06-03-2018
Uma das missões mais fascinantes que tive para Cabo Delgado foi aquela que me levou às ”Zonas Libertadas” pela FRELIMO durante a luta armada de libertação nacional. Depois que findou a guerra de libertação a FRELIMO teve uma atitude de muita proteção e isolamento daquelas zonas em relação ao resto do país, por razões que até agora me escapam de entender. Não sei se era proteção para que elas não fossem “contaminadas” pelos hábitos das populações que antes da independência haviam vivido sob o domínio colonial, ou era um tampão que se punha por quaisquer outras razões. O certo porém é que até a altura em que eu deixei de ir com frequência para Cabo Delgado, não se ia a Mueda ou outras “Zonas Libertadas” de qualquer maneira. Havia cuidados especiais.
Fui lá acompanhado por um antigo combatente da luta de libertação nacional, o Tedósio Valentim. Ele trabalhava numa das Direções Nacionais do Ministério da Educação e Cultura. Creio que era da Direção Nacional de Desportos. Não me recordo bem como chegamos a estar juntos para a viagem as “Zonas Libertadas”. Muito provavelmente foi numa dessas “brigadas” desse tempo.
Ele também não me parecia ter sido do “hard-core” da guerrilha, mas pelo que me contava tinha passado por (ou convivido com protagonistas de) mais façanhas do que o outro que me acompanhou na procura dos lugares para os centros de formação de professores primários. Como o outro, ele também devia ser mais ou menos 5 anos mais velho do que eu. Nem sequer me recordo bem o que íamos lá fazer exatamente, embora fosse algo ligado com as escolas (verificar as condições, levantar as necessidades, atender a reclamações que chegavam a Maputo, etc.).
Apesar da aura de “berço da revolução” e da retórica política de “prioridade as zonas libertadas”, por causa do isolamento deliberado a que foram sujeitas depois da independência, na realidade elas acabavam recebendo menos atenção. Terá provavelmente sido porque os funcionários dos serviços do Estado acabavam não tendo acesso regular e fácial a elas? Ou outra razão? Se o isolamento a que foram sujeitas foi para as proteger, acabou-se criando prejuízos alguns dos quais ainda hoje se fazem sentir. Alguns dos projetos de que ainda hoje se fala por implementar em algumas daquelas zonas vêm desses tempos. A sua implantação foi muitas vezes adiada, e em alguns casos interrompida, enquanto politicamente sempre se proclamava a prioridade às zonas que foram o berço da nossa independência nacional. Os sociólogos, antropólogos, historiadores e politólogos deveriam estudar e explicar este fenómeno, pois desconfio que algumas das coisas que verificamos acontecer na política nacional hoje são resultado ou prolongamentos de problemas que resultam desse passado imediato à independência.
Dessa vez tive eu então pela primeira vez o “privilégio” de lá ir. Naqueles tempos a viagem para Mueda era muito penosa. Saíamos de Pemba de madrugada e chegávamos ao Posto Administrativo de Mueda ao fim do dia ou mesmo a noite. A subida ao planalto era uma odisseia. Era dos tempos da estrada de terra batida, areia vermelha. Se o motorista não fosse experiente ou cuidadoso, o carro deslizava de volta para trás, mesmo um Land Rover com tração a quarto rodas, sobretudo se estivesse a chover. Aconteceu muitas vezes (felizmente nunca comigo).
Depois do Posto Administrativo de Chai, no Distrito de Macomia [obrigado ao Gabrial Mutisse por me corrigir o erro de geografia e afalha de memoria!] onde fui ver o lugar do mítico “primeiro tiro” (que outras versões dizem que não foi o primeiro) foi o batismo pelo “santuário” ele próprio. Saídos da sede do distrito de Mueda, depois de alguns quilómetros descemos numa picada ao longo de uma linha de aldeias e antigas bases de guerrilha cujos nomes não me recordo agora com precisão e por isso me escuso de enumerar. Mas o “tour” por esses lugares históricos da guerrilha da luta de libertação nacional foi uma lição de história ao vivo. Não que tenhamos entrado em antigas bases mesmo. Não! Em alguns desses lugares nessa altura você ainda precisaria de uma autorização especial. Muitas vezes passávamos ao lado, outras vezes as antigas bases ficavam na floresta dentro que nós não podíamos penetrar. De resto nós andávamos lá é pelas escolas e aldeias. O que empolgava era o “ar” de estar lá dentro dessas florestas onde pela história contada muita coisa ocorreu, ver e falar com pessoas locais que foram protagonistas. História viva.
