segunda-feira, 1 de abril de 2019

A reconstrução como acto supremo de rebeldia

A reconstrução como acto supremo de rebeldia
Texto: João Vaz de Almada
À aproximação da chegada do salvamento aéreo, o que torna tudo mais pungente são os gritos, provenientes de um ponto alto. Podem vir de uma placa de cimento, de um telhado inclinado, de uma bancada de um campo de futebol ou de uma árvore. Assim estão ainda mais de 100 mil pessoas na província de Sofala, no centro de Moçambique desde daquela quinta-feira, dia 14 de Março, quando o ciclone Idai irrompeu brutalmente pela cidade da Beira, capital daquela província e a segunda cidade do país, deixando um rasto de destruição nunca visto. A acompanhar os ventos, que sopravam na ordem dos 230 quilómetros/hora, vieram as chuvas fortíssimas, demolidoras, tragando bairros inteiros dos arredores, edificados em construções precárias de zinco, colmo e adobe. Foi assim na Munhava, Chipangara, Matacuane, Chota, Maraza. Dizem que aí só sobrou desespero, miséria, fome, raiva e…morte.
Na província de Sofala, a área inundada é de 1224,3 quilómetros, ou seja, o equivalente a 122 mil campos de futebol! Números que arrepiam e vão arrepiar muito mais quando os caudais dos rios baixarem e do mar de matope (lama) emergirem corpos por toda a parte, em número muito superior aos últimos anunciados que contabilizam cerca de 250 vítimas mortais. Nessa altura poder-se-á ter uma dimensão real da catástrofe. Há relatos de quem percorreu a pé meia dúzia de quilómetros na região do Buzi, interior de Sofala, e contou 300 corpos a boiar nas águas.
Até esta quinta-feira, uma semana depois de entrada do ciclone Idai, os 11 helicópteros disponíveis, quase todos da Força Área Sul-africana, já havia resgatados 40 mil pessoas em situação crítica. Mas 100 mil ainda estão em risco, prevendo-se que muitas delas sucumbam ao cansaço, ao frio, à sede e à fome. Os rios Punguè e Buzi transbordaram há muito, arrastando consigo esfomeados crocodilos que já terão feito um bom número de vítimas.
Na Beira, na cidade de cimento, 90% das infra-estruturas estão destruídas ou seriamente danificadas, havendo quem pondere se valerá a pena reconstrui-las tal o grau de devastação atingido.
Nesta ponderação nada melhor do que olhar para a sua História. A Beira nasceu para ser do contra. Primeira contra os caprichos da mãe Natureza. Depois contra os que sempre a quiseram subjugar. Contra uns e contra outros foi resistindo. Altiva, orgulhosa, sobranceira, fazendo gala em contrariar tudo e todos.
Plantada junto ao Chiveve, a Beira nasceu como cidade em 1907 e tomou imediatamente o nome do título do filho mais velho de rei de Portugal, na altura D. Luís Filipe. A sua rebeldia revelou-se ainda no século XIX, quando o lugar ainda se chamava Aruângua. A conquista daqueles terrenos, efectuada à custa de aterros de pântanos lodosos, revelou-se extraordinariamente difícil, tão difícil que os ingleses, sempre atentos à forma como economizar – o porto da Beira era, geograficamente falando, a melhor saída para o escoamento dos produtos da duas Rodésias e do então Niassalândia –, acabaram por preferir outras paragens, decretando a terra demasiado insalubre para conviver com o homem branco. Os portugueses, mais dados a aventureirismos e sem grandes alternativas, resolveram pôr mãos à obra e à pazada aterraram pântano atrás de pântano. Pelo meio, o mosquito da malária, fortíssimo naquela zona, como uma fera que marca o terreno no mato, fez várias vítimas. Assim nasceu, de um modo agreste, a Beira, sendo caso para dizer que o que nasce torto tarde ou nunca se endireita.
Nos anos ´40 e ´50 do século passado, a rebeldia contra o regime de Salazar fez-se sentir na Beira como em nenhum outro lugar da colónia.
