quarta-feira, 8 de maio de 2013

A nossa polícia e o que eu não disse

Elisio Macamo
Já na recta final:



Desde o ano passado que estou a tentar aprender Wolof, uma língua falada no Senegal e na Gâmbia. A língua interessa-me por uma razão simples: o Senegal fascina-me, a cultura política do país é única, a estrutura da sociedade é uma maravilha e as mulheres são duma elegância ímpar... Só que o Wolof não é língua fácil. Tem, por exemplo, uma ca...racterística bastante peculiar que consiste na articulação do emissor com o local e momento de enunciação, o que dá à língua um recurso valioso na clarificação de contextos de enunciação. Isto é interessante para o que gostaria de discutir nesta reflexão, nomeadamente a forma como construimos factos a partir da contextualização. A ideia é de que pela simples contextualização de informações podemos dizer muito sem que, necessariamente, tenhamos que assumir responsabilidade pelo sentido veiculado. Infelizmente, para os meus propósitos aqui, não posso entrar em questões técnicas mais específicas. Mas para aqueles que estão a ler o texto e têm formação em sociologia, refiro-me ao que Goffman chamou de “footing” e que eu estou a traduzir aqui por “contextualização”.
Um exemplo concreto é sempre melhor do que abstrações. Escolhi para este efeito um artigo publicado no dia 9 de Abril deste ano pelo jornal Canal de Moçambique com o título “FIR intensifica treinos militares no quartel da marinha de KaTembe”. É um texto magistral pela forma como usa este expediente para construir um facto, nomeadamente a natureza militar da Força de Intervenção Rápida e os propósitos políticos por ela servidos, sem, contudo, precisar de ser explícito. Vou começar por analisar os trechos de abertura que são interessantes. No primeiro parágrafo escreve-se: “Centenas de agentes da Força de Intervenção Rápida (FIR), unidade especial da Polícia da República de Moçambique (PRM), estão a receber treinos de artilharia e especialidade de ‘comandos’ no quartel de artilharia de Djidjidji, no distrito municipal da KaTembe, cidade de Maputo.” Por enquanto tudo bem. Em seguida escreve-se: “Fontes do Comando da Força Especial da PRM disseram que os treinos de artilharia para o grupo começaram há duas semanas, mas que outros grupos teriam passado por aquele quartel militar das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM)”. Tudo na boa. E depois: “O quartel de Djidjidji é uma unidade militar das FADM especializada em treinamento de armas pesadas desde morteiros 60 mm até aos tanques T-54, canhões BM21 que têm capacidade de destruição em massa, entre outras”. Pacífico. Mas agora: “Os treinos, segundo apurou o Canalmoz, são intensivos, numa altura em que as unidades da FIR e até já de unidades de grupos de comandos e outras forças especiais das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e da Casa Militar estão a ser expedidas para a região centro do País para alegadamente combater o partido Renamo”.
O diabo, por assim dizer, está na frase “... numa altura em que as unidades da FIR (...) estão a ser expedidas para a região centro do País para ALEGADAMENTE COMBATER O PARTIDO RENAMO” (coloquei estas palavras em maísculas porque não sei como italicizar para o Facebook). A palavra “alegadamente” não funciona como citação, mas sim como uma forma de questionar a idoneidade das motivações das autoridades policiais. O golpe é dado, contudo, pela sugestão segundo a qual tudo isto poderia ter como pano de fundo o “combate ao partido Renamo”. Reparem que o artigo não diz que a FIR está a receber treino militar para combater o partido Renamo; reparem também que não se trata dum combate, se combate é, a homens armados que se identificam com um partido político, mas sim dum combate a um partido, o que magistralmente – e para os incautos – tira toda a legitimidade a toda a acção policial que for descrita no contexto dum relato no fundo neutro. E não só. Na segunda citação, “fontes do Comando da Força Especial” – cuja identidade não é revelada – confirmam a existência desses treinos, o que no contexto da estrutura narrativa sugere a veracidade da insinuação feita pelo jornalista. Reparem também que não se diz qual é a explicação dada pelas “fontes” para este tipo de formação, mas fica a ideia de que essas “fontes” confirmam a insinuação do jornalista.
O artigo continua com uma descrição que relata os antecedentes do problema em Muxúngué e também com um relato neutro da acção policial: “Neste assalto à sede politica da Renamo em Muxúnguè a FIR usou armas de guerra e granadas de gás lacrimogénio, dispersou todos que lá estavam desarmados, apreendeu 16 cidadãos, e apreendeu ainda sacos de roupas civis, panelas e outros utensílios de cozinha, e 56 bicicletas”. É possível que eu esteja a ser mesquinho, mas o contraste entre “armas de guerra” e “todos que lá estavam desarmados” nessa “sede política” dum partido mais a apreensão de objectos de uso civil e pacífico é excelente. O artigo não diz que a FIR usou força desmedida contra civis indefesos e inocentes e se apropriou dos seus bens. Mas tendo em conta o contexto que envolve o relato, é mesmo isso que está a dizer. Ou