E enquanto você estivesse lá, você vivia esse “ar”. As pessoas tinham outra maneira de ser. Muito reservadas (o único sítio onde vi pessoas às gargalhadas foi num episódio numa aldeia, que conto mais abaixo). Você a vir de carro numa picada, de longe podia ver pessoas a distância de 100-200 metros. Mas quando chegava perto já não via ninguém, as pessoas desapareciam na floresta. Isto era comum, embora não sempre. Havia uma atitude defensiva e de suspeita. Isto tudo uns cinco-seis anos depois do fim da luta armada de libertação nacional e a proclamação da independência, e muito antes de a “guerra dos dezasseis anos” subir do Centro para o Norte, e quando cá em baixo o que se vivia (ou se tinha conhecimento) era dos bombardeamentos dos Mirage da Rodésia do Sul de então (hoje Zimbabwe).
O Teodósio Valetim era originário daquelas bandas de Mueda, e tinha vindo a Maputo participar na criação das estruturas do novo governo, já não ia lá fazia algum tempo. Não sei se ele havia ganho essa característica durante o pouco tempo que esteve em Maputo, mas ele já era um homem de riso fácil e muito alto. Afável. Brincalhão. Não denotava traumas evidentes dos tempos da guerra de libertação nacional. E era muito solidário. Nunca o vi aborrecido com nada ou com ninguém. E com estas suas qualidades, tomou como sua missão mostrar-me e explicar-me tudo o que sabia e podia sobre as “Zonas Libertadas”, e os cuidados que eu devia ter andando por lá.
Um dia fomos dar a uma aldeia onde ele me disse que viviam umas idosas que disse que eram amigas de Samora Machel, na altura Presidente da República. Disse que as idosas tinham trabalhado muito no transporte do material de guerra e na alimentação dos guerrilheiros. Ele ficou muito tempo a conversar com elas. Risos para aquí, risos para acolá! Assaram-nos uma ou duas galinhas e prepararam xima que tinha um gosto especial (acho que de mapira ou outro cereal, mas não era de milho). Tudo gostoso. E pela maneira como as coisas se desenrolavam, elas perguntavam e ele respondia sobre muitas coisas que se passavam em Maputo e com os filhos do Planalto e outros que lá haviam vivido e combatido e agora viviam na “Nação”. Tudo em língua Maconde, claro. Uma língua muito bonita, de sotaque forte, afavelmente autoritária, que na altura eu estava muito interessado em aprender, mas que depois não tive oportunidade de o fazer (sempre tive uma certa fascinação pelas línguas, embora tenha acabado aprendendo poucas, algumas das quais acanbei esquecendo por não usar- como o Romeno e o Francês!). Pelo que vi o Teodosio Vanletim também procurava saber notícias da terra porque em alguns momentos as velhinhas é que falavam e gesticulavam e ele ouvia atentamente e fazia interjeições muito curtas, e se riam todos às gargalhadas. Eu também me ria, mas era mais da maneira que eu via eles rirem e a curtirem a “reunion”, pois não entendia a língua.
Quando estávamos para sair dessa aldeia, uma das velhas levantou-se e foi trazer de dentro da cabana um saquinho feito de pele de animal, amarrado na garganta também com fio de pele de animal. Veio e entregou-o ao Teodósio Valentim. E muito seriamente falou com ele por alguns minutos, num tom que parecia mesmo de recomendações muito importantes. Saímos.
