não se pode falar duma democracia sólida sem uma oposição sólida. Todos precisamos de uma oposição construtiva e patriótica, de uma oposição que saiba colocar Moçambique em primeiro lugar. O diálogo político implica ajustamentos e cedências, cedências alinhadas com os interesses colectivos dos moçambicanos. O campeão pelo sucesso do diálogo só pode ser Moçambique. O vencedor seremos todos nós. E ao vencermos, poderemos, então, recolher os frutos de um Moçambique unido, moderno e próspero. Todos sabemos que Moçambique, ao longo dos anos, perdeu muitos dos seus melhores filhos. O diálogo que mantinha com o líder da RENAMO era uma homenagem a esses moçambicanos cujas vidas foram eliminadas pela violência e pela intolerância. Ambos sabíamos que é imperioso virarmos não apenas uma página, mas escrevermos uma outra narrativa em que as diferenças políticas sejam vividas como um factor de respeito, de agregação e de unidade. Afonso Dhlakama não foi apenas um dirigente político. Ele era também esposo, pai, chefe de família, filho, irmão, tio, avó, companheiro e amigo dos seus amigos. À viúva, aos filhos, ao pai, Régulo Mangunde, à família e aos amigos do Presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, bem como aos membros e simpatizantes do seu Partido, a RENAMO, endereço as nossas mais sinceras condolências. Em nome do Povo moçambicano, quero deixar palavras de reconhecimento a todos aqueles que tudo fizeram, prestando apoio na tentativa de lutar contra a partida precoce do compatriota Afonso Macacho Marceta Dhlakama. O reconhecimento vai, também para o grupo internacional de contacto, no âmbito do diálogo, indicado por mim e pelo Presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama. A esse grupo, agradeço por tudo o que fizeram no terreno, na tentativa de ajudar o nosso compatriota Afonso Dhlakama. Não gostaria de ignorar a disponibilidade imediata mostrada pelo irmão Cyril Ramaphosa, Presidente da África do Sul, quando por antecipação, solicitei apoio caso fosse possível a transferência de Afonso Dhlakama na fase final da sua doença. Igualmente, ao irmão Emmerson Mnangagwa, Presidente da República do Zimbabwe que, mesmo tomando conhecimento tardiamente, acedeu ao nosso pedido, colocando à disposição meios aéreos capazes de prestar qualquer apoio, mas igualmente não foi a tempo de agir. Em nome do Governo de Moçambique, quero manifestar os agradecimentos aos Presidentes e outras individualidades de outros cantos do Mundo que nos dirigem mensagens de condolências e de conforto. Em nome de todo o povo, muito obrigado a todos. Nós os moçambicanos podemos e devemos fazer o melhor para este país. Nós os moçambicanos queremos e devemos viver juntos e em harmonia. Nós os moçambicanos em paz devemos trabalhar para melhorar a qualidade das nossas vidas. Em Moçambique haja justiça para todos os que habitam este solo pátrio. Descanse em Paz, Caro Irmão, Afonso Macacho Marceta Dhlakama! *Intervenção editada do Presidente da República nas exéquias fúnebres do presidente da Renamo e membro do Conselho do Estado, Afonso Dhlakama. Título da responsabilidade do SAVANA. Afonso Dhlakama SOCIEDADE Savana 11-05-2018 11 A crise da dívida que Moçambique enfrenta continua a representar um elevado risco de colapso económico e com potencial para um elevado impacto negativo, considera a análise mais recente sobre o país da Economist Intelligent Unit (EIU), entidade de análise económica ligada à revista britânica The Economist. A avaliação tem a data de 02 de Maio, um dia antes da morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, uma ocorrência que aquela entidade não tomou, por isso, em conta nesta análise sobre Moçambique. Na tabela que intitula “Maiores riscos para a nossa previsão”, a EIU atribui a “intensidade 20” ao risco colocado pelas “dívidas ocultas”, “probabilidade elevada” e “impacto muito elevado”. Há também uma probabilidade elevada de risco de seca ou cheias provocarem uma queda na economia, com impacto muito alto e intensidade 20. As dificuldades de o sector privado mobilizar financiamento para as suas actividades também são elevadas, com um impacto muito elevado na economia e uma intensidade 16. Por outro lado, é igualmente elevado o risco de o governo alterar unilateralmente os contratos, o que coloca uma alta ameaça, com uma intensidade 16. A probabilidade de o governo aumentar impostos para as grandes empresas e outras é muito elevada e o impacto é moderado, com a intensidade 15. Revisão em baixa A EIU baixou de 5% para a 4,3% a previsão de crescimento económico que tinha projectado para o período 2020-2022, justificando essa revisão em baixa com as fracas perspectivas no sector industrial, devido ao progresso lento nos grandes projectos do sector extractivo. Citando dados do Banco de Moçambique, aquela entidade de pesquisa refere que a importação de bens e serviços em 2017 esteve acima do previsto, levando a um ajustamento por alto das importações e do défice da conta corrente. “Revimos em baixa a nossa previsão de crescimento das importações em 2018, de 14% para 11,9%, devido a perspectivas de baixos preços para o carvão e alumínio, que, colectivamente, contribuem com mais de 50% do cabaz de exportações de Moçambique”, lê na avaliação Tomados em conjunto, um défice da conta corrente superior ao estimado em 2017 e as perspectivas de um fraco crescimento das exportações significa que foi feita uma revisão em alta do défice da conta Crise da dívida moçambicana Risco de colapso da economia continua - EIU corrente para 2018-2022, para uma média anual de 17,1% do Produto Interno Bruto (PIB), de uma estimativa inicial de 15, 6% do PIB. Em relação à inflação, a EIU prevê a subida de preços nos próximos meses, devido ao aumento de preços regulados pelo governo e a preços mais altos no petróleo. As pressões inflacionárias, observa a análise, abrandaram desde o início de 2017, mas começaram a registar uma subida em Março. Situação política frágil A EIU mantém a sua antecipação anterior de que a situação política em Moçambique continuará frágil, prevendo que Filipe Nyusi e a Frelimo se mantenham no poder, ganhando nas eleições gerais de 2019. A luta por influência dentro da Frelimo vai aumentar o grau de volatilidade da situação política no país, acrescenta. Um acordo entre a Frelimo e a Renamo é provável e deverá levar a uma maior descentralização, mas a lenta implementação do processo levará o principal partido da oposição a ser relutante em aceitar o desarmamento, alimentando o risco de violência. A crise de liquidez provocada pelo fardo da dívida e pelo corte da ajuda internacional continuará a pesar sobre as perspectivas macro-económicas do país. O incumprimento no pagamento da dívida soberana vai excluir o país da maioria das fontes externas de financiamento. Devido à necessidade de o Governo evitar medidas impopulares, a política fiscal continuará relaxada, no curto prazo, e os constrangimentos financeiros vão tornar esta estratégia insustentável. “Contudo, esperamos alguma consolidação fiscal depois das eleições de 2019. O crescimento do PIB real continuará fraco entre 2018- 2019, com uma média anual de 3,3%, devido a uma procura doméstica débil e baixo investimento”, lê-se no documento. A EIU prevê uma recuperação económica ligeiramente robusta, à medida que os sectores mais orientados para as exportações nas grandes indústrias ganharem maior ímpeto. “Depois de ter contraído em 2018 para 15,2% do PIB face a uma forte balança comercial, o défice da conta corrente vai expandir-se para 19% do PIB em 2022, devido ao abrandamento nas exportações e à subida da procura nas importações”, refere a avaliação. Apesar de prever a vitória da Frelimo nas eleições municipais deste ano e gerais de 2019, a EIU projecta um declínio no peso do triunfo do partido no poder, devido a uma grande frustração em relação à má gestão da economia. No domínio das relações internacionais, o governo moçambicano vai tentar fortalecer a cooperação com os países importadores de carvão e gás, principalmente da Ásia, face ao esfriamento dos laços com os países doadores ocidentais. Contudo, a tentativa de maior aproximação com os parceiros asiáticos será obstaculizada pela situação desfavorável prevalente em Moçambique. OPINIÃO 12 Savana 11-05-2018 A Síria, cujo nome oficial é República Árabe da Síria, é uma república laica sem religião oficial. Tem 185.180 Km2 e à volta de 18 Milhões de habitantes, sendo a grande maioria muçulmana de filiação sunita. Curiosamente é a facção xiita, que constitui menos de 15% da população, que controla o partido Socialista Baath, as forças armadas e o aparelho de estado. Os cristãos são à volta de 10%. A capital é Damasco. A Síria localiza-se no Médio Oriente no sudoeste da Ásia e tem fronteiras com o Líbano e o Mar Mediterrânio a Oeste, com a Jordânia a Sul, com Israel a Sudoeste, com o Iraque a Leste e com a Turquia a Norte. Na prática está no centro de várias disputas políticas e económicas na região. A actividade económica centra-se na agricultura e na exportação do gás e petróleo, outro factor que atrai conflitos de interesses. Terá sido em 1949 que o Serviço Secreto americano se interessou pela Síria (a CIA tinha apenas dois anos de existência como Estado) com vista a apoiar um investimento nacional norte-americano personificado na construção do pipeline “Trans-Arabian” que atravessaria a Síria ligando os campos de petróleo da Arábia Saudita (ARAMCO) ao porto de Sidon no Líbano. Com o desenvolvimento da guerra fria a análise americana da ameaça aos seus interesses identificou o comunismo da União Soviética associado ao nacionalismo árabe como seu principal inimigo, tendo então a CIA implementado a estratégia de fomento do fundamentalismo islâmico contra o nacionalismo árabe e seus aliados comunistas, como sendo o melhor e mais eficaz método de defender seus interesses nacionais em particular para o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente, na época consideradas as maiores do mundo. Uma estreita cooperação entre os serviços secretos americanos e britânicos viabilizou o projecto de defesa na Síria dos interesses nacionais ocidentais contra o controlo comunista e a influência do nacionalismo árabe. Desde 19556 planos para derrubar o regime laico e neutral da Síria foram sendo preparados. Várias tentativas para derrubar o regime foram frustrados pela segurança Síria e os agentes internos e americanos envolvidos foram identificados e publicamente denunciados. Em 1970, o general da força aérea Hafez al-Assad, do partido socialista árabe Baath assume o poder na Síria e combate com vigor a oposição política baseada no fundamentalismo islâmico em defesa do interesse nacional sírio. Face à permanente e continuada ofensiva ocidental para destabilizar o governo, Hafez al-Assad acaba se aliando à União Soviética que também tinha um grande interesse geo-estratégico na Síria para contrariar a influência americana na região. Em 1980, a URSS e a Síria firmam um tratado de Amizade e Cooperação formalizando a já existente aliança militar e política. No ano 2000, o general al-Assad morre de ataque cardíaco sucedendo-lhe seu filho Bashar al-Assad que ainda hoje permanece no poder. Segundo revelações do wikileaks, desde pelo menos 2005 que o Departamento de Estado americano disponibiliza anualmente dezenas de milhões de dólares em apoio aos movimentos de oposição na Síria, o que inclui o financiamento a um canal de rádio e televisão controlado pelos opositores no exílio. Um dos interesses ocidentais para o derrube de Bashar al-Assad é de novo um problema ligado à logística do petróleo, nomeadamente o projecto de construção de um pipeline através da Síria. Qatar é um candidato à construção deste pipeline de 1 500 quilómetros, orçado em dez biliões de dólares, saindo da Arábia Saudita e passando pela Jordânia, Síria e Turquia para abastecer mercados na união Europeia. Bashar al-Assad recusou-se a autorizar a construção deste pipeline muito provavelmente em linha com o pacto de Amizade com a Rússia, seu aliado principal e estratégico. O consórcio ocidental sente seus interesses ainda mais ameaçados quando Bashar al-Assad autoriza a construção de um outro pipeline chamado de “islâmico”, que sairia do Irão, atravessaria a Síria até ao Líbano. Uma dupla ameaça: por um lado a matéria-prima sairia do Irão (chiita) aumentando sua influência no Médio-Oriente, contra os interesses americano-sauditas (sunitas), o que agudizaria a contradição fundamentalista islâmica entre sunitas e xiitas. O contrato para a exploração e construção do pipeline islâmico foi assinado em 2012. Contudo, sua construção ainda não iniciou (estamos em 2018) pois uma sangrenta guerra movida pelo choque de vários interesses económicos e políticos eclodiu na Síria, exactamente para inviabilizar o projecto “xiita” iraniano, contra os “sunitas” do Qatar e da Arábia Saudita. Até parece um problema religioso! A oposição a Bashar al-Assad tem sido financiada pelos interesses sunitas em mais de três biliões de dólares. Em 2011/2013, compensaram cada desertor das forças armadas sírias em cinquenta mil dólares. Estes desertores foram retreinados pelos americanos e acabaram formando o chamado Exercito Sírio Livre de oposição ao regime de al-Assad. A Síria tanto no mandato de George Bush como de Barack Obama, sempre foi considerada uma ameaça aos interesses ocidentais sendo um alvo prioritário dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, porque considerado capaz de desenvolver armas de destruição maciça (inclui armas químicas e mísseis transportadores de ogivas nucleares) potencialmente utilizáveis no conflito contra Israel que é considerado o alvo da aliança árabo-muçulmana. Logo após o derrube de Saddam Hussein no Iraque, o Departamento de Defesa dos EUA elaborou planos operacionais para levar a guerra à Síria, o que foi vetado porque inoportuno pelo então presidente George W. Bush. O plano de acção militar era no entretanto mais amplo, prevendo a invasão de sete países: Líbia, Irão, Iémen, Somália e Sudão para além do Iraque e Síria, o que foi na época considerado politicamente inoportuno implementar pelo consórcio político ocidental. Em alternativa, os interesses euro-americanos optaram pelo uso maciço dos seus serviços secretos e pelo apoio directo aos grupos terroristas afiliados ao “estado islâmico”. