quarta-feira, 12 de setembro de 2018

MAIS ESQUEMAS NA SONANGOL



Enquanto maior empresa do país e guardiã do petróleo angolano, a Sonangol tem sido o repositório nacional dos mais variados esquemas de corrupção e de interesses conflituantes. Recentemente, desvendámos alguns dos esquemas existentes na empresa. Hoje, apresentamos mais alguns casos de corrupção e de conflito de interesses.
Um dos sectores onde se implantou o mecanismo de sobrefacturamento foi a comercialização do gás, que é feita pela Sonagás. Para acorrer às variadas necessidades de gás no país, é necessário movimentar LPG (Liquefied Petroleum Gas – Gás de Petróleo Liquefeito) pelas várias províncias.
A partir de 2013/2014, o Conselho de Administração da Sonangol, presidido por Francisco Lemos Maria, desformalizou a contratação dos serviços de agenciamento marítimo. Tal teve como resultado o aparecimento da Offshore Marine Service (OMS) como empresa de destaque no agenciamento de navios para o transporte de LPG.
Só entre 2015 e 2017, a OMS facturou oito milhões e quatrocentos mil dólares às várias empresas do grupo Sonangol. Acontece que a OMS tem como gerente e fundador Américo Victorino Júlio Pinto, que era um dos altos funcionários da Seatrade – Agência Marítima de Angola, Lda., uma das empresas “de confiança”, escolhidas em 2013 para proceder ao agenciamento dos fretes marítimos, que deixaram de fornecer esse serviço. Mas o problema não se coloca aqui. O problema surge do facto de Américo Victorino Júlio Pinto ser irmão de Policarpo Júlio Pinto, que era o presidente do Conselho Executivo da Sonangol Shipping, a empresa do grupo que antes de 2013/2014 fazia a gestão dos contratos com os agentes de navegação. E foi o Policarpo da Sonangol que após a “flexibilização” da contratação assinou um contrato com o irmão Américo da OMS. Dos vários contratos, a família embolsou mais de oito milhões de dólares. Ficou tudo entre irmãos!
Não bastando este conflito de interesses, verificou-se que algumas das facturas da OMS apareceram duplicadas, e foram pagas duas vezes. Outras apresentam claros indícios de falsificação de documentos da Polícia Fiscal, da Sanidade e de outros anexos do processo.
A verdade é que, apesar destas incongruências, as facturas foram sendo pagas e a OMS tornou-se a fornecedora exclusiva dos serviços marítimos de LPG, após a exclusão das restantes empresas.
Nestes factos, além de Policarpo e do seu irmão, surgem também com posições duvidosas Bartolomeu Agostinho Almeida Dias, director de aprovisionamento da Sonagás, e Carlos Isidoro Ramalhoso Armando, chefe do departamento de abastecimento de LPG.
Segundo as nossas fontes, ambos tinham conhecimento das irregularidades e das relações de parentesco entre o PCE e a OMS, mas nada fizeram. O mesmo aconteceu com o vice-presidente e depois PCE da Sonagás, que recomendou Bartolomeu Dias para o posto que ocupa.
O que resulta desta história não são só dois irmãos que resolveram celebrar contratos que prejudicam a Sonangol. É toda uma estrutura interna da Sonangol, que engloba chefes de departamento, directores e membros dos conselhos de administração, com pleno conhecimento das irregularidades e que nada faz. Pelo contrário, estes funcionários mantêm a situação, compactuam com ela. Há uma generalização e uma “naturalização” dos esquemas fraudulentos.
Os exemplos sucedem-se. O supervisor comercial de Malanje da Sonangol Distribuidora, Mfuti Makazu Patrick, é sócio da empresa Organizações Makani, Lda., que presta serviços à Sonangol Distribuidora na área do transporte de combustíveis líquidos. Paulo Gouveia Júnior, assessor principal na Sonagás, é sócio da Zunelli Hotel, Lda., que presta serviços de hospedagem. Note-se que Gouveia Júnior foi PCE da Sonagás e da Sonangol Distribuidora e nessa posição de influência podia escolher o seu hotel para contratação.
