Patrick Nogueira, quando foi depor na Polícia Civil, em 20 de outubro.EFE / ATLAS
Desde que tinha 12 anos, o paraibano Patrick Nogueira, hoje com 20, convivia com a sensação de que algo de grave iria truncar sua vida de repente. E esse dia chegou em 17 de agosto do ano passado, quando pegou um ônibus para a localidade espanhola de Pioz com a intenção de matar a facadas seu tio, a mulher dele e dois
primos. Não houve lugar para improviso nessa chacina. Ele chegou a
pesquisar na Internet qual seria o método mais rápido para eliminar os
quatro parentes. “Como matar alguém em três segundos?”, digitou num site
de buscas, segundo fontes da investigação. O EL PAÍS reconstrói, com
dados inéditos, o selvagem crime quádruplo que abalou a Espanha e o
Brasil em meados de 2016.
Eram 14h de 17 de agosto, hora local. Patrick cruza a porta do chalé 594 do condomínio La Arboleda de Pioz, onde vivem seu tio Marcos Campos Nogueira e a esposa dele, Janaína Santos. O casal tem dois filhos de dois e quatro anos. Todos são de origem brasileira.
Janaína esta sozinha com as crianças. Patrick come com eles as duas
pizzas que leva e oferece ajuda à mulher para lavar os pratos. É o
pretexto para esfaqueá-la na cozinha. Mais tarde, acaba com a vida dos
priminhos – também a punhaladas. “Estava claro que eu queria matá-los
desde antes de chegar à casa. Não passei medo”, contou o assassino
posteriormente aos investigadores.
Patrick limpa o chalé com água sanitária para que seu tio, que só
chegaria do trabalho às 22h, não suspeitasse de nada. Inicialmente,
planeja enterrar a tia e os dois primos com uma pá que havia comprado
por 60 euros (200 reais). Depois, diante da dificuldade de cavar no
concreto, opta por esquartejar os corpos e guardá-los em quatro sacos de
lixo grandes.
Termina de esfregar o chão. Já são 19h. Ainda faltam quatro horas para o tio chegue do trabalho. Dedica o tempo livre a mandar selfies e mensagens de WhatsApp ao seu único amigo, Marvin Henriques Correia, de 18 anos, que está no Brasil. “Quando deu 18h45 eu ainda estava enxaguando o chão. Estou feliz”, gaba-se.
Os psiquiatras descrevem Nogueira como um psicopata típico.
Um sujeito que não está louco e distingue entre o bem e o mal com uma
frieza que lembra o caso de Javier Rosado, autor de um horripilante
crime cometido em 1994 na Espanha, que ele próprio narrou com detalhes
em três páginas de um caderno. “É notável o quanto um idiota demora a
morrer”, disse Rosado em seu diário, desprezando a vítima, que ele
chamava de “a presa”.
O paraibano Patrick manifesta ao amigo Correia a sua insatisfação por não ter conseguido resolver a chacina de uma só vez.
O problema é o tio, que ainda está no trabalho. “Chega aqui às 22h.
Estou com fome. E esse viado não chega. Está tudo seco. E ter que sujar
outra vez… Voltar a partir o corpo pela metade outra vez… Colocar os
órgãos numa sacola… Depois limpar….”, conta ao amigo por WhatsApp.
“Espero não falhar matando esse merda”, acrescentou em outra mensagem,
que incorporava o link de um texto sobre “quanto tempo um corpo leva
para se decompor” Seu amigo, no Brasil, acompanha com expectativa.
Marcos Nogueira e Janaína Santos Américo Facebook
Marcos Campos, o tio, chega em casa às 22h15 e encontra o sobrinho,
desafiador. “Olha só... Agora é a sua vez”, lhe diz, conforme apurou
este jornal. Depois o esfaqueia no corredor. “Pelo menos meu tio é mais
leve que a mulher dele. Mulher gorda da porra. Achei que era um homem,
kkk”, conta ao amigo.