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, a 2 de Outubro de 2014, apontou em conferência pública na Universidade de Harvard, que os grandes problemas no Médio Oriente eram a Turquia, a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos, a quem acusou de apoiarem com armas e dinheiro os operacionais do Estado Islâmico apostados em derrubar o presidente Bashar al-Assad. A aliança em defesa dos interesses ocidentais, representada pela Arábia Saudita, deslocou-se então a Moscovo no início de Agosto de 2013 para negociar o voto favorável da Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas para a condenação do regime sírio de Bashar al-Assad. A Arábia Saudita, em contrapartida, comprometia-se a comprar da Rússia armamento diverso no valor de 15 biliões de dólares. A resposta de Vladimir Putin foi negativa porque considerou que sendo o regime de Bashar al-Assad um regime laico, é o que melhores garantias dá à estabilidade política do Médio Oriente e assim melhor defende os interesses da Rússia na região. A 21 de Agosto de 2013, um ataque de gás sarin teve lugar em Ghouta, perto de Damasco, matando centenas de civis, o que violou a “linha vermelha” traçada por Barack Obama, condição necessária para justificar a intervenção militar na Síria, o que veio a acontecer. Os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e a Liga Árabe, sem qualquer comprovação ou evidência, acusaram as forças militares de Bashar al-Assad de usar armas químicas, consideradas de destruição maciça, e em resposta atacaram a Síria. Assim ficou justificada a intervenção armada dos Estados Unidos e da União Europeia na Síria. As fontes da notícia sobre o uso das armas químicas foram os próprios grupos terroristas afiliados ao Estado Islâmico. Curiosamente, a história repetiu-se em Abril de 2018: o governo sírio é de novo acusado (e punido militarmente) por usar armas químicas (de destruição maciça) contra o seu próprio povo também em Ghouta nos arredores de Damasco. O relatório final da comissão de peritos que investigou o uso de armas químicas em Ghouta em 2013 não conseguiu determinar a origem e os autores do ataque com armas químicas. Será que a actual comissão de investigação conseguirá identificar a origem e os autores deste último ataque? Para Nafeez Ahmed, director do Instituto para a Investigação em Políticas e Desenvolvimento, os reais factores que determinaram o plano de intervenção militar ocidental na Síria foram: o controlo geopolítico do Médio Oriente (inclui a protecção de Israel) e as rotas dos pipelines que materializam a logística do negócio dos hidrocarbonetos na região (the Guardian, 30 de Agosto de 2013) Nos relatórios dos serviços de inteligência ocidentais, publicados em 2013, foram omitidas as passagens que informavam que é a hipótese mais provável de terem sido grupos terroristas da Al-Qaeda os responsáveis pelo ataque com armas químicas em Ghouta a 21 de Agosto de 2013. Estava demonstrado, que esta organização terrorista tinha capacidade para produzir o gás sarin em grandes quantidades e como tal era um possível suspeito que nunca foi indicado como tal. Testemunhas individuais afirmaram na época que os Jihadistas possuíam gás sarin e que foram eles que lançaram o gás em Ghouta para incriminar o regime de Bashar al-Assad. A grande operação euro-americana para lançar um ataque total militar contra a Síria em 2013 teve grande oposição nos países ocidentais e teve o veto da Rússia nas Nações Unidas, razão pela qual o ataque não teve lugar. Este precedente explica também porque o recente ataque militar (EUA, França e Grã Bretanha) não foi levado às aprovação do Conselho de Segurança. Por outro lado, o Departamento de Defesa americano tinha informação detalhada do sistema de defesa sírio bem estruturado com o apoio militar russo que poderia fazer fracassar uma invasão militar, o que não era nada de arriscar. A alternativa encontrada a consenso e com especial acordo da Rússia, foi na época, a decisão de inspeccionar, controlar e eliminar todas as armas químicas armazenadas pelo estado sírio que de imediato concordou e a operação foi realizada. Teoricamente não há mais armas químicas na Síria. Os interesses sírio-russos estavam salvaguardados. Uma empresa sírio-russa negociou a prospecção e exploração das reservas de gás e petróleo ao longo do litoral da Síria em aparente choque com os interesses ocidentais na região. No entretanto a guerra continua! Factos históricos extraídos do livro “A desordem mundial” (Rio de Janeiro 2016) do conceituado historiador brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira. As considerações políticas e de segurança são da responsabilidade do autor. *General na Reserva e antigo ministro da segurança no Governo de Samora Machel Síria: Choque de interesses nacionais Por Jacinto Veloso* PUBLICIDADE Savana 11-05-2018 13 1. Introdução As organizações a sociedade civil Centro de Integridade Pública (CIP), Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), Mecanismo de Apoio à Sociedade Civil (MASC) e Observatório do Meio Rural (OMR), preocupadas, como sempre, com a situação política, económica e social do país têm acompanhado a evolução da crise despoletada com a dívida então designada de “oculta”. Em diferentes momentos, as organizações acima citadas, em parceria ou individualmente, têm exposto em debates e estudos as suas preocupações fundamentadas em evidências. Estas acções de advocacia e prática do exercício da cidadania, tem merecido apreço de muitos organizações e individualmente por cidadãos dos mais diversos quadrantes da sociedade moçambicana. Tem também recebido críticas, sobretudo em defesa do sistema político e principalmente da governação, o que é considerado lógico no exercício da liberdade de pensamento e expressão. Porém, tem havido formas de crítica pessoalidades e de ataque a carácter individual pouco concordantes com a ética e convivência saudável. As organizações promotoras desta conferência, mantêm o seu compromisso de promover debates abertos, disseminação do conhecimento e actividades de advocacia junto dos centros de decisão. Essa perspectiva se enquadra esta conferência. 2. Objectivos A conferência Como está Moçambique tem como objectivo principal analisar a actual situação politica, económica e social e sugerir possíveis medidas de natureza política e de politica económica para a saída da crise. Supõe-se que ainda não foram assumidas medidas que invertam a situação da economia real. - cos são os seguintes: Necessidade de recuperar a imagem do país para o que é necessário estabelecer a gestão transparente e com boas práticas do orçamento, introduzir reformas profundas no Estado, nas empresas públicas e nos fundos públicos, negociar a dívida, Conferência COMO ESTÁ MOÇAMBIQUE? Data 16 de Maio de 2018 Período Das 08:30 às 12:30 horas Local Montebelo, Indy Entrada Livre PROGRAMA Tema Orador/instituição Abertura João Pereira MASC Crise Financeira e Consolidação Fiscal: O Problema da Desorçamentação António Francisco IESE Sistema político como factor de crise Edson Cortez CIP Dilemas da saída da crise João Mosca OMR Encerramento não apenas a que foi designada de oculta. As negociações com o FMI, credores e doadores devem ser transparentes e aceitar com coragem e humildade democrática dos erros cometidos. O país não possui, nem gerará recursos Dmental contar a médio prazo com a poupança externa. A comunicação à sociedade e a concordância entre o discurso interno e para o exterior é importante para a credibilidade da governação. A conferência procurará discutir como as burocracias do sistema político e económico têm sido instrumentalizadas pelas elites detentoras do poder na Frelimo, com o objectivo de maximizar interesses e rendimento individuais e de grupos económicos, cuja acumulação assenta em mecanismo pouco transparentes. As oportunidades de acesso e poder de distribuição de recursos, obedece a hierarquias no sistema de poder e a alianças assentes em grupos que têm como vínculos relações étnicas, clânicas e partidárias. dades na formulação de políticas públicas como também, no surgimento e consolidação de grupos empresariais locais. Pretende-se debater acerca dos dilemas das opções de saída da crise, considerando que os factores políticos internos a situação económica e social e os contextos internacionais se reforçam mutuamente em ciclo vicioso. A questão é saber sobre as medidas que permitem o inicio de um ciclo de saída da crise, considerando que a economia moçambicana não possui recursos para o efeito e que o FMI, credores e doadores possuem condicionalidades que, a serem satisfeitas, poderão provocar “tsunamis” no sistema politico. Por outro lado se não forem satisfeitas, ticularmente sobre a economia real (tecido empresarial, geração de emprego, custo de vida sobretudo dos mais pobres, baixo investimento externo e publico - excepto nos recursos naturais e sectores relaccionados). Hora Tema Orador Instituição Moderador 08:30 Abertura João Pereira MASC Jeremias Langa 09:00 Crise Financeira e Consolidação Fiscal: O Problema da Desorçamentação António Francisco IESE Crise financeira sistema politico como factor da crise. Edson Cortez CIP Dilemas da saída da crise João Mosca OMR 10:30 Intervalo - Lanche 11:00 Debate 12:30 Encerramento 4. Local: Montebelo, Indy Village. 5 Data: 16 de Maio de 2018. queixas dos próprios de que são discriminados e maltratados, conforme ainda recentemente denunciaram os 500 trabalhadores angolanos ao serviço do consórcio chinês China Gezhouba Group Corporation, que constrói uma nova barragem no rio Cuanza, Caculo-Cabaça, financiada pelo Banco de Comério e Indústria da China. Corrupção vs construção Está convencionado que 2006 foi o ano em que a corrupção em Angola começou a expandir-se sem nunca mais parar. Os apartamentos, alguns dos quais modestos, que membros das elites angolanas até então tinham em Lisboa, começaram a dar lugar a outros de superior qualidade ou a vivendas de situadas em urbanizações de alta categoria. Com o tempo, viriam mesmo os investimentos na aquisição de palacetes, quintas ou na compra de empresas e acções. O ano de 2006 foi aquele em que a China, ao que agora se diz atraída por expectativas de elevadas taxas de crescimento da economia angolana, começou a fazer jorrar dinheiro em Angola. Ao todo, USD 60 B, concedidos sob forma de linhas de crédito do Estado, invariavelmente garantidas por petróleo. O montante (porventura muitas vezes superior à soma de todas as ajudas e créditos concedidos a Angola desde a independência), foi revelado num artigo de autoria de Zhang Beisan, embaixador chinês, que assim rompeu pela primeira vez com o denso sigilo desde sempre mantido à volta do assunto. Das normas legais aplicadas em Angola à adjudicação de obras pelo Estado faz parte uma modalidade chamada “contratação simplificada”. Em bom rigor, é uma adjudicação política. O anterior Presidente reservava a si próprio a faculdade exclusiva de autorizar a contração de empreitadas na referida modalidade, fazendo-o ao abrigo dos poderes executivos nele concentrados pela constituição de 2010. Ainda em Junho de 2017, cerca de dois meses do fim do seu mandato, José Eduardo dos Santos emitiu 23 despachos presidenciais, aprovando a adjudicação de outras tantas obras a empresas chinesas. Apresentavam a novidade de impor a subcontratação de empresas angolanas. O que valiam tais imposições não era muito, partindo do princípio de que nunca foi respeitada uma norma de acordo com a qual o pessoal afecto a uma obra devia compreender chineses e angolanos, na proporção de 30/70%. É por demais sabido que os chineses não têm em boa conta as qualidades de trabalho dos angolanos. O destino que viria a ser o do Hos14 Savana 11-05-2018 15 NO CENTRO DO FURACÃO São dezenas e dezenas de quilómetros de desvios, por vezes desvios dos desvios. O estado lastimoso em que se encontra a estrada, que passa mesmo ao lado, é a razão de ser dos desvios, muitos dos quais com dezenas de quilómetros e quase todos verdadeiras picadas no pior sentido do termo. É esta a realidade presente ao longo de pelo menos um terço da extensão total da estrada Luanda-Huambo. Doze penosas horas, o dobro do que seria preciso se fossem normais as condições da estrada, é o tempo que leva a fazer os seus 550 kms de extensão total. Em estado ainda pior está parte considerável da chamada estrada marginal que liga o Lobito a Luanda, passando pelo Sumbe e Porto Amboim. Aqui, o estado dos desvios, em especial os que se começam a apanhar logo à saída do Lobito, a seguir à Caponte, e por aí fora até ao ponto em que a estrada bifurca com a que vai para a Quibala, é ainda mais penoso. Aos buracos, ainda mais cavados, juntam-se nuvens cerradas de poeira provocada pela circulação de camiões que demandam o porto ou dele procedem. Ambas as estradas têm a categoria de principais no sistema viário de Angola. A que liga Luanda ao Huambo tem mesmo a importância de espinha dorsal de todo o sistema viário do território. Derivam dela ou prolongam-na muitas das mais importantes vias que em todas as direcções rasgam o território. O mau estado das duas repete-se em quase todas as estradas do país, mas de forma mais calamitosa no caso das secundárias ou das rurais. Uma das poucas que destoa é a que liga o Huambo a Benguela ao longo do Caminho de Ferro de Benguela. É difícil de entender o estado em que se encontram as estradas em Angola. O país está em paz completa há dezasseis anos. Dispôs de recursos abundantíssimos quase integralmente provindos da generosa fonte do petróleo (USD 128 B, valor do PIB, a preços correntes, em 2014, ano em que a actual crise estalou), para reconstruir o que foi destruído ou não foi conservado ao longo da guerra civil ou, ainda, para construir o que não foi construído. As estradas agora esventradas foram quase todas reconstruídas e pomposamente reinauguradas nesse período de dezasseis anos de paz. As últimas inaugurações, todas amplamente publicitadas, remontam há uns oito anos apenas. Partindo do princípio de que o tempo de vida de uma estrada asfaltada, construída como deve ser e mantida de acordo com as regras, pode chegar aos 20/30 anos (antigas estradas coloniais são concludente exemplo disso em Angola), o que explica então que a duração destas tenha sido tão fugaz? A resposta que está na ponta da língua dos angolanos é a falta de seriedade que “comandou” o chamado esforço de reconstrução de Angola. A qualidade das obras foi sacrificada de interesses obscuros, entre os quais avulta a corrupção. Uma corrupção voraz e tentacular, implicando angolanos e estrangeiros. Até 2014, ano a partir do qual a crise provocada pela queda dos preços do petróleo trouxe à superfície fragilidades económicas de todo o tipo, que apenas estavam dissimuladas ou para as quais se olhava fingindo não ver, os dirigentes angolanos, num coro ampliado por personalidades estrangeiras, portuguesas em especial, agora sintomaticamente emudecidas, exaltavam sobremaneira o imparável e sustentado crescimento económico e social do país – geralmente apresentado como uma promissora potência regional. Aconteceu sempre, em todo o lado: quando um país saído de guerras ou de graves convulsões reúne condições para finalmente se lançar num esforço de reconstrução sério, aquilo a que atende prioritariamente, por razões económicas, sociais, políticas e de segurança até, é à recuperação das suas vias de comunicação e das infra-estruturas em geral. Foi assim que em Angola também se procedeu. Mas ante a curtíssima duração que veio a ser a das estradas então reabilitadas, a conclusão instalada é a de que não houve seriedade nem competência no que se fez. O desastroso estado actual das estradas também permite concluir que a tão exaltada diversificação da economia não tinha, afinal, correspondência com a realidade. Tal como, aliás, parecia a muitos observadores das realidades angolanas, à data destratados por isso. A ter sido real, o funcionamento de sectores como a agricultura, minas e indústria não poderiam dispensar a existência de estradas transitáveis, assim como precisariam de contar com energia e água, abundantes e baratas – outras exigências para as quais só tardiamente se começou a olhar. A especial severidade da crise que se abateu sobre Angola e nunca mais a largou é, aliás, remetida para a inexistência de uma economia produtiva, com músculo suficiente para compensar, pelo menos minorar, os efeitos da perda de valor da chamada petroeconomia em que o país, de facto, foi sempre vivendo, fazendo orelhas moucas a advertências de que estava a incorrer numa imprevidência. Foram chineses, brasileiros, portugueses e angolanos os empreiteiros das obras de reconstrução da rede estradas em Angola, após o fim da guerra. Os chineses são, porém, o alvo do grosso das críticas e das lamúrias que o mau estado em que as estradas se encontram de novo alimenta na sociedade em geral. Apesar de o trabalho dos outros também não ter ficado isento de defeitos. A manifesta falta de qualidade das obras de construção civil dos chineses, em particular no domínio da habitação, ajuda à severidade especial com que é olhado o seu trabalho no domínio das estradas. A TPA, na esteira de uma abertura da imprensa cujo alcance, apesar de ainda limitado, a converteu numa das reformas do consulado do novo Presidente, difundiu em Fevereiro uma reportagem sobre os problemas de construção (infiltração de águas, má qualidade das tubagens, deficiências das redes técnicas, empenamento de paredes, etc.), que proliferam em apartamentos da centralidade do Sequele, periferia de Luanda, construída pelos chineses. Na terminologia angolana, centralidades são vastíssimas urbanizações situadas nos arredores das cidades tradicionais. A do Kilamba-Kiaxi (KK), igualmente situada na área metropolitana da capital, mas esta ainda mais gigantesca que a do Sequele, padece dos mesmos problemas, acrescidos de outros. As inundações provocadas