Parabéns à “Sapataria” Savana!
Não sou de todo hipócrita. Sei bater palmas quando os outros acertam. Palmas de incentivo. Estou contente pela capa do jornal “Savana”, da sexta-feira última. Intitula-se “A estrela do cinema mudo”, em referência a Beatriz Buchili que até aqui não mugiu no concernente às dívidas ocultas. De certa forma estou feliz porque por fim dão-me razão no que tenho dito reiteradas vezes que em Moçambique a justiça avariou. Não funciona.
O que me levou a criar esta página do Facebook era exactamente para mostrar aos meus compatriotas que a justiça, em Moçambique, não existe. Se existe, é para acobertar os criminosos de colarinho branco. O poder do dia. Por isso que até aqui nada se sabe sobre a questão das dívidas ocultas. Esta questão há muito que morreu.
O que me preocupa é que os magistrados recebem salários chorudos e têm regalias. Ou seja, o dinheiro do contribuinte está a pagar pessoas que não fazem nada. Chegam ao gabinete e esticam as pernas, depois de um café, água mineral, bolachas…
Estamos a pagar a burros que só fazem o que o poder político manda. A justiça, em Moçambique, só serve para limpar a casa de banho do poder político. É moleque, pão-mandado, serviçal. Os magistrados deviam colocar aventais quando fossem trabalhar. Aqueles aventais dos garçons. Se estão lá só para servir o chá aos políticos…
Um país sem justiça, é como uma torneira em que a água não jorra. É como um marido impotente. A mulher não tem quem a satisfaz. Por isso que arranja outros meios. É por isso que desembocamos em situações como linchamentos e tais. A justiça que é o pilar fundamental para o desenvolvimento de qualquer país, em Moçambique está uma merda!
Um abraço
Nini Satar
ShareTEMA DA SEMANA 2 Savana 06-04-2018 TEMA DA SEMANA N um mês
como este (Abril), em 2016, o respeitado jornal norte-americano, Wall Street
Journal, despoletava o maior escândalo financeiro de sempre na história de
Moçambique. Eram as chamadas dívidas ocultas, uma operação de USD 1.4 mil
milhões contraídos à calada da noite pela administração Guebuza. Os empréstimos
juntavam-se aos também polémicos USD850 milhões da EMATUM, constituindo um
pacote único que, como tal, também teve um processo único na Procuradoria-Geral
da República (PGR), datado de 2015, ano em que iniciou a investigação sobre a
EMATUM, mas que até hoje está em fase de instrução preparatória, com a PGR a
entreter a tudo e todos, num autêntico jogo de cabra-cega. O país ainda digeria
a dívida de USD 850 milhões da Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM) quando, em
Abril de 2016, foi despoletado mais um escândalo financeiro, USD 622 milhões da
Proindicus e USD 535 milhões da Mozambique Asset Management (MAM), empréstimos
contraídos e avalizados pelo Governo moçambicano, entre 2013 e 2014, junto dos
bancos russo VTB e suiço Credit Suisse a favor das três empresas teoricamente
privadas, mas detidas pelo Estado, através dos serviços secretos. O escândalo,
inicialmente, desmentido pelo Governo, causou ira não só aos moçambicanos que
foram apanhados de surpresa, mas também à comunidade internacional que, de
imediato, suspendeu os seus apoios financeiros ao Orçamento do Estado (OE),
levando o país ao precipício. Os parceiros de cooperação, incluindo o Fundo
Monetário Internacional (FMI), desde logo deixaram claro que o esclarecimento
das dívidas ocultas, que inclui a responsabilização dos seus autores, é uma
etapa incontornável para restabelecer a confiança e retomar os seus programas
de apoio a Moçambique. A Suécia chegou a financiar uma auditoria independente às
dívidas ocultas, USD 4.7 milhões, que foi imposta a contra-gosto do Governo
moçambicano, mas o certo é que Maputo tem resistido abrir a mão ao
esclarecimento do maior escândalo financeiro de sempre no país. Coube à Kroll,
uma auditora internacional especializada na recuperação de activos
descaminhados, investigar as dívidas ocultas, cujo sumário executivo foi
publicado a 24 de Junho de 2017. As constatações da Kroll, dentre elas as
inconsistências na justificação do paradeiro dado a USD500 milhões do empréstimo
contraído pela EMATUM, os gastos atinentes aos USD 2 mil milhões das dívidas
ocultas, os bloqueios no fornecimento de informações sob o argumento de
