Guerra, caos e miséria voltam a Moçambique
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Internacional15 Fev, 2016
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Emboscadas. Raptos. Fome. Aldeias devastadas a tiro. Casas e celeiros incendiados por forças governamentais. Gangs armados à solta nas cidades. Estradas e caminhos do Interior disputados na ponta das armas. E milhares de fugitivos procurando asilo nos países vizinhos. Eis Moçambique, quatro décadas depois de um crime a que chamaram “independência”.
Nós nem sonhamos o que está a acontecer em Moçambique, essa antiga pérola do Índico que em 1975 os portugueses deixaram à voracidade do comunismo, da cleptocracia e da violência mais primitiva. Quarenta e um anos depois, a antiga província ultramarina portuguesa está retalhada pela guerra e mergulhada na desorganização económica e no caos social que caracterizaram, até hoje, a administração da Frelimo.
E não sonhamos porque a Europa não quer saber: os seus jornais e os seus homens públicos recusam-se a reconhecer um erro histórico e escondem-nos a dimensão da catástrofe. A África descolonizada vive entre a riqueza obscena das cliques no poder e a miséria sórdida dos noventa e nove por cento de destituídos.
Quem conheceu Moçambique no tempo da administração portuguesa, quem testemunhou o seu crescimento, a sua pujança, a sua harmonia social, não pode hoje deixar de sentir uma profunda tristeza. E quem lá viveu e trabalhou, e lá deixou tudo o que tinha, tem razões de sobra para condenar um regime que tudo destruiu em nome de uma ideologia de ódio e miséria colectiva.
Melhor do que nós, milhares de refugiados moçambicanos nos países limítrofes falam por si sobre a situação na ex-colónia. Todos os dias saem de Moçambique colunas esfarrapadas de fugitivos, buscando refúgio no não menos miserável Zimbabué, na poderosa África do Sul, na Tanzânia, no Malawi. Neste último país, sobretudo: porque as suas fronteiras confinam com as províncias moçambicanas mais causticadas pela miséria, pelo caos, pela guerra.
Saem de noite, em grupos furtivos, para não serem detectados pelo exército. Pois é a tropa oficial, o braço armado do Governo, que os obriga a deixar as suas casas e as suas machambas, como revelou este Domingo, num despacho de rara coragem, o repórter Michel Santos, da Euronews: “Os soldados chegaram em veículos do governo para queimar casas e celeiros. Disseram que dávamos abrigo aos militantes da Renamo”, contou-lhe Omali Ibrahim, agricultor de 47 anos, um dos muitos refugiados que procuraram o Malawi para não serem trucidados.
As autoridades malawianas têm sido condescendentes: na verdade, o país não é rico e debate-se com os seus próprios problemas de subsistência. Mas não podem fechar os olhos ao estado depauperado em que chegam os moçambicanos, após terem percorrido a pé 70 quilómetros desde as suas terras de origem – Mazibaue, Ndande, Macolongwe, Kabango, Ndinde, Nagulo.
Não se sabe ao certo quantos moçambicanos se refugiaram além-fronteiras nos últimos meses. Em Kapise, nas montanhas 45 quilómetros a Sudeste da vila fronteiriça de Mwanza, está o maior de todos os campos de refugiados de Moçambique em solo do Malawi. Foram instalados em cabanas de pau-a-pique e em tendas brancas do ACNUR, o órgão das Nações Unidas que se ocupa dos refugiados (e que o português António Guterres chefiou até Dezembro). Mas o Governo de Lilongwe previne: não poderá receber muitos mais refugiados do país vizinho.
A maior vaga de fugitivos veio de Tete e de Sofala. Só em Kapise estão cerca de quatro mil. Escaparam à morte, à perseguição cruel. Mas enfrentam agora condições duras no campo de refugiados: escassa comida, mesmo alguns dias de privação, saneamento quase inexistente, água potável contada a gotas, o frio gelado da montanha.
Em Maputo, antiga Lourenço Marques, os governantes do ar condicionado têm relutância em admitir a palavra “refugiados”: nas suas fatiotas de dois mil dólares, com os seus relógios Rolex faiscando no pulso, preferem falar de “deslocados”, para não ofenderem a paz celestial em que vive Filipe Nyusi, o todo-poderoso Presidente do regime da Frelimo.
- Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.
O Jornal português O Diabo, escreveu esta semana este artigo sobre Moçambique.
Para quem não conhece, O Diabo foi fundado em 1976 pela viperina Vera Lagoa, pseudónimo de Maria Armanda Falcão, como porta-estandarte da imprensa reaccionária do pós-25 de Abril. Durante a guerra entre o governo moçambicano e a Renamo, foi uma das vozes anti-Frelimo mais estridentes e parece que, apesar de Vera Lagoa já ter morrido, o actual director José Esteves Pinto não mudou muito o tom quando se trata de Moçambique - afinal este este é um jornal onde o estridente Alberto João Jardim é cronista.
Sim, Moçambique hoje tem problemas. Mas foi para este Moçambique cheio de problemas que milhares de refugiados portugueses vieram quando a crise económica do bem-governado e exemplar Portugal rebentou. Não só vieram, como ainda cá estão. E não são só pobres operários da construção civil. Banqueiros e bancários. Empresários e cantineiros. Professores, vendedores da banha da cobra e maledicentes profissionais. Tudo veio. E não só para Moçambique, como também para a igualmente horrível Angola.
Aliás, o Portugal de que Vera Lagoa tinha tanta saudade quando fundou O Diabo em 1976, o Portugal de Salazar e Caetano, nunca provocou êxodos de centenas de milhar de refugiados para todo o mundo, com a sua economia terceiro-mundista, a sua guerra colonial e a sua política fascista! Para os Estados Unidos, foram 500 mil refugiados, 1.5 milhões para França, etc., etc.
Em 2016, O Diabo ainda chora sobre o leite derramado da descolonização de 1974. Talvez Portugal não tivesse tido tantos refugiados pelo mundo fora, durante tantos séculos e e em tantos regimes políticos - monarquia, república, Estado Novo, democracia - se tivesse aceite a colonização francesa em 1807, ou a colonização espanhola em 1640, ou se tivesse permanecido o condado portucalense em 1140. Quanta miséria teriam poupado aos lusos e ao mundo!
É óbvio que os três parágrafos acima não reflectem o que eu penso. Seriam apenas o primeiro rascunho se eu tivesse que escever n'O Diabo um artigo sobre Portugal.
O DIABO(Lisboa) – 16.02.2016
Government forces in Mozambique accused of atrocities
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