pelas chuvas de Março último, em particular na segunda fase da centralidade, conhecida por KK5000, foram atribuídas a falta de infra-estruturas para escoamento das águas pluviais ou, simplesmente, ao facto de não terem funcionado as bombas de um sistema de drenagem. Ainda permanece na memória colectiva a má sorte do Hospital Geral de Luanda, ou dos Cajueiros, demolido em 2010, quatro anos depois de ter sido inaugurado. Foi construído pela empresa chinesa COVEC. A causa determinante do ingrato destino que lhe estava reservado foi a falta de consistência das suas fundações. Não tardou começarem a aparecer fissuras nas paredes de todo o edifício, daí advindo consequências como a inutilização do sistema de ar condicionado. A apreciação negativa, por vezes desdenhosa, a que a qualidade das obras dos chineses dá azo na sociedade angolana, incluindo nas próprias elites, manifesta-se de muitas maneiras. Desde o surgimento de um anedotário popular inspirado no tema, até à exclusão a que os chineses são previamente votados quando um particular trata de encontrar empreiteiro para uma obra. Em condições de à vontade ou intimidade, quando alguém se quer ironicamente superiorizar a outro com quem está em conversa, diz que a sua casa foi consO grande pecado da China em Angola Por Xavier de Figueiredo truída por portugueses, enquanto a do outro foi por chineses. Aos problemas já visíveis nas obras de empreiteiros chineses juntam-se outros, apresentados como os que estão para vir no futuro. É uma referência aos altos prédios por eles construídos na própria cidade de Luanda. Diz-se que a diminuta ocupação de muitos deles (considerados proibitivos os preços dos apartamentos) tende a dar origem a lacunas de conservação capazes de virem a afectar a estrutura dos próprios edifícios. Caminhos de Ferro No princípio de 2013 o Governo encomendou à General Electric (GE) 100 locomotivas diesel destinadas aos três caminhos de ferro nacionais – Caminho de Ferro de Luanda, CFL; Caminho de Ferro de Benguela, CFB; Caminho de Ferro de Moçâmedes, CFM. A encomenda, no valor de mais de 400 milhões de dólares, foi a solução encontrada pelas autoridades para atender a uma emergência: as máquinas originalmente fornecidas pela China não tinham força, conforme queixume corrente entre os maquinistas. No entanto, quatro anos depois de terem começado a ser utilizadas, as locomotivas norte-americanas só permitiram parcialmente permitiram resolver os problemas que afectavam a operacionalidade das vias. A sua superior potência pouco pôde ante deficiências que as vias e o seu traçado apresentam. No troço ascendente do CFM (da Bibala em diante) as máquinas chinesas não ultrapassavam 30 Km/h (deveriam atingir 100 km/h), mas as GE também não rendem muito mais devido a problemas técnicos e de segurança da via. As travessas em que os carris assentam quebram-se de forma considerada anormal devido a uma constatada desproporção na mistura de areia e do cimento de que são feitas. No período colonial dava-se preferência às travessas metálicas ou de madeira maciça, por se ter concluído que eram mais resistentes. Na reconstrução das vias não se teve em conta que em certos pontos, o seu traçado deveria ter sido alterado de modo a permitir que as novas máquinas, mais potentes que as antigas “Garrat” do tempo colonial rendessem o que delas se esperava. Além dos problemas estruturais de concepção e construção das vias, a que se juntam os de carácter técnico representados pela desadequação do material circulante de fabrico chinês, as baixas taxas de operacionalidade das três vias (no CFB apenas 20% dos valores do tempo colonial), também são devidas a factores de organização, entre os quais a carência de pessoal especializado, problema remetido para um alegado não cumprimento por parte dos chineses de obrigações de formação e valorização profissional destinados a angolanos. A lacuna é colmatada com o emprego de trabalhadores chineses. Os efeitos negativos da carência e/ ou impreparação do pessoal também se fazem sentir na manutenção da própria via e nas 151 estações construídas de raiz, muitas delas consideradas sobredimensionadas; algumas não estão equipadas ou encontram-se fechadas e a degradar-se. Em muitas, como a do Huambo, chama a atenção a traça tipicamente chinesa da sua arquitectura. Por via directa das baixas taxas de operacionalidade de todas as vias férreas (uma viagem Luanda-Malanje leva 12 horas, quando o normal seria 5), a sua exploração vem acumulando volumosos défices, patentes no facto de as receitas nem sequer cobrirem os salários. No ambiente de contração orçamental em que o Estado se encontra, a solução parece ser a privatização parcial dos três caminhos de ferro, de preferência a favor de parceiros internacionais ou regionais que também assegurem a sua gestão. As obras de reabilitação das três vias férreas e o reequipamento de cada uma das companhias concessionárias, em que terão sido investidos USD 3B, foram financiados pela China, através do CIF-China International Fund, uma das mais opacas entidades chinesas envolvidas em negócios com Angola. Como condição, as empreitadas foram todas levadas a cabo por empresas chinesas, empregando maioritariamente pessoal chinês, e o material circulante teria de ser também de fabrico chinês. Os problemas gerais que as três vias apresentam e para os quais é remetida a causa principal do seu subaproveitamento são atribuídos a uma duvidosa qualidade das obras de reabilitação, não fiscalizadas, bem como para a deficiente manutenção das vias por parte dessas mesmas empresas (outra obrigação contratual do financiamento), com base em contratos anuais com um valor médio de USD 60 milhões. A entrega à China da reabilitação de todos os caminhos de ferro nacionais é considerada desavisada em meios com conhecimento do assunto. Dois dos principais fracassos técnicos da China em África no campo da construção, foram no plano ferroviário. Um, o Tazara, que ainda na década de sessenta ligou países encravados, como a Zâmbia, ao porto de Dar-es-Salam, na Tanzânia, de modo a pôr termo à dependência em que se encontravam em relação aos portos da África do Sul. O outro, já no presente século, a via de 650 quilómetros que no Gabão liga as minas de ferro de Belinga a Port Gentil. Realidade antiga Em 2007, estavam os chineses a entrar em força no mercado da construção e das obras públicas, um engenheiro de uma empresa portuguesa então muito pujante em Angola, a Soares da Costa, alertava numa conversa informal para a duvidosa qualidade das obras de construção dos chineses, naquele tempo ainda circunscritas a edifícios – públicos e privados. As técnicas de construção que usavam, os acelerados ritmos de construção das obras e a má qualidade dos materiais usados, que considerava incompatíveis com o clima local, haveriam de vir a gerar problemas futuros. Se, como parece, nada há a apontar de depreciativo à engenharia civil chinesa (as suas cidades e as suas auto-estradas não apresentam ruindades com as que se observam em Angola e noutros países africanos), nem dar por bom que técnicos chineses não tenham verificado que a qualidade dos materiais aplicados nas suas obras em Angola, em larga maioria importados da China – então o que explica imperfeições que acerca do seu trabalho se contam como construir uma estrada com base numa camada inferior de terra compactada e depois, sobreposta, uma outra de asfalto betuminoso, apenas se fazendo o espalhamento de um viscoso líquido preto entre ambas? Na “reconstrução da reconstrução” de estradas agora em curso, incluindo em troços de extensão considerável da que liga Luanda ao Huambo, nota-se que os chineses (são outra vez eles os empreiteiros) espalham agora uma camada de brita entre a terra batida e o asfalto e estão finalmente a construir valetas de drenagem de águas pluviais nas suas bermas, também inexistentes na versão anterior. Na busca de explicações para o facto de não se ter procedido antes conforme as boas técnicas mandam, é a uma que geralmente se chega: a diferença que deve ter havido entre o custo real das obras e os valores, mais elevados, pelas quais foram adjudicadas, serviu a corrupção. A inexistência de fiscalização facilitou “a tarefa”. No centro de Luanda há dois grandes edifícios cujos empreiteiros foram empresas chinesas. As sedes do antigo BESA (Banco Espírito Santo Angola) e a do Instituto Nacional de Segurança Social, no Eixo Viário. Não consta que qualquer dos edifícios apresente problemas de construção. É assim, diz-se correntemente, porque as obras foram fiscalizadas, não apenas pelos seus donos, como pelas empresas às quais foram directamente adjudicadas (a Soares da Costa, no caso do BESA), subcontratando a seguir construtoras chinesas para as executar. Especula-se também que aquilo que correu mal nas obras a cargo de empresas chinesas não foi estranho a desígnios políticos e propagandísticos do Governo que consistiam na conveniência de “apresentar rapidamente serviço” em matéria de desenvolvimento do país. Mais importante que a qualidade das obras, era apresentá-las já prontas dentro dos prazos ou mesmo antes do seu termo. Seria um mal menor se a sua qualidade não fosse a melhor por inobservância de requisitos técnicos como a falta da camada de brita ou ausência de valetas nas estradas. Má imagem Para além da má qualidade das suas obras de construção e de coisas também antigas como a concorrência directa em que entraram com os angolanos comuns ao dedicarem-se a pequenos negócios ambulantes, a imagem dos chineses em Angola, também passou a não ser favorecida por realidades novas da sua presença, igualmente mal vistas pela população. Por efeito do estado de quase paralisia em que a construção foi caindo, devido à crise, os muitos milhares de chineses que constituíam a principal força de trabalho no sector, foram ficando desocupados. Cavadores de enxada, operários especializados, engenheiros, todos foram atingidos. A quantidade obras inacabadas, de todo o tripo, que agora se encontram simplesmente paradas em todo o país, incluindo prédios de grande porte em Luanda, dá uma ideia do que foi a razia. Os chineses que decidiram ficar, não seguindo os 250.000 que se estima terem feito o “torna-viagem”, dedicam-se agora a outras actividades. Não há estimativas fiáveis quanto ao número dos que ficaram devido ao facto de também não haver estimativas fidedignas em relação à grandeza que a comunidade atingiu no “boom” da construção. Os números variam entre 300.000 e 700.000, mas conhecem-se outros, ainda mais empolados. As novas actividades em que se lançaram aqueles que permaneceram são quase todas motivo de reservas ou objecções da sociedade que não abonam a favor dos próprios. A começar pelos casinos que abriram (ao longo da Via Expresso há muitos) e acerca de cuja actividade circulam mirabolantes histórias. A mais inofensiva de todas as histórias é a de que os casinos são utilizados para, entre outras práticas especulativas, provavelmente ilegais, açambarcar as escassas divisas que hoje em dia circulam no país. No rol das novas vidas abraçadas pelos chineses no pós-construção figuram também negócios como estações de serviço para automóveis, lugares de vendas de peças e roupas contrafeitas, armazéns de varejo em que tudo se vende e em cujos fundos vive a família que é dona da casa. Até os gabinetes de massagens, nalguns dos quais se diz que também se praticam determinadas intimidades, mas com base em critérios de selecção de clientes que excluem os angolanos. A má imagem dos chineses em Angola e na África em geral também não é estranha à repercussão pública de condutas consideradas impróprias a que se dedicam. O abate clandestino de árvores, seguido do contrabando dos toros para a China. A mineração não licenciada. A exploração de trabalhadores locais (salários mais baixos) agravada por O novo Hospital Geral de Luanda, construído no mesmo local onde existiu o anterior, demolido devido a graves defeitos de construção. Savana 11-05-2018
PUBLICIDADE 16 Savana 11-05-2018 NO CENTRO DO FURACÃO pital Geral de Luanda foi sempre atribuído por eles à falta de qualidade dos trabalhadores angolanos. Ante constantes advertências das empresas chinesas de que não poderiam respeitar prazos de execução contratados se dependessem de mão-de-obra angolana, as autoridades fecharam sempre os olhos à norma dos 30/70%. Quem verdadeiramente lidava com os chineses para assuntos que iam desde a negociação de linhas de crédito até à adjudicação de empreendimentos que as mesmas se destinavam a financiar, era o chamado Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN) instalado no primeiro edifício de grande porte erguido em Luanda pelos chineses. O presidente do GRN era o general Manuel Vieira Dias “Kopelipa”, chefe da Casa Militar do Presidente. Os ministérios, mesmo aqueles em cuja jurisdição caem as obras públicas não eram inteiramente postos ao corrente dos contratos com empresas chinesas. Acontecia, até, que as levas de chineses procedentes da China com destino às obras de construção, eram acolhidos por pessoal do GRN. A seguir, transportados em autocarros da Casa Militar para os seus destinos. Ainda se vêem em Luanda talhões murados, guarnecidos de guaritas e lá dentro as camaratas dos chineses. Em fins de 2015 foi preso na China, sob acusação de corrupção, um “magnata”, Sam Pa (nome fictício, pelo qual era usualmente conhecido). Quase ao mesmo tempo foi detido Su Shulin, ex-presidente da petrolífera Sinopec (antes, coercivamente afastado por corrupção. Não fazia muito tempo, Sam Pa, através de uma das suas muitas empresas, havia constituído, em parceria com a Sinopec e figuras ligadas à elite angolana, uma companhia petrolífera, China Sonangol, para entrar na indústria da prospecção e exploração de petróleo. A prisão de Sam Pa (Xu Jinghua, nome verdadeiro), foi considerada o elemento que faltava conhecer para ligar à corrupção os negócios sino-angolanos, pelo menos alguns deles. Operando com base num grupo, Queensway, sediado em Hong-Kong, e do qual é supostamente dono, apesar de não ter vínculos formais ao mesmo, Sam Pa foi, de longe, o principal intermediário dos negócios entre os dois países. Os seus interesses em Angola, quase sempre envolvendo membros da mais alta elite do regime, são considerados muito mais volumosos do que os instalados no país que aparece a seguir na escala – o Zimbabué. O seu último investimento foi numa fábrica de cerveja, a Lowenda Brewery Company Limited, uma sociedade comercial constituída entre o CIF (China International Fund) e o CIF (Angola) Logistics Company, esta representada por dois indivíduos considerados “testas de ferro”. A inauguração da fábrica, em Outubro de 2014, contou com a presença do então Presidente, José Eduardo dos Santos, que se deixou fotografar ao lado de Sam Pa. A deferência presidencial não pode deixar de ter sido influenciada por coisas como o facto de os principais parceiros angolanos de Sam Pa serem três figuras de primeiro plano do círculo presidencial – Manuel Vicente, Vieira Dias “Kopelipa” e Leopoldido do Nascimento “Dino”, todos presentes na inauguração. O passaporte angolano a certa altura concedido a Sam Pa, no qual é identificado com um nome aportuguesado, foi devido a uma intercessão directa de JES. Foco de descontentamento A enorme embaixada da China em Luanda está cheia de gente dos seus serviços de informações. Tendo em conta aquilo que é a sua missão, recolher informação aberta e fechada, verificar a sua consistência e analisá-la, pode-se concluir sem medo de errar que as autoridades chinesas estão a par de um fenómeno presente na sociedade angolana: a corrupção que grassa no país é um dos principais focos de descontentamento, não apenas em estratos sociais médios, mas na gente comum. A aversão à corrupção, acirrada na sociedade angolana pela falta de decoro com que os seus principais beneficiários nacionais ostentam o seu novo-riquismo (um deles mandou construir uma casa que no fundo são dois blocos, cada um deles com a forma das letras iniciais do seu próprio nome), vem de coisas como considerar-se que males capitais como a pobreza e as injustiças; o estado