“segredo de Estado”, a exagerada sobrefacturação de USD713milhões, a arrogância
de alguns oficiais do SISE, sugerem que se tratou de um golpe financeiro de
magnitude sísmica urdido durante o reinado de Armando Guebuza. “Lacunas
permanecem no entendimento sobre como exactamente os USD2 mil milhões foram
gastos, apesar dos esforços consideráveis” para esclarecer o assunto,
sublinharam os auditores no sumário executivo do relatório que foi,
integramente, entregue à PGR, com nomes inclusos, se bem que no sumário
executivo foram apenas apresentadas siglas codificadas. Embora com nomes
omitidos, o SAVANA desvendou as personagens envolvidas, que têm a
particularidade de estarem ligadas ao Serviço de Informação e Segurança do
Estado (SISE). Na verdade, foi uma operação realizada por um pequeno círculo de
oficiais de segurança, liderados pelo todo-poderoso António Carlos do Rosá-
rio, na altura director da Inteligência Económica do SISE e descrito, no
documento, como o “indivíduo A”, e que inclui vários “indivíduos” como o “E”
(Gregório Leão, então director do SISE), “C” (Manuel Chang, então ministro das
Finanças), “D” (Isaltina Sales, actual vice-ministra da Economia e Finanças),
todos eles próximos ao então presidente da República, Armando Guebuza. Mas não
foi apenas a auditora internacional que detectou trafulhices na contratação das
dívidas ocultas. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instituída pela
Assembleia da República para averiguar o assunto, já tinha apurado, em finais
de 2016, a existência de delitos financeiros e criminais, atribuindo à Justiça
o papel de imputar as necessárias responsabilidades aos agentes das infracções.
Vale recordar que, já em Julho de 2016, a própria PGR havia informado que, após
ouvir os representantes das empresas EMATUM, MAM e Proindicus, para além de
outras entidades envolvidas no processo, apurou que houve um crime na contratação
da dívida pública, sem a observância da legalidade. “Houve violação da lei
orçamental no caso dívida pública”, reconheceu, na altura, o
procurador-geral-adjunto e então porta-voz da PGR, Taibo Mucobora. Em Abril de
2017, um ano depois da descoberta das dívidas ocultas, a PGR solicitou a quebra
de sigilo bancário a uma empresa e 19 individualidades que no seu entender
deveriam ser investigadas em conexão com o caso. A lista incluía Armando
Guebuza e alguns dos seus colaboradores mais pró- ximos, bem como dois dos seus
filhos, Ndambi e Mussumbuluco. Já em finais de Janeiro último, a entidade
dirigida por Beatriz Buchili anunciou que a sua investigação detectou factos
susceptíveis de consubstanciar infracções financeiras à luz da Constituição da
República de Moçambique (CRM) e da legislação orçamental. Os factos em causa,
precisou a PGR em comunicado, incluem o desrespeito dos procedimentos e dos
limites fi- xados por lei na emissão de garantias e avales pelo Governo e a
inobservância dos procedimentos legais na contratação de financiamento externo
e na contratação de bens e serviços. Apurou, igualmente, que houve execução de
actos e contratos sem a submissão para a fiscalização obrigatória pelas
entidades competentes, numa alusão à Assembleia da República e ao Tribunal
Administrativo. É preciso sublinhar que o processo número 1/2015, sobre as
dívidas ocultas, arrasta-se desde 2015, na altura só com a EMATUM, mas continua
em fase de instrução preparatória, naquilo que é interpretado como a expressão
mais alta da inércia da PGR em esclarecer o escândalo que empurrou o país à
actual crise que fustiga sobretudo o povo. Na abertura do ano judicial 2018, a
1 de Março último, o bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM), por
exemplo, considerou estranho que o processo sobre dívidas ocultas, aberto em
2015, ainda não tenha arguidos constituídos, vincando a necessidade de se
tratar o processo com a devida seriedade, sob pena da Justiça moçambicana cair
em descré- dito. “Relativamente ao processo comumente denominado como o ‘caso
das dívidas ocultas’, achamos que constitui um passo importante a remessa de
informação ao Tribunal Administrativo… mas convenhamos que, para um processo de
Instrução Preparatória identificado como sendo n.º 1/2015, sem arguidos constituídos
volvidos três anos, mesmo depois do relatório da Kroll revelar que 500 milhões
