POLÍTICA
“Envergonha” e “envergonhado”:
FOTO RUI DUARTE SILVA
“Fim”, disse Sócrates
TEXTO HELENA BENTO
Overbo envergonhar conjugado em diferentes tempos verbais e a palavra “vergonha” ou seus sinónimos (e “embaraço” é um deles) resumem a história recente da saída de José Sócrates do Partido Socialista. Carlos César, líder parlamentar e presidente do PS, começou por dizer, numa entrevista à TSF, sentir-se “envergonhado” com as suspeitas de corrupção que recaem sobre o ex-ministro socialista, mais ainda que no caso do ex-ministro da Economia Manuel Pinho, e João Galamba, porta-voz do PS, foi atrás e, na rubrica “Esquerda-Direita”, na SIC Notícias, admitiu sentir-se igualmente “envergonhado”, sentimento que “obviamente” qualquer socialista” partilhará “ao ver ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e secretário-geral do PS, acusado de corrupção e branqueamentos de capitais”, “sobretudo se as matérias de que é acusado vierem a confirmar-se”.
Sobre a possibilidade de as suspeitas contra Sócrates se confirmem - e as consequências disso - também falou o primeiro-ministro, António Costa, e aquilo que ele disse, ou até o simples facto de ter falado sobre o assunto, foi, por assim dizer, a última vergastada de um combate tido à base de golpes verbais (até porque seria no dia seguinte, esta sexta-feira, que Sócrates viria a anunciar a sua saída do partido). Em conferência de imprensa no Canadá, para onde Costa viajou com o pretexto de reforçar as ligações económicas entre aquele país e o nosso e explorar as potencialidades do recente acordo de livre comércio (CETA),afirmou que se as “ilegalidades” cometidas no sector da energia no Governo Sócrates “se vierem a confirmar serão certamente uma desonra para a nossa democracia”. O oposto disso, isto é, a não confirmação, “demonstrará que o nosso sistema de justiça funciona”, acrescentou Costa.
Conforme aqui se dizia, foi precisamente esta sexta-feira que Sócrates, numa carta endereçada ao partido e publicada pelo “Jornal de Notícias”, anunciou que ia abandonar o PS. Aí, queixou-se de ser vítima de “uma espécie de condenação sem julgamento” e queixou-se de “injustiça” por parte da direção socialista e de uma “injustiça” que, além disso, “ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político”. A vergonha que Carlos César e João Galamba disseram sentir - e Costa também, embora indiretamente - é depois devolvida com o derradeiro anúncio de Sócrates. “É chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo” (com a carta, o ex-primeiro-ministro terá também feito seguir o seu cartão de militante, imagina-se que por questões práticas mas também simbólicas).
FOTO RUI DUARTE SILVA
Mas isto foi o final de tudo e até chegarmos aqui houve outros eventos não de somenos importância, a começar desde logo pelo acontecimento que desencadeou tudo isto e destravou a língua dos socialistas - a reportagem que a SIC exibiu a 16 de abril e que revelou os vídeos do segundo e do terceiro interrogatórios realizados a Sócrates no âmbito da Operação Marquês. No dia seguinte são exibidas mais reportagens sobre o circuito do dinheiro do saco azul do BES e sobre a vida do ex-primeiro-ministro socialista em Paris, seguindo-se, a 19 de abril, a publicação de uma investigação, por parte do “Observador”, sobre os pagamentos do BES a Manuel Pinho, revelando que o antigo ministro da Economia recebeu cerca de um milhão de euros do saco azul, metade dos quais quando era ministro.
Ana Gomes, eurodeputada socialista, afirmou no Twitter (21 de abril) que o próximo congresso do PS (é o 22.º e realiza-se na Batalha entre 25 e 27 de maio) seria uma “oportunidade” para dissecar o assunto, em concreto como é que o Partido Socialista conseguiu-se tornar-se um “instrumento de corruptos e criminosos” (também apelou nessa ocasião à “regeneração do próprio partido, da política e do país). Sobre isso, Carlos César haveria de afirmar, na entrevista já aqui referida, que não, que o congresso não seria de modo algum o melhor lugar para discutir o assunto e em concreto o assunto que diz respeito a Manuel Pinho, devendo este, por outro lado, ser esclarecido e resolvido através da comissão de inquérito proposta pelos bloquistas. “Quando os políticos se encontram perante a necessidade de escrutinar alguém sob alçada da justiça não podem nem devem prescindir de o fazer”, afirmou então o líder parlamentar do PS. Quem também não concordou com a proposta de Ana Gomes foi Arons de Carvalho, um dos fundadores do PS e mandatário nacional da candidatura de António Costa ao terceiro mandato de secretário-geral do PS, que em entrevista ao “i” afirmou que a posição da eurodeputada socialista é um “erro colossal”. “O partido deve aguardar serenamente pela decisão da justiça”, quer seja a favor, quer seja contra, afirmou Arons, cujas declarações sobre Sócrates incluíram ainda isto: “Não acho que seja reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado de outra”.
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A 24 de abril, Pedro Adão e Silva, professor e investigador no ISCTE e colunista do Expresso, pediu a cabeça de José Sócrates (por assim dizer). Defendeu a abertura de um processo de expulsão ao ex-ministro socialista com base nos estatutos do partido, visto já ter, nessa fase do campeonato, “informação suficiente para fazer um juízo político e moral”. “A tolerância deve ser zero neste casos e acho que o PS vai ter de tomar uma posição”, afirmou ainda Adão e Silva, como que antecipando as palavras de Costa dias depois.
Antes de o Bloco de Esquerda anunciar a 30 de abril a criação da referida comissão parlamentar de inquérito à atuação do ministro da Economia do Governo Sócrates mas também para apurar as “responsabilidades de todos os decisores políticos” da área da energia entre 2004 e 2015 (Governos de Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates e Passos Coelho incluídos), já Rui Rio anunciara a 29 de abril que o PSD vai chamar Manuel Pinho ao Parlamento para dar explicações ao país, esperando que o antigo ministro “aceite” o convite e que “explique o que tiver de explicar e, preferencialmente, que esteja em condições de negar tudo aquilo que lhe tem sido imputado em diversas notícias” (acrescente-se ainda a esta história a apresentação pelo BE no Parlamento de uma proposta de criação de uma comissão parlamentar de inquérito às rendas da energia e outra para alargar o período de investigação ao Governo de Costa).
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