dos hospitais, das escolas e a má qualidade dos serviços prestados pelo Estado, tudo isso é devido à corrupção. Os oficiais de informações na embaixada da China também devem ter verificado que “na ideia” da população angolana a corrupção que grassa no país não é estranha aos dinheiros chineses postos à disposição das autoridades angolanas ou à forma como tem sido feita a sua aplicação. O ónus para o prestígio da China a que isso dá lugar deve ter sido a razão suficiente para uma reapreciação das suas políticas para Angola. A prisão de Sam Pa e de Su Shulin deve ter servido objectivos da política interna chinesa, mas seguramente serviu também como prenúncio de que estavam a chegar ao fim “facilidades” das suas políticas de concessão de créditos e ajudas fomentadoras de corrupção. Da parte do Estado e mesmo das empresas chinesas começaram a notar-se novas preocupações de transparência na celebração e aplicação de acordos ou contratos comerciais e financeiros. E a prontidão com que a China abria os cordões à bolsa passou a ser realidade passada. A consciência crítica que hoje em dia existe em meios da sociedade civil angolana no que toca aos “malefícios” (corrupção e pobreza) que os negócios com a China vinham acarretando para o país, tende a aumentar e a adquirir acrescida capacidade escrutinadora. Terá sido esta a perspectiva que levou a China a arrepiar caminho. A alegada ligeireza de procedimentos que marcou os primórdios da implantação da China em Angola (um caso considerado padrão, a par da Nigéria e do Sudão), é remetida em estudos sobre o assunto para a conveniência que então a moveu de ganhar vantagem concorrencial face aos países ocidentais. As oligarquias políticas locais haveriam de se deixar atrair por perspectivas de enriquecimento implícitas nas condições em que os créditos eram concedidos. O tipo de relações que a China tem mantido com os países africanos (o grau da sua opacidade é proporcional à grandeza de recursos de cada um), também a tem exposto a críticas e pressões internacionais, em geral baseadas em dois argumentos: contribuem para a corrupção e o empobrecimento; constituem concorrência desleal. A autenticidade e eficácia de políticas e planos anti-corrupção lançados nos referidos país, também são prejudicadas pela existência de fontes de dinheiro como as da China. A reconstrução da reconstrução da estrada para o Huambo, conforme jargão local, está a ser feita seguindo técnicas e métodos que os especialistas consideram mais apuradas. E, outro exemplo, é uma construção nitidamente mais sólida o novo Hospital Geral de Luanda, implantado no mesmo local onde esteve o outro que depois de ter começado a partir-se aos bocados acabou por ser demolido. A China dá mostras de estar em Angola para durar. Considera que o país reúne boas condições para o crescimento da sua economia bem como para a sua afirmação como potência global. É uma rica fonte de matérias-primas. A vastidão das suas terras aráveis é o ideal para promover empreendimentos agrícolas que a China e outras partes do mundo já não toleram. Pode tirar partido da sua fraca densidade populacional para deslocar parte dos seus excedentes populacionais. Já se instalou, conquistando uma posição própria. Percebe-se isso na atitude deferente dos responsáveis políticos angolanos em relação à China. Parece estar agora a esforçar-se por melhorar a má imagem que tem na população, advinda de práticas de que se está também a libertar. Troço inicial da estrada Lobito-Luanda (à saída do Lobito). Assinatura do jornal A partir de 01 de Agosto de 2017 DESTINO PERÍODO Trimestral Semestral Anual TODO O PAÍS 1.000,00mt 1.850,00mt 3.500,00mt USD 20,00 USD 35,00 USD 60,00 PAÍSES DA SADC USD 40,00 USD 75,00 USD 130,00 RESTO DO MUNDO USD 50,00 USD 100,00 USD 200,00 Assinatura versao electrónica USD 25,00 USD 40,00 USD 70,00 Cada período é renovável em qualquer altura do ano. Entrega ao domicílio nas Cidades de Maputo, Matola e Beira. Aceitamos propostas para novos agentes, distribuidores e angariadores de assinaturas em todo território nacional. Para mais informação contacte: Miguel Bila, 82 4576190 / 84 0135281 / 87 0135281 (miguel.bila@mediacoop.co.mz, mediafax@mediacoop.co.mz, mediafaxm@gmail.com) Danilo Matsimbe, 82 7356980 / 84 5723175 APBX, 21 327631 / 21 301737 / 82 3171100 / 84 3171100 Fax, 21 302402 / 21 304265 admc@mediacoop.co.mz PUBLICIDADE Savana 11-05-2018 17 ALUGA-SE CONTENTOR DE 20 PÉS PARA MERCEARIA, Localizado na Av. Lurdes Mutola, Magoanine Perto da Paragem Fim do Muro Contactos: 82 8815880/84 0651802 A edição do Jornal de Angola online salientou nesta quinta-feira a vitória do Presidente angolano, João Lourenço, pelo envio do processo do ex-vice-Presidente Manuel Vicente para aquele país. O jornal relembra o processo, afirmando que Manuel Vicente tinha sido acusado em Portugal pelo crime de “corrupção activa” de um magistrado do Ministério Público, Orlando Figueira, que está a agora a ser julgado em Lisboa. “Mas a defesa recorreu, alegando que Manuel Vicente não foi constituído arguido nem notificado da acusação. Além disso, gozava de imunidade pelo facto de ter sido vice-Presidente da República.” Logo a seguir a notícia lembra que “o Presidente João Lourenço tomou a dianteira na defesa da posição de que o processo deveria ser transferido para Angola de modo a que pudesse ser aqui julgado, caso as autoridades angolanas assim o entendessem”. E conclui: “Finalmente, agora, a Justiça portuguesa deu-lhe razão [a João Lourenço].” Também Marcelo Rebelo de Sousa, de visita a Itália, comentou a decisão hoje conhecida. Recorrendo à expressão antes utilizada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, o Presidente da República considerou que com a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa “desaparece o irritante” que existia e “era invocado periodicamente nas relações entre Portugal e Angola”. O Presidente da República foi surpreendido pela notícia em Florença, onde se encontra para participar num debate com o editor do Financial Times para a Europa, Tony Barber, no âmbito da conferência The State of the Union organizada pelo Instituto Universitário Europeu. “Está a comunicar-me uma informação que eu não tinha. Se for assim, se quem tem poder de decidir, decidiu isso, significa que há uma transferência. Se for esse o caso, desaparece o irritante”, observou Marcelo Rebelo de Sousa. Para o Presidente da República portuguesa, embora tratando-se de “um ponto menor”, o processo em curso na justiça portuguesa em que o ex-vice-Presidente angolano, Manuel Vicente, é suspeito de corrupção activa e lavagem de dinheiro, era um estorvo para as relações bilaterais, de tal forma que era “invocado periodicamente nas Caso Manuel Vicente Jornal de Angola “festeja” vitória do... Presidente angolano
relações Portugal-Angola”. O ministro da Defesa prepara uma visita a Angola dentro de duas semanas e, ao que o PÚBLICO confirmou, o Governo está confiante que esta deslocação se concretize mesmo. Ultrapassado esse constrangimento, os países poderão retomar as suas relações, acredita Marcelo. “Eu sempre achei que os dois países estavam vocacionados a encontrarem-se. Espero que assim aconteça e que nós possamos fazer, em conjunto, um percurso que é importante para o povo angolano e o povo português”, afirmou. O primeiro-ministro, por sua vez, afirmou que ficou feliz com a decisão judicial de transferir para Angola o processo Manuel Vicente. Também ele recorreu à expressão usada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros português, considerando que desapareceu o único factor “irritante” nas relações luso-angolanas. Numa declaração à agência Lusa, António Costa disse que a decisão “é a demonstração de que vale a pena confiar no regular funcionamento das instituições judiciais para assegurar a boa aplicação da lei”. “Fico feliz que o único ‘irritante’ que existia nas relações entre Portugal e Angola desapareça”, acrescentou. Esta decisão do tribunal é conhecida quando está a ser preparada uma visita oficial do ministro Defesa português, Azeredo Lopes, a Angola. Será a primeira visita de um governante português àquele país depois de, em Fevereiro do ano passado, a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, ter cancelado à última hora uma visita a Luanda, devido à tensão entre os dois países. “Não havia condições”, argumentou na altura o lado angolano. A visita de Azeredo Lopes, que deverá ocorrer dentro de duas semanas, é vista pelo Governo luso como “um sinal de boa vontade” por parte de Angola, uma vez que acontece depois de o regime de João Lourenço ter “congelado” as relações diplomáticas com Lisboa. Quarta-feira, Azeredo Lopes afirmou que as relações com Angola no domínio da Defesa são “excelentes” e disse que aquele país representa um parceiro importante, “muito antigo e muito amigo” na projecção externa da Defesa Nacional. Questionado sobre se as relações com Angola na área da Defesa se ressentiram ou esfriaram, Azeredo Lopes respondeu que nunca sentiu “esfriar nenhum”. “Sinto uma excelente temperatura, nunca senti esfriar nenhum. As relações na área da Defesa estão a desenvolver-se muito bem e de forma muito saudável e espero, tenho a certeza, de que assim vai continuar a ser”, declarou, citado pela Lusa. INTERNACIONAL OPINIÃO 18 Savana 11-05-2018 EDITORIAL Registado sob número 007/RRA/DNI/93 Propriedade da Maputo-República de Moçambique NUIT: 400109001 KOk NAM Director Emérito Conselho de Administração: Fernando B. de Lima (presidente) e Naita Ussene Direcção, Redacção e Administração: AV. Amílcar Cabral nr.1049 cp 73 Telefones: (+258)21301737,823171100, 843171100 Editor: Fernando Gonçalves editorsav@mediacoop.co.mz Editor Executivo: Francisco Carmona (franciscocarmona@mediacoop.co.mz) Redacção: Raúl Senda, Abdul Sulemane, Argunaldo Nhampossa, Armando Nhantumbo e Abílio Maolela )RWRJUDÀD Naita Ussene (editor) e Ilec Vilanculos Colaboradores Permanentes: Fernando Manuel, Fernando Lima, António Cabrita, Carlos Serra, Ivone Soares, Luis Guevane, João Mosca, Paulo Mubalo (Desporto). Colaboradores: André Catueira (Manica) Aunício Silva (Nampula) Eugénio Arão (Inhambane) António Munaíta (Zambézia) Maquetização: Auscêncio Machavane e Hermenegildo Timana. 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Na verdade, consta que o empoleirado na esposa também influía na filtragem dos nomes dos candidatos ao Nobel – impondo o seu voto por delegação -, o que minou o crédito da Academia, mais habituada ao recato melancólico das esposas dos membros da Academia. «Sou levado na sombra/ como um violino/ no seu estojo negro», escreveu Tomas Transtromer, o último grande poeta laureado, e por acaso sueco. Não sabemos se este violino ocultado na sombra já aludia a Arnault, mas no caso do poeta sueco o estojo transportava uma espessa substância lírica. Porém, este ano o estojo do Nobel está vazio, por causa do tanto que vazou Arnault, à esquerda e à direita. Falo dos zunzuns em que era especialista e que matavam sempre a confidencialidade do prémio (- contava às amantes, que depois contavam ao porteiro do prédio, etc.) Em relação ao Nobel, temos de perguntar como o fazia Rilke ao jovem poeta a quem, endereçou cartas: morre a literatura se não houver o Nobel (- o poeta alemão perguntava ao seu destinatário se ele morria, caso não escrevesse poemas, sugerindo que se assim não fosse ele deixasse de escrever porque nenhum poeta brota da presunção mas sim duma necessidade interior, vital e inescapável)? Qual o peso específico do Nobel na manutenção do capital simbólico que a literatura, talvez, ainda represente? E é relevante o seu papel, em relação à literatura, ou ao comércio de uma parte dela? Em Moçambique é indiferente, percorrendo as livrarias não se encontrará os nobéis dos últimos trinta anos – apenas um ou outro, residual. E talvez não fosse mau este cenário mudar, para os jovens candidatos a escritor medirem o fosso entre a sua vaidade e aquilo que literatura pode proporcionar. Na escolha dos últimos premiados notava-se ter havido um pequeno desvio ao paradigma do prémio, inflectindo para uma maior aproximação ao “mercado” e à ”cultura de massas”. Era uma espécie de “literatura à Hollywood”.   Daí que os critérios que premeiam a Física, ou a Matemática, por exemplo, não tenham sido reproduzidos na Literatura. Aí premeiam-se investigadores de ponta, gente que experimenta e arrisca “cegamente”, como é próprio da ciência. Na literatura têm-se escolhido vozes em concordância com o “mercado”, que oferecem  segurança,  escritores de qualidade mas que conduzem com  airbag. Patrick Modiano, Bob Dylan ou Kazuo Ishiguro, são bons, mas decididamente não tanto. Alguma vez a algum génio foi dado um Nobel – a um «génio sem espinhas»? Vejamos quatro exemplos: Pessoa e Henri Michaux, Borges ou Ezra Pound. Não lhes emprestaram a bola de ouro. Embora fossem avessos às agremiações literárias que tornam a coisa possível. Mas não dramatizemos. Para o meu gosto, a poesia não tem estado mal servida nos Prémios Nobel. Se ao irlandês Seamus Heaney eu preferia o britânico Ted Hughes, a poesia do primeiro atinge um nível altíssimo na tradição que representa. E não tenho dúvidas, tanto o polaco Czeslaw Milozs, como o mexicano Octavio Paz (que se tem de ver como um todo e não unicamente como fazedor de versos), o russo Joseph Brodsky ou o poeta da Trinidad, Derek Walcott, cada um no seu género, são poetas que roçam o “génio”, no sentido em que todos atingiram picos altíssimos no sistema das suas cordilheiras. O Derek Walcott, por exemplo, que nem teve direito a tradução em Portugal, provavelmente por ser negro, nem em Moçambique, suponho que por não ser moçambicano, é um poeta extraordinário, capaz de ímpeto, improviso e arquitectura, isto é, capaz de embarcar no mais puro beat jazzístico como na cadência clássica. Ainda por cima, é igualmente um dramaturgo de monta. «Ao longe no caminho, avisto o Poder./ Tal e qual uma cebola,/ os malabarismos do seu rosto/ a caírem um após o outro.», escreveu, entretanto, Transtromer e é extraordinário como de forma tão simples fala da nossa tumultuada época, afinal de todas. Mas mais da nossa. E é tão universal isto – piscadela de olho ao leitor. Era esta a função do Nobel, fazer-nos confiar que existia uma Academia que premeia os melhores e não os que mais vendem ou os que são bons a fornecer entretenimento. Dado que o entretenimento é uma das funções da literatura mas não de todo a única. O Nobel era uma espécie de Realeza Republicana que nos apresentava um modelo de excelência. Esperemos que com este ano de jejum corrija a rota. Quem não espreitará este ano o vestidinho decotado da Glória do Nobel, uma moça como se sabe com predicados, é o meu amigo Zetho Gonçalves, poeta angolano, que se tinha anunciado no FB como candidato ao Nobel deste ano. Nem neste nem nos próximos. Sabem porquê? É misteriosamente a cara chapada de Arnault – podiam ser gémeos ou sósias. Camarada Zetho, roga ao teu sócio para fazer uma operação plástica, senão serás sempre vetado por antipatia! Do Nobel, sem pruridos Espere, tire uma com o meu celular, também! T erá sido por ironia do destino, que Afonso Dhlakama, que sempre se proclamou de “Pai da Democracia”, perdeu a vida exactamente no mesmo dia em que o mundo inteiro comemorava um dos mais importantes pilares de qualquer sistema democrático; a Liberdade de Imprensa. Nos vários eventos que decorreram por todo o país, para marcar o dia 3 de Maio, a nenhum dos participantes teria passado a premonição de ao fim do dia ter de ser informado da triste notícia sobre a morte do líder da Renamo. Foi um acontecimento que colheu muita gente de surpresa, incluindo a maioria dos membros e simpatizantes da Renamo. Foi o virar de uma página, o surgimento de uma nova era na história de Moçambique e da Renamo, em particular. Dhlakama foi mais do que um guerrilheiro e líder do maior partido da oposição em Moçambique. Ainda que com um percurso de certo modo controverso, Dhlakama deixa uma marca indelével na turbulenta história deste país, que não obstante todos os esforços, continua ainda à procura de uma paz definitiva, para cuja busca o homem