de dólares tiveram uma aplicação desconhecida, é, no mínimo, estranho”,
disparou Flávio Menete, cara a cara com Beatriz Buchili. A PGR é controlada
pelos próprios infractores - GMD No mês em que passam dois anos depois da
descoberta das dívidas ocultas e três desde que a PGR abriu o processo 1/2015,
na altura visando apenas a EMATUM, o SAVANA quis saber se é razoável que o
processo continue ainda em fase de instrução preparatória, sem sequer um
arguido. As respostas não surpreenderam, com todos os entrevistados a
criticarem a falta de avanços. Para o Grupo Moçambicano da Dívida (GMD), por
exemplo, a demora no esclarecimento do caso só se justifica com o que chama de nódoas
de que se reveste o processo. “Há muita coisa suja e as pessoas ligadas ao
problema são altos dirigentes e as instituições que estão a frente do processo
estão abaixo do poder dos infractores e são controladas pelos próprios
infractores”, refere o posicionamento do GMD ao SAVANA. Para aquela organização
da sociedade civil, nessa condição, dificilmente haverá um exercício idóneo de
responsabilização. As dívidas ocultas e o esclarecimento que é recusado pela
Justiça Três anos de contos de fada! Entende que a resistência no
esclarecimento do caso deve-se ao facto de qualquer passo nesse sentido colocar
em causa a sobrevivência do partido no poder, a Frelimo, que, com avanços nas
investigações, pode estar a dar um tiro no próprio pé, naquilo que o GMD chama
de início da queda do partido dos camaradas, esses que optarão por arrastar o
caso, preferindo o sofrimento do povo. Por isso, avança o GMD, os doadores
devem repensar no modelo de responsabilizar os infractores das dívidas ocultas,
de modo que não tenha consequências trágicas sobre o povo, como o que acontece
actualmente. “Enquanto não existir mecanismos claros de responsabilização, quem
sofre não são os implicados, neste caso, as lideranças que cometeram os erros.
Infelizmente é o povo e essas pessoas, os infractores, estão na Praia ou em
Dubai com as famílias a passarem bons momentos”, refere o GMD. Para o GMD, a
saída é não reconhecer as dívidas ocultas como soberanas, o que passa, desde
logo, por não restruturá-las, mas sim avançar-se para a responsabilização dos
seus infractores. É grave - CIP Para o Centro de Integridade Pública (CIP), uma
organização da sociedade civil de advocacia pela transparência, boa governação
e combate à corrupção, três anos é demasiado tempo. “Mesmo que estejamos a
falar de razoabilidade da investigação, três anos sem pelo menos constituir
arguidos, é grave e há uma inércia clara do Ministério Público. E isto ganha
mais força quando nós sabemos que este processo tem contornos políticos, quando
sabemos que a Procuradoria não vai agir se estas instituições políticas não
darem o aval para que ela haja”, referiu Balatazar Fael, em nome do CIP.
“Estamos a falar de um processo que tem três anos. Que acabou violando todos os
prazos de instrução preparatória possíveis, ou seja, os 90 dias que é o prazo
máximo de um processo de querela já estão, largamente, expirados. Muito bem que
é preciso entender a complexidade do caso, mas não há aqui uma desculpa para
não haver acordos com os países em que o dinheiro circulou porque todos eles são
signatários da convenção das Nações Unidas sobre a corrupção, que se pode
accionar para se ter essa colaboração” observou o jurista. Para Baltazar Fael,
o mais grave nisto tudo é que existe um relatório que indica, claramente, o que
aconteceu, incluindo indicações claras dos envolvidos. “Não há abertura por
parte da Procuradoria-Geral para nos dizer o que está a fazer. Não estamos a
dizer para violar o segredo de Justiça. Vir a pú- blico dizer, por exemplo, que
já ouvimos três, quatro ou seis pessoas, que o processo está a andar neste ou
naquele sentido, que faltam diligências no sentido disto mais aquilo, não é
violar segredo de Justiça”, rebateu o jurista, para quem é preciso que a PGR
não se escude no segredo de justiça para não investigar o caso. “São três anos
e estas questões todas que levantamos, que há nomes no relatório da Kroll que a
Procuradoria teve acesso em primeira mão e três anos depois não há nenhum
arguido constituído, quer dizer, isto é grave”, criticou. Lamenta que a PGR
