A ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva. Folhapress
Marisa Letícia Lula da Silva (7 de abril de 1950), companheira de Lula
por 43 anos, poderia ser superficialmente percebida como a sombra de um
marido poderoso. Mas no lar dos Lula da Silva quem mandava, de fato,
era ela, como costumava afirmar o próprio ex-presidente. Controlava as
contas, o salário do marido e, inclusive, decidia quem podia ou não
visitar um dos políticos mais poderosos do país, nos momentos em que a
saúde dele se mostrava frágil.
Nascida em uma família de imigrantes italianos em São Bernardo do
Campo, ela teve uma origem humilde, como o marido. Seu pai era
agricultor e teve 15 filhos. Ainda criança, já trabalhava como babá das
sobrinhas do pintor Cândido Portinari. Aos 13 anos, virou embaladora de
bombons numa fábrica de doces e, com isso, teve de deixar a escola. Seis
anos depois, estava casada com Marcos Cláudio, um taxista, que morreu
em uma tentativa de assalto quando Marisa estava grávida.
Aos 24 anos, em 1974, ela foi ao sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema para buscar um carimbo para liberar a pensão
do marido, o que naquela época podia ser feito em qualquer sindicato.
Foi atendida por um barbudo, de língua meio presa. Era Lula. Dirigente
do Serviço de Assistência Social do
sindicato, ele orientara seus funcionários a avisá-lo quando chegasse
uma viúva jovem para ser atendida. Ele, também viúvo em uma história
trágica (a primeira mulher dele, Lourdes, morreu no parto junto ao
filho), se interessou. Para convencê-la de que também era viúvo, deixou,
de propósito, cair um documento pessoal, que comprovava a informação.
Ele ainda insistiu num encontro por algum tempo e até botou um
namoradinho que ela tinha na época para correr. Sete meses depois,
estavam casados. Ela virou sua "galega".
Lula e Marisa Letícia em outubro de 2008, em Roma. MARIO DE RENZISEFE
Juntos tiveram três filhos: Fabio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio.
Do primeiro casamento de dona Marisa nasceu Marcos Cláudio, nomeado em
homenagem ao pai, que acabou adotado pelo ex-presidente.
Discreta, dona Marisa desempenhou um papel de bastidores nas duas gestões presidenciais de seu marido
Ao lado de Lula, a ex-primeira dama passou por todos os altos e
baixos vividos pelo ex-presidente. No final da década de 70, durante as
greves do ABC, o movimento sindical liderado por Lula que foi o mais
importante do país nos últimos anos, ela abria sua casa para reuniões
políticas. Chegou a liderar uma marcha de mulheres após a prisão do
marido pela polícia da ditadura militar. Também teve participação ativa
quando o Partido dos Trabalhadores foi criado, em 1980. Quem fez a
primeira bandeira do PT foi ela: recortou um tecido vermelho que tinha
em casa e costurou a estrela branca no centro. Fazia o mesmo com
camisetas, para tentar arrecadar algum dinheiro para o embrionário
partido, conta o Partido dos Trabalhadores.
Discreta, dona Marisa desempenhou um papel de bastidores nas duas
gestões presidenciais de seu marido. Diferenciou-se de sua antecessora,
Ruth Cardoso, na função de primeira-dama, ao preferir não exercer
qualquer cargo filantrópico do Governo. Esteve ao lado de Lula também
durante todo o tratamento de câncer a que ele foi submetido, em 2011.
Dizia-se, na época, que ela controlava quem podia e quem não podia
visitá-lo, para evitar que ele se cansasse.
Nos últimos anos, viu-se envolvida no turbilhão da Operação Lava Jato. Há quatro meses, tornou-se ré em duas investigações,
ao lado do marido. Era acusada de, ao lado dele, ocultar um tríplex no
Guarujá, que teria sido reformado pela construtora OAS, e também de ter
sido beneficiada pela compra de um apartamento em São Bernardo do Campo,
pela Odebrecht, mas que não estão, oficialmente, em nome deles. Ela
ainda é citada em investigações relacionadas a um sítio em Atibaia, para
o qual teria comprado dois pedalinhos, de 5.600 reais no total. As
acusações a abalaram e causaram indignação no ex-presidente Lula. “Se eu
pudesse, dava um iate para ela”, dizia ele, que frequentemente chorava
ao falar sobre o assunto. Em março do ano passado, ela teve vazada uma
conversa telefônica tida com seu filho, Fábio, em que se mostrava
indignada com os protestos contra o Partido dos Trabalhadores, meses
antes do impeachment de Dilma Rousseff.
Nesta sexta-feira, perdeu a vida aos 66 anos, após ficar internada
por dez dias no hospital Sírio-Libanês, no centro de São Paulo. Foi
vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em sua casa, em São
Bernardo do Campo. Seus órgãos serão doados.
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