melhor, o que escreveu pode ser interpretado dessa maneira. Só que acontecendo isso, ninguém pode responsabilizar o jornal de estar a espalhar boatos. Esta citação, na verdade, pode ser contrastada com o parágrafo que fecha o artigo: “Na madrugada seguinte, homens da Renamo assaltaram o quartel improvisado da FIR para alegadamente tentarem libertar os seus homens detidos na cadeia ali situada na esquadra local. Desse assalto, que teve inicio às 03h40 e só viria a terminar cerca de quarenta minutos depois, como pode testemunhar a nossa Reportagem que assistiu aos confrontos de uma distancia de cerca de duzentos metros, resultaram 4 mortos e 13 feridos entre homens da FIR, e ainda uma senhora civil”. Há vários aspectos interessantes neste trecho, alguns dos quais são mais do pelouro da capacidade comunicativa do articulista. Por exemplo, estou com alguma dificuldade em perceber o significado de “quartel improvisado da FIR” e a expressão “cadeia ali situada na esquadra local”. Igualmente, não percebo a função da construção “teve início às 03h40 e só viria a terminar cerca de quarenta minutos depois...” Não percebo a exactidão da indicação da hora do início, ou melhor, acho-a impressionante, mas confusa quando o articulista escreve, em seguida, que “SÓ VIRIA a terminar CERCA de quarenta minutos depois”. A questão não é o que ele andava a fazer a essa hora em Muxúngué (para ser testemunha ocular...), mas sim como pôde reter essa hora exacta, mas não o tempo que o assalto levou. Porque não desligou o cronómetro assim que o ataque terminou e registou a hora? E atenção, não estou a dizer que o repórter esteja a mentir. Acho simplesmente interessante o tipo de decisões que ele tomou para nos transmitir a informação. Acho também fascinante que ele tenha presenciado a coisa a uma distância de 200 metros (é possível, claro, há gente mais destemida do que eu) e, sem nenhuma referência a fontes ter sido capaz de contabilizar “... 4 mortos e 13 feridos entre homens da FIR, e ainda uma senhora civil”. Mas o mais interessante ainda neste trecho é a forma como, à semelhança do que vimos no texto anterior da RM/AIM, ele constrói os factos como uma sucessão de acontecimentos com agenciamento próprio, portanto, sem responsabilidade clara de pessoas identificadas. Os homens da Renamo fizeram o ataque no intuito de libertar os seus camaradas, mas a sequência do relato confere aos acontecimentos uma dinâmica própria.
Repito, não estou a dizer que estamos perante um relato mentiroso. Isso não está em questão aqui. Duvido até que o jornalista que escreveu esta peça tenha consciência da verdadeira natureza dos recursos linguísticos por ele adoptados para fazer este relato. E essa é uma das questões que acho interessantes. A qualidade do que escrevemos sobre a nossa polícia não se pode julgar pela maldade ou benevolência de quem escreve. A qualidade do que escrevemos reflecte uma atitude que temos em relação às coisas da nossa terra e essa atitude estrutura a forma como construímos a facticidade de acontecimentos.
Já estou cansado, por isso, no próximo texto vou fechar a reflexão voltando à questão da relação entre a falta de respeito da polícia pelo cidadão e a falta de meios que caracteriza o seu trabalho. Vou tentar defender, como prometi, a polícia.
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  • Mitolas Chrineyka and 8 others like this.
  • Angelio Mavila Muite bem Professor, aguardo atenciosamente.
  • Nell Filipe Caricato mas real: hoje em mocambique todos podemos ser professores, ser musicos assim como ser jornalistas ou mesmo apresentadores de TV..o que me fascina nos relatos desse jornalista e a sua capacidade inventiva e improvisadora dos factos e, por que nao a falta de domineo linguistico..ele disse muita coisa que nem sabe que disse, quer dizer, nao tem nocao do alcance dos seus discursos...em fim, continuamos a fomentar e institucionalizar a FALTA DE CULTURA DE QUALIDADE..
  • Aida Paula Fumane Nell todo aprende-se fazendo acredito que na medida dos erros q o dito jornalista comete vai crescer.
  • Nell Filipe a questao e: e imperativo colocar pessoas certas em lugares certos e no periodo certo..ponto final..enquanto continuarmos a pautar pelo mediocricismo, o pais continuara a ser da MARRABENTA e do PANDZA.
  • Noe Nhancale As redações estão infestadas de gente que faria melhor figura em outras áreas de atividades, tais como ser cobradores de chapa 100, camponeses, etc, etc. ta claro que esse individuo por desconhecimento e propositadamente passa por cima das regras mais elementares do jornalismo, apresenta-nos um texto repleto de juízos de valor e fala de fontes apenas para legitimar as suas opiniões pessoas. Muito grave!
  • Rafael Titosse Eu, pessoalmente, prefiro olhar para os aspectos sabiamente identificados e reflectidos pelo distinto Professor como sendo estruturais do proprio jornalismo mocambicano. Permita, distinto Professor, que diga que os assuntos que tem discutido fazem muito sentido e, despertam um interesse muito grande nao somente aos academicos como, tambem, a todos aqueles que tem no aprender uma das suas condicoes e motivacoes para o viver.