nascido em Mangunde, a 1 de Janeiro de 1953, era peça fundamental. Dhlakama deixa um vazio dentro da Renamo, mas também será lembrado pelos moçambicanos pela sua incansável dedicação à luta pela implantação da democracia multipartidária em Moçambique. Não existe uma clara descrição das circunstâncias em que Dhlakama se viu envolvido nas actividades da Renamo, quando esta era ainda conhecida pela sua designação inicial de Movimento Nacional de Resistência (MNR). Sabe-se apenas que ele terá assumido a liderança da organização em 1979, na sequência da morte do seu primeiro comandante, André Matsangaissa, antes de em 1983 ser proclamado presidente, durante o primeiro congresso do movimento. Mesmo assumindo que as suas origens estiveram centradas nas questões geoestratégicas que na época dominavam na África Austral, é necessário reconhecer que foi mérito de Dhlakama ter conseguido transformar a Renamo na poderosa força de guerrilha que anos mais tarde viria a obrigar o governo da Frelimo a aceitar a inevitabilidade de uma solução negociada para acabar com a guerra em Moçambique. Antes, a Renamo passara por uma série de metamorfoses que incluíram ter de se definir como uma força interna moçambicana, empenhada em lutar pela implantação da democracia multipartidária no país, muito a contragosto de sectores que estavam apostados em usá-la como um instrumento ao serviço de interesses neocoloniais. De facto, círculos ligados a alguns antigos colonos portugueses em Moçambique teriam visto na Renamo o veículo privilegiado para a recuperação de propriedades e interesses económicos perdidos depois da proclamação da independência nacional, em 1975. Só esta redefinição ideológica viria a tornar possíveis as negociações que culminariam com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) no dia 4 de Outubro de 1992, em Roma. A expectativa era que este acordo abrisse uma nova era de reconciliação, reconstrução e desenvolvimento em Moçambique, num quadro em que a Renamo se transformaria de uma força de guerrilha, ancorada em estratégias militares para a obtenção de objectivos políticos, para uma organização política apostada em provar o enraizamento da sua ideologia junto da maioria do eleitorado moçambicano. Mas o que se pensava que seria produto de duas assinaturas mágicas viria provar ser uma missão difícil. Apesar de possuir uma estrutura política que com distinção tem desempenhado o seu papel de oposição ao nível do parlamento e de líder em algumas assembleias provinciais, a Renamo continua essencialmente a ser uma organização que se funda numa doutrina militar. Depois de cinco eleições multipartidárias, a Renamo continua ainda a reivindicar que a fraude a tem impedido de formar governo ou de obter maioria no parlamento. E, alegando que a legislação eleitoral não correspondia a fundamentos democráticos, boicotou as primeiras eleições autárquicas em 1998, e depois as últimas em 2013, e de forma contínua, sempre com a ameaça do recurso ao uso da força para impor a sua visão de um Estado democrático. Ao boicotar as duas eleições autárquicas, a Renamo poder ter desperdiçado oportunidades para conferir maior experiência de governação aos seus quadros, para além de lhes ter vedado acesso a recursos que contribuiriam para o melhoramento das suas condições sociais. Provavelmente ciente desta realidade, viria a Renamo a contestar o município de Nampula, na intercalar ganha pelo seu candidato em Março último. Dhlakama era um homem de fortes e profundas convicções, das quais não se demovia facilmente. Mas seria injusto caracterizá-lo como um radical ou irrazoável. Depois de insistir, por muito tempo, que a solução para o impasse resultante das eleições de 2014 passava por a Renamo governar as seis províncias onde reivindicava ter obtido a maioria, acabaria por aceitar que tal não era algo que se pudesse alcançar à margem da Constituição. Concordou dar mais uma oportunidade ao diálogo e mandou suspender todas as confrontações militares. Não foi a tempo de ver o fruto do seu sacrifício, mas a melhor homenagem que os seus sucessores lhe poderão prestar é manterem-se firmes neste projecto inacabado de construção de uma paz duradoura, de uma reconciliação genuína e de uma democracia onde ninguém se deve sentir excluído por pensar diferente. Afonso Dhlakama (1953-2018): O General de Mangunde OPINIÃO Savana 11-05-2018 19 579 Email: carlosserra_maputo@yahoo.com Portal: http://oficinadesociologia.blogspot.com A morte do líder da Renamo Afonso Dhlakama representa um enorme revés para as dinâmicas internas do partido Frelimo. Isto mesmo. Sem nenhuma intenção de santificar a imagem e as acções do líder da Renamo, que de santo até nada tinha, a Renamo, sob a liderança de Afonso Dhlakama, foi o principal factor externo catalizador de profundas transformações de carácter político dentro do partido Frelimo, que tiveram consequências no estado moçambicano, pós-independência. Na verdade, Dhlakama foi para a Frelimo, uma faca de dois gumes. Enquanto que, por um lado, o seu discurso e a acção belicistas causaram mudanças positivas dentro da Frelimo, por outro lado, também justificaram a permanência na estrutura de liderança da Frelimo da chamada corrente histórica conservadora, corrente esta, profundamente atrelada à ideais igualmente belicistas e monopartidários. E agora Frelimo? Vencido o colonialismo português, pouco habituada a ser confrontada, aberta e pacificamente, sem essas ditas necessárias transformações, a Frelimo talvez não se tivesse adequado, atempadamente, às dinâmicas sócio-políticas, económicas e culturais da sociedade moçambicana, que a permitiram responder a algumas exigências dessa mesma sociedade e não só. São essas transformações de ordem política forçadas, fundamentalmente, por fora, que tem provavelmente garantido sua actualidade e consequente permanência no poder. Nesta lógica, com o desaparecimento físico de Afonso Dhlakama e um consequente potencial enfraquecimento da Renamo, mais do que a sociedade moçambicana, no geral, e a Renamo em particular, pode-se considerar que a maior desgraça recai mesmo sobre a própria Frelimo. É irrefutável que, internamente, foi a força da Renamo, liderada por Afonso Dhlakama, obviamente, também associada às dinâmicas do contexto regional e global, que obrigou à Frelimo, por exemplo, ao abandono oficial do modelo de partido único, dando assim espaço para a democracia multipartidária, para a uma relativa liberdade de imprensa, de expressão, de movimento, de associação e de outras liberdades que permitiram que as suas políticas e do estado moçambicano estivessem hoje em relativa consonância com os anseios de grande parte da população. Nós todos também sabemos que foi a mesma força da Renamo, sob a liderança de Dhlakama, que forçou à Frelimo à mudança de abordagem e ao reconhecimento do poder local, hoje um dos grandes elementos da sua própria reprodução e sustentação, em tanto que força política, nas zonas rurais do país. Por exemplo, hoje, os líderes tradicionais são convidados especiais às cerimónias locais quer do partido quer do Estado. O mesmo se pode referir sobre a liberdade de religião, factor que possibilitou a transformação de algumas igrejas, outrora não bem vistas no contexto da revolução, em locais de culto político do próprio partido Frelimo, principalmente, em momentos de campanha eleitoral. Com a morte de Dhlakama, a Frelimo perde o principal termómetro de uma população, que por receio real à represália, tinha em Afonso Dhlakama seu destemido alto-falante. Era Dhlakama quem expressava as vontades e o pensamento que as camadas mais marginalizadas da sociedade assim como alguns intelectuais críticos, até de dentro da própria Frelimo, não se sentiam seguros em, se sequer, suspirar. Isto possibilitava, até então, que a Frelimo estivesse a par do que ia, verdadeiramente, na alma do povo que ela própria governa. A Frelimo perde o pretexto externo que justificava a condução de debates internos de alguns temas considerados verdadeiramente incómodos, principalmente para as chamadas correntes conservadoras, como o tema da despartidarização do Estado e do aprofundamento da descentralização em Moçambique. Aliás, foi necessário recorrer à força das armas para levar estes temas para o centro do debate político em Moçambique, agora em curso. É verdade que a Frelimo também ganha. Com o potencial fim do discurso e da acção belicistas, eternos cavalos de batalha de Dhlakama, para obtenção de concessões políticas, tornam-se irrelevantes as correntes belicistas de dentro do próprio partido Frelimo, o que para o seu próprio bem, passa a ser relativamente fácil expurgar-se dos indivíduos pertencentes à essas correntes. Só para aqui recordar, foi também sob o pretexto de se defender do belicismo dhlakamista que se contraiu a dívida oculta, em relação a qual, esclarecimento cabal pode levar à profundas divisões internas no seio do partido no poder. Arisco-me até a avançar que, a acção de Dhlakama pode ter influenciado o modelo de liderança que o partido Frelimo adoptou pós-Machel. Deve ter sido em resposta às acções de Dhlakama e da Renamo que a Frelimo percebeu que depois de Samora Machel ela devia apostar numa liderança como a de Joaquim Chissano relativamente mais convidativa ao diálogo com a oposição, quer interna, quer internacional, abandonando, desta forma, um modelo de governação há muito desajustado às duas realidades. Como consequência, Moçambique abriu-se ao mundo e a si próprio. E foi, muito provavelmente, esta mesma lógica que deve ter levado a que, depois do modelo de governação guebuziano, mais orientado ao afunilamento do espaço político ao exercício da aposição e a favor do controle crescente do estado pelo partido no poder, a Frelimo apostasse numa liderança como a do Presidente Filipe Nyusi que pudesse dar lugar ao diálogo como mecanismo de busca da paz efectiva para o país. Isto tudo foi reacção à acção de Dhlakama. E agora, o que esperar do futuro de uma Frelimo sem a sua maior, mais teimosa, e muitas vezes incómoda liderança externa? Qual será a resposta da Frelimo a esta perda? Irá ela fechar-se ainda mais, ou abrir-se-á às dinâmicas históricas e aos anseios do seu povo? E num hipotético contexto não belicista, como é que a Frelimo passará a captar e a acomodar as demandas dos moçambicanos? E qual será o futuro das correntes conservadoras internas que sobreviviam do medo que Dhlakama, em vida, representava? Descanse em Paz Dhlakama: meus pêsames a Frelimo Por Fredson Guilengue D epois da vertigem e das incidências do acto de casamento, decidimos passar o primeiro dia de solidão e tranquilidade em casa, sem necessidade de acordo prévio, cada um entregue ao que lhe deu para fazer naquele dia. Enquanto ele se entretinha implicando-se na sala a curtir a sua ressaca e a bebericar aos goles os restos do que tinha sido o regabofe, multiplicando-se em chamadas para chalacear com os amigos, eu entregava-me de corpo e alma à realização de um sonho que acalentava há muito tempo: o de aconchegar as peças de roupa que tinha coleccionado ao longo daquelas décadas, para oferecer como herança, na altura própria, às minhas filhas. Estava a aconchegar tudo no baú que me tinha calhado como prenda de casamento – na verdade, para mim, a maior de entre todas as prendas, e explico porquê. Muita gente ficou a pensar que a maior prenda seria o casamento, ele próprio, por algumas razões simples: o casamento aconteceu no dia 16 de junho de 2001, era um sábado, e naquele sábado eu celebrava os meus 45 anos de idade; por outro lado, naquele ano, não precisamente naquela data, passavam-se 35 anos de vida em comum, sem que isso tivesse sido registado oficialmente. Poderia, portanto, pensar-se que o facto de me casar naquele dia com um homem com quem tinha vivido tanto tempo em regime de união de facto e com o qual já tinha sete filhos era uma prenda que ele tinha decidido oferecer-me. Na verdade não era isso. Era uma conquista mútua, resultante de várias discussões ao longo daqueles anos todos, nem sempre muito pacíficas. Mas, como digo, a maior prenda – e para isso tive que perder um pouco o descaramento com os padrinhos para manifestar a minha vontade – era aquela mala enorme de jambirre, com um fecho banhado em ouro. Naquela segunda-feira, 18 de junho de 2001, decidi passar o dia a arrumar nela todas as capulanas, lenços e roupa básica de cama que tinha coleccionado. Como já tinha programado, arrumei as peças em três camadas diferentes, sendo a do mais fundo destinada à filha mais nova. Sobre aquela camada coloquei o nome dela, para que não restassem duvidas: Débora. Coloquei a segunda camada, e em cima dela o nome da segunda filha: Morgana. E, por fim, a última camada, por cima da qual também coloquei o registo: Clarabela. Os homens não me preocupavam. Isso caberia a eles. Era um pouco de sacanice, mas era com boas intenções. Quando terminei a tarefa, pus por cima de tudo aquilo o tabuleiro que vinha como cobertura superior da mala e nele coloquei as minhas pequenas bugigangas pessoais, objectos de adorno, na maior parte deles de fantasia, dourados ou prateados, mas também as jóias que tinham servido para o meu lobolo e as do casamento. Fechei tudo e, tendo trancado o baú com gestos solenes de quem guarda um tesouro inestimável, coloquei a chave num sítio onde eu jurava nunca revelar a ninguém, a não ser em circunstancias extremas. Em último caso, deixaria isso tudo por escrito no testamento, e dei-me por tranquila, realizada e feliz. O Gamito também estava feliz, pelos vistos, embora isso pudesse ser também por efeito das ebulições alcoólicas a que se entregava desde manhã. No fim, não tínhamos motivos para nos queixarmos muito: o casamento tinha corrido simples e maravilhosamente bem, com pouco, mas com muita alegria e amizade, e nem nos queríamos dar ao trabalho de comentar isso naquela segunda-feira. Quando, anos depois, demos por concluída a nossa casa em Tchumene, uma construção de alvenaria modesta de três divisões, sendo dois quartos e uma sala mais ou menos grande, com cozinha e casa de banho fora, decidimos mudar-nos para lá, tanto mais que os apertos de cinto a que a crise económica nos obrigava já aconselhavam a isso. Negociámos o arrendamento da nossa flat no Bairro da Malhangalene, flat que, fosse como fosse, nos deixaria saudades, e cujo abandono depois daqueles anos todos nos traria certamente lágrimas aos olhos por ter sido nela que construímos as nossas vidas e fizemos os nossos filhos. Partimos para a nossa nova residência, mas, como se diz, “gato escaldado, até de água fria tem medo”, e eu tinha ouvido ao longo daquele tempo todo histórias aterrorizantes sobre o clima de insegurança no nosso novo bairro e sobre a apetência pelos roubos que por ali abundava, alimentada pela pobreza e pelo facto de o bairro ser novo e ter muita gente jovem e desempregada. Vinha também em nosso desfavor o facto de, sendo bairro longe do centro da cidade, obrigar-nos a ter que admitir uma empregada, coisa a que sempre resistíramos. Decidi então aferrolhar duplamente o meu baú, não fosse ele objecto de cobiça da empregada ou de alguém acicatado por si, e vivi tranquila, certa de que por ali não haveria de vir dano maior. Até que, um dia, o cheiro persistente a urina, de origem desconhecida, no nosso quarto na nova casa, e um fedor subtil, cuja origem também não conseguíamos distinguir, me levou a remover todo o mobiliário do quarto da sua posição. Fiquei horrorizada! Por debaixo do meu baú descobri pedaços pequenos de tecidos de várias cores e texturas. Movida por um instinto quase sobrenatural, abri o baú, o que me deixou quase derrubada no chão. Dentro dele estava instalada há anos, pelo que me parecia, uma autêntica colónia de ratos – pequenos, grandes, velhos, novos, gordos e magros –, que, ao longos daqueles anos todos em que estávamos a viver na nossa nova casa, em Tchumene, se tinha entretido de modo insolente, vergonhoso e cruel a alimentar-se com tudo o que eram capulanas, lenços, fronhas e lençóis que eu tão ciosamente tinha guardado naquele baú para oferecer um dia como herança. Cleptofobia Uma coleção internacional [2] OPINIÃO 