quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Estaline, os dias do fim

CRÍTICA LIVROS


Narrativa dos últimos dias da vida de Estaline. Um livro de síntese e vulgarização, mais do que o fruto de uma investigação histórica aprofundada ou original.
Uma reconstituição minuto a minuto de uma morte sobre a qual paira – e sempre pairará – uma nuvem de mistério e treva
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Uma reconstituição minuto a minuto de uma morte sobre a qual paira – e sempre pairará – uma nuvem de mistério e treva FOTO: DR
São há muito conhecidas as circunstâncias bizarras da morte de Estaline, ocorrida ao início da manhã de 5 de Março de 1953. Na sua datcha de Kuntsevo, nos arredores de Moscovo, o generalíssimo agonizou longas horas, vitimado por um AVC, esvaindo-se na sua própria urina antes que alguém se atravesse sequer a chamar um médico. E quando, por fim, os clínicos acorreram ao moribundo, tremiam de medo, a ponto de serem incapazes de lhe tirar a camisa para o examinarem. Um dentista extraiu-lhe a dentadura postiça mas, apavorado, deixou-a cair ao chão, sob os gritos de Lavrentiy Béria. Horas antes, e apesar de estranharem a sua prolongada ausência, nenhum dos guardas ousou chamá-lo, batendo à porta do quarto onde dormia. A pretexto de lhe levar o correio oficial do Kremlin, foi uma velha criada da datcha a escolhida para a espinhosa missão de acordar o Pai dos Povos, que jazia imóvel no chão, incapaz de proferir uma palavra. 
A morte de Estaline prestou-se, naturalmente, a inúmeras teorias da conspiração, em especial no decurso da Guerra Fria (recorde-se, por ex., o documentário The Plot to Kill Stalin, emitido pela CBS em Setembro de 1958). Mesmo em obras saídas há poucos anos, como A Corte do Czar Vermelho, Simon Sebag Montefiore coloca novas hipóteses, dizendo en passant que, de acordo com investigações recentes (as quais não especifica, infelizmente), não é de excluir a possibilidade de Béria ter envenenado Estaline, “temperando” o amado vinho da sua Geórgia natal com uma droga anticoagulante, a varafina, com o fito de provocar ou acelerar um processo de embolia. Sebag Montefiore refere inclusivamente que, além de Béria, Nikita Khrushchev, Gueorgui Malenkov e Nikolái Bulganine – no fundo, os “quatro” que à época formavam a corte do czar vermelho – podem ter estado a par e sido cúmplices do plano homicida urdido por Béria. Trata-se de uma hipótese ventilada em diversas biografias de Estaline (cf., por ex., Robert Service, Stalin. A biography, 2004, pp. 587-588) ou narrativas memorialísticas (por ex., a do general Nikolai Vlasik, o chefe da segurança pessoal de Estaline, destituído em 1952), pelo que a “revelação” feita por Montefiore não é propriamente nova ou sensacional. De resto, muitos outros autores têm, ao invés, contestado a tese de assassinato ou avançado sérias reservas quanto à sua ocorrência (cf., por ex., Ronald Hingley, Joseph Stalin. Man & Legend, 1974, pp. 419ss).
É sobre os derradeiros momentos da vida do líder soviético que se debruça Os Últimos Dias de Estaline, de Joshua Rubenstein. Antigo funcionário da Amnistia Internacional, onde trabalhou de 1975 a 2012, Rubenstein é um “académico independente”, como se classifica no seu curriculum. Tem publicado diversas obras sobre a Rússia soviética, com trabalhos sobre Ilya Ehrenburg ou Leon Trostky, mas o fulcro dos seus interesses reside no estudo do antissemitismo e do extermínio dos judeus no Leste europeu. Não admira, pois, que dedique muitas páginas deste livro à chamada “Conspiração dos Médicos”, quando o antissemitismo do ditador e das elites soviéticas – e, note-se, de uma parcela significativa do povo russo – foi especialmente evidente.