continue indiferente enquanto o país, esse, claramente, caminha para a
bancarota. Diz que se calhar no dia em que o país não conseguir se reerguer, os
políticos criem condições para que o processo avance, mas sublinha que nessa
altura não se vai procurar os verdadeiros culpados do caso, mas sim buscar
bodes expiatórios para se resolver o assunto e pôr o país a beneficiar da ajuda
internacional. “Não será uma investigação concludente porque o tempo útil para
uma investigação passa. Não ficamos 20 anos e pensarmos que os elementos de
prova vão permanecer os mesmos, eles vão enfraquecendo, vão se dissipando e
etc”, anota. Alerta ainda para a dissipação de provas. “A questão da dissipação
de provas está no ar. Estas pessoas estão a fazer o que estão a fazer, estão a
influenciar instituições, estão a manipular dados e uma série de factos porque
não estão numa situação processual em que limite a sua liberdade e
possibilidade de poderem fazer isso”, lamenta. Já é suspeito – Gilberto Correia
Para o antigo bastonário da OAM, Gilberto Correia, já não é apenas estranho,
mas sim suspeito que o processo 1/2015 ainda não tenha registado avanços
significativos. Refere que o relatório da Kroll é uma evidência pericial que
foi junta aos autos e só o sumário executivo que foi tornado público aponta
para que certas pessoas fossem constituídas arguidos. “É preciso lembrar que o
processo é 1/2015, mas até hoje não tem nenhum arguido, o que significa que
ainda está em fase de instrução preparatória, mas a PGR teve o relatório
completo que mostra que há indícios suficientes para se constituir arguidos”,
comentou Gilberto Correia, para quem há, claramente, falta de vontade política
para o esclarecimento do caso. O jurista não entende porque é que não há
avanços de um processo que extrapolou o segredo de justiça com a revelação dos
implicados, embora codificados em letras, mas que, mesmo assim, são devidamente
conhecidos. Por Armando Nhantumbo Armando Guebuza, supeito de ser o actor-mor
no caso dívidas ocultas, foi quem indicou Beatriz Buchili para Procuradora-Geral
da República TEMA DA SEMANA Savana 06-04-2018 3 PUBLICIDADE TEMA DA SEMANA 4
Savana 06-04-2018 O rapto e tortura do jornalista e jurista Ericino de Salema,
no passado dia 27 de Março, veio clarificar aquilo que sempre foi o modus
operandi da Frelimo, desde a luta de libertação, sempre que houvesse
necessidade de se libertar de vozes incómodas. Esta coincidência vem estampada
na obra: “os últimos dias de URIA SIMANGO”, um livro do escritor Adelino
Timóteo, lançado esta terça-feira, 03, na cidade de Maputo. Segundo o autor,
nas entrevistas feitas a pessoas que convivem dentro da Frelimo há mais de 50
anos bem como à literatura diversa sobre a história do movimento de libertação
nacional é possível verificar que a onda de sequestros e execuções a cidadãos
moçambicanos com pensamento autónomo foi sempre a estratégia usada para o
silenciamento. O truque observou vários estágios dependendo do contexto
histórico. Durante a luta armada, os reaccionários eram enviados de
Dar-Es-Salaam (Tanzânia) para interior da província de Cabo Delgado – zonas de
guerra – e de lá nunca mais voltavam. Depois da independência, na vigência do
marxismo-leninismo, o modelo usado foi de traidores, tribalistas, regionalistas
e inimigos do povo, um pretexto para prender e enviar para campos de reeducação
onde eram fuzilados. No presente momento vigora o truque de rapto, tortura,
baleamento ou assassinato usando desconhecidos, mas sob um olhar impávido das
autoridades competentes. Numa obra de 195 páginas, o autor refere que figuras
como Uria Simango, Celina Simango, Joana Simeão, Lázaro Kavandane, Mateus
Gwengere, Silvério Nungu são exemplos de que, o que aconteceu com Ericino de
Salema, José Macuane, Gilles Cistac, entre outros, é o que a Frelimo faz, desde
a luta armada, para fragilizar críticos. “É o modus operandi dos regimes
ditatoriais, que não aceitam opiniões contrárias, encontrando no fuzilamento a
forma de apagar uma voz contrária ou com um pensamento diferente. Infelizmente,
recorrem às valas comuns como forma de esconderem os seus crimes. Mesmo com
este tipo de atitudes, advogam ser arautos da democracia ou se intitulam de
democratas, mas, por detrás disso, escondem crimes contra a humanidade.