Compete-nos denunciar as situações que têm uma aparência duvidosa. Depois será o tempo de as instituições e, sobretudo, os tribunais verificarem as provas reunidas e decidirem acerca das medidas disciplinares, indemnizatórias e talvez criminais a aplicar a todas estas pessoas.
Mas sejamos claros, se não existisse uma cultura de corrupção desde o topo, se não fosse visível que o presidente da República José Eduardo dos Santos, os seus familiares e colaboradores próximos alimentavam esquemas de alta corrupção, os quadros intermédios não se sentiriam legitimados para estabelecerem estes e outros esquemas descritos. A partir do momento em que o presidente corrupto dá o exemplo, qual é a motivação do colaborador para não fazer o mesmo?
É por isso que a corrupção em Angola não é uma mera questão criminal, é uma questão de Estado, talvez a mais importante, pois disseminou-se por todo o lado, dos grandes aos pequenos. O exemplo corrupto veio de cima.
Agora, o exemplo não corrupto tem de vir de cima também, assim como tem de vir de cima o real combate à corrupção.
Condenou-se Nicholas Neto, antigo administrador-executivo da Administração Geral Tributária, a uma pena de prisão efectiva de quatro anos, mas não se vê nenhum dos grandes do regime a serem julgados e muito menos condenados. Jean-Claude Bastos de Morais, o sócio de José Filomeno dos Santos, segundo comentários públicos, “vive à grande numa penthouse em frente ao Café Del Mar”.
Nicholas Neto terá recebido indevidamente o equivalente a 48 mil dólares, que devolveu. Jean-Claude, segundo afirma o governo angolano, queria ficar com cinco mil milhões de dólares, dos quais só terá devolvido dois mil milhões. A diferença entre um caso e outro é imensa, cósmica… Mas foi Neto quem ficou logo preso preventivamente, e é Jean-Claude quem se passeia livremente.
Estes exemplos desmoralizam a sociedade civil e fomentam a grande corrupção, que, por sua vez, legitima a pequena corrupção descrita neste texto.

7 comentários
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Manuel Pedro
Vamos combater os erros assumidos pelo Arquiteto da Corrupção, mas esse combate não pode somente atingir os pequenotes, bem dizer os petizes que aprenderam com os mestres. Mesmo, a PGR faz o quê?
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João Paulo
PROCESSAR JUDICIALMENTE JES, E` UM IMPERATIVO PARA REPOSIÇÃO DA LEGALIDADE EM ANGOLA: JES, é na realidade um estadista degenerado e ditador corrupto, que idiotizou, degenerou e brutalizou o seu povo, que depois das primeiras eleições gerais de 1992 e finda a guerra com a morte do Savimbi em 2002, JES criou uma elite que dedicou-se a saquear o capital estatal com fins de enriquecimento ilícito. Elite esta hoje composta pelos governantes e seus familiares mais ricos de Angola, a começar pelo próprio JES, sua filha Isabel dos Santos, o seu ex-vice-presidente e ex-PCA de Sonangol, Manuel Vicente e por aí fora.
Se a guerra desde a independência em 1975 até as leições em 1992, era extensão da Guerra-Fria, a que seguiu até 2002, foi por desgeneração dos lideres. Igualmente, por degeneração findo o conflito armado, veio a guerra silenciosa, de JES instituicionalizar a ditadura corrupta e a impunidade, caracterizada por saque e transferência ilegal do capital estatal para exterior, sendo a ultima operação realizada depois da eleição do novo PR, João Lourenço, a burla dos 500 milhões de dólares, para o Reino Unido, por ordens do JES a favor do filho Filomeno dos Santos.
JES, hoje 39 anos depois ao deixar os poderes absolutos que pensava que seria vitalício, diz ter cometido erros, os assume e arroga sair com a “cabeça erguida”: PRIMEIRO, o estadista degenerado e ditador corrupto, JES não cometeu e assume simples erros, mas sim, cometeu graves crimes citadamente ele é responsável número-um por acção e omissão do crimes da guerra, crimes contra a humanidade e genocídio (sexta-feira sangrenta) cometidos durante o conflito armado Governo-UNITA, depois das eleições 1992-2002. Onde houve as violações generalizadas e sistemáticas das leis da guerra, por ambas as partes.