Ao contrário do que o título poderia sugerir, o livro de Rubenstein não se cinge a descrever os últimos instantes da existência de Iossef Vissarionovitch Djugashvili. A morte de Estaline é enquadrada nos tempos que a precederam, quando novas purgas trouxeram a ameaça de um regresso ao Grande Terror dos anos trinta, e na luta pela sucessão do “czar vermelho”, aberta quando o cadáver ainda mal arrefecera. Inexplicavelmente, e apesar de se narrar a prisão e o fuzilamento de Béria, o livro não descreve o processo que, ditando o afastamento de Malenkov (o sucessor mais bem posicionado à partida) acabou por conduzir Khrushchev à liderança da URSS.Por outro lado, ao dizer que entre o processo de Béria e os levantamentos populares na Alemanha de Leste houve uma “coincidência da História” (pág. 255), Rubenstein oferece uma explicação simplista da realidade, que aliás infirma logo na página seguinte, onde a ideia de uma convergência fortuita de acontecimentos é desmentida atendendo às posições que Béria tomara quanto ao modo como deveria ser tratada a questão leste-alemã, abrindo-se caminho, inclusive, a uma possível reunificação das duas Alemanhas (um aspecto abordado por Pável Sudoplátov nas suas memórias, Special Tasks, 1994, estranhamente não citadas por Rubenstein na bibliografia final deste livro).
Ao optar por fornecer uma visão panorâmica da “Rússia de Estaline”, antes e depois da sua morte, em detrimento de uma descrição pormenorizada da lenta agonia na datcha de Kuntsevo, o livro de Rubenstein fica aquém de uma obra com o mesmíssimo título publicada entre nós há vários anos. Em Os Últimos Dias de Estaline, saído com a chancela da Ulisseia em 1974, Georges Bortoli descreve as tenebrosas, mas fascinantes, cenas shakesperianas que envolveram a morte do déspota soviético. Bortoli fê-lo, é certo, sem o acesso a fontes arquivísticas e até bibliográficas de que hoje dispomos (com destaque para a biografia de referência da autoria de Dmitri Volkogonov, Stalin. Triumph & Tragedy, 1991, que, aliás, dedica poucas páginas à morte de Estaline). No entanto, o núcleo central de fontes directas sobre a morte de Estaline – os testemunhos da filha Svetlana e de Nikita Khrushchev – encontra-se, por assim dizer, estabilizado e consolidado de há muito, pelo que, apesar das eternas “novidades”, a obra de Bortoli, entre tantas outras, é tão ou mais rica do que o presente livro de Rubenstein; sobretudo para os que, privilegiando o lado humano e pessoal, pretendam conhecer de perto os sinistros momentos terminais de Koba. Momentos em que, paradoxalmente, o líder soviético acabaria por ser vítima da sua obsessão paranóica com a segurança. Explicando melhor: mesmo que não seja líquido que uma intervenção médica mais célere lhe tivesse salvado a vida, o facto de os melhores clínicos de Moscovo se encontrarem presos na Lubyanka, na sequência da Conspiração dos Médicos, e, mais decisivamente ainda, o facto de a ajuda ter demorado cerca de doze horas a chegar, por paralisia temerosa ou intenção homicida dos seus próximos, são elementos que indubitavelmente precipitaram o desfecho que a filha de Estaline descreve de forma arrepiante. De acordo com Svetlana Alliluyeva, o pai, semiparalisado e incapaz de falar, lançou sobre os que o rodeavam no leito da morte um olhar final, fulgurante e terrível, no estertor do ódio; depois, antes de expirar, levantou a mão esquerda aos céus, num gesto ameaçador, cobrindo todos com uma praga e uma maldição eternas.
As memórias de Svetlana são, como se sabe, uma das principais fontes sobre as últimas horas de Estaline. No seu livro, Rubenstein utiliza-as profusamente. No entanto, há elementos constantes das memórias de Svetlana Alliluyeva que Rubenstein contradiz, sem que nos explique porquê – o que inculca no leitor a impressão de que não terá, porventura, feito uma utilização correcta da bibliografia, lapso tanto mais grave quanto se trata de uma fonte tida como credível, a que todos os biógrafos de Estaline recorrem. Assim – e, ao contrário do que possa parecer, este não é um pormenor irrelevante –, Svetlana Alliluyeva afirma que o pai não abandonara a prática dos banhos de vapor. Além de se automedicar com gotas de iodo dissolvidas em água, “vinte e quatro horas antes da congestão fatal ia ao balneário que existia junto da dacha e tomava um banho de vapor como, desde a sua estadia na Sibéria, sempre fizera. Nenhum médico permitiria uma coisa dessas, mas ele não tinha médico algum” (Vinte Cartas a um Amigo. As memórias da filha de Estaline, 1967, pág. 283). Vários biógrafos salientam igualmente esse ponto, que possivelmente terá agravado a hipertensão de Estaline e contribuído para o desenlace fatal. Entre outros que destacam essa questão aparentemente lateral e menor (por ex., Robert Conquest, Stalin. Breaker of nations, 1991, pág. 311), diz Simon Sebag Montefiore: “é possível que, nessa tarde, tenha tomado um banho de vapor. À medida que envelhecia, o calor alivia-lhe as dores da artrite. Mas o Professor Vinográdov proibira-lhe as banyas por serem prejudiciais à hipertensão. Béria dissera-lhe que não era obrigado a acreditar nos médicos. Estaline atirou as cautelas às urtigas” (cf. Estaline. A Corte do Czar Vermelho, 2006, pág. 622).
