terça-feira, 9 de abril de 2019

“Só precisamos de ajuda. Por favor, ajudem-nos”: ninguém parece querer saber da Evans, do Benjamin e do Ejaki


O momento do resgate, a 3 de abril
FABIAN HEINZ/ IMAGENS CEDIDAS PELA SEA-EYE

“Mandaram-me dormir com homens”, conta Evans. “Venderam-me duas vezes por 320 euros”, lembra Benjamin. “Partiram-me a mão porque exigi um salário”, diz Ejaki. Estas são três histórias entre as mais de 60 pessoas que há mais de uma semana esperam que lhes seja dado um porto seguro para desembarcarem

Evans enrola a perna esquerda das calças verde seco que veste. Levanta-a até ao joelho e aponta: “fizeram-me isto”. Isto é uma cicatriz feita por uma facada que sofreu quando recusou que o seu corpo fosse objeto de prazer para homens que a queriam comprar. De Evans não sabemos a idade, possivelmente será mais nova do que parece. Sabemos que é oriunda da Nigéria e que foi ao engano para a Líbia. Queria fugir dos problemas que havia no seu país e encontrou outros. Sabemos também onde está Evans no momento em que este texto é publicado: no Mediterrâneo, dentro de um barco com mais 63 pessoas. Foi resgatada há mais de uma semana e continua sem ter um porto seguro para desembarcar.
“Na Líbia vendiam as raparigas e tomavam conta de uma casa [uma espécie de bordel]. Mandaram-nos fazer coisas que não vos passam pela cabeça. Mandaram-nos dormir com homens e, se recusassemos, batiam-nos ou espetavam-nos facas. Quando me levaram para essa casa recusei fazer o que me pediram, espetaram-me uma faca”, conta Evans num vídeo gravado pela Sea Eye, a única organização não governamental que continua a realizar operações de resgate e salvamento no centro do Mediterrâneo. São eles os responsáveis pelo navio Alan Kurdi, que aguarda autorização para desembarcar na Europa.
Evans
Evans
DR
Já não tem pais. “Perdi os dois, morreram.” Decidiu que tinha de deixar a Líbia. “Há problemas em todo o lado, não há ajuda. Muitas pessoas morrem na Líbia, muita gente fica ferida na Líbia. Foi então que decidi seguir para a Europa.” E ela sabia que o caminho era mau, ouviu falar nos perigos de se fazer ao mar. “Não havia outra opção. Só precisamos de ajuda. Por favor, ajudem-nos.”
Benjamin tem 30 anos. Também é nigeriano, também fugiu para a Líbia - “desde então a minha vida tem sido um inferno” - e também entrou num barco para chegar à Europa. Diz que já não é livre, que na Líbia encontrou “o pior país que viu na sua vida”.
“São corruptos”, diz. Ele está, tal como Evans, a bordo do Alan Kurdi desde 3 de abril. “A Líbia não é um país civilizado. Usam os negros como escravos e vendem as pessoas. A mim venderam me duas vezes.” Quanto vale uma pessoa? Benjamin valeu 500 dinars, cerca de 320 euros.

HÁ UMA SEMANA NO MAR

As histórias de Evans e Benjamin são divulgadas pela Sea Eye. A organização não governamental alemã tem pedido ajuda internacional para o desembarque do navio que há mais de numa semana resgatou 64 pessoas (50 homens, 12 mulheres e 2 crianças) que estavam num barco de borracha. Como se tornou habitual, nem Itália nem Malta aceitaram que o Alan Kurdi atracasse. E o mesmo estão a fazer os restantes países europeus.
Benjamin
Benjamin
DR
Às pessoas resgatadas junta-se uma tripulação de 17 pessoas. A comida e a água disponíveis a bordo estão a acabar. Já esta terça-feira, uma mulher de 24 anos teve de ser retirada do navio, levada por pessoal médico e atendida num hospital de Malta depois de ter desmaiado. Mas há mais pessoas em situações delicadas: um bebé de 11 meses, uma criança de seis anos e uma mulher grávida.
Ejeki também está no navio. Embarcou na Líbia mas é da Nigéria. A história dele é como tantas outras: deixou o seu país para trabalhar sem ideia daquilo que acontecia em território líbio - e que nos últimos dias vive num estado iminente de guerra civil.
“Eu queria trabalhar e acreditava que era um sítio bom para trabalhar muito e conseguir sustentar a minha família. Mas desde que lá cheguei, as pessoas trataram-me como escravo. Nunca me trataram como ser humano”, relata. Usam armas para os assustarem, ameaçam-nos com a prisão e a deportação. Mas há pior: “Partiram-me a mão. Exigi o meu pagamento e partiram-me a mão.”
“Sou o tipo de pessoa que gosta de trabalhar e deixei a Nigéria porque queria deixar a minha família orgulhosa. Foi por isso que saí. Sei quem sou: um trabalhador que quer um emprego e que não quer dinheiro oferecido”, diz num outro vídeo gravado e divulgado pela ONG.
Ejeki
Ejeki
DR
Os últimos casos com contornos como o deste navio têm sido resolvidos com acordos entre alguns Estados-membros da União Europeia que se ofereceram para receber algumas destas pessoas (e nos quais Portugal tem participado). Uma solução que para a Sea Eye não é “sustentável”.
“O resgate de pessoas devia ser feito independentemente das agendas políticas de alguns Estados. Claramente a solução para a nossa situação só pode ser política. Estamos dependentes de negociações entre Estados da União Europeia, o que representa uma inaceitável distorção e violação lei das operações de salvamento e resgate”, criticou a ONG em comunicado.
No ano passado chegaram a operar no Mediterrâneo navios de dez organizações não governamentais. Atualmente, só resta o Alan Kurdi, da Sea Eye. As dificuldades em conseguir portos para desembarcar e os problemas recorrentes com as autoridades - alegados envolvimentos com redes de tráfico humano e na utilização de uma bandeira para navegar - têm forçado a paragem de muitos navios. O primeiro caso semelhante sucedeu em junho do ano passado, com o Aquarius e mais de 600 pessoas a bordo.
Quase se passou um ano. Sim, isto está a acontecer outra vez.

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