Nesta conformidade, ainda que o Savimbi, líder da UNITA, ao rejeitar os resultados das eleições tenha iniciado a guerra com a tamanha crueldade, o JES como Presidente de Angola, tinha a obrigação de cumprir e fazer cumprir as leis da guerra e não cometer os mesmos crimes. Estes são crimes hidiondos, imprescritíveis e insusceptíveis de amnistia e da jurisdição nacional e internacional. Por conseguinte a amnistia que JES decretou sobre esses crimes é inconstituicional, artigo 61 da Constituição de Angola.
SEGUNDO,sabe-se que o então PR,JES e a sua filha Isabel dos Santos, são as pessoas mais ricas de Angola. Logo, o JES, é o autor principal pelos crimes do saque e desvios de capital estatal, corrupção, lavagem do dinheiro, enriquecimento ilícito,etc., pelo que os erros, que são graves crimes que ele assume os ter cometidos, devem ser remetidos aos tribunais competentes. Até prova em contrário as suas fortunas são provenientes de desvios dos fundos públicos.
Cabe ao PR, JL, o dever de cumprir e fazer cumprir na prática as leis do país e a sua nova promessa de fazer tombar os altos dirigentes do partido-Estado que tenham cometido crimes. Pelo que se devia começar no topo com o próprio JES: Este é o teste para demonstração e confirmação de que, se sem o ditador corrupto,JES no poder, que degenerou o povo, agora os angolanos estão ou não a altura de governarem-se sábia e honestamente. A resposta novamente cabe o PR e do MPLA, JL a responder. Do resto ver para crer.
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António Francisco Domingos
Muito se falou sobre a gestão passada na sonangol, contudo estamos numa nova gestão e os problemas continuam. É preciso que os intereses pessoais sejam postos de lado.
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Felisberto Correia
Seja verdade ou não, apenas peço para se organizarem enquanto podem, JLo mostrou-se seriamente preparado para punir as pessoas com práticas inconcebíveis.
Luis Coutinho
Escreves com palavras caras, com palavras supostamente difíceis e, depois, nao se entende o que queres dizer !!
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Felisberto Correia
Luis Coutinho resumidamente, se os esquemas da Sonangol forem verdade ou não, as pessoas que estão habituadas a corrupção, nepotismo e outras práticas aproveitem organizar-se e mudar comportamentalmente porque o PR está decidido a punir quem assim proceder.
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Martinho Augusto
Essas pessoas com praticas incosebíveis são do conhecimento do PR, que fossem os primeiros a serem investigados e posterior julgados não faz sentido pegar os pequenos gatunos e deixar os de avultadas somas de fora (Zenu)
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Luis Coutinho
Estes esquemas "em rede" dentro da Sonangol vêm de há muito tempo... os exemplos de cima incentivavam isso mesmo. Mas, estamos a falar dos exemplos de cima na Administraçao.. o Manuel Vicente primeiro e o Francisco Lemos depois, usufruiram de uma verdadeira rede de cumplicidades para o saque da empresa... a Isabel do JES entrou armada em moralizadora para os outros e meteu a mao para ela própria. Agora, verifica-se que ainda há muitas ratazanas instaladas na empresa e o Maka vem ilustrando isso com exemplos diversos... Mas, deveria alargar-se o âmbito das investigaçoes. Nao se fiquem só pela Sonangol... várias áreas da governaçao estão infestadas por gente que apenas vive de esquemas para defraudar o Estado. Nao esmorecer neste combate em que o Maka tem sido o aríete. Quando as situaçoes sao expostas publicamente, terá de começar a haver consequencias. Angola anda a pedir dinheiro emprestado a várias fontes no exterior e tem de ser credível. Estes casos de corrupçao sao deletérios...
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