Pelo contrário, Joshua Rubenstein afirma que, seguindo o conselho de Vinográdov, Estaline não só deixara de fumar no início de 1952, o que é verdade, como abandonara para sempre a prática os banhos de vapor – “também deixara de tomar banhos de vapor: permanecer sentado numa banya só lhe aumentava a tensão arterial” (pág. 17).
Aquilo que parece ser uma petite histoire, um detalhe nosográfico, não o é, nem pode ser, no contexto de uma reconstituição minuto a minuto de uma morte sobre a qual paira – e sempre pairará – uma nuvem de mistério e treva. Aliás, esse detalhe é significativo quanto ao uso de fontes por parte de Rubenstein, que, por exemplo, utiliza com pouco critério as memórias de Khrushchev, descartando o prudente conselho, fornecido por Montefiore e outros, segundo o qual «nem Khrushchev nem Kaganovich são testemunhas fidedignas quando se trata dos seus próprios papéis» (ob. cit., pág. 621). Por outro lado – e cometendo o mesmo “pecado” de Dmitri Volkogonov, na biografia atrás citada –, sobrevaloriza o depoimento de Alekséi Rýbin, um segurança do Teatro Bolshoi que afirmou ter falado com vários elementos da guarda pessoal de Estaline presentes em Kuntsevo. Chega, aliás, ao ponto de confrontar o testemunho indirecto, de “ouvir dizer”, de Rýbin com o relato presencial de Khrushchev, dizendo que um e outro não são coincidentes quando, na substância, não há discrepâncias de fundo entre ambos. Mais ainda: enquanto Dmitri Volkogonov contactou directamente Alekséi Rýbin, obtendo o seu testemunho em directo, Joshua Rubenstein baseia-se num artigo publicado numa revista pelo ex-segurança do Bolshoi e guarda-costas de Estaline, que, insiste-se, não se encontrava sequer na datcha de Kuntsevo em Março de 1953.
Devemos ter presente que a morte de Estaline sempre foi um território povoado de boatos e efabulações, o que implica um enorme cuidado na utilização das (escassas) fontes disponíveis. Recorde-se, a este propósito, que um médico de Berlim Oeste, Fritz Heese, sempre asseverou até à morte (suicidou-se em 1959) que na noite de 4 para 5 de Março de 1953 foi chamado de urgência pelas autoridades soviéticas para se pronunciar sobre o estado de saúde do moribundo de Moscovo, uma história cuja autenticidade é mais do que duvidosa, como nota Georges Bortoli (ob. cit., pág. 193). Ainda que não utilize fontes suspeitas deste género, Joshua Rubenstein recorre ao que já era sabido, baseando-se em informações secundárias, nomeadamente obras publicadas no Ocidente e bastante conhecidas (a excepção mais relevante é uma antologia documental sobre o processo de Béria editada por Vladimir Khaustov em 2012 e que permanece por traduzir do russo). Ainda assim, este livro apresenta ao leitor uma panorâmica cativante dos tempos finais do consulado sangrento de Josef Estaline, sobretudo em termos geopolíticos e na perspectiva dos corredores do poder de Washington. As exéquias fúnebres são objecto de uma descrição apaixonante, pormenorizada e elucidativa, na linha do extenso relato feito por Oleg Khlevniuk em Stalin. New Biography of a Dictator, 2015, pp. 317ss.
No dia dos funerais solenes, milhares de pessoas afluíram ao centro de Moscovo. Muitos morreram entre a multidão lacrimejante. Ao verem várias pessoas com as cabeças esmagadas contra o flanco de uma coluna de camiões, o poeta Ievtushénko e alguns companheiros imploraram aos soldados para que afastassem dali os blindados, abrindo espaço para a turba passar, no tropel da dor. Os militares recusaram, mesmo vendo os mortos que tombavam à sua frente. O motivo era simples, terrivelmente singelo: não tinham recebido ordens para afastar os camiões. Por isso, nada fizeram, com temor das represálias dos seus superiores. Estaline morrera, o estalinismo não.

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