quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Analistas nacionais dão voto de confiança ao novo formato das conversações


Falando no programa semanal, Linha Aberta, transmitido às terças-feiras na Stv, o politólogo João Pereira disse ter sido uma estratégia da Frelimo, encuralar Dhlakama, para tirar dividendos políticos.
O novo formato do diálogo político que consiste em duas equipas mistas, curtas, e sem presença da mediação, foi o tema do programa desta semana. Como painelistas, estavam o politólogo João Pereira e o pesquisador Simião Nhambe, que deixaram as suas sentenças sobre o novo caminho para a paz.
Numa primeira análise, os dois convergem no sentido de que o novo formato consensualizado pelo Presidente da República e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, é o ideal, no actual contexto.
“Neste momento, eu acho que é o melhor mecanismo. São poucas pessoas envolvidas, uma interação directa, embora seja por telefone, entre o Presidente da República e o presidente Dhlakama, os assuntos estão claros, os problemas já estão identificados, espero agora que tanto a Frelimo, como a Renamo encontrem uma solução para o país ” disse Pereira, apontando a criação de reformas no sistema político, que tenham impacto e benefício para o país inteiro.
Já Simião Nhambe defende que o novo formato do diálogo deve ter uma visão de soluções de longo prazo, que passam por uma aposta na reconciliação nacional, a todos os níveis, pois este é que foi o “calcanhar de Aquiles” dos anteriores formatos de diálogo.
“Eu quero acreditar que de todos os modelos aplicados para a busca da paz desde 1994 para cá, uma coisa que falhou foi a questão da reconciliação, sobretudo quando nós olhamos para a reconciliação numa única perspectiva, uma perspectiva em que, depois de uma guerra civil de 16 anos, achamos que a reconciliação cingia-se apenas no apertar das mãos ou abraço entre os beligerantes, esquecendo de que de facto tem que se reconciliar todo o povo moçambicano, em todas as vertentes”, disse Nhambe, salientado a necessidade de uma melhor reinserção social e económica daqueles que estavam desavindos.
O contexto para o diálogo
Os dois painelistas consideram que, comparativamente ao anterior processo de diálogo político, que tinha como intervenientes uma Comissão Mista e um grupo de mediadores, a fase que se segue tem melhores possibilidades de trazer resultados.
A razão desta opinião é que, segundo os dois analistas, o Presidente da República tem agora poderes reforçados que favorecem a imposição das suas intenções.
“Já não existe uma contradição entre o discurso do Presidente e o discurso do partido. Há uma clareza de que temos que ir no mesmo sentido e cada vez mais há que ir neste sentido. Quando o Presidente começa a mexer na contra-inteligência, por exemplo, dá-lhe força não só a nível do aparelho de Estado, mas também a nível partidário” disse Pereira.
Na mesma linha argumentou Nhambe
“No ano passado, o que o Presidente da República dizia dentro do seu partido era contrariado. Nós lembramos muito bem que a Comissão Política, em algum momento, foi despachada para dizer o contrário daquilo que eram os pronunciamentos do Presidente da República, e ficou-se sem saber se, de facto, ele tinha o controlo total e completo do que se diz e do próprio partido, mas agora já é possível” disse o pesquisador.
Golpe de mestre
João Pereira considera que a Frelimo aplicou um “golpe de mestre” que levou ao isolamento político de Afonso Dhlakama, para dar tempo da nova máquina dirigida por Filipe Nyusi estabelecer-se no sistema político nacional. “Eu acho ter sido uma grande jogada de mestre por parte do Presidente da República e do partido Frelimo, por duas coisas: primeiro, ao criar todas as condições para o Presidente Dhlakama ficar nas matas, por uma razão muito simples. Depois do anúncio dos resultados eleitorais de 2014, parecia que o homem tinha muito mais popularidade que o Presidente Nyusi e naquele momento, grande parte da sociedade moçambicana, principalmente na região centro e norte, não tinha uma clareza sobre quem ganhou mesmo as eleições“.
Deste modo, foi estratégico para a Frelimo “forçar Dhlakama a ir as matas, deixar que o Presidente ganhasse a legitimidade, fosse empossado, controlasse o Aparelho de Estado e gradualmente está controlando o partido e aumentar a sua presença ”.

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