E o comportamento do Valentin a partir do momento em que recebeu aquele saco foi completamente diferente do que eu havia visto desde que havíamos iniciado aquela viagem e mesmo antes. Momentaneamente ele ficou muito sério e pensativo. Achei estranho que ele, que estava alí comigo com a missão não declarada de me ensinar aparentemente tudo sobre as “Zonas Libertadas”, agora se estava a comportar de modo tão cioso com aquele saco de pele de animal com coisas lá dentro. Achei estranho que ele não tomava a iniciativa de me dizer nada sobre aquele saquito. Perguntei o que era, mas ele fingiu que não ouviu. Insisti. E o Teodósio Valentim muito relutantemente acedeu. Abriu e me mostrou. Lá dentro havia umas nozes de cor de castanha de cajú, secas. Quando mas mostrou, fiquei com a impressão de que ele o fazia mais para não quebrar o seu juramento interno para com o dever de me “instruir e servir de guia” nas andanças pelo mundo quase mítico das antigas “Zonas Libertadas”. E assim depois de mas mostrar, imediatamente fechou o saco e amarrou como as velhas o haviam feito.
Tudo ficou estranho. Perguntei o que eram aquelas nozes. Ele disse-me que eram nozes de condimento (tempero) para caris e carnes assadas, que davam muito sabor a alimentos. Disse que não se conheciam outros lugares em Moçambique onde tais nozes cresciam (não sei se é verdade, nunca consegui ver bem as nozes e saber do seu nome). Perguntei-lhe se me poderia mostrar a árvore que as produzia. Nada! Acho que ele argumentou que era longe dalí, que as velhas é que iam lá tirar, qualquer coisa do género. Não me explicou em detalhe o procedimento de preparação. Disse somente que se podia raspar para extrair o pó ou usar um procedimento de extrair óleo. Parecia tudo muito místico.
Perguntei-lhe então por que razão ele estava assim tão cioso no tratamento daquelas nozes. Disse-me que no tempo da guerrilha de libertação nacional era comum o Samora Machel quando estivesse em Mueda passar por aquela aldeia comer as comidas feitas por aquelas velhas condimentadas com o pó raspado daquelas nozes ou com um óleo que delas se extrai. Explicou-me que estava preocupado porque as velhas lhe deram aquelas nozes para ele encontrar uma maneira de faze-las chegar a Samora Machel, como presente, e que elas assim sempre procediam com quem conhecessem e confiassem e que visitasse a aldeia, pois aquilo era um condimento preferido e privilegiado do Chefe. E mais adiantou que a partir daquele momento ele se sentia com uma missão muito delicada, porque se perdesse uma única noz, um dia Samora Machel haveria de saber, e ele não poderia arriscar.
Assim, nem dava para lhe pedir uma única daquelas nozes, e depois disso, não falamos mais delas. Eu nem me quis envolver mais naquilo. Não quis mais saber. E mesmo quando chegamos a Maputo, eu nem me preocupei em lhe perguntar se e como ele as teria feito chegar ao destino. Quando uma vez contei isto a alguém, esse alguém disse-me que aquilo não era nada de extraordinário, e deu-me um nome qualquer das nozes que eu não fixei. Até hoje estou ambivalente acerca disto tudo.
Infelizmente, o incidente das nozes acabou sendo a memória daquela viagem que apagou todas as outras memórias do que fomos lá fazer. Também ficou a réstia de memória de um alvoroço que encontramos numa aldeia onde os leões estavam a devassar e a população quase que não se movimentava e estava furiosa que não havia armas adequadas para combater aqueles leões da floresta. Só caçadores locais estavam de serviço, alguns com canhangulos já muito velhos, mas muitos deles armados somente com catanas e machados. Combater matilhas de leões (não um leão!) desta maneira tinha que ser um trabalho de equipa muito bem coordenado. Nós não corríamos tanto perigo a viajar num Land Rover bem fechado. Mas saímos da zona o mais rápido o possível para não atrapalhar a luta contra os leões da floresta.
Eu acho que voltei mais umas quantas vezes as “Zonas Libertadas” de Cabo Delgado. Numa das vezes fui numa delegação da ministra de educação e cultura da altura. Mas sozinho eu nunca gostava de lá ir. Nunca saberia como me orientar.
Continua na Estaca VII – Primeira chicotada política: arrogância, irreverência, e “o mal que vem pelo bem”

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