segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Frelimo e o perigo dos neutros para as eleições de 2018

Por Eusébio A. P. Gwembe

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Houve momentos em que se purificavam as fileiras porque o golpe desferido de dentro é mais doloroso. Até hoje, eu não me convenço que a Frelimo perdeu, de facto, eleições na Beira, em Quelimane, em Nampula e no Gurue. Explico-me, historicamente. Depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, aquando da mobilização mundial para a luta contra o terrorismo, o então presidente dos Estados Unidos, G.W. Bush, disse: “ou estão connosco ou estão contra nós”. Em certos momentos da vida nacional há que ter atitudes claras. Os que se revoltam contra e os que se indignam em defesa da Frelimo, cheios de boas promessas, esperam que venham formar a seu lado os que com eles andaram muitas vezes em conciliábulos traiçoeiros. Aproximamo-nos das eleições e Dhakama já acenou com o seu beijo de traição. Para elas, uns lutarão na esperança de uma recompensa futura e outros o farão em defesa de alguma conquista passada. É o normal concurso que move as paixões para as causas políticas. Há um porém!

Sempre que a ordem pública é perturbada, aparece – a lavar as mãos como Pilatos – colocando-se fora da contenda, uma fauna especial que é, de todas as faunas que por essas ocasiões se manifestam, a mais antipática, por ser a mais calculista e a mais comodista. É a chamada NEUTRALIDADE dos que não se batem nem pró nem contra, para, no momento próprio, fazerem dominó para os dois lados! Em todas as contendas há neutrais. Houve-os já entre 1962-1974, 1976-1992 e em 2008. Classes que tinham por obrigação erguer-se em pé de guerra para a defesa do regime e organizações políticas que as mantinha e engordara ficaram quietas como ninhadas de ratos espavoridos, a ver em que as coisas davam. Liquidado o pomo do conflito que negociadores comandados por heróis à feição antiga, resolveram em Lusaka, em Roma e na Beira, batendo-se como leões em defesa da sua causa, os neutrais de então foram os primeiros a aderir, calculadamente. Declararam-se pro-frelimistas, pro-renamistas e pro-MDMistas. Da sua atitude sem classificação tiraram, esses elementos passivos, todos os proveitos, enquanto os verdadeiros sacrificados eram afastados. 

Se se tivessem batido pelo regime e organização que haviam jurado defender, talvez as revoluções teriam sido esmagadas na sua infância. Foi assim que entregamos BEIRA ao Simango, não por mérito deste mas pelo nosso pacifismo ante os neutrais. Logo, os verdadeiros vencedores tinham sido os que haviam ficado em casa, digerindo pacificamente, numa neutralidade benemérita, o rancho que nunca falta a quem tem tempo para evitar que lhe entre o esturro. Entre descerem a praça pública, para serem fieis a palavra dada em defesa da Frelimo, e ficarem comodamente, a esperar pelas frinchas das janelas, as fases da luta em que tinham prometido imiscuir-se, preferiram, sem remorso, envolver-se corajosamente no mistério das esfinges, para forçarem a vitória final a inclinar-se para um lado ou para outro. Hoje, são militantes fervorosos do galo. É histórico que algumas pessoas se revoltaram para restaurar o sistema político que haviam deixado cair e outros para se incrustarem uma vez mais no poder, donde por via dos seus erros, se não dos seus crimes, haviam sido expulsos. E os neutros apareceram sempre, como camaleões mudando de cor conforme as conveniências, como emboscados que não sabem qual o caminho que devem seguir – se o que leva a glória se o que pode conduzir a cadeia! 

Quantos estão em condições de mostrar a cara pela Frelimo, pela Renamo, pelo MDM e pelos demais partidos políticos? Aos poucos que ainda são visíveis, parabéns. O estranho é que, depois das eleições de 2018 veremos os heróis da neutralidade ou, se quisermos, os budistas da guerra, uma espécie de bonzos que nenhuma perturbação agita, sugarem as forças da nação, da verdadeira nação, daqueles que em tempo oportuno deram a cara. Serão eles, que ao final da jornada, reclamarão a inclusão, a democracia, os valores nobres. Hoje, são os primeiros a encolher os ombros se se lhes batem à porta, para lhes dizer que a hora de cumprirem os deveres que perante a organização assumiram chegou.  Foi a atitude que nos fez entregar Quelimane ao de Araújo, associado ao facto de que também não soubemos aproveitar o capital político daquele, quando Gruveta ainda era vivo. Os bonzos agitam-se, descruzam as pernas, erguem solenemente a cabeça, alongam os braços, espalmam as mãos, invocam a deusa NEUTRALIDADE e declaram que ninguém logrará obriga-los a mover-se, seja para combater os que pretendem derrubar o status quo, seja para obedecer a quem tem o direito de lhes dar ordens e de os fazer marchar para as primeiras linhas, onde a sua presença é precisa, para proteger a vida útil da sua organização, contra as investidas dos que pretendam destrui-la. Assistimos à este filme em Nampula. Amanhã, eles irão reclamar dos vencedores, quaisquer que eles sejam, o prémio que a sua indiferença conquistou: a inclusão.