Moçambique é um dos exemplos em que os dirigentes atingiram as posições que atingiram,
banhando as mãos de sangue, para assegurarem os protagonistas que hoje detêm,
mas se esquecem que a humanidade só Deus é que pode tirar a vida humana”, lê-se
nos depoimentos de Daviz Simango estampados no livro. Na obra em alusão, o
autor diz que o movimento libertador sempre se apresentou publicamente como
contrário ao tribalismo e ao regionalismo, porém, para além de pensamento
autónomo, as diferenças étnicas também foram usadas como elementos para
discriminação e assassinatos. As escrituras do livro referem que ao longo do
tempo, na nossa história recente, apercebeu-se que a maior parte dos nomes que
foram raptados, humilhados e assassinados eram indiví- duos do centro e norte
do país. “Uria Simango, sua esposa e outros companheiros de infortúnio foram
assassinados por serem de uma etnia diferente, enquanto que relativamente às
outras vítimas, as do sul, a morte os visitou por alegada falta de lealdade à
tribo changana ou por terem endossado apoio aos reaccionários do centro e
norte”, lê-se. Diz a obra que só os apelidados revolucionários, por colação
heróis do país, maioritariamente do sul, têm direito a um lugar na cripta, ou
recebem condecorações e títulos honoríficos. A obra “Os últimos dias de URIA
SIMANGO” traz a outra face da histó- ria que sempre foi escamoteada pelo regime
e diz que a vida de Uria Simango não foi um mar de rosas dentro do movimento
que ele co-fundou, em 1962, até ser expulso, perseguido, raptado, humilhado e
fuzilado. Sublinha que Uria Simango era um patriota e nacionalista genuíno que
viu seus camaradas de armas, na Tanzânia, traçarem-lhe o destino, que
culminaria com o ajuste de contas, em Mtelela, distrito de Majune, província de
Niassa. O livro conta a forma penosa como Uria Simango e seus colegas de
infortúnio foram executados. Refere que no dia 25 de Junho de 1977, quando o
país comemorava dois anos de independência, uma caravana de jeeps chegou ao
campo de Mtetela. Da comitiva faziam parte o comissário político do Serviço
Nacional de Segurança (SNASP)[Abel Assikala], o chefe da contra-inteligência
militar e o governador Niassa,[Aurélio Manave]. Os visitantes comunicaram ao
“grupo dos reaccionários” que o presidente Samora decidiu convocá-los a Maputo
para discutir a sua libertação. Acabaram por ser colocados numa vala. Regados
com gasolina, foram queimados vivos. Também faz alusão aos caminhos tortuosos
percorridos por Uria Simango desde as perseguições da PIDE, fundação da Frelimo
e sua eleição a vice-presidência do movimento libertador, maratonas
diplomáticas, acusações de tribalismo e regionalismo, a forma maquiavélica
usada por Marcelino dos Santos e Samora Machel para o afastar da direcção do
movimento, sua expulsão, exílio no estrangeiro, regresso ao país onde criou o
Partido de Convenção Nacional, retorno ao estrangeiro, sua captura no Malawi e
entrega às autoridades moçambicanas e seus últimos dias no campo de reeducação
de Mtelela. Depoimentos A cerimónia de apresentação do livro, dentre vários
convidados, foi testemunhada pelos filhos sobreviventes do então vice-presidente
do movimento libertador, mormente: Lutero e Daviz Simango. Ao nível
governamental ninguém se fez representar. Também foi notável a ausência do
deputado Venâncio Mondlane e do jurista António Frangoulis. Para Lutero
Simango, se a vida do seu progenitor não tivesse sido encurtada completaria 92
anos. Diz que dedicou grande parte da sua vida à libertação de Moçambique e foi
um grande mobilizador dentro da Frente de Libertação de Moçambique. “A nossa
casa, para além de servir como abrigo da família, foi utilizada como centro de
trânsito de todos aqueles que estavam à busca de caminhos de revolução”, conta.
Lutero diz que o seu pai era um homem feliz. Em tudo o que ele se empregava,
fazia-o a fundo e de corpo e alma. “Uria Simango foi sacrificado por causa do
seu sentimento de pensar diferente, tinha ideias próprias, uma visão futurista.