20 Savana 11-05-2018 SACO AZUL Por Luís Guevane A notícia da morte de Afonso Dhlakama deixou os moçambicanos num misto de surpresa e incredulidade. Deste modo, independentemente da orientação política de cada um, deu para perceber, tanto pela imprensa (pública e privada) como pelas conversas de ocasião, que o choque estava patente na voz e no rosto dos moçambicanos. Quanto mais a imprensa internacional passava a notícia da sua morte, mais as pessoas acreditavam no facto ocorrido e reforçavam a sua compreensão sobre a grandeza do “Pai da democracia”. Pelo facto de Dhlakama ter sido o rosto da luta pela democracia, pela liberdade, pelo desacorrentamento do Estado, a notícia, por si só, foi gerando a maior dúvida nisto tudo, ou seja, “e agora, como será? ” Mas, está claro que não foi a primavera que morreu, mas a andorinha que se foi. Há Afonso Dhlakama, um líder carismático um fundo de verdade ao se afirmar, no sentido figurado, que “por morrer uma andorinha não acaba a primavera”. A luta pela democracia e seu crescente aprimoramento continuará. Um novo rosto surgirá. Mas, como é óbvio, está subjacente no íntimo de qualquer moçambicano a “irrepetibilidade”da identidade do líder carismático. E é nesse sentido que, apesar de “óbvio”, fica-se com uma sensação de descontinuidade. Contudo, como essa sensação é efémera, já se fazem contas à figura que irá suceder a Afonso Dhlakama. Sobre a sucessão há, no mínimo, duas correntes: uma que sugere uma figura com uma costela marcadamente militar e, uma outra, que se inclina mais para um sucessor com uma forte fibra política. As sugestões ou mesmo prognósticos valem por si. Assumindo que em vida Dhlakama teria dito, ele próprio, que em caso de necessidade a sua substituição poderia ser feita por uma “figura forte” (que não cedesse a pressões) e que tinha quadros capazes, tudo parece indicar que o seu sucessor poderá vir a ser alguém com uma forte costela militar. Admitindo que ao nível do partido Renamo houve ao longo destas últimas décadas um considerável crescimento político, essa figura que o irá suceder, já tem acoplado em si um determinado peso político. O seu sucessor será, assim, um indivíduo com um self ligado à vida militar e um outro self orientado para a política. Quanto à continuidade das negociações e da construção do processo de entendimento, parece claro que terão de existir mecanismos de defesa que garantam o seu sucesso e que permitam, por isso, uma paz definitiva. Um novo rosto como interlocutor válido não atrapalhará o rumo do processo, a menos que os referidos “mecanismos de defesa” sejam fragilizados por aqueles que rezam para que voltemos a uma situação de conflito político-militar. E esse perigo, esse e outros riscos, existem se olharmos não só para a questão das dívidas ocultas que tardam em ser resolvidas como também para as imagens dos partidos diante da proximidade de pleitos eleitorais que se avizinham. Cá entre nós: esta morte é, em si, um grande capital político que jogará a favor do sucessor e do partido Renamo. É uma espécie de adubo proporcionador da vitória da democracia. Contrariar o poder dessa adubação não deixará de ser equacionado por forças geradoras de conflitos. A democracia perdeu, sem dúvida, um líder carismático (o que é reconhecido por todos os partidos políticos de Moçambique). A história não se esquecerá deste homem. Uma lenda. É assim que uma nova página se abre reforçada na luta pela democracia para que Moçambique seja de todos os moçambicanos. Paz à sua alma. E stamos aqui, em representação dos milhões de  moçambicanos que confiaram na Renamo para ser a sua voz esclarecida e descomprometida em todo o território nacional  exprimindo  a dor  que partilhamos pela inesperada partida de Afonso Dhlakama. Para a sua família, vão as nossas primeiras palavras, de profunda e sentida solidariedade! Sou aqui a Presidente da Juventude da Renamo, a representante da Bancada Parlamentar da Renamo, mas também a sobrinha que expressa publicamente a gratidão ao seu tio querido, por tudo o que me ensinou e pela oportunidade que me deu de defender, junto dos meus concidadãos, as suas ideias e os seus sonhos. Os nossos corações  estão despedaçados  por uma perda que muito nos abala. Todos nós, não mais poderemos conversar com o nosso Presidente Afonso Dhlakama. Sentiremos a falta de ouvir os seus ensinamentos sobre  as  políticas de governação,  sobre  a cultura do Partido e como este pode contribuir para resolver os problemas do nosso Povo.  Parte o guerrilheiro, um general que desde jovem iniciou a luta dos direitos dos povos de África e do Mundo. O general dos generais! Parte um homem que era o escudo intransponível contra as injustiças dos poderosos, aquele que nos protegia dos abusos dos que usam a governação para perpetuar tiranias e privilégios próprios. Inclinamo-nos, eternamente agradecidos, perante aquele que,  até  ao seu último  sopro de vida, sempre  se bateu  com enorme coragem pelos nossos direitos e liberdades, contra os tiranos e os seus exércitos e polícias armados. Não foi em vão a luta do nosso general pelo respeito dos direitos humanos, pelo bem-estar dos povos e pela defesa das nossas riquezas naturais. Parte Afonso Dhlakama, mas fica a herança dos seus  ideais  que são  mais um património que todos os moçambicanos devem preservar! Ideais de um herói e filho do povo que enriquecem a nossa cultura e reforçam a defesa das nossas tradições, dos nossos recursos naturais, contra a destruição da terra e das florestas, em defesa das savanas, das praias, dos lagos e dos rios, da fauna e da flora que dão brilho ao nosso Moçambique. Perdemos o Pai da Democracia Moçambicana, mas ficam os seus ideais para guiar a nossa prática em defesa da liberdade de pensamento e expressão.  As lágrimas que os jovens da Renamo e toda a sociedade vertem são sinal da nossa dor. Mas é grande a determinação da maioria dos jovens, futuros chefes de família e toda a sociedade em transformar essa dor em energia, para lutarmos ainda com mais força pela liberdade e por um futuro melhor! Vamos celebrar  a  vida  de Afonso Dhlakama com o compromisso de prosseguir o caminho de progresso que nos mostrou e cumprir os objectivos da obra que tinha em mãos: consolidar a democracia, promover a justiça social e garantir um futuro melhor para o nosso povo. O Povo  Moçambicano esteve  com Afonso Dhlakama e estará connosco, dando continuidade à luta contra arbitrariedades e tiranias, celebrando a vida humilde mas de bravura, nos campos, nas cidades, nas vilas, nas localidades e nas povoações, crianças e jovens, idosos, homens e mulheres que todos sejam Dhlakama.  Uma vez, o Pai da Democracia disse:  «Eu estou aqui,  não porque quero estar, mas porque quero que todos os moçambicanos se sintam parte de Moçambique.» Essas simples palavras  traduzem  a realidade moçambicana do passado e do presente!  Afonso Dhlakama, com grande cumplicidade e apoio do Povo moçambicano, estava a construir a estrada do nosso futuro. A sua vida deve ser um exemplo para todos nós não importa a idade.  Para os jovens moçambicanos, que são o nosso futuro! A força, a determinação e a coragem que ele nos ensinou a cultivar e a interpretar, têm por base as fortes convicções humanistas e os valores democráticos que sempre orientaram a sua prática política. Nunca se esqueçam de que, mesmo perseguido pelo sistema e  regime vigentes, foi capaz de recusar o conforto e os luxos que lhe ofereciam para lutar pela liberdade. Se  a liberdade  hoje  ecoa em todos os cantos de Moçambique, isso se deve à sua incansável luta.  Um exemplo também para as mulheres moçambicanas, que não devem esquecer que, se a Constituição de Moçambique consagra hoje direitos iguais  a  homens  e mulheres, isso se deve aos Acordos de Roma.  Afonso Dhlakama dedicou toda a sua força e inteligência ao propósito de garantir condições de justiça e igualdade a todas as mulheres jovens e não só, muito sacrificadas pelo sistema e regime vigentes deste 1975. Porque  foi capaz  de  interpretar os sonhos e os desejos dos cidadãos moçambicanos mais maltratados, Dhlakama tem um lugar de primeiro plano na história de Moçambique. Em  1994 realizaram-se  as primeiras eleições democráticas e, apesar de não ter sido empossado formalmente como  Presidente da República,  Afonso Dhlakama foi eleito  Presidente de Moçambique no coração dos mais desfavorecidos, dos mais injustiçados, de todos aqueles que o sistema colocou  –  e  continua a colocar – na periferia da sociedade. O presidente  Afonso  Dhlakama  já não está connosco fisicamente. Mas está bem vivo no coração de todos os moçambicanos! Se temos a liberdade de nos expressar  livremente por todos  os lugares deste nosso belo país a ele o devemos. A sua  presença  carismática, de trato afável, simpática, foi estrutural para impedir a propagação da tirania. Para tal, abdicou de uma  vida própria, dedicando, desde a mocidade, todas as suas horas e energias à causa da nossa liberdade e do nosso progresso como seres humanos.  Moçambicanos, sejam Dhlakama!  Por tudo isto, Afonso Dhlakama é um exemplo para o Povo moçambicano. Ainda recentemente, com a sua determinação e graças a uma estratégia de negociação serena e inteligente,  colocando Moçambique  acima dos seus interesses particulares e partidários, o nosso Presidente  declarou  unilateralmente o cessar fogo ilimitado, permitindo até que o Presidente Filipe Nyusi o fosse visitar à Serra da Gorongosa.  Com  a sua  enorme  experiência política e militar, mostrou-nos como  a violência indirecta mata mais do que a «violência directa». Com as suas contribuições e sugestões políticas, à luz da Constituição da República e respondendo aos anseios de todos os moçambicanos, fez entender ao Presidente Nyusi que o país deveria ficar numa situação firme e segura, mas independente de influências. A Segurança Nacional deve garantir a capacidade do Estado em preservar o modo de vida dos seus cidadãos. Por isso, os Comandos da Renamo, ontem jovens como nós, devem a bem da Nação, ser integrados nas Forças de Defesa e Segurança.  Dhlakama sempre mobilizou o melhor que há em nós.  Parte, mas deixa a sua marca na nova estrutura do Estado  moçambicano,  com a proposta da descentralização incorporada na proposta de Revisão Pontual da Constituição de Moçambique depositada na Assembleia da República.  Desde os Acordos de Roma, celebrados em 1992,  que  Dhlakama  contribuiu conceitualmente para que o Estado e as suas estruturas se moldem e edifiquem na base de novos alicerces democráticos. Pela sua palavra e pelo seu exemplo,  Afonso Dhlakama, na prática, vimos que uniu os Moçambicanos de todas as idades.  A visita do Presidente Nyusi à Serra da Gorongoza é o sinal de ter compreendido que o general Dhlakama era portador de uma mensagem multiculturalista,  homem com  a alma de um ser jovem, superior e aberto para todos. Ele tinha verdadeiramente todos os Moçambicanos no coração e por isso a sua morte, se é motivo de dor, não é o fim da esperança para uma vida melhor.  Ele parte, mas ficamos nós, para continuar a sua missão! Mantendo vivo o seu sonho de um país livre e democrático, lugar onde moçambicanos sejam verdadeiramente iguais em oportunidades e direitos.  Dhlakama foi descansar depois de 42 anos ao serviço do povo.  Compatriotas, de hoje em diante, somos todos Dhlakama! *Presidente da Liga da Juventude da Renamo. Texto lido nessa qualidade no velório de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, no largo dos CFM na cidade da Beira. Moçambicanos, sejam Dhlakama! Por Ivone Soares* SOCIEDADE Savana 11-05-2018 21 PUBLICIDADE DESPORTO 22 Savana 11-05-2018 A Federação Moçambicana de Futebol (FMF) realizou, na semana passada, mais uma assembleia-geral, a qual foi protagonizada pelas 11 associações provinciais e dirigida por Alcido Nguenha, presidente da Mesa da Assembleia, sendo que os presentes aprovaram, por unanimidade, o Plano de Actividades e o Orçamento para 2017. Houve também uma monção de saudação ao presidente desta instituição, Alberto Simango Júnior, pela nomeação a cargos na COSAFA, CAF e FIFA. Mas o relatório financeiro mostra que nem tudo é um mar de rosas. Para já, a contracção económica que o país atravessou o ano passado influenciou no desempenho da Federação Moçambicana de Futebol durante o ano passado, que teve de se manter firme na busca de soluções e meios para a implementação e execução do seu plano de actividades, visando minimizar e acautelar os seus efeitos nefastos. E apesar desta contrariedade, no capítulo desportivo tornou-se possível a realização de todas as actividades inicialmente programadas para a selecção nacional “A” e as de sub-23, sub-20 e sub17, bem como as de futsal, futebol feminino e futebol de praia. Segundo o relatório financeiro da FMF apresentado na última assembleia-geral, a direcção daquele organismo desencadeou acções de mobilização de financiamentos para a implementação de projectos, tendo conseguido arrecadar da FIFA, para além do valor de USD 500.000 de contribuição regular, um montante adicional, na ordem de USD 1.107.921, dos quais USD 304.487, relativos à contribuição da FIFA para transporte e hospedagem das selecções nacionais; USD 391. 247 de patrocínio para a construção do Estádio da Maxixe e reabilitação do campo de Mocuba (cerca de USD 200.000) e mais de USD 191.000 de reembolso à FMF pelas obras de reabilitação da nova sede deste organismo. Segundo dados disponíveis, os meios circulantes financeiros registaram um saldo de 1.897.146 meticais no ano passado, contra 1.010.993 meticais registados em 2016, o que significou 88 por cento acima do saldo de 2016. Explicação que faltava Num passado recente, a FMF chegou a recorrer à banca para fazer face à situação difícil em 5HODWyULRÀQDQFHLURGD)0)GHDSRQWDIDFWRUHVH[WHUQRVFRPRWHQGRFRQGLFLRQDGRRVHXGHVHPSHQKR (QWUHJDQKRVHGHVDILRV Por Paulo Mubalo que se encontrava, mas este organismo esclarece que a última prestação do empréstimo que tinha no valor de 6.170.000 meticais foi liquidada. Segundo as demonstrações financeiras, o resultado líquido de 2017 foi positivo na ordem de 1.892.418.05 meticais, o que significa uma redução de 63 por cento comparativamente ao ano de 2016. Para a FMF, este indicador não joga nenhum papel determinante para avaliação do seu desempenho económico-financeiro, uma vez que por não ser uma instituição com fins lucrativos, a realização das suas actividades e o desempenho económico-financeiro estão dependentes do nível de patrocínios e apoios recebidos de terceiros. Mas ao nível de rendimentos e ganhos, estes estão na ordem de 142.168.976,67 meticais em 2017, contra 123.796.151 meticais arrecadados em 2016. Parte significativa desses rendimentos, segundo o relatório financeiro da FMF, provém dos patrocínios da FIFA, CAF e Fundo de Promoção Desportiva, mas com ligeiro decréscimo dos patrocínios vindos do BCI e Mcel, quando comparados aos valores arrecadados em 2016. Entretanto, outras fontes de receitas da FMF são as taxas cobradas às associações, pela sua filiação; inscrições dos clubes e atletas e emissão de cartões, para além das receitas de jogos dos Mambas e jogos da Supertaça. O documento esclarece que as receitas dos jogos dos Mambas foram melhores quando comparadas com as de 2016, devido, em parte, ao melhor desempenho da nossa selecção, o que contribuiu para atrair o público para os campos de jogo. De acordo ainda com o relatório que temos vindo a citar, em termos de custos e perdas operacionais, a FMF registou em 2017, um montante na ordem de 140.276.558 meticais, contra 118.667. 836 meticais de custo registado no ano anterior, o que significou um incremento de 18 por cento. Nesta rubrica de custos, os valores mais significativos estão relacionados com o transporte, deslocações e estadias, acomodação das equipas visitantes, despesas de realização de jogos, ajudas de custos pagos aos atletas, prémios de jogos, entre outras despesas. O relatório mostra que a FMF gastou 17.427.172 meticais em 2016 com o pagamento ao gabinete técnico, e 23.419.385 meticais no ano passado, uma relativa subida, enquanto que as deslocações e estadias diminuíram de 20.132. 322 meticais em 2016, para 17.256.952 meticais no ano passado. Enquanto isto, em termos de despesas, uma vez que as de maior peso são as passagens aéreas e as de acomodação, os auditores recomendam que se encontre, entre o departamento técnico e o secretariado, um mecanismo de, com alguma antecedência, apurar-se o número provisório de atletas e outros elementos da delegação que devem fazer parte de um determinado jogo. Com este mecanismo, poder-se-ia fazer, atempadamente, uma negociação de preços competitivos com agências de viagens e hotéis para a hospedagem das selecções. O mesmo documento apela à direcção da FMF para adoptar medidas de contenção de custos, a começar pela negociação, em tempo útil, dos custos de passagens aéreas; a necessidade de se identificar fontes adicionais de financiamento que passa, de entre outras acções, pela criação de iniciativas de melhor rentabilização do património detido pela FMF. Outrossim, “há necessidade de se adoptar medidas de controlo mais rigoroso dos serviços prestados à FMF a crédito, para evitar dívidas insustentáveis à tesouraria da instituição”, afiançam as fontes. O desempenho dos Mambas fez subir a receita da FMF em 2017 A manutenção das i n f r a - e s t r u t u r a s desportivas no país continua a ser bico de obra, como o nosso colega de imagem Ilec Vilanculos documenta. Num passado recente, a Escola Superior de Ciências de Desportos da UEM juntou especialistas de várias áreas para discutirem a questão das infra-estruturas desportivas, em parte como reposta ao repto que havia sido lançado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, depois que visitara, em 2015, o Parque dos Continuadores e, o ano 2ILOPHGDYHUJRQKD