Mas dentro deles há um pequeno grupo, o dos useiros e vezeiros. Chamemo-los de marombistas. Estes são habilidosos. Tendo-se comprometido a colaborar nas revoluções, faltam sempre, para a última hora seguirem a trajectória dos vencedores. Estão constantemente atiçando aos demais a optarem pelo caminho da guerra, da destruição, da desobediência, para, na hora dos tiros, se esconderem atrás dos smartphones. Esses são os verdadeiros culpados de todas as perturbações sediciosas que têm apunhalado a vida nacional nos últimos anos. São eles quem dão alento aos que pegam em armas e veem para a rua dar tiros à doida, matando os seus concidadãos como matariam perdizes e galos. Deixam que os ingénuos, os ambiciosos, os obcecados pela ânsia de governar e os desorientados pelas convulsões de estômagos, habituados a digerir raivosamente a Frelimo, vão para as barricadas e para as encruzilhadas dar largas aos seus instintos perversos. Depois, ou correm a vibrar-lhes o golpe de misericórdia, ou são os primeiros a aparecer, de escudela em riste, a reclamar o prémio da sua felonia. Eles pedem para tomar parte dos processos que não iniciaram e para os quais não emprestaram a coragem.  Que consideração merecem os neutrais, os bonzos, os amorfos, os indiferentes que por este modo ou facilitam a vitoria dos aventureiros de todas as categorias ou dificultam aos governos cônscios dos seus deveres a repressão imediata da desordem e o castigo exemplar dos desordeiros? Gentalha e que falta ao que deve ou que se compraz em alimentar as fogueiras revolucionárias, tomando todas as precauções para não ser envolvida pelas labaredas do incêndio, é por acaso digna da admiração, da estima, do agradecimento ou da confiança de alguém? Claro que não.

Diante de todos os opinion maker de todas as matizes ergueu-se uma barreira formidável, composta por quantos não hesitaram um momento no cumprimento honrado da palavra dada. Outros, que deviam fazer outro tanto, não deram acordo de si, senão para apregoar a sua neutralidade. Será justo que, depois da batalha, se meçam todos pela mesma bitola? Uns, sendo depositários da confiança da nação corresponderam integralmente a essa confiança. Outros, estando ligados a quem lhes paga por iguais compromissos, procuraram sofisma-los, remetendo-se a uma expectativa benévola, com a qual contaram para não ficarem de mal com ninguém e, sobretudo para não incorrerem no desagrado do poder que surgisse! Será de admitir que, em nome da inclusão, a uns e outros se conceda igual consideração? Não! É claro que a moral estaria ofendida. É essa moral que nos obriga a perguntar se quem tem cartão vermelho tem o direito de se recusar a cumprir o seu dever, só porque outros surgem a fazer o contrário daquilo para que os mantem! Esta anomalia dos neutros é duma gravidade excepcional.  A república tem de os olhar pela janela porque quem não for pela ordem nos momentos em que a ordem perigue é, com certeza, pela desordem, muito embora fique de braços cruzados, a ver em que as modas param. O manto da neutralidade terá que desaparecer porque bastas vezes se parece com a cobardia. E a Frelimo tem estado a pagar caro aquilo que não devia pagar.

O momento que passa não se presta a comédias para a Frelimo! Não estejamos dispostos a transigir com comediantes, qualquer que seja a sua categorização ou o seu disfarce. Todos os campos têm de ser extremados, definidos, perfeitamente delimitados. Para 2018, ou connosco ou contra nós. Cada membro tem que tomar posição cedo, para animar os militantes e mobilizar as massas para a nossa causa, que é justa e grande. A Frelimo esta a passar por uma dolorosa provação, tão grande e tão intensa, que se não fossem aqueles que no primeiro momento, leais e decididos, correram a defende-la, ninguém sabe o nesta altura teria acontecido. As forças estranhas a Grei estão a maltratar o povo, contando sempre com testas de ferro domésticos, com sanções sob alegação de dividas ocultas, na esperança de vê-lo a revoltar-se porque, segundo dizem em surdina, derrube-se a Frelimo primeiro que a ZANU, o MPLA e o ANC, baluartes do nacionalismo do sul do continente, cairão em dominó. Mesmo dividida, a oposição tem consciência do seu verdadeiro adversário e faz tudo para desacreditá-lo dentro e fora. Tenho dito. 

Eusébio A. P. Gwembe

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