    E' muito interessante a analise que faz e, como muito bem estabeleceu, ja tinha feito alusao, em textos anteriores, a esta limitacao jornalistica que nos caracteriza.

    Consigo compreender um ponto bastante chave na reflexao que faz: a ideia nao e' maldizer o jornalismo nacional - muito menos a pessoa do proprio jornalista - mas sim, mostrar como nos, enquanto leitores, individuos havidos de informacao, estamos a merce de relatos que, infelizmente, nao nos fornecem elementos suficientes, e principalmente fiaveis, para a compreensao da verdade efectiva. Ademais, percebo o desgate o tem caracterizado, distinto Professor, pela naturalidade e pre-disposicao com que, os jornalistas relatam os acontecimentos sem se preocupar em levantar e/ou conhecer os factos na sua profundidade.

    Pessoalmente, prefiro olhar para esta questao de forma transversal. E' o jornalista que confunde o seu papel, e' o professor ou a escola que reproduz a desequaldade de genero, e' o policia que mal esta consciente do seu papel de policia, sao os politicos activos que, numa clara ideia de desta (a polotica) querer viver, mais se desdobram em repetir, cumprir ou descrever, ao inves de conceber a politica como vocacao.

    Distinto Professor, com estas pobres e humildes palavras, tenciono insinuar a visao segundo a qual, infelizmente, no meu alvitro, o conjunto de problemas que dismentem a ideia de Mocambique como sendo um Estado de Direito, Democratico, etc. caracterizam varios sectores do todo social e, somente com debates do genero e, indispensavelmente, somente com mentes como a do distinto Professor, os academicos, e nao so, podem se conscientizar da necessidade de cultivar e promover a cidadania, o fascinio pela verdade e a consolidar a ideia de Estado enquanto produto do Contrato Social.

    Pessoalmente, penso que, e o distinto Professor ja fez referencia a isto numa das suas eloguentes e brilhantes reflexoes, a maioria dos "problemas" que gracam a nossa sociedade, decorrem da nossa fraca cidadania e/ou do facto dos intelectuais furtarem-se de cumprir com a sua responsabilidade: favorecer a almejada transformacao social.

    O que seria de mim, e de outros pessoas - presadas, obviamente - se nao tivesse a possibilidade de interagir com o distinto Professor para compreender a gravidade duma "simples" insuficiencia jornalistica, ou de olhar para o policia como um agente do poder ou, simplesmente, como um profissional que, conhecendo a sua condicao, age por ma fe.

    Penso que este debate deve continuar e, desde ja (lembro-me de o poder ter feito em ocasioes anteriores), faco a devida venia ao distinto Professor pela disposicao e disponibilidade que nos tem emprestado. Penso que se este fosse apanagio de outras "estrelas" do nosso saber, a nossa sociedade teraria muito partido dos intelectuais que tem e, desejavelmente, teriamos uma sociedade muito melhor do que a que embandeiramos.

    E' preciso que os estudantes, as universidades e os intelectuais deste pais de conscientizem da sua condicao existencial, das suas responsabilidades, agendando, participando e promovendo debates serios sobre a vida do pais emtodas as dimensoes.

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