 passado, o Estádio Nacional do Zimpeto. Nesse encontro saíram ideias brilhantes sobre como deve ser feita a gestão e manutenção dos recintos desportivos, mas parece que tudo não passou de conversa para boi dormir. O campo do clube 1º de Maio, no bairro da Maxaquene, é disso exemplo. Está em degradação a olhos vistos, mas num passado recente foi um local privilegiado para os treinos da selecção nacional, os Mambas, para além de ter acolhido muitos jogos do Moçambola. Assim não! Mas as imagens falam por si. SOCIEDADE Savana 11-05-2018 23 PUBLICIDADE custa 60,00Mt, preço de CAPA desde dia 04 de Maio O jornal Anuncie a sua marca, produto e serviços, na SAVANA FM . Proporcionamos para si pacotes promocionais, contacte-nos através de: 84 1440048, 82 8944278 ou ainda através do e-mail: radiosavana100.2@mediacoop.co.mz SAVANA 100.2 FM Visite agora e mantenha-se informado, (integridade & independência) https://www.savana.co.mz CULTURA 24 Savana 11-05-2018 O moçambicano José Cabral, que viu nos meses precedentes ser editado o volume antológico por que há tanto se esperava, o livro Moçambique, foi agora objecto da exposição que complementa a edição. A exposição Moçambique- José Cabral, que reúne um conjunto alargado de fotografias, entre provas de autor e novas impressões, apresenta-se no Camões e na Galeria da Associação Kulungwana, e demonstra de forma autoritária a sua trajectória e o seu iniludível lugar como um dos grandes artistas do país nas últimas décadas. A curadoria, eficiente e sensível, foi de Filipe Branquinho, um dos nomes cimeiros da nova geração; que deste modo o homenageia. O percurso de José Cabral, fotógrafo intimorato e algo “marginal”, foi sempre o do rigor e da intransigência, colocando a sua arte acima de qualquer tutela. Mesmo a do fotojornalismo em que se formou. Referia-se-me o crítico Alexandre Pomar – organizador do livro do Cabral –, apontando a foto que se pode ver na exposição em que uma equipa de fotógrafos se afadiga para fazer um retrato de estúdio do Presidente Chissano, e na qual Cabral aproveita um espelho, na base do enquadramento, para se fotografar fotografando o presidente: “Repara como ele desvia a centralidade da fotografia para o acto de fotografar, esvaziando o sujeito do poder”. Este atrevimento de reverter as hierarquias ou mesmo anulá-las é aliás uma das constantes mais felizes da fotografia de José Cabral, seja qual for a matéria que aborde, e explica que, por exemplo, a presença dos pés nas suas composições tenha a mesma importância que a dos rostos ou que as árvores assumam uma dignidade que lhes restitui uma existência extra-humana. Cabral desideologizou a fotografia em Moçambique, fez o resgate da inocência e, para além disso, como indicou Pomar, foi o fotógrafo que deu o salto “da fotografia testemunhal e de intervenção”, de feição colectivista, “para uma outra forma de activismo que não está do lado imediato da denúncia, esse lugar tão ocupado e gasto, mas sim do lado sensível da confiança e da convivência, fraterna e íntima ou intimista”. Por isso, fugindo da epicidade da Celebrar a fotografia -Uma das melhores exposições do ano está patente no Camões e na Kulungwana, na Baixa: a do fotógrafo José Cabral expressão colectivista, tornou-se o primeiro “autor” assumido da fotografia moçambicana, fazendo uma ponte entre a velha geração e a nova geração – Luís Basto, Mauro Pinto, Mauro Macilau e Filipe Branquinho – que encontrou na atitude de Cabral um estímulo e enveredou por novas vias que paulatinamente a conduziu a uma carreira internacional. Os temas principais de José Cabral estão bem documentados na exposição: as árvores, a Ilha de Moçambique, as crianças, o espaço íntimo, o nu, a ruralidade na cidade, as viagens, os auto-retratos, os trabalhos e os momentos intersticiais, por exemplo. E com estes temas “percorre-se uma obra e um país”. À entrada da exposição lêem-se duas declarações do fotógrafo. Diz uma delas: “O acto fotográfico? Há dois tipos de potencialidades, as que estão dentro de mim e as que estão fora, e quando estas duas se encontram há a fotografia”. Ora, isto é análogo ao que defendia Cartier-Bresson: “Fotografar, é pôr a cabeça, o olho e o coração no mesmo ponto de mira”. Ambas as frases apontam para uma indivisibilidade entre o corpo e o acto de fotografar, que tornam o observador e o observado um. Quando isto acontece a fotografia capta a essência do momento, isto é, acaba por produzir-se nela uma espécie de dobra: o reconhecimento simultâneo de um facto espelha-se na organização rigorosa das formas, percebidas visualmente, as quais reiteram e significam esse facto. Dou três exemplos. A foto do cartaz do Museu Al Capone, onde por “um acaso objectivo da luz” (como diriam os surrealistas) a silhueta da cidade aparece reflectida na parte de baixo do vidro que protege a foto do gansgter, como se a cidade estivesse ainda sob a redoma da sua sombra - e assim transforma-se a imagem na metáfora do extremo poder que o gangster teve sobre Chicago. Só um olhar muito treinado percebia o valor expressivo dos reflexos no vidro para sustentar o que a figura simbolizava. Na fotografia escolhida para a capa do livro, e que está exposta, a força está na composição: um casal, ela de trouxa na cabeça, passa ao lado de uma montra com uma cortina que lhes esconde o que esteja à venda, como se o direito ao que lhes está lá lhes fosse vedado. As pregas da cortina prolongam a infinito o eixo horizontal. Mas a dignidade com que eles caminham, quase hieráticos dá-lhes uma verticalidade que os coloca acima das circunstâncias (leia-se sociais) de que padecem. Leitura que só podia dar-se naquele momento de centralidade em que eles se encontram em relação à montra, dois passos antes ou dois passos depois e essa “dimensão oculta” e estrutural da composição da fotografia diluía-se. O terceiro exemplo é um caso de pundonor. A foto pertence ao ciclo “Os Americanos” e foi captada em Santa Fé, no Novo México. Um cowboy orgulhoso é fotografado contra uma montra onde, à exacta altura da sua cabeça, se encontram outros chapéus de vaqueiro. O seu olhar, colaborando com a foto, é de orgulho, ou seja, ele representa um tipo humano, de bem consigo: naquele momento deixa de ser um cowboy singular para se tornar um ícone. Nos três casos as figuras representadas têm uma enorme “qualidade de presença”, um rasgo imprescindível para detectar uma obra de arte, segundo Walter Benjamin. Contudo, faça-se a ressalva, pois para o ensaísta alemão, uma fotografia, por ser um objecto reproduzido mecanicamente não podia ter uma presença genuína. Entre outras qualidades, esta exposição demonstra-nos que Benjamin não tinha razão e isso torna mais evidente a urgência de a visitar, no Camões, até 1 de Junho, e na Kulungwana, até 25 de Maio. E streia nesta sexta-feira, 11 de Maio, no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), às 19h, Tributo a Djavan, que terá nova sessão na próxima quinta-feira, dia 17 de Maio, no Café Gil Vicente, também às 19h, com ingressos a 200 meticais. Djavan, um dos mais aclamados músicos brasileiros será homenageado nesta apresentação. Das músicas mais conhecidas àquelas que fazem parte de sua história e repertório, onde clássicos como “Oceano”, “Meu Bem Querer” e “Um Dia Frio” farão parte deste tributo que emocionará a todos que amam este grande poeta da música brasileira e ainda mais, os amantes dos ritmos latinos e do romantismo. Com o músico moçambicano Jesse Malunguissa e participação especial do actor brasileiro Expedito Araujo que ilustrará curiosidades, histórias e contará a poesia de suas composições criando um aspecto de interacção ainda maior. Expedito Araujo, actor brasileiro que também assina a concepção do concerto, enfatiza: “esta homenagem a Djavan em formato lítero-musical está intimamente relacionada ao carácter da poesia romântica que Djavan imprimiu nas suas músicas, sobretudo nos clássicos apresentados, por suas composições singulares, que hoje são lembradas e relembradas não só no Brasil como em muitos países por onde este grande cantor e compositor brasileiro pôde expor seu trabalho”. Na opinião do actor brasileiro, “as músicas de Djavan são conhecidas pelas suas “cores”. Na minha opinião, Djavan retrata muito bem nas suas composições a riqueza das cores do dia-a-dia e se utiliza de seus elementos em construções metafóricas que nenhum outro compositor conseguiu nem mesmo ousar. Exemplos disso são os temas Oceano e Um Dia Frio. Djavan, apesar de nordestino, não se solidificou com o samba de rua ou a música sertaneja, mas sim por composições próprias que extrapolam o romantismo da época, da música popular brasileira”, enaltece. A música do Djavan provoca e faz reflectir pela forma e conteúdo. “Chama-me a atenção e é um marco de sua poesia romântica que toca, provoca e faz reflectir, “Rua dos amores”, um disco de canções de amor. Canções as mais diversas possíveis. Ouvi-las é passear por essa diversidade, com os ouvidos e a empolgação daquele garoto negro de Maceió que teve uma infância humilde e chegou a passar fome e que um dia largou a bola pela música”, destaca o actor. Para o guitarrista Jesse Malunguissa é uma honra participar num tributo ao músico. “Uma homenagem a Djavan é mais que um artista que eu admiro por ser uma referência na música da língua portuguesa. O que mais me atrai em cantar Djavan é o desafio de colocar a voz para cada tom uma nota. Um exemplo disso é a música Flor de Lis porque é um ícone na música popular brasileira e em Moçambique”, frisa. A escolha do repertório teve como base os temas sonantes do artista. “O repertório traz muito sentimento, músicas que ouvi muito na minha adolescência e também na identificação dos temas mais sonantes, que mais ouviram, quer em Brasil, quer em Moçambique, como Oceano, Um Dia Frio e Te Devoro. Também Flor de Lis, Pétala, Meu Bem Querer, Faltando um Pedaço, Um amor Puro, Oração ao Tempo, Cigano e muito mais. O guitarrista também enfatiza “o que mais gosto em Djavan é o carisma e a encarnação na interpretação de suas músicas”, confessa. Tributo a Djavan Museu Al Capone, Chicago, 1996 Santa Fé, EUA, 1996 Maputo, 1987 Dobra por aqui SUPLEMENTO HUMORÍSTICO DO SAVANA Nº 1270  DE MAIO DE 2017 Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão, no entanto, Kim Jong Un questiona as pretenções de se desnuclearizar a Coreia do Norte Camarada presidente, com a morte de Dhlakama, a minha profecia de que a Frelimo irá governar mais 50 anos está mais do que clara. SUPLEMENTO 2 Savana 11-05-2018 Savana 11-05-2018 3 Qual suspensão da advocacia... estou bem nas empresas clarividentes e visionárias OPINIÃO Savana 11-05-2018 27 Abdul Sulemane (Texto) Naita Ussene (Fotos) C om a notícia da morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pairam dúvidas na mente dos moçambicanos sobre como será o futuro da democracia. Ouvimos muitos comentários sobre este assunto e a questão da sucessão foi das mais analisadas. Os líderes africanos são conhecidos por monopolizar a liderança e quando deixam de liderar a sucessão fica uma dúvida. A continuidade fica ameaçada. É preciso termos a cultura de sucessão para que os ideais tenham continuidade e outros desenvolvimentos em termos de mobilidade. A questão sobre quem vai substituir o líder da Renamo que, recentemente, perdeu a vida levanta muitas nuances em termos de protagonismo a partir de agora. Essas questões que vão ser postas à mesa de agora em diante vão mostrar a outra realidade. Mas enquanto esses momentos não chegam, Ossufo Momade vai coordenando a Comissão Política do partido até à realização do Congresso ou do Conselho Nacional. A morte quebra barreiras partidárias, ideológicas, culturais, étnicas e religiosas. É justamente por isso que ilustres figuras provenientes de todos os cantos do país cruzaram-se na cidade da Beira para se curvarem perante a urna de Afonso Dhlakama A morte faz com que figuras que nunca foram vistas próximas se aproximem. Não condenamos os desabafos que todos fazem. Ninguém foge da morte. Outros comportam-se como se a morte não lhes fosse atingir. Não condenamos ninguém. Cada um expressa o seu sentimento à sua maneira. Neste momento de luto, vemos figuras a darem condolências aos seus adversários. Primeiro, está a Chefe da bancada parlamentar da Frelimo na Assembleia da República, Margarida Talapa, a dar as suas condolências a Manuel Bissopo, Secretário-geral da Renamo. É mesmo para dizer que no momento desses é preciso respeitar a dor do seu adversário. A cara de consternação pela perda do líder do maior partido da oposição moçambicana foi notória. Voltamos a falar da sucessão. Antes da sua expulsão do partido da Perdiz, Raul Domingos era visto como o sucessor na liderança do partido. Nesta terceira imagem, aparece a confortar Ivone Soares, Chefe da bancada parlamentar da Renamo na AR. Como se os olhares estivessem a vislumbrar o ambiente de incertezas que se avizinha. Mesmo com o seu penteado que desperta toda a atenção para quem está ao redor, neste momento muitos não deram conta disso. Estavam concentrados na cerimónia fúnebre. Referimo-nos a Venâncio Mondlane, deputado do MDM na escolinha do barulho, apresentando as suas condolências a Paulo Vahanle, Presidente do Conselho Municipal de Nampula, que ganhou recentemente na segunda volta das eleições municipais pelo partido Renamo. Outro momento de olhar repleto de incerteza quanto ao futuro foi testemunhado entre Joanna Kuenssberg, alta-comissária britânica em Moçambique, e Manuel de Araújo, edil de Quelimane. Pelo olhar, parece estarem a partilhar a ideia de como vai ser o país a partir deste acontecimento. Outros aproveitaram o momento para lançar algumas hipóteses do que poderá ser o nosso país em termos de democracia e liberdade. Nesta derradeira imagem, vemos Erik Charas, do Jornal @Verdade, a dar o seu posicionamento sobre a situação que o país vai atravessar para Jorge Marcos, jornalista da STV, e Adriano Nuvunga, director do Centro de Integridade Pública (CIP). O futuro pertence a Deus. As incertezas aos seres humanos. Uma certeza para todos é a morte. A vida é igual à morte. Tempo de incertezas www.savana.co.mz gg5 #hfgm5R5
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o 1270 IMAGEM DA SEMANA À HORA DO FECHO Diz-se... Diz-se A PCA do Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), Ana Isabel Coanai, admitiu que a salvação das cerca de 20 empresas participadas ou detidas pelo Estado passará por um acordo com os bancos.