Sempre pensou que as ideias contrárias é que provocariam o desenvolvimento da
organização, mas infelizmente não foi percebido”, disse. Segundo Lutero há
tendências de se apagar as marcas de Uria Simango na luta pela libertação,
porém, os autores esquecem que a história de um povo já mais pode ser apagada
ou adulterada. Daviz Simango, segundo filho da fi- gura retratada no livro,
refere que a obra retrata aquilo que foi a figura de Uria Simango como pai,
esposo, líder, pastor e educador. Para Daviz Simango muita coisa foi escrita ou
falada sobre o pai. Esses escritos ou depoimentos tinham o fim único de pintar
a negro todo o SEU legado, mas cada vez que o tempo passa, a sociedade descobre
quem na verdade era o seu progenitor. O edil da Beira referiu que Uria Simango
foi uma grande figura porque também estava ao lado de uma grande mulher, neste
caso a sua mãe Celina Simango. “Celina Simango sempre acompanhou o marido em
todas as frentes. Recordo-me que um dia, eu estava acompanhado da minha tia,
saímos de casa, na cidade da Beira, a fim de fazer compras para a festa do meu
irmão. Durante a caminhada, fomos surpreendidos por uma viatura de onde saíram
homens e raptaram a minha tia. Saltei o muro e entrei na residência oficial do
governador de Sofala e assim escapei”, conta. Acrescenta que depois regressou a
casa e contou o sucedido à mãe. Em jeito de resposta, Celina Simango disse ao
Daviz: “filho aqueles senhores não queriam raptar tua tia. Queriam a mim.
Estamos em festa, mas não vou ficar, vou me entregar para salvar a vossa tia”.
Daviz Simango referiu que Celina despediu-se dos filhos e nunca mais voltou.
Conta Daviz Simango que o seu pai foi perseguido, humilhado, raptado e assassinado
porque tinha um pensamento autónomo. Hélder Nhamaze, antropólogo e docente
universitário, disse, na qualidade de apresentador da obra, que o livro resgata
a sua relevância em dois pilares fundamentais. Por um lado, o contributo que
representa para o alcance de uma fórmula de reconciliação de nível nacional e,
por outro, a reformulação do paradigma dominante da história moçambicana.
Sublinhou que o nosso trajecto está pejado de dor, de incongruências, de mal
entendidos, de injustiças e até de revolta, mas, ainda assim, ele constitui a
nossa posse. “Devemos conseguir olhar para as feridas que já nos infringimos
não apenas para valorizá-las, mas para que a partir daí estejamos em melhor
condição para perspectivarmos um futuro em comum”, disse. Livro sobre a vida de
Uria Simango exterioriza a outra face da história Extermínio de vozes
contrárias foi modus operandi na Frelimo Por Raúl Senda Winnie
Madikizela-Mandela, que foi casada com Nelson Mandela e era uma das mais
controversas protagonistas da luta contra o apartheid, vai ter um funeral de
Estado. A cerimónia oficial foi marcada para 14 de Abril, anunciou o Presidente
sul-africano, Cyril Ramaphosa. Winnie Mandela morreu na
segunda-feira, 02, aos 81 anos. Até ao seu funeral vão realizar-se homenagens a
esta figura que se manteve sempre popular na África do Sul, apesar das
acusações de corrupção e de envolvimento em crimes. Logo na segunda-feira
à noite uma pequena multidão juntou-se em frente à sua casa no Soweto, o
bairro que foi um dos centros da resistência ao domínio dos brancos e à
segregação. À noite, Ramaphosa esteve na casa modesta onde Winnie vivia para
prestar homenagem. “A nação não estava preparada para a sua partida e as
pessoas estão de luto. Esta morte é uma grande perda pois ela era uma das
mulheres mais fortes na nossa luta e sofreu muito... Manteve a coragem em nome
do povo”, disse Ramaphosa, que assumiu a presidência em Fevereiro, depois
da demissão de Jacob Zuma. Por seu turno, o deputado e dirigente histórico da
UNITA, Almerindo Jaka Jamba, falecido no domingo, foi enterrar nesta
quinta-feira, no Cemitério da Santa Ana, em Luanda. Formado em Filosofia pela
Universidade clássica de Lisboa, em Portugal, foi professor na Escola Técnica
do Seixal e no Liceu Nacional de Oeiras. Militante activo da UNITA em Lisboa,
em 1972 deixou a capital portuguesa e partiu para a Suíça. Em 1975 integrou,
pela UNITA, a equipa que negociou, no Algarve, os Acordos de Alvor com o
Governo português, de partilha do poder em Angola após a independência, tendo
integrado nesse mesmo ano o Governo de transição, como secretário de Estado da
Informação. Actualmente era deputado na Assembleia Nacional e professor
universitário em Luanda, depois de ter sido vice-presidente do parlamento,
entre 1997 e 2005, e embaixador delegado permanente de Angola junto da UNESCO,
entre 2005 e 2008. Falecida esta segunda-feira Winnie Mandela terá funeral de
Estado Winnie Mandela TEMA DA SEMANA Savana 06-04-2018 5 PUBLICIDADE 6 Savana
06-04-2018 SOCIEDADE SOCIEDADE


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