Símbolos de terror e motivo
de calafrios para muitas
pessoas, os campos de
reeducação que a Frelimo
criou após a independência tinham
um propósito nobre, a “reeducação
e dignificação”, considera o antigo
Presidente moçambicano Joaquim
Chissano.
Chissano recuou no tempo para tocar
num tema altamente fracturante
na sociedade moçambicana, durante
uma palestra sobre os 40 anos da
independência nacional, promovida,
na segunda-feira, pelo Instituto Superior
de Transportes e Comunicações (ISUTC).
“Acusaram-nos de criar uma Sibéria em Moçambique, mas aquilo
não eram deportações, aqueles indivíduos
estavam a ser reeducados”,
declarou Chissano, distanciando os
campos de reeducação fundados
pelo partido no poder em Moçambique
com os “gulags”, o sistema de
campos de trabalhos forçados para
criminosos, presos políticos e qualquer
cidadão, em geral, que se opusesse
ao regime da União Soviética,
criados na inóspita Sibéria.
No Niassa, para onde foi deslocada a
maioria dos desterrados, prosseguiu
o ex-chefe de Estado moçambicano,
há pessoas que agradecem o facto de
terem sido enviadas para os campos
de reeducação.
“Numa visita a Unango, quando eu
ainda era Presidente, apareceu uma
pessoa a pedir para ajudar os irmãos
improdutivos, porque ele aprendeu a
ser útil num campo de reeducação”,
frisou Joaquim Chissano.
Chissano guarda na retira a reabilitação
de um preso condenado por
matar a mulher com um machado e
que, uma vez “reeducado”, assumiu
a chefia de um empreendimento
agrário em Unango.
“No Malawi, essa pessoa teria sido
enforcada”, declarou o ex-chefe de
Estado, sugerindo a alegada brandura
do sistema dos campos de concentração.
A Frelimo não é belicista
A criação de condições de trabalho
para os moçambicanos, assinalou
o antigo chefe de Estado moçambicano,
era parte do PPI (Plano
Prospectivo Indicativo), desenhado
como bússola para o combate aos
principais desafios sociais e económicos que o país enfrentava.
“Mas depois veio a guerra de desestabilização,
no início, começou no
centro, mas depois foi levada para o
norte e para o sul. (…) Não tivemos
uma guerra civil, foi uma guerra de
desestabilização”, enfatizou Joaquim
Chissano, tomando partido da
discussão teórica sobre a natureza
que a guerra dos 16 anos teve em
Moçambique.
Para Joaquim Chissano, a Frelimo
não era um movimento belicista,
tendo enveredado pela guerra devido à intransigência do regime colonial
português em aceitar os anseios
da população moçambicana.
“Quando pensávamos no organograma
da Frelimo, o presidente
Eduardo Mondlane preferiu adoptar,
por exemplo, a designação de
departamento de defesa e segurança, porque entendeu que não atacá-
vamos ninguém, estávamos apenas
a defender-nos de uma agressão estrangeira”,
anotou o antigo chefe de
Estado moçambicano.
Nacionalizar foi importante
para corrigir injustiças
Sobre outra matéria controvertida
em Moçambique, as nacionalizações, Chissano defendeu que a estatização
dos factores de produção e
dos serviços essenciais básicos pela
Frelimo visava corrigir as profundas
injustiças herdadas de séculos de
dominação colonial.
“A nacionalização da terra era importante,
porque era a forma de valorizar
os recursos naturais e a nacionalização
da educação e da saúde
era para eliminar a discriminação”,
frisou Chissano.
Fruto das nacionalizações, continuou
Chissano, Moçambique registou
avanços “fenomenais” na saúde,
educação e agricultura e foi considerado
um exemplo em África.
“Na educação, conseguimos em
apenas cinco anos de independência,
o que o sistema colonial não
conseguiu em décadas”, enfatizou
o Presidente moçambicano, que foi
primeiro-ministro no Governo de
transição para a independência e
ministro dos Negócios Estrangeiros
no primeiro executivo pôs-independência.
Sobre as políticas de liberalização
que Moçambique seguiu a partir de
meados da década de 1980, Joaquim
Chissano advoga que não se trata
de “arrependimento”, mas de uma
abertura imposta pela conjuntura.
“Não podíamos ter escolas ou universidades
privadas porque não havia
quem tivesse poder para pagar,
mas agora há esse poder aquisitivo”,
salientou Chissano.
Apesar da “guerra de desestabilização”,
a Frelimo nunca descurou
a necessidade de desenvolvimento
do país, prosseguindo com políticas
viradas à melhoria das condições de
vida das populações.
Sobre o monopartidarismo que a
Frelimo instaurou após a independência,
Joaquim Chissano desdramatizou
a qualificação de estado
de partido único, considerando que
esse sistema não foi imposto, mas
resultou das circunstâncias políticas
vigentes.
“Não foi necessário decretar o monopartidarismo,
porque havia um
consenso popular em relação ao
papel de vanguarda da Frelimo. A
bandeira da Frelimo cobria todos
os moçambicanos e eu próprio não
precisava de guarda-costas para
abrir alas, a bandeira da Frelimo
abria alas”, frisou Chissano.
Para Joaquim Chissano, é um paradoxo
que se justifique a guerra no
país com a luta contra o comunismo,
pois, entende o ex-chefe de Estado,
“a agressão começou alguns meses
após a independência”.
“Como é que podiam lutar contra
o comunismo, se a guerra começou
alguns meses após a proclamação da
independência e antes de a Frelimo
assumir qualquer doutrina?”, questionou,
com retórica, Chissano.
Carvão e gás não vão fazer
milagres
O ex-chefe de Estado considerou
que grandes reservas de recursos naturais
de que o país dispõe não devem
distrair Moçambique da aposta
na agricultura, defendendo que esta
área continua a ser a base para o desenvolvimento
do país.
“Apesar do gás e do carvão, estou
muito satisfeito, porque a agricultura
continua a ser considerada como
a base para o desenvolvimento do
país”, afirmou o ex-chefe de Estado.
Na sua opinião, a indústria deve estar
ao serviço da agricultura, tendo
em conta o enorme potencial de
que este domínio dispõe e o facto
de ocupar a maioria da população
do país.
“Hoje, temos de estar na fase da
industrialização, mas como factor
dinamizador da agricultura, a começar com a agro-indústria”, defendeu
Joaquim Chissano.
Nessa perspectiva, continuou Chissano,
é necessário que as instituições
de ensino, técnicos e os camponeses
construam sinergias que possam capitalizar
o grande potencial existente
na agricultura.
O hitler da frelimo congratula se por terem assassinado milhares e milhares de Moçambicanos


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