“Se me prendessem aqui eu não me importaria”
“Voltar a partir o corpo pela metade outra vez…
Colocar os órgãos numa sacola… Depois limpar….”, queixou-se o assassino
ao seu único amigo
O jovem pernoita no chalé, descansando, mas acordado. Descarta a
ideia de fugir às 4h da madrugada pelo matagal. Teme ser descoberto pelo
segurança do condomínio. Tem consciência do que fez. E se mostra
preocupado em ir parar numa prisão brasileira. Volta a pegar o celular.
“Aí me estuprariam 30 vezes. E depois apagariam uma vela no meu cu. Kkk.
Se me prendessem aqui eu não me importaria… Ficaria vendo TV até os 80
anos”, diz a Correia, a quem – conforme contou às autoridades
brasileiras – estava unido havia três anos por laços de amor, “mas não de homossexualidade”.
Quando amanhece, Nogueira pega um ônibus com direção à localidade de
Alcalá de Henares, nos arredores de Madri, onde divide apartamento com
uma jovem brasileira e dois espanhóis. Chega levando um saco com chaves,
um celular, luvas, fita adesiva, toalhas e tecidos manchados de sangue.
Dias depois se desfaz dos utensílios numa lixeira. Joga-os em dias
alternados, para não despertar suspeitas.
Morar num apartamento compartilhado não era a sua primeira opção. Mas
foi a consequência do ultimato dado pelo tio Marcos, que ameaçou
denunciá-lo por estar irregularmente na Espanha se não fosse embora da
casa da família. Alguns meses antes, o assassino e as vítimas haviam
morado juntos em Torrejón de Ardoz, também perto de Madri. Os pais do
rapaz, residentes no Brasil, queriam que seu filho deixasse para trás
uma vida turbulenta em João Pessoa para ser acolhido pelos parentes na
Espanha.
Mas a convivência com os tios acabou sendo vulcânica. Conforme
declarou o pai de Janaína, Wilton Diniz, em depoimento à polícia
paraibana, “sabíamos que Patrick tinha esfaqueado um professor em 2013 e
que tinha comportamentos estranhos, como andar nu pela casa”. Esse dado
se soma à chave oferecida aos investigadores espanhóis pelo chefe de
Marcos na churrascaria onde ele trabalhava, em Alcalá de Henares. Na
opinião dele, seu funcionário “estava desequilibrado e pensava de forma
obsessiva que sua esposa estava lhe traindo com seu sobrinho Patrick”.
“Não foi um impulso. Premeditei alguns dias antes”, confessou o criminoso aos investigadores.
Fuga para o Brasil
Os cadáveres só foram encontrados um mês depois. E, dois dias depois
da descoberta, Nogueira se mandou num voo para o Brasil. O chalé dos
seus familiares se transformou num monumental set de televisão. E todos os olhares apontavam para ele, um rapaz de boné, de 20 anos, que jogava futebol em Torrejón de Ardoz e passava as tardes grudado no game Call of Duty.
A única pessoa na Espanha de quem Patrick se despediu foi Borja, o
homem que havia lhe alugado um quarto. “Estou no Brasil. Meu tio foi
assassinado… A imprensa diz que fui eu… Desculpe não ter te avisado...”,
escreveu ele num WhatsApp, já de volta a João Pessoa. Durante seu périplo brasileiro, o rapaz voltou a se encontrar com Correia, a beber e a fumar.
Seu amigo contou posteriormente à polícia paraibana que respondeu às
mensagens do assassino por “curiosidade” e porque não queria “que
Patrick fosse preso”. Correia chegou a ser detido, mas foi posto em liberdade sem ser indiciado.
Um mês depois de viajar ao Brasil, o assassino de Pioz voltou voluntariamente à Espanha e se entregou às autoridades. Seguiu as indicações de sua irmã, a advogada Hanna Nogueira Gouveia.
Desde então, encontra-se isolado na prisão provisória, na qualidade de réu confesso do quádruplo homicídio doloso. Assessorado pelo escritório Garzón Advogados,
ele tentará usar a confissão como atenuante para ser condenado a 30
anos de prisão, em vez de pegar a pena de prisão perpétua com direito a
uma revisão a cada 25 anos.
Nogueira nunca negou ter cometido a chacina. “Não foi um impulso. Premeditei alguns dias antes.”
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