 Savana 11-05-2018 EVENTOS EVENTOS C om objecto de promover o turismo e cultura de África, a maior exposição de Turismo Africano, Indaba, espera receber este ano mais de sete mil delegados do continente e de outras partes do mundo. O evento que abriu, nesta segunda-feira, em Durban, África do Sul, recebeu expositores de mais de 22 países africanos, incluindo Moçambique. As boas vindas e o anúncio da abertura oficial foram proferidas por Derek Hanekom, Ministro do Turismo sul-africano, que mencionou que o verdadeiro significado do Indaba é criar oportunidades de negó- cios para o turismo africano. Na sua intervenção de abertura, Hanekon recordou o discurso do Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, em Fevereiro último, aquando do Indaba promove turismo integrado e competitivo seu discurso de empossamento, que identificou o turismo como um dos três sectores prioritários da sua governação. Ramaphosa salientou que o seu governo vai envidar esforços adicionais para a promoção do mercado turístico-chave, tomar medidas para reduzir as constantes barreiras e desenvolver o negócio do turismo emergente. Hanekom aproveitou a oportunidade para salientar a importância dos diferentes intervenientes deste evento, um dos quais os investidores, e compradores de toda a parte do mundo, que foram chamados a ter uma experiência única com a cultura e tradição dos mais de 22 países africanos representados. Para estes últimos, o governante afirmou: “nós estamos aqui para cativar o interesse dos nossos visitantes com os nossos produtos, para permitir que o turismo duplique, triplique, quadruplique o crescimento económico e criação de mais emprego para as nossas populações”. Ainda no mesmo discurso, o governante reconheceu a contribuição dos media, mais de 600 presentes no evento, de diferentes partes o mundo, como importantes para a divulgação da história do turismo, o seu desenvolvimento, e como este tem mudado o continente e tem beneficiado mais pessoas. Moçambique esteve representado com cerca de 20 expositores, dentre quais agências de viagens, Hotelaria, reservas e representantes de direcções provinciais de cultura e turismo. A representar Moçambique esteve a vice-ministra da Cultura e Turismo, Ana Comoana, que mostrou a sua satisfação em ver Moçambique a consolidar o seu Networking com diferentes investidores e expositores. Ao SavanaEventos, a vice-ministra referiu-se ao Indaba como uma plataforma incontornável para vender oportunidades de investimento, mas também para estabelecer parcerias com operadores turísticos e fechar negócios. A presença do governo moçambicano serviu para colher novas ideias e ensinamentos. A participação em workshops e reuniões com diferentes líderes africanos foi oportuna para discutir o turismo integrado. “Devemos olhar para o turismo de uma forma complementar. Não devemos olhar só para o nosso país, mas também para os que nos rodeiam e como juntos podemos tornar os nossos países atractivos”, disse Comoana. A governante aproveitou para destacar o plano estratégico 2016-2014, que visa tornar Moçambique num destino turístico internacional. “Turismo é um dos quatros pilares de desenvolvimento de Moçambique, pelo que devemos continuar a investir, tendo em conta as expectativas do nosso turista. Também devemos olhar para o turismo emergente, turismo doméstico e o turismo voltado para a camada mais jovem, que começa a ter bastante relevância para o sector”, frisou. De Moçambique estiveram as marcas: VIP Hotel, Dana Tours, Travessia Beach Lodge, Naurro Lodge Beach, Southern Sun Maputo, Bahia Mar Boutique Hotel, White Perals Resort, Mozaico do Indico, Linhas Aéreas de Moçambique, Polana Serena Hotel, ANAC, Hotel Bilene, Parque Nacional do Arquipélago do Bazaruto, parquet de Malonguane, Femotour, e as Direcções Provinciais de Cultura e Turismo de Gaza e Inhambane. Ministro de turismo sul-africano, Derek Hanekom, e Vice ministra da cultura e turismo Ana Comoana no Stand de Moçambique 2 EVENTOS Savana 11-05-2018 O ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Mesquita, entende que o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) constituem um factor-chave para o processo de transformação social e económica do país. Mesquita falava nesta quarta-feira, em Maputo na abertura da 5ª edição do Projecto MozTech, a maior feira de tecnologias de informação e comunicação, que visa colocar a tecnologia ao serviço do desenvolvimento de Moçambique. Na ocasião, Mesquita defendeu: “a construção de uma sociedade de conhecimento hiperconectada”, lema principal da 5ª edição Carlos Mesquita defende massificação do uso das TICs do MozTech, “deve ser entendida como um processo incontornável no desenvolvimento das sociedades modernas. Aliás, para o governante, a aposta do país no desenvolvimento das TICs prende-se com o reconhecimento do impacto que o conhecimento e a informação têm na vida das pessoas. “As TICs constituem uma ferramenta importante para a transformação da economia e da sociedade moçambicana. A sociedade hiperconectada que pretendemos construir deve ser inclusiva, integrando as comunidades locais, respeitando a diversidade cultural e linguística de cada comunidade”, disse. De seguida Mesquita avançou que os resultados alcançados na promoção do acesso e segurança no uso das TICs permitiram atingir uma cobertura territorial de telecomunicações de cerca de 80% dos 12 milhões de subscritores de telefonia móvel devidamente registados. Entretanto, ainda persistem vários desafios, entre eles a massificação do uso das TICS; a promoção da segurança cibernética; e a promoção da alfabetização digital. Por sua vez, o Presidente da Confederação das Associações Econó- micas (CTA), Agostinho Vuma, considerou que, para responder aos desafios no uso das TICS, é preciso encontrar políticas e estratégias para um desenvolvimento tecnológico do país como um todo e incentivar a sua dispersão para as províncias e reduzindo a sua concentração em Maputo. (E.C) T erminou com êxito mais uma dragagem de emergência do canal de acesso, cais e bacias de manobras do Porto da Beira, bem como da repulsão de areias para aterros hidráulicos, no tardoz do Cais 11. Recorde-se que idêntica dragagem havia sido feita em 2010 e 2011. A cerimónia oficial de encerraPorto da Beira conclui dragagem de emergência mento deste projecto estratégico e estruturante do sistema ferro-portuário do centro do País decorreu no dia 3 de Maio último, no Porto da Beira, após a confirmação física dos trabalhos pela Comissão de Coordenação do Projecto dos CFM, na Cidade da Beira. No total, foram dragados 2.904.284 m3 de sedimentos, incluindo 838.070 m3 de areias repulsadas para o tardoz do Cais 11 e para aterros hidráulicos. Foram gastos de fundos próprios do CFM, 29.102.078,47 Euros, incluindo 17% de IVA. Com a conclusão desta dragagem, estão recriadas as condições para que possam continuar a atracar naquele estratégico porto navios com capacidade até O Standard Bank, através da sua Incubadora de Negócios e a Munay, uma associação juvenil que se dedica ao fomento do empreendedorismo juvenil, organizaram, recentemente, uma sessão de orientação vocacional, para estudantes pré-universitá- rios de diversas escolas públicas e privadas da cidade de Maputo. Os mentores da iniciativa pretendem que a mesma sirva de guia para a escolha académica e profissional dos jovens, razão pela Incubadora de Negócios organiza orientação vocacional qual, durante a sessão, os participantes estiveram envolvidos em actividades ligadas à exploração do potencial individual, à análise da realidade através de informações sobre a oferta académica, à liderança pessoal, entre outras. Aos participantes foram, igualmente, transmitidas lições sobre a importância da poupança, bem como as particularidades e dinâ- micas do mercado de trabalho, que está cada vez mais exigente, o que demanda dos candidatos habilidades e competências para se distinguirem dos demais. De acordo com Geralda Antique, directora da Munay, o objectivo da sessão era de transmitir aos participantes elementos que lhes permitam fazer escolhas acadé- micas acertadas no futuro. “O que se nota é que os jovens se deixam influenciar na hora de escolher o curso porque, pelo menos ao nível das escolas públicas, ainda não temos a orientação vocacional”, asseverou Geralda Antique. “Uma escolha errada tem implicações na vida profissional. Muitos descobrem que não gostam da área que seguiram já no mercado 60.000 toneladas brutas de arqueação (DWT), 24 horas por dia. O canal de acesso ao Porto da Beira e a Curva de Macúti foram as suas cotas restabelecidas para 8,00 e 9,20 metros abaixo do zero hidrográfico e as suas larguras mínimas de 135 e 250 metros, respectivamente. A empresa adjudicatária desta dragagem foi a Van Oord Mozambique, Lda., vencedora do concurso internacional, lançado para o efeito e que executou o trabalho dentro do prazo estabelecido de seis meses. A supervisão técnica e financeira deste projecto foi, integralmente, efectuada por técnicos especializados do CFM. de trabalho. Sentem-se frustrados porque estão a fazer algo de que não gostam”, acrescentou a directora da Munay. Já Neusa Nhatsave, do Standard Bank, explicou que o apoio a esta iniciativa surge da necessidade de desafiar os jovens a seguirem as áreas em que possuem vocação ou habilidades. “Seguir uma área em que temos vocação abre-nos várias possibilidades de singrar no mercado de trabalho, sendo o empreendedorismo uma delas. Os jovens devem formar-se a pensar nisso”, disse Neusa Nhatsave. Lídia Lopes é estudante da 11ª classe, na Escola Secundária Josina Machel, e disse ter gostado da iniciativa, que, na sua opinião, devia ser alargada a mais escolas do País para poder alcançar mais jovens. “É uma iniciativa muito boa e educativa. Eu, por exemplo, consolidei a minha ideia sobre o curso que pretendo seguir depois de concluir o ensino secundário. Estava indecisa entre Gestão e Jornalismo, mas com a ajuda dos palestrantes pude fazer uma escolha”, referiu Lídia Lopes. P assados quatro anos após o assassinato do juiz Dinis Sílica, os magistrados judiciais exigem a criação de melhores condições de segurança para exercerem a actividade com serenidade. Para tal, a Associação Moçambicana de Juízes (AMJ) apresentou semana passada na Assembleia da República (AR) um projecto de lei que visa assegurar uma maior Juízes moçambicanos exigem segurança protecção dos magistrados judiciais. Carlos Mondlane, presidente da Associação Moçambicana de Juízes (AMJ), considera muito importante garantir a segurança dos juízes, para que se possam concentrar no desempenho da função. Mondlane falava na terça-feira durante a celebração do Dia do Juiz assinalado a 08 de Maio. A data foi escolhida como forma de homenagem ao juiz Dinis Sí- lica, que foi assassinado nesse dia em 2014 na cidade de Maputo. Para o presidente da AMJ, o facto de o homicídio não ter sido esclarecido demonstra a incapacidade do Estado e tem gerado uma onda de insatisfação no seio dos magistrados. “Há um organismo próprio criado por lei, que é a PGR, em que o Ministério Público tem a função de exercer a acçao penal. Portanto, cabe à PGR esclarecer e identificar os autores do crime e levá-los à barra do tribunal para serem julgados. É disso que estamos à espera”, declarou Carlos Mondlane O magistrado assinalou que o sector da administração da justiça enfrenta desafios relacionados com a falta de independência financeira. Para Carlos Mondlane, há a necessidade de os tribunas terem um orçamento independente, para que possam definir as suas prioridades. As celebrações do Dia do Juiz iniciaram com a cerimónia de deposição de flores no local do assassinato do juiz Sílica e terminou com uma palestra, cujo tema foi “O papel do juiz numa sociedade em transformação. A efeméride foi ainda assinalada com o lançamento do programa “Tribunal de Porta Aberta”. (C.C) Savana 11-05-2018 EVENTOS 3 ANOS 2ª Série 2018 9 a 12 de Maio Dedicada ao Maestro José António Abreu AN PUBLICIDADE 4 EVENTOS Savana 11-05-2018 A Khuzula procede, na pró- xima sexta-feira, 18 de Maio, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, à abertura oficial da 8ª Edição do Festival AZGO com a mostra de fotografia intitulada “Capas Africanas”, do francês Youri Lenquette. A exposição comporta retratos de vários músicos com quem o jornalista aposentado vem trabalhando nos últimos 30 anos. Algumas das fotografias foram usadas para capas de álbuns, cartazes de concertos, capas de revistas e propagações duplas em todo o mundo. Paralelamente à sua carreira como “Capas Africanas” inaugura Festival AZGO retratista, Youri tem reaproveitado a sua experiência no jornalismo para produzir documentários em forma de reportagem nos países que tem visitado, sendo que esses trabalhos têm sido publicados em revistas dedicadas a viagens e lazer. O seu portifólio conta com registos de vídeos e documentários de artistas de cravera como Sergent Garcia, Youssou N’Dour, Yuri Buenaventura, Havana Cultura, para além da colaboração com os maiores programas musicais franceses. Desde que começou a exibir os seus trabalhos em exposições, a crítica o tem aclamado. A título de exemplo, pode se referir a mostras como “The Last Shooting”, que fez o registo da última sessão de fotos de Kurt Cobain apresentado em Paris em 2014. A residir entre Paris e Dakar, Youri exibiu no ano passado a exposição «Youri ne dort pas» na prestigiada Galerie du Manege, composta por mais de 150 fotos, cuja curadoria finalidade era fazer uma retrospectiva de seu trabalho no continente africano de 1995 a 2017. O evento será precedido de concertos (Showcase) da jovem banda moçambicana Gran’Mah e da francesa Natalie Natiembé na sala grande do “Franco”, bem como da brasileira Flávia Coelho e do Leshoto Kommanda Obbs, palco do jardim. (E.C) O Millennium bim realizou, na passada quinta-feira, em Maputo, o primeiro encontro “Negócios do Millennium” de 2018, um evento que reuniu clientes e empresários do município de Maputo. A iniciativa promovida pela instituição financeira tinha por objectivo promover o investimento das Pequenas e Médias Empresas (PME) da região, através do debate sobre o investimento e o potencial desenvolvimento sócio-económico em Moçambique. Os “Negócios do Millennium” pretendem ainda aproximar o Millennium bim das PME, reforçando o seu compromisso enquanto instituição financeira de referência no apoio às Empresas. Falando na ocasião, José Reino da Costa, Presidente do Conselho de Administração do Millennium bim, destaBim promove debate empresarial cou a importância do evento, tendo referido que os “Negó- cios do Millennium” é mais um contributo do banco para o desenvolvimento sustentá- vel da economia em Moçambique. “Através deste encontro demonstramos o empenho em estar cada vez mais próximo das PME com uma proposta de valor sustentada e relevante para o seu negócio”, disse. Por seu turno, os participantes defenderam a necessidade da contínua melhoria financeira e organizacional das PME nacionais, como forma de melhorar a economia e aumentar a taxa de empregabilidade em Moçambique. Refira-se que, ainda no evento, foram premiadas 180 empresas Mlíder, pelo seu empenho no desenvolvimento da economia moçambicana bem como pela adopção de melhores práticas de gestão e bom nível de risco nas suas operações junto do Banco. (E.C) A Odebrecht vai construir o Centro Portuário São Mateus (CPSM), terminal marítimo localizado no município de São Mateus, no norte do Espírito Santo, no Brasil, ao abrigo de um memorando de entendimento celebrado, recentemente, com a Petrocity Portos S.A. O novo porto multimodal, cujo desenvolvimento de estudos de engenharia está em curso, deverá movimentar diversos tipos de carga e é considerado uma ferramenta de integração regional, que vai ligar o norte e o noroeste do estado do Espírito Santo, além do sul da Bahia e leste e norte de Minas Gerais. Com o início das obras previsto para o primeiro trimestre de 2019 e a conclusão no segundo semestre de 2021, a expectativa é o CPSM gerir 2mil postos de trabalho durante o pico da obra. Durante a operação, o terminal portuário deverá empregar cerca de 2 mil pessoas. A ser construído numa área de 1milhão de metros quadrados, o novo porto - com um investimento estimado de cerca de 584 milhões de dólares norte-americanos - contará com quatro tipos de operações, nomeadamente, uma terminal para coordenar as actividades de petró- Odebrecht constrói terminal marítimo leo e gás, uma dedicada ao sector de rochas ornamentais, uma terceira para gerir a movimentação de contentores e uma quarta com foco em movimentação de carcaças de madeira e de celulose. O estudo de viabilidade técnica e económica indica uma grande procura por cargas na região, como rochas ornamentais, celulose e madeiras do Sul da Bahia, café, granéis líquidos, reparação naval, automóveis, agricultura e, principalmente, cargas contentorizadas do sul da Bahia, norte e noroeste do Espírito Santo e Minas Gerais. “Contar com a expertise internacional da Odebrecht Engenharia e Construção será fundamental para garantir a execução deste complexo, que irá impulsionar a economia das cidades do interior destes três estados, para além de garantir a integração económica entre elas”, afirmou José Roberto da Silva, director da Petrocity Portos S.A. “A nossa experiência e capacidade técnica garantirá a instalação de um dos mais belos e eficientes portos do Brasil”, enfatizou, por seu turno, Giorgio Bullaty, gestor de contratos da Odebrecht, responsável pelos estudos do empreendimento e um dos responsáveis pela construção de uma terminal de contentores no porto de Doraleh, em Djibouti, país localizado no nordeste do continente africano. Agenda Cultural Cine-Gilberto Mendes Sextas, Sábados e Domingos 18h30 “Amor, Aguenta” Maputo Waterfront Todas Sextas, 19h Jantar Dancante com Alexandre Mazuze Todos Sábados, 19h Música com Zé Barata ou Fernando Luís Chefs Restaurante Todas Sextas, 19h Música ao vivo O Observatório de Cidadania de Moçambique (OCM) e a Fundação MASC apresentaram, esta semana, uma proposta de criação de um documento único de identificação denominado Cartão do Cidadão. Trata-se de um documento único que visa facilitar a vida do cidadão, uma vez que congrega dados e fins dos actuais Bilhete de Identidade (BI), Número Único de Identificação Tributária (NUIT), Cartão de Eleitor, Segurança Social e Carta de Condução. Segundo o OCM, proponente do documento, o cidadão, para comSociedade civil apresenta cartão cidadão provar a sua identidade civil, fiscal, de segurança social e eleitoral e ainda a sua habilitação para a condução de veículos, deve fazer várias diligências junto a várias entidades públicas e privadas, no sentido de obter tal documentação e arcar com os custos associados aos mesmos. Entende aquela organização que esta situação produz um impacto significativo na vida do cidadão bem como nos gastos públicos, para além de acarretar burocracia, o dispêndio de tempo e de recursos na aquisição desta múltipla e essencial documentação para a sua vida em sociedade. Deste modo, considera que a criação de um documento único onde estejam atestadas a identidade do cidadão para os vários efeitos bem como as habilitações adquiridas resolveria a questão do dispêndio de tempo e de dinheiro bem como permitiria ao Estado a redução nas despesas associadas à criação de condições materiais em vários sectores para a emissão da múltipla documentação necessária ao cidadão moçambicano. Depois de colher várias sensibilidades, dentre instituições pú- blicas, privadas e organizações da sociedade civil em torno da matéria, a proposta será submetida à Assembleia da República para a devida apreciação. (E.C)

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