Daqui, os esbirros da PIDE – a polícia política do regime – encheram páginas e páginas com relatórios para os seus superiores em Lourenço
Marques. Nas eleições presidenciais de 1958, quando Salazar sofreu o primeiro grande abanão com a popularidade do candidato da oposição
Humberto Delgado, a Beira votou, maioritariamente, ao lado do general rebelde. Pouco depois, D. Sebastião Soares de Resende, o primeiro bispo da cidade, contestou o regime e a extrema dureza de tratamento dado aos africanos. Chegou mesmo a perguntar, numa coluna do “Diário de Moçambique”, se o futuro do território não passaria um dia pela independência. O jornal foi suspenso e o povo da Beira revoltou-se indignado.
Em 1966, quando a então Rodésia vivia um bloqueio mundial imposto pelo Reino Unido, a Beira sempre insurrecta, resolveu furá-lo, abastecendo o regime racista de Ian Smith. E, quando a velha aliada ameaçou Salazar com uma invasão à colónia rebelde pelo porto da Beira, a cidade, num gesto desafiador, virou as bombardas para o mar à espera dos navios ingleses que nunca chegaram.
Já no fim do colonialismo foi a vez dos padres do Macúti, Teles Sampaio e Marques Mendes, serem condenados por “crime contra a harmonia racial”, tudo porque nas suas homílias denunciaram atrocidades do exército colonial. Em Janeiro de 1974, a população branca desceu à rua numa manifestação nunca vista no território. Curiosamente, o alvo da contestação não era a Frelimo, que poucos dias antes havia, numa emboscada em Manica, matado uma mulher branca, mas sim os militares portugueses acusados de incompetência na luta contra o então chamado terrorismo. As manifestações prolongaram-se por três dias, o comércio paralisou e os militares portugueses foram apedrejados.
Em 1975, veio a independência e com ela a mudança dos nomes das cidades conotadas com o colonialismo. A Beira, por ignorância ou não do novo poder, foi a única capital de província que conservou o nome. O partido Frelimo, mesmo naqueles anos de ditadura feroz, nunca conseguiu, apesar das muitas démarches efectuadas, consolidar-se na Beira e a cidade conservou o epíteto de rebelde, tornando-se o bastião da oposição.
Durante a guerra fratricida (1977/92), quando todos procuravam a rádio rebelde nas matas da Gorongosa, as suas ondas hertzianas saíam do centro da cidade e as armas que abasteciam a guerrilha entravam pelo seu porto.
Em 2003, logo que a oposição concorreu, venceu o município. Em 2008, depois de muita polémica, o Conselho Municipal (equivalente à Câmara Municipal em Portugal) inaugurou, pela primeira vez na toponímia de uma cidade moçambicana, uma estátua em homenagem a uma personalidade da oposição, André Matsanguíssa, o primeiro líder da Renamo, morto em combate no longínquo ano de 1979.
Nas eleições autárquicas de 2008, quando o mapa de Moçambique ficou todo vermelho, a cor da Frelimo, a Beira, qual aldeia de Asterix, coloriu-se de azul, indicando que havia vencido um candidato independente, embora com origem numa dissidência do maior partido da oposição, desafiando, também pela primeira vez na história do país, os dois grandes partidos instituídos. Até hoje o município é um dos seis (o país possui 53) que continua a ser governado pela oposição.
Mas, por estes dias, a cidade terá que protagonizar o maior acto de rebeldia da sua história: a reconstrução pós-Idai. Como beirense, tenho de acreditar.
PS — João Almada e a Rebeldia BOA da Beira! Texto publicado na Visão edição especial Moçambique. Khanimambo especial à directora Mafalda Anjos
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Comentários
  • Augusto Fernandes APROVO,so,nao concordo,c algumas afirmações incorretas

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